
Marcelo Moutinho
Acabara a pintura, o rosto já todo coberto. Era hora de entrar no palco. Ele caminhou lentamente pelo corredor de terra, acelerando os passos à medida que se aproximava da portinha que dava para o picadeiro. Tudo ali se cercava de um ar meio espremido, as paredes escuras com a pintura descascando, o aperto entre as divisórias que impunham limite aos camarins, deixando um tênue espaço para aquele corredor.
Respirou uma, duas vezes, e seguiu. Abriu com calma a breve cortina da entrada e de imediato fez os aplausos se multiplicarem, apesar de a presença da platéia não ser assim animadora. Coisas de uma quarta-feira à noite. Com o gesto combinado, acenou para o maestro e enfim começou: corria, pulava, mexendo os braços, as mãos, rebolando de um lado pro outro, dando cambalhotas. O estranho é que alguns não conseguiam disfarçar o constrangimento, como se aquele show já tivesse sido encenado, aquelas traquinices todas não pudessem mais provocar algaravia, tocar nem que fosse de leve naqueles espaços da memória nos quais a matéria-prima é frágil, é mole, gosmenta, nos quais o dedo afunda e acaba enfronhado sem que se possa mais definir o que é dedo e o que é massa de lembrança.
Ouvia uns risos aqui, outros ali; tudo normal. Sabia que no fim o tom seria de uma unanimidade burocrática; encontraria o Zecambalhota, aquele novato chatinho, como de resto os calouros em geral o são, e apresentaria seus truques, água na flor da lapela, sapato furado, batidinhas de saudação na bunda... Nada de mais. Somente aquilo pelo que esperava a platéia, e que lhe oferecia, com algum prazer, algo de obrigação, como um bobo da corte. Ou como um rei da corte, um rei invertido, para o qual o poder é o do riso, do risco e do ridículo e não da tirania.
Todo palhaço é meio rei, meio poeta. Mais poeta que rei, mais covardia que coragem. Suas armas são armas fracas. O poeta se refugia no verbo na falta de um revólver; o palhaço, na graça, que, se não dá tiros, garante uma satisfação esquisita, uma felicidade não corrompida — além do dinheirinho no fim do mês, é claro.
Assim o fez. Abraçou o calouro Zecambalhota — eles sorriam, sorriam muito — e, ao ensaiar o grand finale, já podia escutar a aclamação, os gritos finos de criança a embalar aquela estranha música que se dá ao término dos shows, fazendo-o gargalhar sem censura, no soar de notas que funcionam mais ou menos como palavras de um texto já lido, som que afaga a lembrança dormida na virada rápida para o espelho.
Àquela altura um sinal distinto já estaria tocando em outro camarim e ele saiu pela mesma porta que entrara. Partiu novamente no caminho daquele corredor de linhas tortas. Um breve aperto de mãos serviu de até amanhã e senha para que seguisse até o local, em cuja entrada não havia cortina. Já no quarto, pegou um pote d’água e se sentou em frente à cômoda.
Ganhara aquela cômoda do pai, ainda menino. Na época, apenas ensaiava os truques hoje tão repetidos. O pai trabalhava numa confecção, mas nas quintas-feiras virava rei também. Rei do humilde Mazzoni Dance, onde casais bailavam e sob luzinhas lilases se apertavam tentando abreviar um gozo que só mais tarde viria. Com aquele pai nunca quisera acertar suas contas, nunca desejara senão sentar ao lado e confessar admirações contidas, já que as frustrações, bem, essas ele as tinha explicitado todas. O pai nem costumava levá-lo ao circo. Preferia o futebol.
E ele desde menino olhava com certa curiosidade para as lonas que de vez em quando chegavam ao subúrbio. Não eram os elefantes, os leões, sequer a magia das cartolas, ou o equilíbrio perfeito nos fios de arame que o fascinavam. Embora risse, ele sentia desprender dos palhaços, como se a tinta escorresse corpo abaixo, deslizando pela graça da roupa de show, uma lágrima furtiva, envergonhada, escorreita. Gostava em especial dos pierrôs. Olhava-os, durante o carnaval, tentando entender o paradoxo entre aquela alegria incomensurável e o choro simulado da tinta no rosto, que explosão era aquela de contrastes absolutos. Até um dia em que, mesmo ciente de sua inaptidão para o humor, decidiu rumar para a escola de circo da cidade.
