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Crônica do mês Escrito em 04 de dezembro de 2007
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Hotel com garagem

Marcelo Moutinho

Por volta de uma da tarde, eu atravessava a Praça Tiradentes em direção à Saara, atrás de apetrechos para uma festa à fantasia. Na calçada do Teatro João Caetano, enquanto aguardava o sinal fechar, passeei rapidamente os olhos pelos construções e pelas pessoas, que corriam, apressadas, perseguindo as horas perdidas - durante o dia, os contornos da Praça espantam em sua nitidez.

Foi quando notei a moça. Debruçada sob o parapeito da janela de um edifício na Avenida Passos, ela apoiava o cotovelo sobre o outro braço, como uma daquelas bonecas feitas em Tiradentes, e contemplava o movimento da rua. Não parecia triste, apenas distante – enfronhada nos próprios pensamentos. Talvez lamentasse uma noite ruim, talvez pensasse nas contas que não fecham, talvez fizesse planos para as horas que viriam. Elas sempre vêm.

Deslocando o olhar, percorri a parede do prédio, andar por andar, até encontrar a portaria. No letreiro, uma pintura já esmaecida informava: ‘Motel’.

Lembrei que, quando pequeno, meus pais diziam que motel era um hotel com garagem embaixo. Por algum tempo acreditei nisso, e a recordação arrancou do meu rosto um sorriso nostálgico. Assim como a moça, por um segundo meus olhos fitaram a Praça sem enxerga-lá.

Mas logo voltei o foco para o edifício. A fachada confessava seu cansaço nos espaços vazados dos rebocos. As feias janelas de alumínio, quase todas fechadas, guardavam as promessas da madrugada, quando enfim se abrirão. Na entrada do corredor principal, o cartaz pedia vinte Reais pelo período de seis horas, almoço incluído. E a moça permanecia lá, no vão do terceiro andar, estátua viva, quase parte da construção.

Nos quartos trancados, imaginei eu, homens trepavam com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres, vários jogos, montagens, formações, gostos, desejos: no 201, o rapaz com a amante mais velha; no 304, o senhor casado que alugou um garoto; no 407, o clássico chefe-secretária; no 409, o casal de estudantes com pouca grana aproveitava a promoção (e a refeição) da tarde.

Todos multiplicados nos espelhos da parede e do teto em pernas, braços, mãos, pés, dedos que se entrelaçam, se esfregam, se agridem, se apertam, preenchendo os vazios uns dos outros com carne, fluidos e transpiração, à espera de um gozo incerto, mas obsessivamente buscado.

(Nas TVs de catorze polegadas que enfeitam os aposentos, o gozo é garantido.)

O sinal já se fechara e abrira sei lá quantas vezes quando percebi que a moça se foi. Deixara seu lugar já quase cativo na janela, seja porque combinou de encontrar alguém ou queria ir para casa, porque precisava comprar carne e leite, ou simplesmente dormir.

Na ausência dela, o vão na imensidão azul de concreto era apenas uma moldura. Não demoraria e a faxineira entraria no quarto, varreria o chão, trocaria os lençóis, borrifando um spray de cheiro bom no ar. Depois sairia e fecharia a porta, a caminho de outro cômodo.

Retomei então o trajeto rumo à Saara e, enquanto cruzava a Avenida Passos, ainda pude ver ao longe a imagem da janela, já cerrada. No escuro, o quarto desocupado decerto esperava outra moça. Sem amor, sem tesão, sem suor, sem ninguém. Somente a acachapante solidão dos lençóis brancos, limpíssimos, sobre a cama.

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