
Vai acontecer hoje a amanhã, no Centro de Referência da Música Carioca, a I Feira Carioca do Samba. O evento reunirá artistas de primeiríssimo time num show que pretende contar, passo a passo, a história do gênero. Vó Maria, viúva de Donga, será a grande homenageada.
No espetáculo, com roteiro dos amigos Hugo Sukman e Cláudio Jorge, estarão Luiz Carlos da Vila, Cláudio Jorge, Dorina, Ana Costa, Moacyr Luz, Mariana Baltar, Ovídio e Rogério Caetano. O repertório conta com sambas de Candeia, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro e Chico Buarque, entre outros. Além dos show, a Feira incluirá uma exposição com fotos da Velha Guarda, feitas por Bruno Veiga, roda de samba e venda de livros e CDs. O evento será filmado pelo Canal Brasil.
Ou seja, trata-se de uma ótima pedida, sobretudo para quem nunca foi ao Centro de Referência - um belo sobrado encravado no coração da Muda, que ficou ainda mais charmoso após a recente reforma feita pela Prefeitura. O endereço é Rua Conde de Bonfim, 824 (esquina com Rua Garibaldi). O ingresso do show, que começa às 18h30 hoje e às 18h amanhã, custa R$ 20.
Começa hoje e segue até domingo a edição de 2007 da Primavera dos Livros, evento já tradicional promovido pela Liga Brasileira de Editoras (Libre). Neste ano, o evento rolará nos jardins do Museu da República e, como de costume, as editoras vão oferecer lançamentos e títulos de seus catálogos com ótimos descontos. Isso de fato acontece: já consegui comprar livros pela metade do preço na Primavera.
Na programação, estão previstas palestras tão variadas quanto a do embaixador Alberto da Costa e Silva sobre A vinda da Família Real ao Brasil e a do biólogo Mário Moscatelli em torno de causas e ações para reversão do quadro de degradação ambiental do Rio. Especificamente na área literária, destaco a palestra de Silviano Santiago sobre Monteiro Lobato.
Outra ótima pedida é a Mesa do Patrono , que reunirá o homenageado - o grande Antonio Torres – e a editora Luciana Villas Boas, com mediação de Thereza Cristina Motta. Após a conversa, Torres lançará o livro Do Palácio do Catete à venda de Josias Cardoso. Para quem curte poesia, haverá um pequeno festival, com a participação de Geraldinho Carneiro, Chacal, Mano Melo, Tavinho Paes e dos amigos Henrique Rodrigues, Gabriela Marcondes e Bráulio Neto.
A programação completa e mais informações sobre a Primavera podem ser obtidas aqui.
Hoje, às 17h30, a Academia Brasileira de Letras abre suas portas para o último dia do seminário Brasil, brasis. E se o evento ganha espaço aqui no Pentimento, é porque o tema dessa derradeira edição tem grande relevância e, sobretudo, muita ginga: os acadêmicos José Murilo de Carvalho (excepcional historiador) e Alberto da Costa e Silva, o jornalista Leonardo Dantas e os músicos Nei Lopes, Nelson Sargento e Lenine conversarão sobre Ritmo e poesia: samba no pé, samba no verso. O debate tem entrada franca e contará com transmissão ao vivo pelo portal da ABL.
"Indico Fica comigo esta noite, livro de contos da portuguesa Inês Pedrosa. A narrativa é densa, rica em detalhes e consegue transportar o leitor para diferentes cenários. O livro fala de encontros, desencontros, histórias interrompidas por linhas paralelas, coincidências inesperadas, perdas e diferentes formas de amar. São 12 histórias curtas, próximas do nosso dia a dia e das suas surpresas das esquinas. Para ler em finais de tarde, com sol ou chuva, mas sempre munida de uma xícara de chá".
* Jornalista e escritora. Co-autora dos livros 'Paralelos - 17 contos da nova literatura' e '46 livros de moda que você não pode deixar de ler'. Atualmente, mantém o blog Desfio.
Dia desses recebi um e-mail através do link de contato aqui do blog. Quem assinava era o Thales Ramos, e ele informava sobre o site que vem mantendo com a ajuda de três amigos e cujo conteúdo agora ganhará versão impressa na forma de um jornal com oito páginas. Fui lá conferir e digo a vocês: O Samba.Net é um trabalho de primeiríssima, com notícias e comentários relevantes e variados sobre o formidável universo que cerca o gênero.
Nos últimos posts, por exemplo, abordam o disco de estréia do Diogo Nogueira, a participação de mestre Aluísio Machado (glória do Império Serrano) num show do Casuarina e o conjunto Terreiro Grande, que acompanhou Cristina Buarque em seu mais recente CD.
O blog de Thales e Cia entra imediatamente para a lista de links indicados do Pentimento.
Vai acontecer amanhã (quarta-feira), às 19h, na Sala Baden Powell, uma espécie de avant première do disco de estréia da Thaís Motta. No show, a cantora terá a companhia dos músicos Marvio Ciribelli (arranjos e piano), Rogério Fernandes (baixo), Cesar Machado (bateria), Marcelo Salazar (percussão) e Tino Jr (sax e flauta), apresentará as canções que fazem parte do CD Minha estação.
As composições são assinadas por Fred Martins, Chico Bosco, Marcelo Diniz, Altay Velloso, Paulo César Feital, Mário Sève e Geraldinho Carneiro, entre outros. O repertório incluirá também a canção O som do samba, que fiz em parceria com Arthur Maia, Marvio Ciribelli e a própria Thaís.
Há, nesse nosso Rio de Janeiro tão maltratado pelo descaso administrativo, pela violência, pelo deslumbramento noveau riche, uma cidade que escapa à vista mais geral. Uma cidade que, por vezes, foge aos olhos de seus próprios cronistas - e resplandece em pequenos eventos, atitudes, lugares. No sábado passado, esse Rio se fez presente ali na Rua do Ouvidor, onde rolavam os lançamentos do livro Noites de sábado, do Luís Pimentel, e do disco Malandros maneiros, do Zé Luis do Império.
Eu conto, eu conto. Já no fim da tarde, o samba ainda comia solto na roda promovida pela Livraria Folha Seca. Nas mesinhas espalhadas pela histórica rua, as pessoas tomavam suas cervejas e conversavam. Além dos freqüenntadores habituais, como Loredano e Rosana Lobo, Álvaro 'Marechal', Luiz Antônio Simas, Paulo Thiago de Mello, Tiago Prata, Hugo Sukman e Cesar Tartaglia, estavam lá vários outros amigos, como o casal Fernando Molica e Barbara Pereira.
