
No sábado passado, resolvi almoçar na ‘cidade’ (assim se costumava dizer no subúrbio). Gosto, nos fins de semana, de flanar pela parte mais conservada do velho Centro, caminhar por aquelas ruas centenárias, entre as construções que parecem estanques no tempo de tão encharcadas de História - e histórias. Nos fins de semana, a multidão de segunda a sexta se evapora, e o Centro se dá a ver em plenitude: sob a luz dourada da tarde, concreto e vazio.
Entre as boas opções do lado à direita da Rua Primeiro de Março, acabei escolhendo o Antigamente, que reabriu na mesma Rua do Ouvidor onde sempre funcionou, mas sob nova direção. Restaurante cheio, não demorou para que encontrasse alguns amigos, com quem dividi a mesa.
Derrotava um filé de picanha com arroz, feijão e batata portuguesa quando fui surpreendido pela aproximação de um garoto. Ele vinha abraçado a um amigo em comum. Tinha lá pelos seus vinte anos, e um copo de cerveja na mão.
- Com licença. Você torce para o América?
A pergunta, logo entendi, dava-se em razão da camisa que eu vestia. Explico: mais cedo, comprara uma camisa do tradicional clube do Andaraí. Um modelo antigo, que remontava à equipe de 1960, campeã da Taça Guanabara.
- Não, rapaz. Sou tricolor. É que acho essa camisa linda, e tenho simpatia pelo América.
A decepção do garoto se desenhou no rosto trincado. As feições magicamente se alteraram, como se um caricaturista, num único e cruel traço, tivesse arrancado da face aquela alegria súbita.
Trocamos mais uma ou duas frases e ele se foi. Lembro de ter comentado com alguém sobre minha surpresa ao encontrar um torcedor americano tão jovem. Mesmo no recente brilhareco do time branco e vermelho no Campeonato Estadual, a grossa maioria da torcida era composta por gente já entrada nos anos. Naquela competição, a felicidade de ver os americanos de volta ao Maracanã numa final guardava, em paralelo, um encanto triste, o encanto que doura a nostalgia revivida e que, por isso mesmo, não perdura.
Logo após a partida do garoto, enveredamos por outros assuntos. Sua imagem, porém, ficou. E só agora entendo o motivo desse reverbério: a singular majestade daquela paixão.
Penso sobre isso ao fazer duas correlações. A primeira delas com o meu Fluminense. É claro que, na infância, quando escolhi torcer pelo clube, não poderia cogitar que um dia estaria na Geral do Maracanã, sob uma chuva torrencial, vendo um jogo da Terceira Divisão. Lá estive. E foi por muito pouco que aquele ano não marcou o início do fim do tricolor, coroando um acelerado processo de decadência. Em certo instante, imaginei o que faria caso o Flu simplesmente deixasse de existir. Por mais que quisesse torcer para outra equipe, nunca – nunca, repito - seria igual.
Do Fluminense para o Império Serrano. Cheguei, quando bem pequeno, a testemunhar os anos de glória da agremiação, antes do relativo ocaso das últimas décadas. Não que a escola tenha se perdido. Pelo contrário: descontados os eventuais erros, parte dessa descida de ladeira deve-se justamente a uma postura firme com relação aos sedutores guizos da fama a qualquer preço. Mudaram os parâmetros, as prioridades, e quem se manteve fiel a si mesmo se danou.
Meu sentimento, hoje, é semelhante àquele que experimentei na Geral do Maracanã, embora evidentemente não mais com o tricolor. Se o Flu se reergueu e anda numa fase dourada, o Império está sem dinheiro, sem apoio. O pior: está sem a confiança dos próprios imperianos. Será que até auto-estima passou a se comprar fora?
Acostumei a não esperar por títulos. Quem, como eu, entende que a escola não pode se dobrar, nem que seja em nome de melhores colocações, infelizmente precisa ter a noção de que está fora do jogo. Tudo bem. Mas não é fácil para um imperiano, não é fácil mesmo, encarar o que estamos encarando este ano.
A ‘marginalidade’ do Grupo de Acesso espantou os freqüentadores dos ensaios. Se a grana já era pouca, sem a renda dos sábados a coisa ficou ainda mais difícil. A Liesa, a riquíssima Liesa, simplesmente ignora a existência da escola, exceto quando é para usá-la como badulaque para dar verniz à sua questionável existência. Para completar, o presidente Lula age como um Robin-Hood às avessas, prometendo ainda mais verbas para quem já as têm de sobra. A pergunta que fica é: será que estou assistindo ao lento, mas contínuo aniquilamento da verde-e-branco da Serrinha?
No fundo, acredito que as paixões, sejam por escolas de samba, sejam por times, funcionam como um mecanismo inconsciente que utilizamos para trapacear a morte, um jeito malandro de iludi-la. Nascemos, nossas escolas e times já estão aí. Confiamos em que, ao morrer, continuarão. Fluminense, Flamengo, Botafogo, Vasco, Bangu, América. Império, Portela, Salgueiro, Mangueira, Ilha, Tuiuti. São, todas essas e tantas outras, entidades maiores do que nós, quiçá eternas, que de certa forma dão sentido e nova dimensão aos dias que tocamos para frente - nós, pobres-diabos plenamente cientes da finitude.
Talvez por isso tudo esteja sendo tão doloroso, e talvez por isso a imagem daquele garoto na Rua do Ouvidor, com seu desmedido amor pelo América, tenha permanecido em minha cabeça até agora. Somos companheiros de crepúsculo. O que conforta é que os crepúsculos também têm lá a sua beleza.
P.S. Rompo o silêncio do recesso pela urgência que senti em publicar o texto acima. Meu sentimento de impotência é horrendo, só não é maior do que a tristeza. Ainda sobre a situação do Império, recomendo o post que o Aydano André Motta colocou em seu blog hoje. Leia aqui.
"O ano passou. Não sei se vós, leitor amigo, ou vós, distinta leitora, o passastes bem. Eu, como já passei muitos, os tenho passado de todo jeito, e ainda hoje esse segundo que vem depois da meia-noite me perturba.
