
O Jornal de Hoje, de Natal (RN), publicou na segunda retrasada a entrevista que o repórter (e também escritor) Carlos Fialho fez comigo. Segue a íntegra:
"O retrato de uma geração"
"No Rio de Janeiro, quando apontavam no horizonte os anos 2000, os cidadãos cariocas, assim como todas as pessoas do mundo, esperavam todas as mudanças e revoluções inerentes à mudança milenar do calendário. A reviravolta cultural, social e tecnológica não veio, assim como também não aconteceu o bug do milênio. Mas o Rio seguia sua efervescência histórica na música, nas pistas de dança e na telona. Bandas como Planet Hemp e Rappa estavam no auge; os surpreendentes Los Hermanos e Matanza surgiram e conquistaram o Brasil; DJs gringos e brasileiros tinham a cidade como parada obrigatória; o Festival de Cinema do Rio se tornou o principal evento do gênero no país e a periferia da cidade ganhou o mundo com o histórico “Cidade de Deus”. Pouca gente notou, mas na Literatura, a mais discreta das artes, também cumpriu um importante papel na revelação de nomes importantes para a renovação do cenário cultural carioca. Foram revelados nomes como João Paulo Cuenca, Cecília Gianetti, Adriana Lisboa e Henrique Rodrigues. Em meio a essa geração, um nome surgia com sua prosa diversificada e muito bem elaborada. Este autor é Marcelo Moutinho, que lançou recentemente o livro de contos “Somos todos iguais esta noite” (Editora Rocco). Moutinho concedeu entrevista ao JH 1ª Edição e falou um pouco sobre sua geração, seus livros e o trabalho incansável de um escritor iniciante no Brasil.
Quando você percebeu que se tornaria escritor?
Sinceramente não sei. O que posso afirmar é que sempre me interessei por tudo o que fosse ligado à palavra. De início, histórias em quadrinhos e letras de música. Mais tarde, livros políticos (cheguei a militar no movimento estudantil). A literatura de ficção entrou na minha vida já na adolescência.
Como foi que isso aconteceu?
O passo em direção à publicação se deu de uma forma muito comum, sobretudo no início dos anos 00: co-editei meu livro de contos com a 7Letras. O panorama naquela época era muito mais sombrio do que o de hoje. Não havia contato entre os escritores das diversas partes do país, nem mesmo no âmbito dos estados. No Rio, por exemplo, ninguém se conhecia. Em suma, não existia uma ‘vida literária’.
Quais livros você lançou até agora? E de quais você participou?
Lancei Memória dos barcos (7Letras, 2001) e Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006). Além disso, organizei as antologias Contos sobre tela (Pinakhoteke, 2005) e Prosas cariocas: uma nova cartografia do Rio (Casa da Palavra, 2004), esta em parceria com o Flávio Izhaki. Nas duas seletas, incluí apenas textos inéditos e de autores em começo de carreira. Ou seja, em ambas, a idéia era apresentar um recorte da produção contemporânea. Neste mês (outubro), está sendo lançada outra antologia – 35 segredos para chegar a lugar algum -, da qual participo a convite da Ivana Arruda Leite. É uma espécie de gozação com a auto-ajuda.
Quando sua geração de escritores começou a surgir no Rio, você tratou de correr atrás para tentar mobilizar a turma de alguma forma. Foi aí que organizou o livro “Prosas Cariocas”. Que nomes presentes na coletânea você destacaria?
Como sou um dos organizadores do livro, não seria ético destacar apenas alguns. Então cito todos: Adriana Lisboa, João Paulo Cuenca, Flávio Izhaki, Henrique Rodrigues, Bianca Ramoneda, Cecília Giannetti, Antonia Pellegrino, Sidney Silveira, Juva Batela, Mariel Reis, Marcelo Alves, Augusto Sales, Mara Coradello, Vinicius Jatobá, Ana Beatriz Guerra e Miguel Conde.
Considerando que a literatura seja o registro de uma época, que aspectos do Rio de Janeiro há na literatura desses autores, seus contemporâneos?
Sinceramente, acho que os estilos são muito distintos para se querer fazer um corte desses. Só lamento que cada vez menos a cidade esteja presente na ficção. Me parece que há uma tendência em querer apagar os traços locais em nome de um cosmopolitismo meio vira-lata. Como se Fernando Pessoa, ao aludir à Estrada de Sintra, só falasse aos portugueses. No meu caso, tenho buscado destacar cada vez mais – e de forma deliberada – essa cor local. Não tenho pretensões em ser um escritor de Primeiro Mundo.
