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Cristina Buarque e Terreiro Grande Escrito em 09 de outubro de 2007
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Aquilo que comentei diante de dois amigos, durante a Feijoada da Portela, repito hoje aqui: o disco Cristina Buarque e Terreiro Grande é uma obra-prima. Bem inteirados no samba, esses dois amigos costumam implicar um pouco com a voz meio esgarniçada da cantora (cujo timbre, pelo contrário, agrada-me particularmente) e mostraram-se desconfiados diante da firmeza da minha assertiva. Sem enveredar pelo terreno pantanoso do gosto pessoal, avisei logo que o CD é muito mais do que uma obra de Cristina – o que já seria bastante, diga-se.

Trata-se, para além disso, da reprodução fiel de uma roda-de-samba, com a mistura tão característica de músicas conhecidas e composições raras, o encadeamento de várias canções numa mesma faixa (são, ao todo, 35 em quatro grandes blocos) e, sobretudo, o canto em coro que, de muitas gargantas, se torna uníssono.

Além de tudo, como bem já ressaltou aqui no blog o querido Pedro Paulo Malta, o trabalho de pesquisa feito pela Cristina é mais uma vez primoroso. Gravado ao vivo, o disco traz pérolas que eu desconhecia, como Confraternização (Walter Rosa), bela homenagem aos velhos sambistas e às escolas-de-samba, perfeitamente integradas a clássicos do naipe de Vida de fidalga (Alvaiade), Sentimento (Mijinha), Esta melodia (Bubu da Portela) e Você me abandonou (Alberto Lonato).

A cada audição, o CD me deixa mais tocado. A melodia da primeira parte de Desengano (Aniceto da Portela), que sobe no terceiro verso, justo onde se fala em “dor pungente”, a letra existencialista a toda prova de Alvaiade em O mundo é assim, lembrando que “o dia se renova todo dia / eu envelheço cada dia e cada mês / O mundo passa por mim todos os dias / Enquanto eu passo pelo mundo uma vez”, tudo isso é muito comovente, muito rico, muito revelador da singularidade de uma cultura - a nossa - à qual devemos reconhecimento e reverência.

O grande mérito do grupo Terreiro Grande, a quem fui apresentado nesse disco, foi preservar o andamento original dos sambas, mantendo a cadência pedida. Ao mesmo em que acende velas à memória, o grupo repisa a extraordinária atualidade do que é cantado: os problemas e prazeres dos homens, as dores e delícias que se foram e sempre hão de vir. Preciso, competente e bonito pacas. Obra-prima, sim senhores.

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