Já passei ano só, em terra estranha, ou – o que é mais amargo – na minha; ou andando como um tonto na rua ou afundado num canto de bar ruidoso; ou tentando inutilmente telefonar; dormindo; com dor de dente. E quando digo de todo jeito estou dizendo também de jeito feliz, entre gente irmã ou nos braços de algum amor eterno – braços que depois dobraram a esquina do mês e da vida, e se foram, oh! provavelmente sem sequer a mais leve mágoa nos cotovelos, apenas indo para outros braços.
Passam os anos, passam os braços; mas fica sempre, quando a terra dá outra volta em si mesma, essa emoção confusa de um instante. Conheço pessoas que fogem a esse segundo de consciência cósmica, afetando indiferença, indo dormir cedo – como se não estivessem interessadas em saber se esta piorra velha deste planeta resolveu continuar girando ou não. É singular que entre tantas festas religiosas e cívicas nenhuma chegue a ser tão emocionante e perturbe tanto a humanidade como esta, que é a Festa do Tempo. É como se todos estivéssemos fazendo anos juntos; é o Aniversário da Terra.
Se a alma estremece diante do Destino, o espírito se confunde; reina uma tendência à filosofia barata; vejam como eu começo a escrever algumas palavras com maiúsculas, eu que levo o ano inteiro proseando em tom menor, e mesmo o nome de Deus só escrevo assim para não aborrecer os outros, ou para que eles não me aborreçam..
Já ao nome do diabo, não; a esse sempre dei, e dou, o ‘d’ pequeno, que outra coisa não merece a sua danação. A ele encomendamos o ano que passou - e a Deus, o Novo. Que vá com maiúscula também esse Novo; fica mais bonito, e levanta nosso moral.
E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante na solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: “Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro e março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente o esquece, e se esquece; é menos mal. E às vezes, ao dobrar uma semana ou quinzena, ás vezes dá uma aragem. Dá, sim; dá, e com sombra e água fresca. E quem vo-lo diz é quem já pegou muito sol nos desertos e muito mormaço nas charnecas da existência. Coragem, a Terra está rodando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão."
Com esta crônica do grande Rubem Braga e a convocação para a roda de samba que acontecerá amanhã, a partir das 14h, na Rua do Ouvidor (em frente à Livraria Folha Seca), me despeço de vocês até dia 2 de janeiro. Que 2008 chegue com paz, alegria e novos encontros, levando o Império Serrano de volta ao seu lugar: o Grupo Especial. Até!
"Nos últimos sete anos, o escritor angolano Ondjaki - nascido Ndalu de Almeida, em Luanda, em 1977 - publicou dois romances, uma novela, três livros de contos, dois de poesia e um infantil. Desta já volumosa obra, apenas dois títulos - e que títulos! - chegaram às livrarias brasileiras: o romance Bom dia camaradas (pela Agir, em 2006) e o recém-lançado Os da minha rua (Língua Geral), coletânea de 23 contos que reeditam personagens e episódios vivenciados pelo autor na infância africana. Apesar das distâncias continentais, a textura das reminiscências de Ondjaki em muito se assemelha às minhas. E a escrita em prosa tem exatamente o mesmo tom das conversas que ouvia nos primeiros anos de vida, quando costumava soltar pipa na beira do rio, correr atrás do Opala azul do meu tio e rasgar joelhos nos paralelepípedos do subúrbio carioca. Gosto tanto da verdade da literatura desse rapaz, que às vezes suspeito: seria Ondjaki um velho amigo meu dos tempos de colégio?"
* Jornalista e escritora. Autora do infanto-juvenil 'Cartola' (Moderna) e co-diretora do documentário ‘Raphael Rabello’ (Canal Brasil)
Projeto tocado pelo amigo André de Leones, já está no ar a revista virtual Histórias possíveis. A revista conta com 17 colaboradores fixos - entre eles Henrique Rodrigues, Lúcia Bettencourt, Suzana Fuentes, Maira Parula e Wesley Peres - cujo desafio é imaginar histórias a partir de notícias veiculadas na imprensa.
A atualização é semanal, e a revista abre espaço também para escritores convidados. Na edição mais recente, por exemplo, estão Flávio Izhaki e Ana Paula Maia. A partir do mês que vem, eu entro no bonde (opa!), virando colaborador fixo. Para dar uma 'palinha' das histórias que rolam por lá, posto, abaixo, um trecho de O menino homem aranha, belo conto criado pelo Henrique com inspiração do caso do garoto que, vestido com a roupa do superherói, salvou um bebê das chamas.
"(...) A camisa de Homem-Aranha recebida de presente foi mais que uma roupa, converteu-se em uma segunda pele. Apesar das ordens da mãe, Riquelme só tirava a fantasia após muita insistência, às vezes depois de uns tapas, dos quais o garoto se esgueirava chamando-a de Duende Verde e Octopus, nomes que causavam ainda mais irritação em D. Jurema por não saber o que significavam. Dormia com a roupa, e nos seus sonhos se pendurava pelos prédios altos e se agarrava em todas as superfícies possíveis. Era atingido às vezes, se feria, ficava fraco, mas se erguia e derrubava os inimigos com facilidade. Sabia que era humano por trás do uniforme - que não era exageradamente forte como o Superman -, e por isso mesmo se espelhava no aracnídeo. Quando acordava, não ter os poderes do sonho era apenas um detalhe que não diferenciava muito. Porque não queria ser igual ao Homem-Aranha: ele era. (...)"
O lançamento do Kindle, leitor digital do Amazon Books, serviu de gancho para matéria que acaba de entrar no ar no site Balaio de notícias. No texto, o repórter Paulo Lima explica como funciona a maquininha e expõe a opinião de diversos escritores, como Ana Maria Gonçalves, André de Leones, Paulo Polnozoff, Sérgio Rodrigues e este que vos escreve, sobre as implicações de sua chegada ao mercado. Segue um trecho da reportagem. Leia a íntegra aqui.
