
No sábado passado, o caderno semanal Pensar, do jornal Estado de Minas, trouxe a simpática entrevista que o repórter e articulista Carlos Herculano Lopes fez comigo. Segue a íntegra do texto publicado no suplemento:
“É preciso mergulhar nas ruas”
Integrante da nova geração de escritores brasileiros, Marcelo Moutinho nasceu no Rio de Janeiro, em 1972. Estreou na literatura em 2001, com o livro de contos 'Memória dos barcos' (Editora 7 Letras). Autor do recém-lançado 'Somos todos iguais nesta noite' (Rocco), também de contos, o palco de suas histórias é o Rio, onde mora. “A cidade é quase um personagem do livro, cujos contos procuram revelar cores inesperadas em seus becos escuros”, afirma o escritor. Para Marcelo Moutinho, escrever no Brasil é dar murro em ponta de faca, “mas talvez tenhamos mesmo uma porção masoquista”, comenta, com ironia, em conversa com o repórter Carlos Herculano Lopes.
Por quais caminhos você passeia em 'Somos todos iguais nesta noite'?
Por um Rio de Janeiro meio real, meio invenção. A cidade é quase um personagem do livro, cujos contos procuram revelar cores inesperadas em seus becos escuros. Do Centro ao subúrbio, quis ressaltar o que há de belo — e, em geral, está oculto — nas pequenezas. São histórias prosaicas: o passeio de um garoto no carro novo do pai, a madrugada de um travesti na Praça Paris, o paradoxo do folião triste em pleno carnaval, o último dia de trabalho de um homem que se aposenta... Pequenas humanidades, que parecem hoje solapadas sob o recurso fácil da violência. O livro teve como norte uma frase do Ítalo Calvino, em As cidades invisíveis. Ele observa que o inferno, se existe, é aquele que vivemos aqui, dia após dia, estando juntos. A questão, pois, seria procurar, dentro do inferno, o que não é inferno. Meus contos encenam justamente essa procura.
Suas histórias surgem como? Você foi sempre contista?
Sempre escrevi contos. As histórias surgem das formas mais variadas, mas são sempre ligadas à barra dura e deliciosa de se viver. Sou crítico da literatura auto-referente, que se fecha em si e esquece de olhar (e experimentar) a vida. O escritor tem que sair de casa, largar um pouco o computador. É preciso não só olhar a rua, mas mergulhar nela; é preciso estar com as pessoas. Às vezes tenho também a impressão de que a ‘cor local’ foi excomungada em nossa literatura. Na pretensão de assumir uma postura ‘cool’, muitos autores fazem questão de apagar qualquer marca identitária de seus textos. Acham que isso indica cosmopolitismo, quando na verdade evidencia é um indisfarçável complexo de vira-latas.
Como você vê o conto atualmente? Tem muita gente nova escrevendo?
Certamente há muita gente escrevendo contos, e a internet trouxe uma grande facilidade de publicação. Até por conta do tamanho, o conto foi gênero muito beneficiado pela rede virtual – que não comporta, por exemplo, um romance, pela natural dificuldade da leitura demasiado longa. É claro que isso não implica necessariamente qualidade, embora haja ótimos contistas na novíssima geração. Destacaria o João Anzanello Carrascoza, de São Paulo; o Flávio Izhaki, do Rio de Janeiro; o Amilcar Bettega Barbosa, do Rio Grande do Sul; e o Rubens Figueiredo, também do Rio, este já mais veterano.
Escrever te dá algum prazer, ou é pura catarse?
A fase propriamente dita da escritura não é prazerosa, não. Prazer é ter escrito. Depois de pronto, burilar, trabalhar à exaustão. Por isso, não é pura catarse. É catarse, mas também suor. Dioniso e Apolo. Porque a ‘musa’ quase sempre precisa de uma lipoaspiração.
Você pretende continuar escritor? Já tem novos projetos?
Sinceramente, não acredito que ser escritor configure uma opção. Se fosse, quem o desejaria num país como o nosso, em que o não-estrangeiro praticamente não tem leitor, vende migalhas? Escrever no Brasil é dar murro em ponta de faca, mas talvez tenhamos mesmo uma porção masoquista. Ou sejamos de tal forma impelidos a fazê-lo que acaba não havendo escolha. No fim, o que vale mesmo é saber que alguém leu um conto seu e se emocionou, que seu texto foi capaz de tocar uma pessoa da mesma maneira que um dia o texto de outro autor o tocou. É isto o que importa, muito mais do que prêmios literários (em geral, viciados), matérias em jornal ou convites para eventos, essa ‘fumaça’ que às vezes envolve e ilude. Aprendi que devemos ter sempre à vista a noção da nossa desimportância.
Meus novos projetos são um livro infantil, que devo entregar à editora ainda este ano, e um trabalho na linha do Raymond Carver, em que várias histórias (ou vários contos) se interligam. Como diria o Cony, uma espécie de ‘quase-romance’, que se desenrolará numa pequena vila de casas com moradores de classe média baixa. Como não vai se passar em Cabul, certamente não entrará na lista dos mais vendidos.
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