

Estive ontem na coletiva de lançamento do disco de estréia do Moyseis Marques. O evento levou muita gente bacana ao Carioca da Gema, numa demonstração de o quanto o cantor é querido nas rodas cariocas. Após a entrevista, rolou um show baseado no repertório do CD.
Foi muito bom ver o Moyseis apresentar-se sem as amarras das canções obrigatórias da noite. E o repertório do disco, que leva seu nome, é irrepreensível. No trabalho, ele faz um passeio pela própria trajetória, com sambas clássicos, ritmos nordestinos e composições inéditas.
As criações do Moyseis, aliás, são uma ótima surpresa. Seja nos vôos-solo, como Receita de Maria (“Prato, faca e pandeiro / E palma de macumba / Cura qualquer quizumba”), seja nas parcerias, caso de Prece à inspiração, dele e de Daniel Scisínio, as letras e melodias têm alta qualidade.
O disco inclui ainda a crítica O vendedor de caranguejo (Gordurinha), as divertidas Baile na Piedade (Jorge Veiga/Raul Marques) e Falsa patroa (Geraldo Jacques/Isaias de Freitas), além de mais uma bola dentríssimo do Luiz Carlos da Vila Profissão (com André Renato e Sereno) e de uma preciosidade da dupla imperiana Done Ivone Lara e Délcio Carvalho: Minha verdade.
É uma pena, porém, que o Moyseis não tenha gravado também o samba Imperial, que ele costuma cantar. Confesso que este coração verde-e-branco bateu descompassado ontem, quando a música de Aldir Blanc e Wilson das Neves – uma das mais belas homenagens já feitas ao Império - foi lindamente interpretada no palco do Carioca.
Por outro lado, Nomes de favela está no disco. O Paulo César Pinheiro já havia registrado sua canção – uma maravilha contemporânea - no CD Lamento do samba. Mas creio que a gravação por um rapaz de 28 anos torna ainda mais emblemáticas a urgência e a atualidade da letra (que posto abaixo, para quem não conhece), cuja força poética é inegável.
Assim como emblemáticas foram algumas das cenas do show. O uísque duplo nas mãos do Moyseis, para dopar o natural nervosismo de uma estréia como aquelas. A frase gaiata, fingindo o susto de constatar que “até seu psicanalista estava ali”. O olhar para o mezanino do Carioca, onde se localizava sua família, enquanto cantava Quatorze anos, de Paulinho da Viola.
O CD do Moyseis vem se somar aos de Cristina Buarque e de Maria Rita (do qual tratarei em breve) neste ano que se revela excepcional para a música brasileira. Cada um com seu estilo, sua marca, suas escolhas, são discos que comprovam a vitalidade e a relevância do que se anda fazendo por aqui.
"Nomes de favela"
Paulo Cesar Pinheiro
"O galo já não canta mais no Cantagalo
A água não corre mais na Cachoeirinha
Menino não pega mais manga na Mangueira
E agora que cidade grande é a Rocinha?
Ninguém faz mais jura de amor no Juramento
Ninguem vai-se embora do Morro do Adeus
Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres
E a vida é um inferno na Cidade de Deus.
Não sou do tempo das armas
Por isso ainda prefiro
Ouvir um verso de samba
Do que escutar som de tiro.
Pela poesia dos nomes de favela
A vida por lá já foi mais bela
Já foi bem melhor de se morar,
Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda
Ou lá favela a vida muda
Ou todos os nomes vão mudar"
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