"(...) Portátil, sem fio, com acesso a mais de 90 mil livros – que podem ser baixados em um minuto diretamente do site da Amazon Books, a um preço de 10 dólares -, blogs, jornais e revistas, e com a capacidade de armazenar até 200 livros em sua memória interna. Aí está a dimensão do tal “serviço”. Gutenberg, que inventou o processo de impressão com caracteres móveis, deve estar dando voltas em seu túmulo. O livro tradicional está ameaçado? Pode parecer ser cedo demais para prognósticos, mas a estratégia da Amazon Books é ampliar consideravelmente seu acervo de livros digitais. Antes mesmo do Kindle, a megastore já proporcionava aos seus leitores um serviço pioneiro, agora copiado por outras livrarias on-line ao redor do mundo: a leitura do primeiro capítulo dos livros. Além disso, o leitor pode contar com a opção search inside the book, permitindo-lhe pesquisar o conteúdo de cada livro. Agora Jeff Bezos está envolvido numa cruzada para convencer os editores a lançar versões digitais de novos livros, algo que já vem acontecendo, apesar do alto custo do processo, cerca de 200 dólares por exemplar. Isso implica que, num tempo não muito distante, a proporção entre as edições paperback (de papel) e seus equivalentes digitais será consideravelmente reduzida. (...)"
A Ana Beatriz Guerra escreveu o post abaixo no blog Paralelos, no Globo on, e, devido à relevância da denúncia, dedici reproduzi-lo aqui. O Flávio Izhaki também republicou o texto no seu Bohemias. Espero que outros blogs se animem a gritar contra esse absurdo e os jornais, a investigá-lo a fundo. Com a palavra, a Funarte.
"Bolsa para quem?"
Ana Beatriz Guerra
"Saiu no Diário Oficial de ontem e foi divulgado com pouco estardalhaço o resultado da cobiçada Bolsa Funarte de Incentivo à Criação Literária. Para finalizar em seis meses o projeto de um livro, os contemplados faturarão R$ 30 mil, descontados os impostos devidos, após assinar contrato com o órgão. Até aí, nada. Sem querer desmerecer aqueles que têm mérito, como, por exemplo, a colega de blog Carol Bensimon, não pude deixar de notar na lista o nome Luiz Arthur Toríbio que, até abril do ano passado, era chefe da assessoria de comunicação social do Minc.
Segundo o artigo 2.2 do edital, ficava vetada a participação de membros da comissão de seleção e seus familiares, de funcionários da Funarte, do Minc, das instituições veiculadas e, ainda, de prestadores de serviços terceirizados. Um ex-funcionário, obviamente, não se aplica ao caso e não só pode como tem todo o direito de participar. Fica no ar, porém, a velha questão dos critérios obscuros de seleção em concursos públicos como este.
Imaginem vocês como podem ser escolhidos dois candidatos por região num prazo de dois dias? Sim, porque as inscrições terminaram às 18h da segunda-feira 10 de dezembro, sendo que não seriam aceitos projetos que chegassem pelos Correios depois do prazo. O resultado, liberado na quarta-feira 12 de dezembro, foi publicado na quinta última. Vejam vocês que o meu número de inscrição era 269 (porco no jogo do bicho) na manhã do dia 10. Enquanto eu entregava minhas pastas, chegava à Funarte uma pilha de Sedex. Digamos que, ao fim do dia, como todo bom brasileiro só cumpre prazos nos 45 do segundo tempo, tivéssemos quinhentos inscritos. Como, em sã consciência, um corpo de jurados poderia avaliar friamente quinhentos projetos em dois dias? Como pôde, aliás? Aí reside o mistério que nem centro de mesa resolve.
Esperar que editais assim nutram as necessidades do nosso mercado literário raquítico é sonhar alto demais. Será que incentivos do governo são mesmo o caminho a seguir para exercer em paz o ofício da escrita? O debate do mecenato é tão eterno quanto a arte e talvez permaneça sem conclusão enquanto predominar uma mentalidade que não leva a literatura muito a sério, que não considera que ela sirva para alguma coisa.
Não dizem que existem hoje no Brasil mais autores do que leitores? O disparate entre o que é escrito e o que se quer (ou não) ler é grande. Enquanto a literatura existir para satisfazer egos, incentivos demagógicos continuarão se fazendo necessários, sem que questões relevantes sejam trazidas à tona. Um mero "calem suas bocas".
Confesso que sonhei com a boquinha, a conta bancária mais polpuda para sentar e, finalmente, terminar meu romance. É, eu sou ridícula. E não somos todos? Inveja. Dor-de-cotovelo, vocês vão dizer. Talvez. Mas, diante de um cenário que não premia exclusivamente talento, que premia sim a arbitrariedade, o fruir estético, o ócio criativo, o exercício pelo exercício não existem. Literatura de mercado também precisa apresentar resultados, cumprir padrões, encerrar-se num formato, quase numa plataforma de governo. Afinal, como justificar o uso de recursos públicos?
Soluções que agradem a todos são impossíveis. As que desagradam, no entanto, parecem ser mais democraticamente distribuídas. Novos editais virão e, quem sabe, novas injustiças."
. Foi ótimo o debate de anteontem com o Alexei Bueno e o amigo Henrique Rodrigues na Livraria Leonardo da Vinci. Em certo momento, a conversa derivou para certa tendência dos poetas atuais em privilegiar a 'perfomance' e o 'visual' no lugar do 'literário'. Sobre o assunto, aliás, o Alexei falou bastante em recente entrevista concedida ao Paiol Literário (do jornal Rascunho) no mês de outubro, cuja leitura recomendo, com entusiasmo. Entre as muitas ótimas frases da entrevista, há pelo menos uma definitiva: "A internet é igual ao Exu na macumba: não faz nem para bem nem para mal; você utiliza como quiser". Seguem alguns trechos. Leia a íntegra aqui.