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Os primeiros padrinhos a chegar: "mais uma, por favor"
Foi quando rapazes finamente trajados - terno preto, calça cinza e gravata - entraram no boteco no qual bebíamos. Em seguida, chegaram duas moças, ambas enfiadas em vestidos 'bolo de noiva'. Aos poucos, mais engravatados se juntaram ao grupo, que entornou várias garrafas de cerveja. Soubemos, então, que eram convidados de um casamento que se daria, em menos de uma hora, na Igreja de Santa Cruz dos Militares, localizada na vizinha Primeiro de Março.
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Grupo formado, as cervejas eram esvaziadas em seqüência
Diante da hilária situação, o pessoal optou pelo quase inevitável: convocar o noivo. Fomos informados de que ele se chamava Horácio e não demorou para que começasse o grito: "Horácio, cadê você, eu vim aqui só pra te ver!" Passaram-se alguns minutos e o Horácio despontou na esquina. O grito mudou: "Ih, fudeu, o Horácio apareceu ô!"
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O grupo se junta à roda comandada pelo Zé Luiz do Império
Chamado por praticamente toda a Rua do Ouvidor, o noivo se aproximou e, seguido de perto pelo fotógrafo oficial da cerimônia, juntou-se aos padrinhos (que ainda bebiam). Horácio e seus convidados, àquela altura efusivamente saudados pelo povo, ainda tomaram a saideira e ouviram um pouco do samba que o Zé Luiz cantava antes de ir, enfim, para a igreja. Só faltou mesmo a noiva, Renata, que decerto não esperava tantos convidados extras em seu casamento.
A história também foi comentada pelos coleguinhas Paulo Thiago, Cesar Tartaglia e Aydano André Motta, e pelo nosso professor Simas, todos eles testemunhas do caso, em seus respectivos blogs.
Foi por indicação do amigo Carlos Andreazza que cheguei ao livro A maleta do meu pai, de Orhan Pamuk. Recém-lançado pela Companhia das Letras, o pequeno volume reúne três conferências do autor turco, que ganhou o Prêmio Nobel em 2007. Nos textos, Pamuk faz reflexões sobre o ofício do escritor, passando por velhas questões como inspiração x transpiração, centro x periferia, nacional x estrangeiro com clareza e elegância.
Gostei, sobretudo, da primeira parte do livro, que traz o discurso do autor na cerimônia de entrega do Nobel. Pamuk lembra da ocasião em que o pai lhe entregou uma maleta, que ele deveria abrir somente quando o velho morresse. O escritor expõe sem medo os temores que lhe assaltaram. O que a maleta, certamente recheada pelos cadernos que o pai preencheu durante anos, revelaria? Uma secreta genialidade? Um fracasso silencioso? Alegrias ou aflições?
Em seguida, diz ter sentido uma espécie de 'vergonha' por ter tais pensamentos "às custas do pai". "Logo dele, que nunca me causara nenhuma dor - que me dera liberdade. Tudo isso deve nos lembrar que a escrita e a literatura estão intimamente ligadas a uma carência no centro da nossa vida, e aos nossos sentimentos de felicidade e de culpa", afirma Pamuk, que encerra o texto de forma comovente (e por isso mesmo não vou entregar o final aqui).
Fica a dica.
Foi bonita e, acima de tudo, merecida a classificação do Flamengo para a Libertadores, numa grande arrancada final. A comemoração da torcida é, portanto, justíssima. Só me pergunto qual o objetivo daquela patética encenação com taça e papel picado ao fim do jogo. Ao que me consta, o atual time não conquistou o título do Brasileiro. O Campeonato de 1987, por sua vez, foi ganho por outros jogadores, e estes não estavam em campo ontem.
O que espanta é constatar que o espetáculo da entrega de troféu foi promovido pela Suderj. Ou seja: deu-se um caráter 'oficial' a uma farsa populista. Bom, talvez não espante tanto quando lembramos que o presidente da entidade, o mauricinho Eduardo Paes, é pré-candidato à Prefeitura do Rio. Quantos votos estão em jogo?
A falta de legitimidade (e mesmo o ridículo) do evento de ontem remete a episódios de triste memória, como a volta olímpica do Vasco com a caravela no Estadual de 1990 ou a champanha estourada pelo presidente do Flu, Álvaro Barcellos, em 1996, quando houve a virada de mesa que evitou a queda do clube à Segundona.
Que a efusiva comemoração não embace o bom senso. No mais, torçamos para que haja um histórico Fla x Flu na Libertadores do ano que vem.
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Zé Luiz comandará a roda na Rua do Ouvidor
A melhor pedida do sábado é, sem dúvida, a roda de samba promovida pela Livraria Folha Seca, do grande rubro-negro Rodrigo Ferrari. O evento marca uma dupla comemoração: os lançamentos do livro Noites de segunda, de Luís Pimentel, e do disco Malandros maneiros, do amigo Zé Luiz do Império. O CD do Zé, um imperiano que honra a escola ao carregá-la no nome, ganhou novo projeto gráfico.
Os trabalhos começarão às 13h e, se bem conheço o povo, devem se estender por toda a tarde. A Folha Seca fica na Rua do Ouvidor, 37 (entre a Rua Primeiro de Março e a Travessa do Comércio), no Centro.
"Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar.
Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observarnos. Chegará. Hei-de distingui-lo no horizonte".
* Trecho do romance 'Nenhum olhar', de José Luiz Peixoto
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Luiz Fernando e Antônio Cícero: presenças confirmadas
Terá início depois de amanhã a série Sextas com letras, ciclo composto por quatro encontros sobre assuntos ligados à cultura, realizados sempre na hora do almoço (das 12h30 às 13h30) no Teatro do Centro Cultural Light. Nesta sexta, o crítico Rodrigo Fonseca e o diretor Luiz Fernando Carvalho debaterão A literatura brasileira no cinema.
No dia 30, os escritores Carlos Heitor Cony, Ana Lee e Rosa Amanda Strausz comversarão sobre Literatura infantil - O que as crianças gostam de ler. Antônio Cícero e Jorge Mautner serão as atrações do dia 7, no painel Letra de música é poesia? As atividades se encerrarão no dia 14, com a leitura do conto O peru de Natal por Michel Memaled, com comentários de Affonso Romano de Sant’Anna.
O Centro Cultural da Light fica na Av.Marechal Floriano Peixoto, 168 – Centro, e o ciclo de palestras tem entrada franca.
