
Por conta do inventário, andei esta semana remexendo nas coisas do pai. E foi (primeiro) com surpresa e (depois) com uma emoção estranha, mas cheia de barulhos de alegria por dentro, que, entre certidões, extratos, registros, documentos, encontrei esta carteira aí em cima.
"GRES Império Serrano, Francisco Moutinho Filho, sócio-proprietário nº 986" é o que registra o papel já amarelado, no qual consta ainda uma imagem rara: ele de terno. Curioso, eu nunca soube disso. Daí o susto. Daí a emoção feliz por dentro, a impressão simbólica de um bastão sendo passado, de um afeto quase genético e inexplicável que vincula um indivíduo e uma escola de samba.
Minhas lembranças da relação do pai com o Império são esparsas. Remetem, por exemplo, a um bar na Rua Carvalho de Souza, próximo da Casa Olga. Ele e Roberto Ribeiro tomando chope; eu beliscando sua calça jeans, pedindo ‘vambora’, ‘vambora’. “A saideira e nós vamos” - e, ainda sem conhecer os significados de frases como essa, eu esperava um pouco antes de insistir de novo para escutar a mesmíssima coisa. Na memória, há também flashs dos desfiles das campeãs daquela época, aos quais íamos, religiosamente, todo ano: eu, ele, minha mãe e meu irmão Flávio.
O pai nunca foi de dançar. Sempre preferiu a companhia da mesa, da cerveja, da trilha frita, dos amigos. Mas quando via, da cadeira de pista, o Império despontar na Avenida, imediatamente se levantava. O rosto ficava mais largo, ganhava um tom intenso de vermelho. Algo claramente acontecia por dentro e vazava, ainda que ele tentasse travar, de um jeito tão forte que impressionava aquele menino ainda começando no mundo. Poucas vezes eu o via daquela maneira.
Ele comentara, certa vez, que Mestre Fuleiro era seu amigo. E é bem provável que ajudasse a escola com alguma grana, já que, na época, as vacas ainda tinham gordura a queimar. No entanto, nunca o ouvi falar nada sobre a participação em algum desfile. Nem dessa carteira, ou de alguma presença mais efetiva na escola. Quase-segredos que agora, inesperadamente, vêm à luz.
Na próxima segunda, acontecerá a finalíssima na disputa dos sambas para 2008. E será lá, na quadra do Império, que, diante da imagem de São Jorge e com a carteira dele nas mãos, vou tomar uma cerveja em homenagem a tudo isso. Não sei, sinceramente não sei, mas talvez então me ponha a pensar se algum dia, num lugar qualquer, alguém sentirá ter herdado, das minhas paixões mais íntimas, algo bom assim.
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