
No sábado passado, resolvi almoçar na ‘cidade’ (assim se costumava dizer no subúrbio). Gosto, nos fins de semana, de flanar pela parte mais conservada do velho Centro, caminhar por aquelas ruas centenárias, entre as construções que parecem estanques no tempo de tão encharcadas de História - e histórias. Nos fins de semana, a multidão de segunda a sexta se evapora, e o Centro se dá a ver em plenitude: sob a luz dourada da tarde, concreto e vazio.
Entre as boas opções do lado à direita da Rua Primeiro de Março, acabei escolhendo o Antigamente, que reabriu na mesma Rua do Ouvidor onde sempre funcionou, mas sob nova direção. Restaurante cheio, não demorou para que encontrasse alguns amigos, com quem dividi a mesa.
Derrotava um filé de picanha com arroz, feijão e batata portuguesa quando fui surpreendido pela aproximação de um garoto. Ele vinha abraçado a um amigo em comum. Tinha lá pelos seus vinte anos, e um copo de cerveja na mão.
- Com licença. Você torce para o América?
A pergunta, logo entendi, dava-se em razão da camisa que eu vestia. Explico: mais cedo, comprara uma camisa do tradicional clube do Andaraí. Um modelo antigo, que remontava à equipe de 1960, campeã da Taça Guanabara.
- Não, rapaz. Sou tricolor. É que acho essa camisa linda, e tenho simpatia pelo América.
A decepção do garoto se desenhou no rosto trincado. As feições magicamente se alteraram, como se um caricaturista, num único e cruel traço, tivesse arrancado da face aquela alegria súbita.
Trocamos mais uma ou duas frases e ele se foi. Lembro de ter comentado com alguém sobre minha surpresa ao encontrar um torcedor americano tão jovem. Mesmo no recente brilhareco do time branco e vermelho no Campeonato Estadual, a grossa maioria da torcida era composta por gente já entrada nos anos. Naquela competição, a felicidade de ver os americanos de volta ao Maracanã numa final guardava, em paralelo, um encanto triste, o encanto que doura a nostalgia revivida e que, por isso mesmo, não perdura.
Logo após a partida do garoto, enveredamos por outros assuntos. Sua imagem, porém, ficou. E só agora entendo o motivo desse reverbério: a singular majestade daquela paixão.
Penso sobre isso ao fazer duas correlações. A primeira delas com o meu Fluminense. É claro que, na infância, quando escolhi torcer pelo clube, não poderia cogitar que um dia estaria na Geral do Maracanã, sob uma chuva torrencial, vendo um jogo da Terceira Divisão. Lá estive. E foi por muito pouco que aquele ano não marcou o início do fim do tricolor, coroando um acelerado processo de decadência. Em certo instante, imaginei o que faria caso o Flu simplesmente deixasse de existir. Por mais que quisesse torcer para outra equipe, nunca – nunca, repito - seria igual.
Do Fluminense para o Império Serrano. Cheguei, quando bem pequeno, a testemunhar os anos de glória da agremiação, antes do relativo ocaso das últimas décadas. Não que a escola tenha se perdido. Pelo contrário: descontados os eventuais erros, parte dessa descida de ladeira deve-se justamente a uma postura firme com relação aos sedutores guizos da fama a qualquer preço. Mudaram os parâmetros, as prioridades, e quem se manteve fiel a si mesmo se danou.
Meu sentimento, hoje, é semelhante àquele que experimentei na Geral do Maracanã, embora evidentemente não mais com o tricolor. Se o Flu se reergueu e anda numa fase dourada, o Império está sem dinheiro, sem apoio. O pior: está sem a confiança dos próprios imperianos. Será que até auto-estima passou a se comprar fora?
Acostumei a não esperar por títulos. Quem, como eu, entende que a escola não pode se dobrar, nem que seja em nome de melhores colocações, infelizmente precisa ter a noção de que está fora do jogo. Tudo bem. Mas não é fácil para um imperiano, não é fácil mesmo, encarar o que estamos encarando este ano.
A ‘marginalidade’ do Grupo de Acesso espantou os freqüentadores dos ensaios. Se a grana já era pouca, sem a renda dos sábados a coisa ficou ainda mais difícil. A Liesa, a riquíssima Liesa, simplesmente ignora a existência da escola, exceto quando é para usá-la como badulaque para dar verniz à sua questionável existência. Para completar, o presidente Lula age como um Robin-Hood às avessas, prometendo ainda mais verbas para quem já as têm de sobra. A pergunta que fica é: será que estou assistindo ao lento, mas contínuo aniquilamento da verde-e-branco da Serrinha?
No fundo, acredito que as paixões, sejam por escolas de samba, sejam por times, funcionam como um mecanismo inconsciente que utilizamos para trapacear a morte, um jeito malandro de iludi-la. Nascemos, nossas escolas e times já estão aí. Confiamos em que, ao morrer, continuarão. Fluminense, Flamengo, Botafogo, Vasco, Bangu, América. Império, Portela, Salgueiro, Mangueira, Ilha, Tuiuti. São, todas essas e tantas outras, entidades maiores do que nós, quiçá eternas, que de certa forma dão sentido e nova dimensão aos dias que tocamos para frente - nós, pobres-diabos plenamente cientes da finitude.
Talvez por isso tudo esteja sendo tão doloroso, e talvez por isso a imagem daquele garoto na Rua do Ouvidor, com seu desmedido amor pelo América, tenha permanecido em minha cabeça até agora. Somos companheiros de crepúsculo. O que conforta é que os crepúsculos também têm lá a sua beleza.
P.S. Rompo o silêncio do recesso pela urgência que senti em publicar o texto acima. Meu sentimento de impotência é horrendo, só não é maior do que a tristeza. Ainda sobre a situação do Império, recomendo o post que o Aydano André Motta colocou em seu blog hoje. Leia aqui.
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