"Ando apaixonado pelas trilhas sonoras de Alexandre Desplat. E a prova de que não estou sozinho é que Stephen Frears, Ang Lee e Jacques Audiard, entre outros, apelaram ao seu refinado senso de melodia, harmonia e clima para rematar os últimos filmes deles. Pensando em trilhas num formato mais ou menos tradicional, não tem pra ninguém hoje em dia. Tente se lembrar da música-tema de A moça com o brinco de pérola ou da trilha magistral de A rainha. Suas valsas se impregnam na memória, a delicadeza de seus temas colore sem sublinhar. Em O despertar de uma paixão e em Lust, caution, ele esnobou as sugestões 'orientais' e compôs obras-primas puramente cinemáticas. Um amigo me trouxe esses dois CDs de Nova York e eles grudaram no meu player. O Amazone de Philippe de Broca (2000) deve ser um horror, mas eu derrubaria umas dez árvores para ouvir a trilha de Desplat".
* Jornalista e crítico de cinema. Autor de vários livros, entre eles 'Eduardo Coutinho - O homem que caiu na real' e 'Walter Lima Júnior: Viver cinema'
O Jornal de Hoje, de Natal (RN), publicou na segunda retrasada a entrevista que o repórter (e também escritor) Carlos Fialho fez comigo. Segue a íntegra:
"O retrato de uma geração"
"No Rio de Janeiro, quando apontavam no horizonte os anos 2000, os cidadãos cariocas, assim como todas as pessoas do mundo, esperavam todas as mudanças e revoluções inerentes à mudança milenar do calendário. A reviravolta cultural, social e tecnológica não veio, assim como também não aconteceu o bug do milênio. Mas o Rio seguia sua efervescência histórica na música, nas pistas de dança e na telona. Bandas como Planet Hemp e Rappa estavam no auge; os surpreendentes Los Hermanos e Matanza surgiram e conquistaram o Brasil; DJs gringos e brasileiros tinham a cidade como parada obrigatória; o Festival de Cinema do Rio se tornou o principal evento do gênero no país e a periferia da cidade ganhou o mundo com o histórico “Cidade de Deus”. Pouca gente notou, mas na Literatura, a mais discreta das artes, também cumpriu um importante papel na revelação de nomes importantes para a renovação do cenário cultural carioca. Foram revelados nomes como João Paulo Cuenca, Cecília Gianetti, Adriana Lisboa e Henrique Rodrigues. Em meio a essa geração, um nome surgia com sua prosa diversificada e muito bem elaborada. Este autor é Marcelo Moutinho, que lançou recentemente o livro de contos “Somos todos iguais esta noite” (Editora Rocco). Moutinho concedeu entrevista ao JH 1ª Edição e falou um pouco sobre sua geração, seus livros e o trabalho incansável de um escritor iniciante no Brasil.
Quando você percebeu que se tornaria escritor?
Sinceramente não sei. O que posso afirmar é que sempre me interessei por tudo o que fosse ligado à palavra. De início, histórias em quadrinhos e letras de música. Mais tarde, livros políticos (cheguei a militar no movimento estudantil). A literatura de ficção entrou na minha vida já na adolescência.
Como foi que isso aconteceu?
O passo em direção à publicação se deu de uma forma muito comum, sobretudo no início dos anos 00: co-editei meu livro de contos com a 7Letras. O panorama naquela época era muito mais sombrio do que o de hoje. Não havia contato entre os escritores das diversas partes do país, nem mesmo no âmbito dos estados. No Rio, por exemplo, ninguém se conhecia. Em suma, não existia uma ‘vida literária’.
Quais livros você lançou até agora? E de quais você participou?
Lancei Memória dos barcos (7Letras, 2001) e Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006). Além disso, organizei as antologias Contos sobre tela (Pinakhoteke, 2005) e Prosas cariocas: uma nova cartografia do Rio (Casa da Palavra, 2004), esta em parceria com o Flávio Izhaki. Nas duas seletas, incluí apenas textos inéditos e de autores em começo de carreira. Ou seja, em ambas, a idéia era apresentar um recorte da produção contemporânea. Neste mês (outubro), está sendo lançada outra antologia – 35 segredos para chegar a lugar algum -, da qual participo a convite da Ivana Arruda Leite. É uma espécie de gozação com a auto-ajuda.
Quando sua geração de escritores começou a surgir no Rio, você tratou de correr atrás para tentar mobilizar a turma de alguma forma. Foi aí que organizou o livro “Prosas Cariocas”. Que nomes presentes na coletânea você destacaria?
Como sou um dos organizadores do livro, não seria ético destacar apenas alguns. Então cito todos: Adriana Lisboa, João Paulo Cuenca, Flávio Izhaki, Henrique Rodrigues, Bianca Ramoneda, Cecília Giannetti, Antonia Pellegrino, Sidney Silveira, Juva Batela, Mariel Reis, Marcelo Alves, Augusto Sales, Mara Coradello, Vinicius Jatobá, Ana Beatriz Guerra e Miguel Conde.
Considerando que a literatura seja o registro de uma época, que aspectos do Rio de Janeiro há na literatura desses autores, seus contemporâneos?
Sinceramente, acho que os estilos são muito distintos para se querer fazer um corte desses. Só lamento que cada vez menos a cidade esteja presente na ficção. Me parece que há uma tendência em querer apagar os traços locais em nome de um cosmopolitismo meio vira-lata. Como se Fernando Pessoa, ao aludir à Estrada de Sintra, só falasse aos portugueses. No meu caso, tenho buscado destacar cada vez mais – e de forma deliberada – essa cor local. Não tenho pretensões em ser um escritor de Primeiro Mundo.
Aliás, seus contos, em particular, têm muito da cidade. É uma prosa carioca por excelência. Que Rio de Janeiro está descrito em seus contos?
Um Rio de Janeiro imaginário, que, como toda paisagem ficcional, tem nuances de realidade. Aquele é o Rio de Janeiro dos meus personagens, um Rio de agudas e pequenas dores e de alegrias, e sem nenhum verniz de violência crítica. O que tentei fazer foi dar mais um lance na tentativa de reaproximar a literatura da vida. Porque hoje há muita egotrip narrativa. A prosa infelizmente começa a repetir um caminho seguido pela poesia, que é se fechar em si mesmo. Dá vontade de gritar: vivam!
“Somos Todos Iguais Nesta Noite” é o seu segundo livro de contos, motivado por sua volta ao subúrbio de sua infância. Conte um pouco sobre essa experiência e como você a trouxe para o livro.