A função da poesia - "(...) Acho que a função da poesia é engrandecer, não no sentido megalômano da palavra, mas no sentido de você conseguir sair desta miserável condição humana, que é nascer neste mundo outorgado, algo completamente absurdo. Algo existir é um absurdo científico e filosófico. Nós nos encontramos nesta coisa estarrecedora, num lapso de tempo entre duas eternidades das quais nós não sabemos nem o que aconteceu antes nem o que vai acontecer depois - se é que vai acontecer alguma coisa. Isso tudo me deixa profundamente angustiado e apavorado. E num dos poucos momentos em que sinto certo alívio disso é com a arte, que consegue me tirar um pouco da ratoeira metafísica em que todos nos encontramos (...)".
Panorama atual - "(...) Angustia-me fazer um panorama da atualidade poética. Há muita coisa que não li. E há aquelas coisas que categoricamente não me interessam: a videopoesia, poesia visual, poesia no computador. Para mim, isso está ligado às artes visuais e não à poesia. Uma vez me perguntaram sobre estas possibilidades híbridas e eu falei uma frase do Dalí, que é muito reacionária e muito engraçada: "o mínimo que se espera de uma escultura é que ela não se mexa (...)".
Os concretistas - "(...) A atual poesia brasileira tem uma grande variedade. Há certa atomização em estilos pessoais. O estilo de época praticamente se desfez. Não sei se isso é uma coisa ruim. Há grupos sociológicos que identifico perfeitamente: um grupo é ligado às chamadas vanguardas paulistas dos anos 50. São os discípulos dos concretistas de São Paulo, que se espalham pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais. Esse grupo é uma espécie de seita. São como seguidores do Bispo Edir Macedo. O concretismo é a versão poética das igrejas neopentecostais. Alguém ligado aos concretistas tem respostas implacavelmente iguais. Se falar de cinema, ele vai falar de Julio Bressane. Se falar de tradução de poesia, ele vai falar de Odorico Mendes. Se falar de música popular, ele vai falar de Caetano Veloso. Conheço a receita de bolo integral desses caras. São como a linha de produção de uma montadora de carros: são todos absolutamente iguais.(...)"
. O amigo Fernando Molica, autor de livros como Notícias do Mirandão e Bandeira negra, amor, voltou a atualizar seu blog, o Pontos de partida. Lá, ele trata de literatura, música, política, jornalismo, Botafogo (fazer o quê?) e Rio de Janeiro, entre muitos outros assuntos, com aquela visão divertidav e aguçada que o caracteriza. Confiram!
“Minha dica é a poeta norte americana Adrienne Rich, que ainda não está traduzida para o português. Desde o início de sua carreira, em 1951, que ela vem acumulando prêmios, mas só começa a se firmar entre o público em 1963, com o livro Snapshots of a daughter in law (Instantâneos de uma nora), quando passa a tratar de temas ligados ao feminismo. Após o suicídio de seu marido, Alfred H. Conrad, em 1970, Adrienne Rich passou a militar no movimento de liberação das mulheres, e seu livro Diving into the Wreck (Mergulhando nos escombros) ganhou o cobiçado National Book Award, que ela aceitou não como indivíduo, mas em nome de todas 'as mulheres mantidas em silêncio'. Suas posições políticas radicais e sua assumida homossexualidade fizeram-na discutir a maternidade num ensaio pioneiro: Of woman born: Motherhood as experience and institution. Rich continua colecionando prêmios e atitudes radicais, como sua recusa em receber a National Medal of Arts, patrocinada pela Casa Branca, por achar que 'a arte é incompatível com a política hipócrita dos administradores do país'. Quem sabe alguma editora se anima a publicar seus principais livros?”
* Escritora. Vencedora do Prêmio Sesc com o livro 'A secretária de Borges', publicado pela Record.
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Alexei Bueno e Henrique Rodrigues participarão do debate
Quando a Milena Duchiade, da Livraria Leonardo da Vinci, me perguntou sobre o tema para a última edição dos Encontros do Subsolo em 2007, pensei sobre este ano cujo fim se aproxima. E foi inevitável lembrar da questão da violência. Morte de João Hélio, balas perdidas, invasão indiscriminada a favelas, menor estuprada por presos, Tropa de Elite... A sucessão quase interminável de fatos revelava que, real e infelizmente, o assunto não saiu de pauta.
Acabei me recordando de um belo ensaio do Elias Canetti, que integra o livro A consciência das palavras. No texto, intitulado O ofício do poeta, Canetti revela seu desconcerto ao encontrar o escrito de um autor anônimo, datado de uma semana antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. "Tudo, porém, já passou. Fosse eu realmente um poeta, teria necessariamente podido impedir a guerra", anotara o tal autor.
A partir dessa assertiva, que inicialmente chega a irritá-lo pelo tanto que revelaria de pretensão, Canetti constrói uma longa e acurada reflexão sobre o papel do poeta. "Graças a um dom que foi universal e hoje está condenado à atrofia, e que precisariam por todos os meios preservar para si, os poetas deveriam manter abertas as vias de acesso entre os homens", afirma ele, em certo momento.
Feliz pela (re)leitura do ensaio, decidi então fazer a mesma pergunta: para que serviria a poesia hoje? E convidei dois poetas - Alexei Bueno e Henrique Rodrigues - para tentar respondê-la. O debate, cujo título oficial é A flor e a náusea: poesia em tempos violentos, acontecerá amanhã (quarta-feira), às 18h30, na galeria da Livraria Leonardo da Vinci (Av. Rio Branco, 185), com entrada franca. Espero vocês!
Foi com nojo, muito nojo, que li a notícia dando conta de que o Lula vai liberar R$ 12 milhões para 12 escolas de samba do Grupo Especial. Segundo o governador do Rio, Sérgio Cabral, um dos objetivos é afastar 'más influências' das escolas, que têm histórico de ligação com o jogo do bicho e tráfico de drogas". Papo pra otário. Esse dinheiro vai é garantir uma economiazinha maneira nos gastos dos bicheiros e traficantes que sustentam algumas das agremiações-blockbuster. As escolas que realmente precisam - e felizmente estão livres dessa gente - vão continuar é na pindaíba.
