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Ainda e sempre, a cidade Escrito em 30 de outubro de 2007
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“Coisas da terra”

Ferreira Gullar

“Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso,
a palavra solidária
minha mão aberta
ou este esquecido cheiro de cabelo que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio. Todas as coisas de que falo são de carne
Como o verão e o salário. Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem. São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes de trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais,
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.
Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
Ainda em estado de soluços e esperança".

P.S.1: Este poema sempre me disse muito. Está impresso num pequeno quadro que eu mesmo fiz e guardo há muitos anos. Quando enfim tiver espaço para a 'toca' que hoje ainda é projeto, o texto irá para a parede. Sempre que o releio, tenho a mesma sensação: queria tê-lo escrito. Talvez porque, assim como o Gullar, eu me interesse particularmente pelas 'coisas que estão entre o céu e a terra', sejam pequenas, sejam sublimes. E queira, a meu modo, iluminá-las.

P.S.2: Fiz esta foto há algumas semanas, num domingo ao entardecer, no Morro da Conceição.

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