Pois é. Nasci e cresci em Madureira, subúrbio do Rio e terra de duas de suas maiores escolas de samba, o Império Serrano e a Portela. Foi justamente a reaproximação com o meu Império que me levou de volta ao bairro depois de muitos anos. E o choque de experimentar o contraste entre a Madureira em que vivi e a de hoje foi o elemento detonador do livro. Talvez por isso, a infância seja um elemento bastante presente nos contos.
Você afirmou certa vez que, além de escritores como Dostoyevsi, Camus e Caio Fernando Abreu, suas influências também são Chico Buarque, Iberê Camargo, Woody Allen. De que maneira, outras artes podem se aderir à escrita?
Da mesma maneira que a própria literatura. É ilusório pensar que não somos influenciados por outras artes, cuja fruição estética, embora distinta, pode nos abalar tanto quanto um bom livro. Foi para ressaltar e estimular essa interpenetração, aliás, que organizei o Contos sobre tela, no qual os autores foram desafiados a criar narrativas a partir de pinturas.
Apesar de já ter dois livros próprios e de ter sido publicado em coletâneas nacionais, você ainda luta bastante para ter seus livros divulgados e bem distribuídos. Quais as dificuldades do escritor nessa dura tarefa em busca de leitores?
A dificuldade é total, porque o atual quadro é desanimador. Há um erro grave das editoras brasileiras, que contratam livros gringos a altos custos e investem pouquíssimo nos autores nacionais. O resultado disso é que as ferramentas de marketing acabam direcionadas a essas obras, que precisam vender muito para justificar seus custos. Se observarmos as listas de mais vendidos dos últimos anos, perceberemos como o autor brasileiro é um forasteiro ali, muito diferentemente do que ocorria, por exemplo, nos anos 70. A verdade é que, infelizmente, a literatura brasileira perdeu a relevância e só respira – ainda assim, por aparelhos - porque os eventos que se multiplicam ao redor do país dão a ilusão de que há efetivamente um mercado consumidor.
Como você avalia a Bienal do Rio?
Foi ótimo, assim como são ótimos todos os eventos que permitem, de alguma forma, a aproximação entre a população e os livros. A nota negativa fica por conta do exagero de autores ligados a esses temas da onda “Cabul”. Já encheu a paciência, não? Uma literatura ‘politicamente correta’, que serve na verdade para apaziguar o espírito do leitor, levando-o a pensar: “Ah, como sou feliz de estar longe disso”.
E sua participação no evento? Como foi?
Descontado o nervosismo natural, acho que foi boa. Participei de uma mesa ao lado de um autor espanhol que tem um best-seller transcorrido na Idade Média (Ildefonso Falcones) e de um escritor especializado em cavaleiros templários (Orlando Paes Filho). Ou seja: um painel de um ecletismo admirável. O surpreendente é que, no final, tudo deu certo. Pelo menos pude falar do meu livro, coisa que sem sempre acontece nesses eventos.
Você está divulgando o seu livro mais recente, mas já começou a escrever o próximo?
E quando sai?
Já tenho algumas idéias sobre ele. Possivelmente, será algo na linha do Raymond Carver, com histórias que se intercalam. Aliás, o próprio Somos todos iguais nesta noite tem um pouco esse caráter, já que há minicontos interpostos entre as narrativas maiores, funcionando como uma espécie de costura. Para citar o Cony, digamos que será um ‘quase-romance’. "
1. Meu relativo sumiço se explica: passei uns dias em Nogueira, descansando, lendo, namorando, passando frio e tomando vinho. Eu e F. ficamos tão satisfeitos com a estada lá que faço questão de indicar aqui a Le Siramat . Trata-se de uma belíssima pedida para quem curte a serra: além de oferecer ótimas instalações e uma paisagem deslumbrante, a pousada conta com atendimento de primeira, ou seja, com gentileza e sem frescura. Felipe, o gerente-geral, revelou-se ainda um grande chef, assinando todos os pratos do delicioso restaurante do hotel. Vale a conferida.
2. Será aberta hoje, às 18h30, na Galeria do BNDES , a mostra em comemoração aos 100 anos de Oscar Niemeyer. Entre os destaques da exposição, estão um painel de 16 metros com diversas faces do homenageado e fotos históricas originais, que esboçam a trajetória de vida do arquiteto e do homem. A mostra, que fica em cartaz até 28 de dezembro, apresenta também imagens de coleções particulares, como a histórica imagem clicada por José Medeiros, que retrata Niemeyer, autor dos cenários, Vinicius de Moraes e sua mulher Lila Bôscoli, e Tom Jobim nos bastidores da estréia de Orfeu da Conceição no Teatro Municipal (foto acima). A Galeria do BNDES fica na Av. República do Chile, 100, no Centro.
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Domingos, um dos palestrantes no Sesc
3. Quem avisa é o André Luís Mansur: o Espaço Sesc (Rua Domingos Ferreira, 160 - Copacabana) vem sediando desde ontem o ciclo de palestras A literatura de si mesmo. Os convidados do evento são o escritor francês Philippe Vilain e os brasileiros Ferreira Gullar, Silviano Santiago, Gustavo Bernardo, Cecilia Costa e Tania Alice Feix, além do diretor de teatro/cineasta Domingos de Oliveira.
As palestras abordam a polêmica "autoficção", termo inventado pelo escritor francês Serge Doubrovsky para cunhar obras de ficção pontuadas pelos dados autobiográficos de seus autores. Silviano, Vilain e Tânia Alice falaram ontem. Hoje, será a vez de Domingos de Oliveira (às 19h30) e Gustavo Bernardo (20h30). FInalizando o ciclo, amanhã acontecerão as conferências de Ferreira Gullar (19h30) e Cecilia Costa (20h30). A entrada é gratuita.
Não foi pequena a minha surpresa, na quarta passada, ao ver o Cinematheke completamente lotado para assistir à segunda apresentação do projeto Mapa. Uma extaordinária experiência, aliás, que se tornou possível graças à imaginação e ao trabalho do Marcelo Magdaleno, da banda Canastra.
Os músicos comandados pelo Magdaleno - Pompeo (bateria), Roberto Medeiros (baixo), Marcelo Chaves (guitarra), Chiquinho Vaz (piano) -, com o reforço do trompetista Guilherme Dias Gomes e do baixista Edu Vilamaior - fizeram uma 'cama' sonora e improvisaram enquanto eu, Henrique Rodrigues e Cabelo líamos nossos textos.