Quem, de fato, necessita de R$ 1 milhão: a Estácio de Sá ou a Grande Rio? O Império da Tijuca ou a Beija-Flor? Soube ontem que o Império Serrano está sem recursos para andar com os trabalhos do barracão. O quadro é semelhante na maioria das agremiações do Grupo de Acesso. Já que o dinheiro é de origem pública, ao menos deveria ser canalizado para que tem história e relevância cultural, mas não tem verba. Mas o presidente resolveu dar um presentinho aos já ricos e à contravenção. Um Robin Hood às avessas.
P.S. O coleguinha Aydano André Motta também se pronunciou, de maneira contundente e bem embasada, sobre o assunto. Recomendo a leitura do texto dele.
O Rogério Skylab entrou em contato comigo anteontem para anunciar que colocou no ar o blog Godard city. No espaço, ele escreve principalmente sobre música e literatura. Entre os post recentes, estão um ensaio sobre o tropicalismo, poemas curto em homenagem aos goleiros Manga e Castilho e uma lista das músicas mais importantes dos anos 60/70, segundo o próprio. Skylab me falou que sua idéia é fazer, do blog, um grande campo de discussão. O Godard city entra hoje mesmo na relação dos meus links indicados.
Ontem, o Prosa & Verso (O Globo) publicou minha resenha sobre Todos os dias, belo romance de estréia do português Jorge Reis-Sá. Segue, abaixo, o texto original (sem os cortes da edição). Na seqüência, posto um pequeno 'box' complementar sobre o autor e sua obra, a qual conheci através das edições lusitanas. Infelizmente, por questão de espaço, o 'box' não saiu junto à resenha.
A literatura como ilusão de eternidade
Marcelo Moutinho
Num de seus poemas, Fernando Pessoa especula se a alegria revivida ao ouvir uma velha música corresponde de fato ao sentimento experimentado na infância. “Eu era feliz?”, indaga a si mesmo, tomado pela nostalgia. E então conclui: “Não sei: / Fui-o outrora agora”. No paradoxal verso, o poeta cristaliza aquela que talvez seja a principal faculdade da memória: recriar, com requintes de ficcionista, impressões possíveis da realidade.
Essa engrenagem difusa assinalada por Pessoa funciona como moto-propulsor de “Todos os dias”, o romance de estréia do também português Jorge Reis-Sá, lançado no Brasil pela Record em edição que respeita a grafia lusitana original. Dividida em sete etapas – “Aurora”, “Manhã”, “Almoço”, “Tarde”, “Crepúsculo”, “Jantar” e “Noite” –, a história se desenrola em apenas 24 horas. No núcleo do enredo, uma família do norte de Portugal vive à sombra da perda recente de Manuel Augusto, um de seus membros.
O livro é narrado por Justina (a mãe), António (o pai), Fernando (o irmão) e Cidinha (a avó, já falecida), que descrevem, em relatos sempre atravessados pela ausência do parente morto, a banalidade do cotidiano doméstico. Essas quatro vozes constroem paulatinamente uma imagem plausível, mas exterior, de Augusto. Nas últimas páginas, ele finalmente ganhará autonomia, num epílogo (“Tarde demais”) desconcertante e revelador.
O tom monocórdico dos quatro narradores poderia sugerir a inabilidade de Reis-Sá, conhecido em seu país como poeta e contista, na elaboração dos personagens de maior fôlego. Trata-se, porém, de uma artimanha intencional. Mais do que as reminiscências individuais, ao autor interessa captar as dores, os afetos e as sensações que se insurgem em comum, como uma espécie de “memória da casa” na qual, em algum momento, todos moraram juntos.
“A casa que é dos pais inunda-me de passado”, como diz Fernando. A casa onde Cidinha fritava sardinhas às quartas-feiras, onde Justina dava de comer à cadela, onde se estabeleceu o confronto central entre os dois irmãos. Fernando, o pragmático, mendigando a atenção dispensada a Augusto. Este, por sua vez, brilhando naturalmente com seu carisma, mesmo tendo decepcionado os pais ao abandonar a faculdade e trancar-se no sonho de ser escritor.
Pairando como neblina sobre a família, a saudade é acionada por pequenos atos e gestos. No sino da igreja, que se perde em Justina “como um ressoar diário”; na máquina de café, “ligando os barulhos da memória naquele remoer”. À medida que a casa se esvazia, que cada um segue seu rumo - seja a morte, seja o casamento -, eles tentam desesperadamente povoá-la de lembranças. O processo de erosão do antigo lar espelha, de certo modo, a diluição da própria família, como demonstra António em seu lamento: “O tempo acaba sempre por rasurar o que sentimos, por inundar de horas, de demasiadas horas, o amor que temos pelo outro”.
Para ele e Justina, agora a sós na casa, o vazio é ainda mais acachapante. “O dia cai na noite como caíam outros dias. Como caía quando havia mais gente nesta mesa, onde cair. Como caía quando o Fernando não a tinha só para ele, com um filho e a mulher, quando a mãe a tinha perto, onde colocava um jantar quente e novo; quando o Augusto nos ajudava na felicidade por nos acompanhar a todos numa refeição”, lista António, refazendo em pensamento o som dos grilos, dos carros a passar na rua, da cadela latindo no interior do barraco. “Nós somos as pessoas que foram conosco”, resume.
Reis-Sá conduz essas emoções com ternura, lirismo e muitos adjetivos, num texto que muitas vezes se aproxima do registro poético. E o leitor mais observador poderá notar como, na estrutura do romance, o autor redesenha o movimento da própria literatura. Primeiro, ao condensar, num intervalo intenso e brevíssimo – no caso, a duração de um dia – acontecimentos espaçados em muitos e muitos anos. “Sou, na passagem das horas, no olhar de quem amo, todas as resignações, todos os dias que já fui”, sintetiza Cidinha. Em segundo lugar, sublinhando a fé na palavra como combustível de uma (ainda que frágil) perenidade, crença que seus personagens manifestam em várias passagens. É novamente Cidinha quem alerta: “Os mortos só existem enquanto existir quem deles fale”.