Aliás, seus contos, em particular, têm muito da cidade. É uma prosa carioca por excelência. Que Rio de Janeiro está descrito em seus contos?
Um Rio de Janeiro imaginário, que, como toda paisagem ficcional, tem nuances de realidade. Aquele é o Rio de Janeiro dos meus personagens, um Rio de agudas e pequenas dores e de alegrias, e sem nenhum verniz de violência crítica. O que tentei fazer foi dar mais um lance na tentativa de reaproximar a literatura da vida. Porque hoje há muita egotrip narrativa. A prosa infelizmente começa a repetir um caminho seguido pela poesia, que é se fechar em si mesmo. Dá vontade de gritar: vivam!
“Somos Todos Iguais Nesta Noite” é o seu segundo livro de contos, motivado por sua volta ao subúrbio de sua infância. Conte um pouco sobre essa experiência e como você a trouxe para o livro.
Pois é. Nasci e cresci em Madureira, subúrbio do Rio e terra de duas de suas maiores escolas de samba, o Império Serrano e a Portela. Foi justamente a reaproximação com o meu Império que me levou de volta ao bairro depois de muitos anos. E o choque de experimentar o contraste entre a Madureira em que vivi e a de hoje foi o elemento detonador do livro. Talvez por isso, a infância seja um elemento bastante presente nos contos.
Você afirmou certa vez que, além de escritores como Dostoyevsi, Camus e Caio Fernando Abreu, suas influências também são Chico Buarque, Iberê Camargo, Woody Allen. De que maneira, outras artes podem se aderir à escrita?
Da mesma maneira que a própria literatura. É ilusório pensar que não somos influenciados por outras artes, cuja fruição estética, embora distinta, pode nos abalar tanto quanto um bom livro. Foi para ressaltar e estimular essa interpenetração, aliás, que organizei o Contos sobre tela, no qual os autores foram desafiados a criar narrativas a partir de pinturas.
Apesar de já ter dois livros próprios e de ter sido publicado em coletâneas nacionais, você ainda luta bastante para ter seus livros divulgados e bem distribuídos. Quais as dificuldades do escritor nessa dura tarefa em busca de leitores?
A dificuldade é total, porque o atual quadro é desanimador. Há um erro grave das editoras brasileiras, que contratam livros gringos a altos custos e investem pouquíssimo nos autores nacionais. O resultado disso é que as ferramentas de marketing acabam direcionadas a essas obras, que precisam vender muito para justificar seus custos. Se observarmos as listas de mais vendidos dos últimos anos, perceberemos como o autor brasileiro é um forasteiro ali, muito diferentemente do que ocorria, por exemplo, nos anos 70. A verdade é que, infelizmente, a literatura brasileira perdeu a relevância e só respira – ainda assim, por aparelhos - porque os eventos que se multiplicam ao redor do país dão a ilusão de que há efetivamente um mercado consumidor.
Como você avalia a Bienal do Rio?
Foi ótimo, assim como são ótimos todos os eventos que permitem, de alguma forma, a aproximação entre a população e os livros. A nota negativa fica por conta do exagero de autores ligados a esses temas da onda “Cabul”. Já encheu a paciência, não? Uma literatura ‘politicamente correta’, que serve na verdade para apaziguar o espírito do leitor, levando-o a pensar: “Ah, como sou feliz de estar longe disso”.
E sua participação no evento? Como foi?
Descontado o nervosismo natural, acho que foi boa. Participei de uma mesa ao lado de um autor espanhol que tem um best-seller transcorrido na Idade Média (Ildefonso Falcones) e de um escritor especializado em cavaleiros templários (Orlando Paes Filho). Ou seja: um painel de um ecletismo admirável. O surpreendente é que, no final, tudo deu certo. Pelo menos pude falar do meu livro, coisa que sem sempre acontece nesses eventos.
Você está divulgando o seu livro mais recente, mas já começou a escrever o próximo?
E quando sai?
Já tenho algumas idéias sobre ele. Possivelmente, será algo na linha do Raymond Carver, com histórias que se intercalam. Aliás, o próprio Somos todos iguais nesta noite tem um pouco esse caráter, já que há minicontos interpostos entre as narrativas maiores, funcionando como uma espécie de costura. Para citar o Cony, digamos que será um ‘quase-romance’. "
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