O HR, grande destaque da noite, recorreu aos ótimos poemas de seu A musa diluída. Mais calejado em termos de palco, Cabelo praticamente transformou em rap suas poesias. Como meus escritos são em prosa, preferi me ater a dois minicontos e a uma versão editada de Sexta-feira de cinzas, conto que integra o livro Somos todos iguais nesta noite e gira em torno da viagem introspectiva de um personagem no pré-carnaval.
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Marcelo Magdaleno batuca em sua máquina de escrever
Confesso que temia sobretudo com relação à funcionalidade desse texto, já quese tratava de uma narrativa mais longa. Mas a banda teve uma bela sacada: além de usar uma canção adequada ao tema do conto - É com esse que eu vou -, recorreu a expedientes criativos, como a percussão feita na máquina de escrever, para sublinhar a conexão entre música e palavra.
P. S: Sobre a noite de quarta, o amigo Paulo Thiago de Mello escreveu um gentilíssimo post em seu blog Pindorama. Paulo esteve no Cinematheke e relata, num longo texto, a emoção que o espetáculo lhe causou.



No supersábado passado, estive com um grupo imenso de amigos na quadra do Império Serrano, onde conferimos as fantasias para o carnaval de 2008. Gostei do que vi: a escola vem leve e solta, bem adequada ao enredo (Carmen Miranda) e ao horário do desfile (entraremos na Sapucaí ao amanhecer). Adequada também ao crônico problema da falta de grana, que os imperianos precisam compensar com a garra e a dedicação que o pessoal da Serrinha demonstrou, por exemplo, na finalíssima da escolha do samba-enredo.
Essas fotos aí de cima, que retirei do site Carnavalesco*, retratam algumas das fantasias. A da Ala dos Devotos, que custa R$ 250 (em três vezes sem juros), é a primeira da série.
* Exceção para a foto que abre o post, de mestre Átila comandando a bateria, tirada pela F. Se vocês observarem bem, notarão que ninguém menos do que Bin Laden estava na quadra. Bush não imaginaria...
“Indico o novo livro do ficcionista e jornalista Mario Pontes, Elementares - Notas sobre a história da literatura policial, recém-lançado pela Odisséia. Gerações de jornalistas foram pupilos do Mario no antigo JB, no qual ele era responsável pelas seções de livros. Eu fui um deles e, com este trabalho, continuei aprendendo com ele, em particular sobre uma de suas paixões, a literatura policial. Ele pegou textos já publicados, adicionou inéditos, deu uma sistematizada neles e compartilhou conosco grandes sacadas sobre a história deste gênero de literatura, não raro ainda subestimada, apesar das obras-primas que já gerou... Como um bom detetive, o Mario descobriu as motivações profundas que levaram os autores a cometerem seus livros. Para quem nunca leu ou nunca parou para pensar no assunto, creio que Elementares funcionará como uma bússola neste vasto território”.
1. Hoje, enquando dava minha pedalada matinal, assisti a trechos da entrevista que o Paulo Francis fez com o recém-falecido Norman Mailer: uma beleza de conversa entre duas inteligências. Em certo momento, Francis lhe pergunta sobre sua relação com as mulheres e a família, e Mailer responde mais ou menos isso: "Cada mulher é uma cultura inteira. Pablo Picasso teve sete diferentes fases em sua pintura graças às sete grandes mulheres com quem viveu. Na literatura, também funciona assim, não há como evitar influência daquela com a qual nos relacionamos, e que inevitavelmente nos transforma".
Francis insiste e indaga ao autor americano se as pessoas próximas aparecem de alguma forma em seus livros, se costuma utilizá-las para criar seus personagens. Mailer, então, dá uma daquelas explicações que a gente não esquece mais. Diz ele que aqueles que nos rodeiam funcionam como cristais; que, através deles, um escritor pode fazer atravessar a luz, mas sempre com novas matizes, tonalidades, nuanças.
2. Por falar em entrevista, recomendo a leitura da matéria de capa do Prosa & Verso (O Globo) de sábado passado. O texto trata do livro Vira e mexe, nacionalismo, de Leyla Perrone-Moysés. Estou lendo o interessante estudo a professora, que investiga o nacionalismo na literatura com a clareza e a erudição que lhe são habituais, e posso assegurar que as perguntas do Miguel tocaram nos pontos essenciais de seu trabalho.
O repórter é sagaz sobretudo quando assinala aquele que considero um dos poucos desequilíbrios do livro: o nacionalismo exagerado é criticado pela autora com muito mais veemência do que o seu extremo oposto, o servilismo cultural. Leyla não admite o fato, mas seu estudo deixa isso bem patente. Para ler a matéria do Miguel e a entrevista, clique aqui (só que precisa ser assinante do jornal ou do Globo On Line).
3. Quem convoca é o Marcelino Freire: "Convido a todos para participarem da segunda Balada Literária, com entrada franca, que acontece de 15 ao 18 de novembro em vários espaços da Vila Madalena, em São Paulo". Neste ano, a Balada é organizada por ele e pela escritora e tradutora Maria Alizira Brum Lemos, e fará uma homenagem ao poeta Roberto Piva. "Já estão confirmadíssimas as participações de David Toscana, Mario Bellatin, João Silvério Trevisan, Glauco Mattoso, Tony Bellotto, Bráulio Tavares, Lirinha, Carola Saavedra, Ana Paula Maia, Ferréz e do angolano José Luandino Vieira, entre outros", adianta Marcelino. Mais informações aqui.
4. O número de acessos ao Pentimento aumentou muito nas últimas semanas. A média, hoje, é de 8 mil mensais. Agradeço sinceramente a todos pela gentil e freqüente leitura.
Começou na semana passada e terá seguimento na quarta-feira o projeto Música + Poesia = Mapa. A proposta de seu idealizador - Marcello Magdaleno, saxofonista do grupo Canastra - é promover um encontro entre músicos, prosadores e poetas, com um formato simples. No palco, uma banda toca músicas instrumentais e cantadas, misturando, por exemplo, a melodia de Cantaloupe Island, de Herbie Hancock, com a letra de Samba da Bênção, de Vinicius de Moraes. Entre as canções, os escritores lêem seus textos, num clima de certo improviso.