“Todos os dias” reitera que a literatura é sempre um réquiem, uma ilusão de eternidade. Porque, no fim das contas, a ampulheta corre.
* Escritor e jornalista
Box:
Record aposta no autor
A Record decidiu mesmo apostar em Jorge Reis-Sá, que esteve no Brasil recentemente para lançar seu romance. A editora promete para breve os livros “Terra” - originalmente posterior a “Todos os dias” - e “Por ser preciso”. Publicados em Portugal respectivamente pela Sextante e pela Cosmorama, os dois trabalhos confirmam que, embora jovem (30 anos), o autor já demonstra um estilo literário próprio. E mais: uma admirável maturidade nos temas que elege.
Os contos reunidos em “Terra”, aliás, ratificam também aquela que parece ser a obsessão de Reis-Sá. Evocando a infância, as oito histórias do livro percebem a memória como uma máquina capaz de devolver a harmonia às coisas passadas. E evidenciam que o universo fortemente metafórico do autor chega a pontos altíssimos nas narrativas curtas. Caso, por exemplo, de “O vaso dos nomes”, em que a menina protagonista imagina, nos nomes escritos em papéis que espalha pelo chão da casa, as pessoas que passarão por sua vida.
“Por ser preciso” é constituído por um só conto, no qual o narrador se dirige ao pai, morto depois de muito sofrer por conta de um câncer. Mais do que a dor de quem se vai, o pequenino e dilacerante livro esquadrinha a expiação de quem fica. Cada frase é embebida de recordações, que falam de um pai ainda vívido e, por contraste, dão ao leitor a dimensão da perda.
Além dos títulos de prosa, Reis-Sá tem cinco livros de poesia lançados em seu país. As obras foram publicadas pela Quasi, editora que comanda desde 1999 e cujo catálogo inclui vários autores brasileiros, como Ferreira Gullar, Antônio Cícero, Manoel de Barros, Arnaldo Antunes, Fabrício Carpinejar e Eucanaã Ferraz. O escritor português também mantém um site (www.jorgereis-sa.com), que disponibiliza poemas, contos, crônicas e críticas.
É de altíssima voltagem emocional o documentário Pedrinha de Aruanda - Maria Bethânia, do diretor Andrucha Waddington. Desprensioso e bonito de doer, o filme retrata os dias que a cantora passou em Santo Amaro, por ocasião de seu aniversário. O maior mérito de Andrucha é captar, com extrema delicadeza, momentos singulares da intimidade da família Velloso na casa da matriarca. Em nenhum momento, a câmera parece interferir naquilo que acontece.
As cenas em que Dona Canô canta ao lado dos filhos, Bethânia e Caetano, no jardim da casa, são absolutamente comoventes. Acompanhado do violão de Jaime Alem, eles relembram canções como Tristeza do Jeca, Oração à Mãe Menininha e Noite de São João, num clima de seresta à moda antiga. Trata-se de um passeio musical por canções que tocam na alma do país, em suas reservas mais interiores. Em dado instante, com a fragilidade que o tempo legou à sua voz, Dona Canô observa: "Todas as musiquinhas melancólicas são lindas".
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Dona Canô, entre Caetano e Bethânia, no quintal da casa
Noutras seqüências, a câmera percorre as mui belas imagens de Santo Amaro acompanhadas de poemas de Mário Quintana e Fernando Pessoa. Bethânia revisita lugares como a cachoeira que costumava freqüentar ao lado do pai, quando menina, conta casos, como o dia em que pegou carona com João Gilberto e teve que agüentar as barberagens do motorista. De traquinagem, Caetano lhe havia dito que João "dirigia como cantava".
Confesso que aluguei o DVD movido mais pelo disco extra: o clássico Bethânia bem de perto, dirigido por Julio Bressane e Eduardo Escorel em 1966. Após conferir os dois, afirmo com convicção: a junção dos filmes em um mesmo pacote foi um grande acerto. O registro de Bressane e Escorel mostra uma Bethânia muito jovem e recém-chegada ao Rio de Janeiro. No intervalo de um show, ela fala sobre vários assuntos - principalmente sobre música.
Ainda sem o peso da fama, a cantora faz comentários hilários. Perguntada sobre o que acha de Roberto Carlos, por exemplo, ela alfineta: "Ouvi uma música dele, Quero que tudo mais vá pro inferno. Achei uma grande bobagem..." Quem diria que décadas depois Bethânia gravaria um disco inteiro dedicado à obra do ex-Rei.
O filme apresenta também longas caminhadas da cantora pelas ruas da cidade ao lado de Jards Macalé e outros amigos. Ela toma cerveja num boteco, brinca com um passarinho e fuma cigarros Minister, sempre descontraidamente e com aquele sorriso largo que lhe é característico. A vida toda pela frente.
No documentário de Andrucha, parte dessa vida já foi vivida, e por isso é tão revelador assistir aos dois filmes em seqüência. Ao fim, dá um orgulho danado de ser contemporâneo e compatriota de toda essa gente.
"A flor e a náusea"
Carlos Drummond de Andrade
"Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio".
"Dizem que o tempo ameniza.
Isto é faltar com a verdade.
Dor real se fortalece
Como os músculos, com a idade.
É um teste no sofrimento
Mas não o debelaria.
Se o tempo fosse remédio
Nenhum mal existiria"
* Este espetacular poema de Emily Dickinson serve de epígrafe do romance 'A chave de casa', da Tatiana Salem Levy. A edição, aliás, ficou uma beleza: capa elegante, papel de boa gramatura e capricho no design. A Record realmente está de parabéns por ter conseguido fazer com que a forma refletisse o conteúdo do livro.
P.S. O quadro que acompanha o poema é 'A persistência da memória', de Salvador Dalí
Em sua coluna de ontem, na Ilustrada (Folha de S. Paulo), Bernardo Carvalho propôs uma reflexão que julgo importantíssima. Ao fazer a defesa de uma espécie de sensação de "exílio" que, segundo afirma, seria necessária ao ofício do escritor (não sei se concordo com isso), ele argumenta (e nisso eu concordo) que o multiculturalismo anglo-saxão acabou situando tudo aquilo que está fora de suas fronteiras como "sotaque, cor local e exotismo".
