
Marcelo Moutinho
A abelha zoava em seu vôo ziguezagueante sem aparentemente demonstrar nervosismo. Estava eu sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal acumulado do fim de semana, enquanto a televisão atirava imagens banais e pronunciava sons não identificáveis para uma platéia que não havia.
De resto, era um domingo comum. O sono bem fornido de uma manhã esticada na cama, o café exagerado nos biscoitos casadinhos de goiabada, o jornal grosso e desafiador a lembrar a leitura atrasada desde a semana passada. Havia algo daquele clima de início de noite dos domingos, aquela parcela de desilusão que a perspectiva da segunda-feira traz, a perda do ar inebriante que costuma brindar os feriados.
Mas se nem a TV era capaz de perturbar minha concentração, o que dizer daquela abelha, voando longe, provocando apenas um restio de barulho, zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz, e competindo desigualmente com as falas do apresentador do Fantástico. O show da vida mostrava a morte num morro carioca. Era um tal de autoridades a desfilar, depoimentos burocráticos e imagens especialmente selecionadas para causar uma emoção qualquer de fim de domingo. Eu movia lentamente a cadeira de balanço de modo a embalar o meu descanso, dar ritmo à minha rara tranqüilidade, sentindo por vezes na face um bafo leve que vinha da janela da sala, escancarada a fim de permitir que me sentisse dentro da primavera; um misto de calor e frescor.
O locutor falava, a abelha ziguezagueava. E foi aumentando progressivamente a velocidade de seu vôo. Parecia pressentir que o tempo mudava, seguindo um desses instintos que os animais em geral têm mais aguçados do que os homens que passam o domingo em frente à TV.
Já quase adormecera, e o jornal começava a cair levemente sobre meu rosto, quando uma repentina explosão me despertou. Um barulho ensurdecedor tomou conta do ambiente e estilhaços de vidro espalharam-se pela sala, fazendo com que corresse para trás da poltrona e me protegesse. Trêmulo, absorto no susto de trafegar num salto da sonolência para a excitação, revezei os olhares entre a janela arrebentada pela força do que entrara na sala e a bola de fogo que ardia ao lado da TV, depois de destruí-la.
O vento havia mudado. Um violento sudoeste, daqueles que prevêem chuva e tempo ruim, tomara conta de tudo lá fora. O barulho não cessara. Fagulhas em cinza movimentavam o monitor e um som estridente soava do alto-falante, porém as chamas daquele objeto eram agora o principal ponto de atenção de quem entrasse na sala.
Relutara inicialmente em me aproximar, meio por medo de me queimar com alguma fagulha do pequeno incêndio, meio por outro temor: aquele que permeia as coisas que desconhecemos, que nos afasta do que a nós é impossível definir.
Contudo, à medida que as chamas se acalmavam, podia ver com mais nitidez o culpado pelo fim da minha TV e da interrupção da cotidiana e banal noite de domingo. Amarela, puxando para o dourado, em torno de meio metro de uma ponta à outra: era uma estrela. Caiu uma estrela na minha sala. Não sabia de que maneira ela precipitara céu abaixo, na força da gravidade, e penetrara janela adentro em direção à TV.
Os espasmos iniciais de espanto e excitação impediram que pudesse raciocinar direito e concluir a impossibilidade da situação. Há muito sabia que as estrelas têm tamanhos imensos, e a colisão de uma delas com a Terra resultaria desde logo no fim dos tempos — pelo menos para nós, homens. Aquele objeto amarelo-ouro, com seus presumíveis 40 centímetros, deveria integrar outra ordem de coisas, ser apenas uma cópia ordinária.
Após construir matematicamente hipóteses possíveis sobre de onde enfim viera aquilo, remeti ao luminoso que enfeitava a antiga chapelaria vizinha ao sobrado. Aproximei-me da estrela, já resfriada pelo tempo decorrido e pelo vento que insistiu sala adentro, e a observei mais de perto. Não parecia uma indumentária de letreiro. Era-me difícil intuir — ou concluir — de que tipo de classificação poderia me servir para rotulá-la. Nomear, nomear, nomear o inteligível e o ininteligível, eis o nosso incessante desejo.
Pensava nisso quando notei novamente a presença da abelha insistente. O barulho voltava a brigar com as fagulhas de som da TV quebrada e ela sobrevoava a estrela como se rodeasse as mesmas dúvidas que me assombravam.
Então, seguindo os passos daquela iluminação fortuita, decidi descer as escadas do sobrado e conferir o letreiro da chapelaria. Vesti uma camisa flanelada para enfrentar a rua, corri pelos degraus atrás de uma resposta, abri as duas fechaduras que insinuavam segurança e enfim deparei-me com a loja. Lá estava, imponente, a estrela a incrementar o luminoso.
Fiquei cabisbaixo, admito. A ausência de sentido, a impossibilidade de ver despencar uma estrela em direção à minha sala dominou minhas atenções enquanto escalei novamente os degraus do sobrado, voltando à sala. Lá estava ela, a estrela, solitário ornamento brilhante da minha casa. De posse de uma velha blusa transformada em pano, esfreguei cada uma das cinco pontas da estrela até deixá-la bem limpa. Como se umedecesse a paleta de cores de onde nasce toda ilusão, deixasse escapar o poeta que pode haver nos poros do corpo, acarinhei cada centímetro, de um lado a outro, perguntando-me por que logo na minha sala, antes de levá-la ao quarto e guardá-la na gaveta de meias.
* Este conto, inspirado num trabalho em cerâmica do Nadam Guerra, foi publicado no meu 'Memória dos barcos' (7Letras) e a partir de hoje faz parte do acervo aqui do site. É estranho o exercício de rever esses textos antigos - e grande a tentação em mexer neles...
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