Na primeira etapa, passaram pelo Cinematheke Jam Club (Rua Voluntários da Pátria 53, Botafogo) os poetas Chacal e Pedro de Hollanda. Na próxima quarta, eu, Henrique Rodrigues e Cabelo estaremos lá, contando com o auxílio luxuoso do trompetista Guilherme Dias Gomes e do baixista acústico Edu Vilamaior. Completam a banda Pompeo (bateria), Roberto Medeiros (baixo), Marcelo Chaves (guitarra), Chiquinho Vaz (piano) e o próprio Marcelo Magdaleno (sax e voz).
As atividades começarão às 22h, e os ingressos custam R$ 10.
Na sexta passada, eu e Henrique Rodrigues participamos do projeto Amigos da Escola, conversando sobre literatura com alunos de dois colégios públicos na Escola Municipal Câmara Cascudo, em Realengo. Confesso que, de início, me assustei com a responsabilidade de falar para gente tão jovem - os meninos estão entre a terceira e a quarta séries e não teria sentido, por exemplo, ler trechos dos meus livros para eles, pela natural ininteligibilidade. Vencido esse susto, no entanto, a experiência acabou se revelando extraordinária, e isso se deu justamente por alguns daqueles temas levantados no post Digressiono, digressiono.
Explico: depois de ler os poemas infantis do livro do HR, mostrando as pinturas que os inspirararam, decidimos fazer uma pequena oficina de prosa. Explicamos a estrutura básica de uma narrativa e dividimos a garotada em grupos de cinco integrantes. Cada componente ficou responsánvel por inventar uma parte da relato, para que chegássemos a uma narrativa coletiva e, assim, todos tivessem ao menos uma idéia sobre como nasce uma história. Ao fim, eles leram suas criações.
(Um incisivo exemplo da época cínica em que vivemos: ao comentar que iria com um amigo a esse encontro em Realengo, ouvi de uma pessoa: "Vocês acham que esses estudantes, mesmo quando crescerem, vão comprar os livros de vocês?". Como se fosse essa a questão...)
Naquela bela tarde rolou, de certa forma, um breve contato com as razões mais fundas que levam alguém - e decerto levaram a mim - a enveredar pela literatura. Com suas perguntas originais, cheias de pertinência, e os olhos envernizados pelo brilho da descoberta, os meninos na sala-de-aula me fizeram lembrar o garoto que um dia fui - e que vestia um uniforme parecido.
Possibilitaram também que eu (re)experimentasse, ainda que sutilmente, o sentimento virgem de fascínio pela formidável liberdade que a imaginação pode ensejar. Imaginação para comprender, mas também para se escudar da vida. Imaginação tão ou ainda mais necessária para quem, como eles, é obrigado a aprender desde cedo o doloroso sentido da palavra 'carência'. Pouco glamour, muita intensidade.
Eu e Henrique nos comprometemos a comparecer a outras escolas públicas fazendo esse trabalho voluntário - que, aliás, o HR já vem realizando há algumas semanas. Convocamos outros escritores a tomar parte do bonde no cronograma que será feito para 2008.
"Micropaisagem"
"seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor."
"Vento"
"As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras".
"Aço na forja dos dicionários
as palavras são feitas de aspereza:
o primeiro vestígio da beleza
é a cólera dos versos necessários".

"Minha dica é a 12ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, que começa hoje, com sessões no Cinema Espaço Museu da República e na Caixa Cultural. Juro que não é porque tem filme meu e de minha mulher Anna Azevedo na programação (O Evangelho segundo Seu João e O homem-livro, respectivamente), mas porque é um festival onde a gente sempre encontra algo surpreendente. As sessões não costumam botar gente pelo ladrão, o que é outra vantagem. Talvez porque as pessoas acreditem que é uma mostra muito específica, o que é um erro, já que o conceito de filme etnográfico é bem abrangente. Como antepasto eu indico Os mestres loucos, do papa do gênero, o francês Jean Rouch, que saiu em DVD da Videofilmes junto com outra obra-prima do diretor, Eu, um negro. O filme, rodado em 1955, é um perturbador estudo sobre a influência do processo civilizatório nos povos africanos. É um filme que nos ajuda a entender a tragédia africana".
* Eduardo Souza Lima, o Zé José, é jornalista e cineasta. Dirigiu, com Anna Azevedo, o documentário 'Rio de Jano'
Sim, este é um post pessoal. Pessoalíssimo, aliás. É que ando pensando muito sobre as questões que o Paulo Polzonoff têm comentado no site dele. Para quem não sabe de quem se trata, é um jovem crítico que se pretendeu o enfant terrible da literatura brasileira há uns poucos anos. Em seus textos, publicados em geral no jornal Rascunho, ele ‘descascou’ muita gente até que, de uma hora para outra, simplesmente desapareceu.
Pois bem: o Polzonoff parece ter passado esse tempo de sumiço refletindo sobre si mesmo e as ações passadas. E as conclusões, que me parecem tão dilacerantes quanto sinceras, fomentam atualmente uma grande virada na vida dele. Bacana. Sobretudo porque tocam num ponto que fiz questão de levantar na entrevista ao Estado de Minas (publicada aí embaixo): essa névoa que paira sobre o mundo literário, dando uma falsa impressão de importância a todos os que o integram.
O Henrique Rodrigues, um irmão querido que ganhei, sempre bate nessa tecla, lembrando que o mais importante é ter em mente aquilo que nos levou a escrever. Que o acessório é isso: apenas acessório. De fato, a noção do que é central às vezes escapa. Pior: às vezes a gente começa a considerar o que é acessório, central. E nessa confusão acaba confundindo também as relações de afeto construídas no compartilhamento de ofício com relações de outra natureza. Falo de cadeira, porque houve pelo menos uma amizade que se esfarelou ante a fumaça espessa das “exigências do mercado”.
(Houve também – e felizmente – amizades que só se sedimentaram).
Fiquei matutando sobre tudo isso porque comecei a me questionar sobre a razão de existência deste blog. Sei que muitos julgam cabotino ter um site próprio. Sei que nem sempre o meu jeito de ser é compreendido: tenho lá minhas paixões e uma vontade imensa de dividi-las com as pessoas, de tentar acender nelas uma sensação semelhante a que experimentei em alguma circunstância ou momento de fruição estética. Sei também que a internet pode ser um território hostil. Há pelo menos um indivíduo que volta e meia entra aqui e deixa os comentários mais ofensivos, relevando um ódio cuja raiz desconheço.