"O que a hegemonia do mercado literário anglo-saxão não pode conceber, até por razões protecionistas e de imposição de um modelo de excelência mundial, é que outras línguas criem parâmetros literários diferentes e até contraditórios em relação ao consenso americano ou inglês", observa Carvalho. Eu acrescentaria que ainda mais grave é perceber que autores excluídos desse mercado hegemônico, como os latino-americanos, muitas vezes apostem nessas mesmas referências. A crença inocente (ou não) de que, assim, estarão integrados aos paradigmas e referências globais da literatura contemporânea faz com que acabem soando apenas como pastiche de seus colegas anglo-saxões.
Segue a íntegra do artigo:
"Exilado na própria língua"
Bernardo Carvalho
"Ensaios de Literatura Ocidental" (Duas Cidades/Editora 34), de Erich Auerbach, termina com uma citação sensacional: "Delicado é aquele para quem a pátria é doce. Bravo, aquele para quem a pátria é tudo. Mas perfeito é aquele para quem o mundo inteiro é exílio..." (Hugo de São Vítor, "Didascalicon, III, 20").
Auerbach estava falando, em 1952, da possibilidade de uma compreensão sintética de todo o universo da literatura mundial, a partir de um ponto de vista humanista, para além dos limites nacionais, mas podia estar se referindo também à própria produção literária. São extraordinários os escritores que vivem o mundo como exílio, a começar pela própria pátria -e grandes exemplos não faltam ao século 20: Kafka, Beckett, Bernhard etc.
O número 1 da revista "Granta" (ed. Alfaguara), em português, dedicado aos "melhores jovens escritores norte-americanos", revela a tendência oposta. Os jovens escritores americanos, sem desmerecer o talento de cada um, podem ter o mundo inteiro nas veias (em conjunto, representam o propalado "melting pot": são brancos, negros, judeus, latinos, asiáticos, descendentes de russos, de africanos, de latino-americanos, de tailandeses, de indianos e de chineses) mas escrevem todos na língua da nação hegemônica.
É essa a principal armadilha do multiculturalismo anglo-saxão: o mundo (as outras línguas e a respectiva diversidade cultural e literária) deixa de existir fora das fronteiras da pátria, já que o estrangeiro é incorporado à língua hegemônica (e ao mercado que ela representa) como sotaque, como cor local e exotismo, enriquecendo-a na superfície, ao mesmo tempo que dispensa tudo o que lhe for exterior. Assim, a pátria não pode ser exílio; ela é sempre lar. A qualidade, quando é interior, passa a ser norma; e, quando é exterior, passa a ser exceção.
Não é por acaso que as traduções de ficção estrangeira nos Estados Unidos representem uma fatia tão insignificante do mercado. No multiculturalismo, há limites para a diferença, a começar pela língua. E, no caso da literatura, essa é uma diferença fundamental.
Há dez anos, durante uma série de leituras promovida em conjunto por uma das oficinas literárias mais prestigiosas dos Estados Unidos (da qual então participava uma das escritoras agora selecionadas pela "Granta") e pelo programa de residência de escritores estrangeiros na mesma universidade (do qual eu participava), jovens americanos, alunos da concorrida oficina literária, rolavam de rir diante de uma jovem africana que lia constrangida um conto (folclórico e sofrível, segundo os padrões literários ocidentais) com um sotaque carregado. A perversão, no caso, era que a presença da jovem africana naquele fórum correspondia perfeitamente à imagem que o multiculturalismo paternalista faz de uma jovem escritora da África negra (seria muito diferente se ela fosse americana, descendente de africanos nos EUA).
O que a hegemonia do mercado literário anglo-saxão não pode conceber, até por razões protecionistas e de imposição de um modelo de excelência mundial, é que outras línguas criem parâmetros literários diferentes e até contraditórios em relação ao consenso americano ou inglês. E que esses outros modelos não se reduzam ao relato singelo de realidades exóticas.
Há alguns meses, um escritor inglês me perguntou se eu achava Borges realmente importante (dando a entender que o argentino não se sustentaria em pé segundo os critérios do romance realista, à moda inglesa, com personagens psicologicamente verossímeis e bem construídos, como ele próprio praticava). Com a transformação do livro em produto de massa e o advento de grandes corporações editoriais a partir dos anos 80, a literatura passou a ser tratada também como ferramenta de conquista e dominação cultural, de par com o cinema. Como arte é subjetividade, o mercado precisa estabelecer um princípio objetivo que justifique a naturalidade da sua política cultural. E esse princípio só pode ser o da maior facilidade (romances realistas ou baseados em histórias reais, com personagens psicologicamente verossímeis e bem construídos). Qualquer desvio passa a ser qualificado pejorativamente de "experimental" ou "cerebral".
Os melhores jovens escritores americanos ou ingleses podem ser "delicados" ou "bravos" mas, a julgar pela máxima de Hugo de São Vítor, não serão "perfeitos" (ou completos) enquanto não relativizarem o seu lugar no mundo e se sentirem exilados também em sua própria língua".

"Minha indicação é o livro Histórias de literatura e cegueira, do Julián Fuks. São três narrativas sobre escritores (ou poetas) que ficaram cegos: Borges, João Cabral e James Joyce. Os textos são uma mistura muito sensível e inteligente de biografia, ficção e crítica literária. No fundo, é quase um romance, cujo protagonista é um Homero arquetípico. A literatura brasileira se ressente muito desse tipo de ficção, visceralmente intelectual. Acho queo Julián ocupou esse vácuo com imenso talento. É impossível não gostar do livro."
Hotel com garagem
Marcelo Moutinho
Por volta de uma da tarde, eu atravessava a Praça Tiradentes em direção à Saara, atrás de apetrechos para uma festa à fantasia. Na calçada do Teatro João Caetano, enquanto aguardava o sinal fechar, passeei rapidamente os olhos pelos construções e pelas pessoas, que corriam, apressadas, perseguindo as horas perdidas - durante o dia, os contornos da Praça espantam em sua nitidez.
