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Digressiono, digressiono Escrito em 07 de novembro de 2007
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Sim, este é um post pessoal. Pessoalíssimo, aliás. É que ando pensando muito sobre as questões que o Paulo Polzonoff têm comentado no site dele. Para quem não sabe de quem se trata, é um jovem crítico que se pretendeu o enfant terrible da literatura brasileira há uns poucos anos. Em seus textos, publicados em geral no jornal Rascunho, ele ‘descascou’ muita gente até que, de uma hora para outra, simplesmente desapareceu.

Pois bem: o Polzonoff parece ter passado esse tempo de sumiço refletindo sobre si mesmo e as ações passadas. E as conclusões, que me parecem tão dilacerantes quanto sinceras, fomentam atualmente uma grande virada na vida dele. Bacana. Sobretudo porque tocam num ponto que fiz questão de levantar na entrevista ao Estado de Minas (publicada aí embaixo): essa névoa que paira sobre o mundo literário, dando uma falsa impressão de importância a todos os que o integram.

O Henrique Rodrigues, um irmão querido que ganhei, sempre bate nessa tecla, lembrando que o mais importante é ter em mente aquilo que nos levou a escrever. Que o acessório é isso: apenas acessório. De fato, a noção do que é central às vezes escapa. Pior: às vezes a gente começa a considerar o que é acessório, central. E nessa confusão acaba confundindo também as relações de afeto construídas no compartilhamento de ofício com relações de outra natureza. Falo de cadeira, porque houve pelo menos uma amizade que se esfarelou ante a fumaça espessa das “exigências do mercado”.

(Houve também – e felizmente – amizades que só se sedimentaram).

Fiquei matutando sobre tudo isso porque comecei a me questionar sobre a razão de existência deste blog. Sei que muitos julgam cabotino ter um site próprio. Sei que nem sempre o meu jeito de ser é compreendido: tenho lá minhas paixões e uma vontade imensa de dividi-las com as pessoas, de tentar acender nelas uma sensação semelhante a que experimentei em alguma circunstância ou momento de fruição estética. Sei também que a internet pode ser um território hostil. Há pelo menos um indivíduo que volta e meia entra aqui e deixa os comentários mais ofensivos, relevando um ódio cuja raiz desconheço.

Além de tudo, dá um trabalho danado manter o blog atualizado, o que faço em respeito a todos os que gastam alguns segundos preciosos do seu dia para acessar o Pentimento e conferir o que escrevi. Mesmo quando não há inspiração alguma, mesmo quando a fase é de desilusão com a literatura, o jornalismo etc. (e não são poucas as fases assim), procuro colocar algum post. Às vezes é duro, porque a inocência acabou - sei como as coisas funcionam, para o bem e para o mal. E a falta de inocência não raramente implica falta de tesão para fazer as coisas.

(Não tenho nenhuma esperança de escrever crônica em jornais ou revistas. Já tive, mas não fui escolhido, e isso não me dá o direito de desdenhar das escolhas feitas. Fico sinceramente feliz por quem merecia e conseguiu chegar lá.)

Talvez – e apenas tateio a explicação – o motivo de manter o blog seja o mesmo que justifique o fato de insistir (sem o mesmo entusiasmo de antes, confesso) em criar meus contos: saber que alguém, em algum lugar, se identificou ou ficou minimamente tocado com as minhas palavras. Eis a suprema, e quase esquecida, (in)utilidade delas, as palavras.

Outro dia, a Claudia Lamego confessou, no Lameblogadas, um dilema semelhante. E eu repiso aqui o que anotei lá: não foram poucas as opotunidades em que entrei no blog dela e vibrei com um post. Assim como o bom humor da Rosana Caiado, no Pseudônimos, já me salvou de um momento desanimado. Ou como os belos textos do Carlos Andrezza, no Tribuneiros, já fizeram escorrer, em tantas ocasiões, lágrimas dos meus olhos. Lágrimas de compartilhamento.

Quero acreditar que há instantes nos quais as pessoas entram aqui e, com o coração desarmado, se divertem, se identificam, se emocionam. Que, de certa forma, dá-se uma efetiva troca de generosidade, algo raro, raríssimo, nos dias que correm. Ao contrário de exacerbação do individualismo, como acusam os profetas da catástrofe, os blogs podem configurar, sim, espaços de afeto, onde mesmo a dor é mitigada pela evidência de seu caráter comum (embora paradoxalmente particular: uma interseção que nunca é soma).

Então, como não quero perder a vibração da Claudinha, o humor da Rosana, a agudeza do Andreazza e os predicados de tantos outros amigos que mantêm seus espaços, penso que devo preservar também o Pentimento, com suas marcas singulares, com suas fraquezas e qualidades. Sei que, como diria o Dapieve, ‘digressiono, digressiono’. Mas às vezes a gente tem direito a um desabafo, né?

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