Além de tudo, dá um trabalho danado manter o blog atualizado, o que faço em respeito a todos os que gastam alguns segundos preciosos do seu dia para acessar o Pentimento e conferir o que escrevi. Mesmo quando não há inspiração alguma, mesmo quando a fase é de desilusão com a literatura, o jornalismo etc. (e não são poucas as fases assim), procuro colocar algum post. Às vezes é duro, porque a inocência acabou - sei como as coisas funcionam, para o bem e para o mal. E a falta de inocência não raramente implica falta de tesão para fazer as coisas.
(Não tenho nenhuma esperança de escrever crônica em jornais ou revistas. Já tive, mas não fui escolhido, e isso não me dá o direito de desdenhar das escolhas feitas. Fico sinceramente feliz por quem merecia e conseguiu chegar lá.)
Talvez – e apenas tateio a explicação – o motivo de manter o blog seja o mesmo que justifique o fato de insistir (sem o mesmo entusiasmo de antes, confesso) em criar meus contos: saber que alguém, em algum lugar, se identificou ou ficou minimamente tocado com as minhas palavras. Eis a suprema, e quase esquecida, (in)utilidade delas, as palavras.
Outro dia, a Claudia Lamego confessou, no Lameblogadas, um dilema semelhante. E eu repiso aqui o que anotei lá: não foram poucas as opotunidades em que entrei no blog dela e vibrei com um post. Assim como o bom humor da Rosana Caiado, no Pseudônimos, já me salvou de um momento desanimado. Ou como os belos textos do Carlos Andrezza, no Tribuneiros, já fizeram escorrer, em tantas ocasiões, lágrimas dos meus olhos. Lágrimas de compartilhamento.
Quero acreditar que há instantes nos quais as pessoas entram aqui e, com o coração desarmado, se divertem, se identificam, se emocionam. Que, de certa forma, dá-se uma efetiva troca de generosidade, algo raro, raríssimo, nos dias que correm. Ao contrário de exacerbação do individualismo, como acusam os profetas da catástrofe, os blogs podem configurar, sim, espaços de afeto, onde mesmo a dor é mitigada pela evidência de seu caráter comum (embora paradoxalmente particular: uma interseção que nunca é soma).
Então, como não quero perder a vibração da Claudinha, o humor da Rosana, a agudeza do Andreazza e os predicados de tantos outros amigos que mantêm seus espaços, penso que devo preservar também o Pentimento, com suas marcas singulares, com suas fraquezas e qualidades. Sei que, como diria o Dapieve, ‘digressiono, digressiono’. Mas às vezes a gente tem direito a um desabafo, né?
Atenção, atenção: no próximo sábado, dia 10, vai rolar a festa de apresentação dos protótipos do Império Serrano para o carnaval de 2008. O evento promete: além do desfile de todas as fantasias que estarão na Sapucaí no ano que vem (ao som de canções gravadas pela homenageada Carmen Miranda), haverá apresentações da bateria comandada por mestre Átila (a melhor do Brasil) e do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Além disso, serão cantados na quadra 12 sambas históricos da escola, que se notabilizou como grande celeiro de sambas-enredo, e o hino oficial para 2008. Os ingressos custam R$ 10, e eu, é claro, estarei lá!
A coluna Gente Boa, do Joaquim Ferreira dos Santos, informa hoje que a Academia Brasileira de Letras lançará CD com as '17 canções inquestionáveis da MPB', segundo os imortais. Na relação, estão clássicos como Chão de estrelas (Silvio Caldas / Orestes Barbosa) e Feitiço da Vila (Noel Rosa / Vadico). Aproveitando a idéia, o Joaquim propôs a críticos e pesquisadores de nossa música que fizessem também suas listas. Como era de se esperar, houve pouquíssimas interseções entre elas.
Eu, que não sou da ABL, e nem crítico, resolvi então entrar no jogo e elaborar a minha - que talvez possa chamar de 'lista de hoje', porque são tantas canções espetaculares que chega a doer deixar muitas delas de fora. Compositores como Chico Buarque ou Paulo César Pinheiro, por exemplo, poderiam ganhar relações particulares, tal a dimensão de suas obras. Mas como é apenas uma brincadeira, arrolei as 'minhas dezessete', que se seguem. Os comentários estão livres para que vocês publiquem suas próprias listas.
. Para ver as meninas (Paulinho da Viola)
. Onde a dor não tem razão (Elton Medeiros / Paulinho da Viola)
. Autonomia (Cartola)
. Súplica (João Nogueira / Paulo César Pinheiro)
. Beatriz (Chico Buarque / Edu Lobo)
. Eu te amo (Tom Jobim / Chico Buarque)
. Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo)
. Embarcação (Chico Buarque / Francis Hime)
. Clube da Esquina nº 1 (Milton Nascimento / Lô Borges / Marcio Borges)
. O bêbado e a equilibrista (João Bosco / Aldir Blanc)
. Feitio de oração (Vadico / Noel Rosa)
. Resposta ao tempo (Cristóvão Bastos / Aldir Blanc)
. O que é, o que é (Gonzaguinha)
. Dom de iludir (Caetano Veloso)
. O nome da cidade (Caetano Veloso)
. Inútil paisagem (Tom Jobim / Aloysio de Oliveira)
. Marcha da quarta-feira de cinzas (Carlos Lyra /Vinicius de Moraes)
No sábado passado, o caderno semanal Pensar, do jornal Estado de Minas, trouxe a simpática entrevista que o repórter e articulista Carlos Herculano Lopes fez comigo. Segue a íntegra do texto publicado no suplemento:
“É preciso mergulhar nas ruas”
Integrante da nova geração de escritores brasileiros, Marcelo Moutinho nasceu no Rio de Janeiro, em 1972. Estreou na literatura em 2001, com o livro de contos 'Memória dos barcos' (Editora 7 Letras). Autor do recém-lançado 'Somos todos iguais nesta noite' (Rocco), também de contos, o palco de suas histórias é o Rio, onde mora. “A cidade é quase um personagem do livro, cujos contos procuram revelar cores inesperadas em seus becos escuros”, afirma o escritor. Para Marcelo Moutinho, escrever no Brasil é dar murro em ponta de faca, “mas talvez tenhamos mesmo uma porção masoquista”, comenta, com ironia, em conversa com o repórter Carlos Herculano Lopes.
Por quais caminhos você passeia em 'Somos todos iguais nesta noite'?
