
Vencedora do Prêmio Josué Guimarães, a Lúcia Bettencourt esteve recentemente na Espanha, mais especificamente em Santiago de Compostela, onde proferiu palestra sobre a literatura brasileira contemporânea. Mui gentilmente, ela me citou no texto que leu na universidade local, fazendo correlações bastante pertinentes. O texto pode ser conferido, na íntegra, no blog Nadanonada. Posto, abaixo, um pequeno trecho da palestra:
"(…) Isso me leva a dizer que a produção literária contemporânea no Brasil é também diversificada. Talvez mais tarde os estudiosos encontrem um fio condutor dessa geração que abriga nomes como Marcelo Moutinho, Adriana Lisboa, Daniel Galera, Luís Ruffato, Verônica Stigger, João Paulo Cuenca ou poetas como Mariana Ianelli e Henrique Rodrigues. Suas produções se embrenham por estradas diferentes, “senderos que se bifurcan”, como diria Borges, mas todos são caminhos literários, de busca por uma expressão.
Há tantos caminhos quantas pessoas, talvez se pudesse dizer, mas, cada um de nós não hesita em reconhecer dívidas com relação a escritores que nos antecederam. Mia Couto, autor moçambicano de minha predileção, reconhece abertamente suas dívidas com relação a Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Raros são os autores que não se deixaram “emprenhar” por suas leituras. Alguns, como Verônica Stigger, seguramente revelam sua inspiração pela arte visual e pelas convenções dos vídeo-clipes e das revistas em quadrinhos. Com uma obra muito diferente, até repulsiva, em alguns casos, mas cheia de humor, ela procura um caminho novo ainda por explorar.
Mariana Ianelli (Almádena) e Henrique Rodrigues (A musa diluída), para citar dois excelentes poetas, buscam nos textos clássicos sua inspiração, não apenas formal, mas até temática. Enquanto uma cria uma poesia vigorosa e dialoga com os clássicos num discurso elevado e denso, o outro, como o título indica, dilui a inspiração clássica para mostrar que a opção pela cotidianeidade não impede o olhar poético.
Marcelo Moutinho, contista, possui um texto fortemente comprometido com um universo popular, onde não existem heróis, ou melhor, onde o maior heroísmo é a sobrevivência. Seu universo de pequenos funcionários e travestis lembram o mundo de Lima Barreto, mas seu lirismo o afasta dessa fonte e o aproxima de autores mais modernos, como Oswald e Clarice. Seu livro, publicado pela Rocco, chama-se Somos todos iguais nesta noite, título retirado de uma canção popular, o que demonstra como as fontes em que todos nos abeberamos são variadas – Estamos abertos ao mundo – artes visuais, música, internet, tudo o que nos rodeia vem a ser apropriado por nossos apetites literários. (…)"
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