*
A cômoda era como um prolongamento do velho, e dos anos em que viveram debaixo de brigas e chororôs. Apesar de riscada pelas pontas agudas dos dias, ofuscada sua cor nem tanto pelo sol, mais pela claridade que parecia maior naquele ambiente escuro do circo, mesmo castigada pelo peso de objetos nem sempre tão válidos dispostos por sobre si, ela permanecera. Sem enrugar-se, sem ir entortando aos poucos, curvando-se, atraída pelo chão, como aconteceu com o pai, cuja mão direita começou de uma hora para outra a tremer, colocando pra fora, de ano a ano, um nervosismo, um desatino qualquer entre ele e o mundo.
Aqueles laços, a teia que os unia, agora se desfizera, simplesmente. Sem grandes traumas, sem a noção exata do que acontecera. Nem do que ficara. Uma mansa passividade o envolvia, feito uma nuvem não muito carregada, uma esparsa cortina de fumaça, tapando o gosto esquisito de ressaca mal curada.
Fosse o amor.
Fosse a esperança.
Fosse mesmo o fim do pai ou de alguém, a morte, essa cortina súbita que fecha, levantando poeira, sem barulho ou estrondo, só espalhando uma cegueira momentânea, porém geral, um respiro consentido que abate a todos. Fosse tudo isso, ou tantos outros senões, nada o exasperaria. Nada o faria rondar por essas ruas vazias já sem as roupas coloridas e a pintura, montado em tênis meio velhos e calça jeans, na busca desesperada de sei lá o quê.
De uma fuga.
De uma festa.
De uma fresta.
Ali, em frente àquela cômoda, ele parecia se ver cercado dos fios que tecem a malha espessa da vida — e que nem por isso o cobriam, o protegiam; pelo oposto, o expunham. Expunham a sua estada naquele círculo concêntrico que o impedia de circular por fora da lona amarelo-ouro em tênis e calça jeans, aspirar algo que não a fumaça meio cinza que lhe penetra nariz adentro. Um sufoco grande. Por isso vivia a tossir, confinado num processo sem fim, num ciclo estreito, no exagero, no querer abraçar o mundo sem esticar demais as pernas, sem ter cãibras. Sua vontade era um dia sair dali, cessando o caminhar interrompido em desespero pela cidade de buracos e tiros e gritos, fincando os tênis velhos em algum lugar, sem saber se então desmontará as imagens tão velhas quanto o seu tênis. Se virarão uma sombra ou simplesmente sumirão, como somem as falsas imagens que estamos a todo o tempo a construir para nos apoiar — ou nos seguir.
Talvez sigam enquanto ele fica, talvez fiquem com ele, abrigadas numa casinha de mato, com cachorro na porta, não para bradar contra quem chegue, mas para embalar no latido o começo da noite. Talvez. De um modo ou de outro poderá novamente se sentar, sem arroubos de angústia ou felicidade, na eterna e inquietadora dúvida se era melhor ter seguido sem saber a ter descoberto as dores do mundo. Descobrira. E agora lembrava do velho.
O palhaço, o velho, a cômoda e o ocaso. Num entrelaçar de dedos, todos se deparavam nesse instante com o mesmo palco. Afinal, o ocaso é mesmo o melhor pai para a trégua; a decadência iguala a todos na rima pobre de piedade com solidariedade, torna-nos todos mais iguais, quem sabe pela clarividência, quem sabe pela noção de o quão difícil é querer a luz sobre todas as coisas.
*
As luzes do palco foram trocadas pelas lâmpadas fraquinhas do espelho. Em cima do cômoda, a bacia d’água. Aos poucos, ele foi tirando a tinta do rosto, limpando com um pedacinho de algodão cada parte da pintura. Sujava cada chumaço e o jogava no lixo. Como se o branco, o vermelho, o azul e o verde pudessem esconder o que em si já é escuro, levantassem um muro para prender o tremor que via de dentro daquele quarto, arvorando-se em sair, pois, ao contrário da cômoda, as coisas não ficam paradas, a realidade não fica acordada o tempo todo.
Cada tufo que passava na cara era como um capítulo da história daquele móvel que nesse dia de estio teimava em lhe fazer companhia. Foi antes mesmo de se livrar da roupa, a cara já bem limpa, que ele segurou o rosto sobre as mãos, apoiadas nos cotovelos. Esfregou vagamente as pontas dos dedos sobre a textura da cômoda, seguindo as saliências, desviando dos objetos, levando na epiderme a poeira e os arranhões da canela. Sem limpar os dedos, recolheu novamente as mãos, recostou um pouco o pescoço à esquerda, cotovelos no móvel, revirando os olhos para o espelho, antes de abaixá-los de vez — e chorou.
* Conto publicado originalmente na revista Cult e reproduzido no livro 'Memória dos barcos' (7Letras, 2001). O título faz alusão a um filme, uma beleza de filme, de Ingmar Bergman, e o texto tem lá suas imperfeições. Mas ainda gosto dele...
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