Por um Rio de Janeiro meio real, meio invenção. A cidade é quase um personagem do livro, cujos contos procuram revelar cores inesperadas em seus becos escuros. Do Centro ao subúrbio, quis ressaltar o que há de belo — e, em geral, está oculto — nas pequenezas. São histórias prosaicas: o passeio de um garoto no carro novo do pai, a madrugada de um travesti na Praça Paris, o paradoxo do folião triste em pleno carnaval, o último dia de trabalho de um homem que se aposenta... Pequenas humanidades, que parecem hoje solapadas sob o recurso fácil da violência. O livro teve como norte uma frase do Ítalo Calvino, em As cidades invisíveis. Ele observa que o inferno, se existe, é aquele que vivemos aqui, dia após dia, estando juntos. A questão, pois, seria procurar, dentro do inferno, o que não é inferno. Meus contos encenam justamente essa procura.
Suas histórias surgem como? Você foi sempre contista?
Sempre escrevi contos. As histórias surgem das formas mais variadas, mas são sempre ligadas à barra dura e deliciosa de se viver. Sou crítico da literatura auto-referente, que se fecha em si e esquece de olhar (e experimentar) a vida. O escritor tem que sair de casa, largar um pouco o computador. É preciso não só olhar a rua, mas mergulhar nela; é preciso estar com as pessoas. Às vezes tenho também a impressão de que a ‘cor local’ foi excomungada em nossa literatura. Na pretensão de assumir uma postura ‘cool’, muitos autores fazem questão de apagar qualquer marca identitária de seus textos. Acham que isso indica cosmopolitismo, quando na verdade evidencia é um indisfarçável complexo de vira-latas.
Como você vê o conto atualmente? Tem muita gente nova escrevendo?
Certamente há muita gente escrevendo contos, e a internet trouxe uma grande facilidade de publicação. Até por conta do tamanho, o conto foi gênero muito beneficiado pela rede virtual – que não comporta, por exemplo, um romance, pela natural dificuldade da leitura demasiado longa. É claro que isso não implica necessariamente qualidade, embora haja ótimos contistas na novíssima geração. Destacaria o João Anzanello Carrascoza, de São Paulo; o Flávio Izhaki, do Rio de Janeiro; o Amilcar Bettega Barbosa, do Rio Grande do Sul; e o Rubens Figueiredo, também do Rio, este já mais veterano.
Escrever te dá algum prazer, ou é pura catarse?
A fase propriamente dita da escritura não é prazerosa, não. Prazer é ter escrito. Depois de pronto, burilar, trabalhar à exaustão. Por isso, não é pura catarse. É catarse, mas também suor. Dioniso e Apolo. Porque a ‘musa’ quase sempre precisa de uma lipoaspiração.
Você pretende continuar escritor? Já tem novos projetos?
Sinceramente, não acredito que ser escritor configure uma opção. Se fosse, quem o desejaria num país como o nosso, em que o não-estrangeiro praticamente não tem leitor, vende migalhas? Escrever no Brasil é dar murro em ponta de faca, mas talvez tenhamos mesmo uma porção masoquista. Ou sejamos de tal forma impelidos a fazê-lo que acaba não havendo escolha. No fim, o que vale mesmo é saber que alguém leu um conto seu e se emocionou, que seu texto foi capaz de tocar uma pessoa da mesma maneira que um dia o texto de outro autor o tocou. É isto o que importa, muito mais do que prêmios literários (em geral, viciados), matérias em jornal ou convites para eventos, essa ‘fumaça’ que às vezes envolve e ilude. Aprendi que devemos ter sempre à vista a noção da nossa desimportância.
Meus novos projetos são um livro infantil, que devo entregar à editora ainda este ano, e um trabalho na linha do Raymond Carver, em que várias histórias (ou vários contos) se interligam. Como diria o Cony, uma espécie de ‘quase-romance’, que se desenrolará numa pequena vila de casas com moradores de classe média baixa. Como não vai se passar em Cabul, certamente não entrará na lista dos mais vendidos.
É uma pena que, para defender uma justa posição, o Renato Maurício Prado tenha usado em sua coluna de hoje argumentos tão, paradoxalmente, injustos. Acredito ser extemporânea essa discussão sobre o pentacampeonato brasileiro do Flamengo. É claro, cristalino mesmo, que o rubro-negro foi o legítimo campeão de 1987 - um título reconhecido à época por todos os clubes que disputaram a (então) Copa União, inclusive pelo São Paulo, que agora, numa postura lamentável e vergonhosa, finge ignorar a história.
O problema é que o colunista, ao lembrar o episódio que culminou na criação dos Clube dos 13 (na verdade, eram 16), afirma que os times do então Módulo Amarelo correspondiam à Segunda Divisão e não reuniam "condições técnicas" de disputar o grupo principal. Não é verdade. O América, por exemplo, havia disputado a Primeirona no ano anterior. E mais: conquistado um honroso terceiro lugar, ficando à frente da maioria das equipes daquela que veio a se constituir na "tropa de elite" do futebol brasileiro.
O Fla é, de fato e de direito, pentacampeão do Brasil porque chegou na frente no campeonato disputado à época e, com a anuência dos co-irmãos, negou-se a enfrentar o campeão do Módulo Amarelo. Para sublinhar isso não é necessário desmerecer clubes que acabaram se tornando vítimas involuntárias da "revolução" comandada pelos chamados 'grandes' (o América foi atirado na Terceirona e, infelizmente, nunca mais de recuperou).
Outra coisa que faltou na coluna, como bem lembrou o amigo Luiz Camillo Osório: reconhecer que, assim como o rubro-negro é penta, o Fluminense é bicampeão nacional, já que conquistou o título do torneio de 1970. Embora ainda não tivesse o nome oficial de 'campeonato brasileiro', a disputa reuniu os 20 principais times do país e serviu de modelo para o formato que seria adotado a partir do ano seguinte. A CBF precisa ter vergonha na cara e dar a César o que é de César para acabar enfim com tanta marola.
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Gullar: prêmio para o livro ou para a obra?
Deu Rasmungos, seleta das medianas crônicas do Ferreira Gullar, publicadas originalmente na Folha de S. Paulo. Gullar é um escritor grandioso, talvez nosso maior poeta vivo, mas a presença dessa coletânea na lista inicial do prêmio já me havia assustado. Afinal, o Jabuti contempla o melhor livro de ficção do ano ou isso virou mero detalhe e o que importa é patentear um tributo à obra? Para que inscrever novos livros então? A equação cânone=excelência é sempre e sob qualquer aspecto irrefutável? Será que os livros são efetivamente lidos? E será que ninguém mais – autores, resenhistas, jornalistas culturais, críticos, leitores – vai comentar nada publicamente sobre esse resultado bizarro?
Diante de tantas perguntas e de nenhuma resposta, eu vou ali e já volto.