Foi quando notei a moça. Debruçada sob o parapeito da janela de um edifício na Avenida Passos, ela apoiava o cotovelo sobre o outro braço, como uma daquelas bonecas feitas em Tiradentes, e contemplava o movimento da rua. Não parecia triste, apenas distante – enfronhada nos próprios pensamentos. Talvez lamentasse uma noite ruim, talvez pensasse nas contas que não fecham, talvez fizesse planos para as horas que viriam. Elas sempre vêm.
Deslocando o olhar, percorri a parede do prédio, andar por andar, até encontrar a portaria. No letreiro, uma pintura já esmaecida informava: ‘Motel’.
Lembrei que, quando pequeno, meus pais diziam que motel era um hotel com garagem embaixo. Por algum tempo acreditei nisso, e a recordação arrancou do meu rosto um sorriso nostálgico. Assim como a moça, por um segundo meus olhos fitaram a Praça sem enxerga-lá.
Mas logo voltei o foco para o edifício. A fachada confessava seu cansaço nos espaços vazados dos rebocos. As feias janelas de alumínio, quase todas fechadas, guardavam as promessas da madrugada, quando enfim se abrirão. Na entrada do corredor principal, o cartaz pedia vinte Reais pelo período de seis horas, almoço incluído. E a moça permanecia lá, no vão do terceiro andar, estátua viva, quase parte da construção.
Nos quartos trancados, imaginei eu, homens trepavam com mulheres, homens com homens, mulheres com mulheres, vários jogos, montagens, formações, gostos, desejos: no 201, o rapaz com a amante mais velha; no 304, o senhor casado que alugou um garoto; no 407, o clássico chefe-secretária; no 409, o casal de estudantes com pouca grana aproveitava a promoção (e a refeição) da tarde.
Todos multiplicados nos espelhos da parede e do teto em pernas, braços, mãos, pés, dedos que se entrelaçam, se esfregam, se agridem, se apertam, preenchendo os vazios uns dos outros com carne, fluidos e transpiração, à espera de um gozo incerto, mas obsessivamente buscado.
(Nas TVs de catorze polegadas que enfeitam os aposentos, o gozo é garantido.)
O sinal já se fechara e abrira sei lá quantas vezes quando percebi que a moça se foi. Deixara seu lugar já quase cativo na janela, seja porque combinou de encontrar alguém ou queria ir para casa, porque precisava comprar carne e leite, ou simplesmente dormir.
Na ausência dela, o vão na imensidão azul de concreto era apenas uma moldura. Não demoraria e a faxineira entraria no quarto, varreria o chão, trocaria os lençóis, borrifando um spray de cheiro bom no ar. Depois sairia e fecharia a porta, a caminho de outro cômodo.
Retomei então o trajeto rumo à Saara e, enquanto cruzava a Avenida Passos, ainda pude ver ao longe a imagem da janela, já cerrada. No escuro, o quarto desocupado decerto esperava outra moça. Sem amor, sem tesão, sem suor, sem ninguém. Somente a acachapante solidão dos lençóis brancos, limpíssimos, sobre a cama.
Há pouco mais de dois anos, resenhei a antologia 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira para o Prosa & Verso. Na época, me chamou a atenção na seleta organizada pelo Luiz Rufatto o conto assinado por uma menina chamada Tatiana Salem Levy, que narrava, de forma visceral e extremamente bem escrita, uma história dilacerada de perda.
Com o passar do tempo, acabei conhecendo a Tati pessoalmente e tive a oportunidade de ler outros textos dela, inclusive alguns trechos do romance que ela lança amanhã, a partir das 19h, na Livraria Argumento. O livro, que marca sua estréia na ficção, chama-se A chave de casa e, se confirmar minhas expectativas, será mais um trabalho a evidenciar que há, sim, talento debaixo da espuma que infelizmente paira sob a nova geração da literatura brasileira. É ótimo ver que escritores como a Tatiana e o Flávio Izhaki começam a dar seus vôos solo.
Segue um fragmento de A chave de casa:
“(...) Conto (crio) essa história dos meus antepassados, essa história das imigrações e suas perdas, essa história da chave de casa, da esperança de retornar ao lugar de onde eles saíram, mas nós dois (só nós dois) sabemos ser outro o motivo da minha paralisia. Conto (crio) essa história para dar algum sentido à imobilidade, para dar uma resposta ao mundo e, de alguma forma, a mim mesma, mas nós dois (só nós dois) conhecemos a verdade. Eu não nasci assim. Não nasci numa cadeira de rodas, não nasci velha. Nenhum passado veio me assoprar os ombros. Eu fiquei assim. Fui perdendo a mobilidade depois que o conheci. Depois que o amei: depois que conheci a loucura através do amor, o nosso. Foi o amor (excedido) que me tirou, um a um, os movimentos do corpo. (...)”
Na divertida palestra do Antônio Torres na Primavera dos Livros, ele contou, entre muitas histórias, uma passagem curiosíssima, que vale a pena repetir aqui. Quando estreou na literatura, em 1972, seu romance foi resenhado pelo Aguinaldo Silva no jornal Opinião. Ainda trabalhando como jornalista à época, Aguinaldo teceu rasgados elogios ao livro (Um cão uivando para a lua) e encerrou o texto fazendo um alerta engajado ao então jovem escritor. Algo mais ou menos assim:
"Espero que o autor não ceda aos fáceis encantos financeiros da televisão e possa levar à frente seu talento no campo literário".
A vida realmente dá voltas, né não?
Doa-se vaga para a Taça Libertadores da América 2008. Tratar na Rua Álvaro Chaves, 41 – Laranjeiras.
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Alguns dos produtos feitos pela F. e expostos no site
Pausa para a propaganda: a F. enfim resolveu transformar em peças seu talento para o artesanato, e o resultado disso pode ser conferido no Bazar Neguinha Suburbana. O site traz expostas imagens dos seus trabalhos, todos eles feitos com cuidado e carinho, com os respectivos preços.