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A dica de 'André de Leones' Escrito em 31 de outubro de 2007
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"Minha dica, na verdade, são duas dicas: uma literária e outra musical. Começo pela musical. O novo disco do Radiohead, como todos estamos carecas de saber, já se encontra disponível para download (você escolhe o preço, incluindo ZERO) no site da banda (www.inrainbows.com). Mesmo não chegando às alturas de Ok computer ou Kid A, In rainbows é um álbum extraordinário. Por meio de composições rascantes como 15 step e Wird fishes/arpeggi, a banda inglesa dá prosseguimento ao seu inventário pós-moderno do esvaziamento humano.

Minha dica literária é Nas peles da cebola (Record, tradução de Marcelo Backes), de Günter Grass. Nas peles da cebola é o controverso volume de memórias de Günter Grass. Nele, o escritor alemão confessa (a expressão é essa mesmo) ter integrado a Waffen-SS, tropa de elite do exército nazista. Até então, Grass dizia ter sido um mero ajudante de artilharia antiaérea. O fato de ele sempre ter agido como uma espécie de consciência crítica da Alemanha, expondo as hipocrisias e as feridas deixadas pelo III Reich, fez com que a revelação caísse feito uma bomba. Indo ao que interessa (pelo menos para mim), Nas peles da cebola é incrivelmente bem escrito. A amargura do autor é evidente em cada linha, e a levada, que alterna longos períodos com outros muito curtos, bem como as primeira e terceira pessoas, entrega a extrema dificuldade de Grass em se purgar publicamente. É livro para ser lido com calma, a exemplo de todo grande livro, e pode ser entendido ainda como uma espécie nada ortodoxa de romance de formação. Quando lançado na Alemanha, chegou-se a dizer que a Academia Sueca deveria cassar o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Grass. Depois de ler Nas peles da cebola, ocorreu-me que, caso já não tivesse acontecido, Grass deveria, sim, ser agraciado com o Nobel em função desse livro magnífico e, sim, corajoso".

* Escritor. Autor de 'Hoje está um dia morto' (Record, 2006), vencedor do Prêmio Sesc 2006 na categoria 'romance'

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