
É de altíssima voltagem emocional o documentário Pedrinha de Aruanda - Maria Bethânia, do diretor Andrucha Waddington. Desprensioso e bonito de doer, o filme retrata os dias que a cantora passou em Santo Amaro, por ocasião de seu aniversário. O maior mérito de Andrucha é captar, com extrema delicadeza, momentos singulares da intimidade da família Velloso na casa da matriarca. Em nenhum momento, a câmera parece interferir naquilo que acontece.
As cenas em que Dona Canô canta ao lado dos filhos, Bethânia e Caetano, no jardim da casa, são absolutamente comoventes. Acompanhado do violão de Jaime Alem, eles relembram canções como Tristeza do Jeca, Oração à Mãe Menininha e Noite de São João, num clima de seresta à moda antiga. Trata-se de um passeio musical por canções que tocam na alma do país, em suas reservas mais interiores. Em dado instante, com a fragilidade que o tempo legou à sua voz, Dona Canô observa: "Todas as musiquinhas melancólicas são lindas".
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Dona Canô, entre Caetano e Bethânia, no quintal da casa
Noutras seqüências, a câmera percorre as mui belas imagens de Santo Amaro acompanhadas de poemas de Mário Quintana e Fernando Pessoa. Bethânia revisita lugares como a cachoeira que costumava freqüentar ao lado do pai, quando menina, conta casos, como o dia em que pegou carona com João Gilberto e teve que agüentar as barberagens do motorista. De traquinagem, Caetano lhe havia dito que João "dirigia como cantava".
Confesso que aluguei o DVD movido mais pelo disco extra: o clássico Bethânia bem de perto, dirigido por Julio Bressane e Eduardo Escorel em 1966. Após conferir os dois, afirmo com convicção: a junção dos filmes em um mesmo pacote foi um grande acerto. O registro de Bressane e Escorel mostra uma Bethânia muito jovem e recém-chegada ao Rio de Janeiro. No intervalo de um show, ela fala sobre vários assuntos - principalmente sobre música.
Ainda sem o peso da fama, a cantora faz comentários hilários. Perguntada sobre o que acha de Roberto Carlos, por exemplo, ela alfineta: "Ouvi uma música dele, Quero que tudo mais vá pro inferno. Achei uma grande bobagem..." Quem diria que décadas depois Bethânia gravaria um disco inteiro dedicado à obra do ex-Rei.
O filme apresenta também longas caminhadas da cantora pelas ruas da cidade ao lado de Jards Macalé e outros amigos. Ela toma cerveja num boteco, brinca com um passarinho e fuma cigarros Minister, sempre descontraidamente e com aquele sorriso largo que lhe é característico. A vida toda pela frente.
No documentário de Andrucha, parte dessa vida já foi vivida, e por isso é tão revelador assistir aos dois filmes em seqüência. Ao fim, dá um orgulho danado de ser contemporâneo e compatriota de toda essa gente.
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