
Será lançado hoje, com festinha no Puebla Café (Cobal do Humaitá), o número 3 da revista Zé Pereira. Entre os destaques da edição, estão a matéria O outro lado da rua ("um passeio pela Dias Ferreira que não aparece na novela das oito", com texto de Rogério Durst e imagens de Pedro Garavaglia), o ensaio fotográfico Sinfonia de biscoitos (de Eric Garault), reportagem de Denise Lopes sobre a volta dos cineclubes e um conto inédito de Dimmi Amora. O número 4 traz também novo capítulo do folhetim As aventuras de um Zé Pereira. Depois do capítulo inicial, escrito por mim, a história foi continuada pelo Henrique Rodrigues. Desta vez, é Flávio Izhaki quem comanda as ações e prepara o mote para a Adriana Lisboa, que será responsável pela quinta etapa. Outros autores virão e ajudarão a traçar o destino de nosso carioquíssimo protagonista.
"Minha dica, na verdade, são duas dicas: uma literária e outra musical. Começo pela musical. O novo disco do Radiohead, como todos estamos carecas de saber, já se encontra disponível para download (você escolhe o preço, incluindo ZERO) no site da banda (www.inrainbows.com). Mesmo não chegando às alturas de Ok computer ou Kid A, In rainbows é um álbum extraordinário. Por meio de composições rascantes como 15 step e Wird fishes/arpeggi, a banda inglesa dá prosseguimento ao seu inventário pós-moderno do esvaziamento humano.
Minha dica literária é Nas peles da cebola (Record, tradução de Marcelo Backes), de Günter Grass. Nas peles da cebola é o controverso volume de memórias de Günter Grass. Nele, o escritor alemão confessa (a expressão é essa mesmo) ter integrado a Waffen-SS, tropa de elite do exército nazista. Até então, Grass dizia ter sido um mero ajudante de artilharia antiaérea. O fato de ele sempre ter agido como uma espécie de consciência crítica da Alemanha, expondo as hipocrisias e as feridas deixadas pelo III Reich, fez com que a revelação caísse feito uma bomba. Indo ao que interessa (pelo menos para mim), Nas peles da cebola é incrivelmente bem escrito. A amargura do autor é evidente em cada linha, e a levada, que alterna longos períodos com outros muito curtos, bem como as primeira e terceira pessoas, entrega a extrema dificuldade de Grass em se purgar publicamente. É livro para ser lido com calma, a exemplo de todo grande livro, e pode ser entendido ainda como uma espécie nada ortodoxa de romance de formação. Quando lançado na Alemanha, chegou-se a dizer que a Academia Sueca deveria cassar o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Grass. Depois de ler Nas peles da cebola, ocorreu-me que, caso já não tivesse acontecido, Grass deveria, sim, ser agraciado com o Nobel em função desse livro magnífico e, sim, corajoso".
* Escritor. Autor de 'Hoje está um dia morto' (Record, 2006), vencedor do Prêmio Sesc 2006 na categoria 'romance'
“Coisas da terra”
Ferreira Gullar
“Todas as coisas de que falo estão na cidade
entre o céu e a terra.
São todas elas coisas perecíveis
e eternas como o teu riso,
a palavra solidária
minha mão aberta
ou este esquecido cheiro de cabelo que volta
e acende sua flama inesperada
no coração de maio. Todas as coisas de que falo são de carne
Como o verão e o salário. Mortalmente inseridas no tempo,
estão dispersas como o ar
no mercado, nas oficinas,
nas ruas, nos hotéis de viagem. São coisas, todas elas,
cotidianas, como bocas
e mãos, sonhos, greves,
denúncias,
acidentes de trabalho e do amor. Coisas,
de que falam os jornais,
às vezes tão rudes
às vezes tão escuras
que mesmo a poesia as ilumina com dificuldade.
Mas é nelas que te vejo pulsando,
mundo novo,
Ainda em estado de soluços e esperança".
P.S.1: Este poema sempre me disse muito. Está impresso num pequeno quadro que eu mesmo fiz e guardo há muitos anos. Quando enfim tiver espaço para a 'toca' que hoje ainda é projeto, o texto irá para a parede. Sempre que o releio, tenho a mesma sensação: queria tê-lo escrito. Talvez porque, assim como o Gullar, eu me interesse particularmente pelas 'coisas que estão entre o céu e a terra', sejam pequenas, sejam sublimes. E queira, a meu modo, iluminá-las.
P.S.2: Fiz esta foto há algumas semanas, num domingo ao entardecer, no Morro da Conceição.
Marcelo Moutinho
Acabara a pintura, o rosto já todo coberto. Era hora de entrar no palco. Ele caminhou lentamente pelo corredor de terra, acelerando os passos à medida que se aproximava da portinha que dava para o picadeiro. Tudo ali se cercava de um ar meio espremido, as paredes escuras com a pintura descascando, o aperto entre as divisórias que impunham limite aos camarins, deixando um tênue espaço para aquele corredor.
Respirou uma, duas vezes, e seguiu. Abriu com calma a breve cortina da entrada e de imediato fez os aplausos se multiplicarem, apesar de a presença da platéia não ser assim animadora. Coisas de uma quarta-feira à noite. Com o gesto combinado, acenou para o maestro e enfim começou: corria, pulava, mexendo os braços, as mãos, rebolando de um lado pro outro, dando cambalhotas. O estranho é que alguns não conseguiam disfarçar o constrangimento, como se aquele show já tivesse sido encenado, aquelas traquinices todas não pudessem mais provocar algaravia, tocar nem que fosse de leve naqueles espaços da memória nos quais a matéria-prima é frágil, é mole, gosmenta, nos quais o dedo afunda e acaba enfronhado sem que se possa mais definir o que é dedo e o que é massa de lembrança.
Ouvia uns risos aqui, outros ali; tudo normal. Sabia que no fim o tom seria de uma unanimidade burocrática; encontraria o Zecambalhota, aquele novato chatinho, como de resto os calouros em geral o são, e apresentaria seus truques, água na flor da lapela, sapato furado, batidinhas de saudação na bunda... Nada de mais. Somente aquilo pelo que esperava a platéia, e que lhe oferecia, com algum prazer, algo de obrigação, como um bobo da corte. Ou como um rei da corte, um rei invertido, para o qual o poder é o do riso, do risco e do ridículo e não da tirania.
Todo palhaço é meio rei, meio poeta. Mais poeta que rei, mais covardia que coragem. Suas armas são armas fracas. O poeta se refugia no verbo na falta de um revólver; o palhaço, na graça, que, se não dá tiros, garante uma satisfação esquisita, uma felicidade não corrompida — além do dinheirinho no fim do mês, é claro.
Assim o fez. Abraçou o calouro Zecambalhota — eles sorriam, sorriam muito — e, ao ensaiar o grand finale, já podia escutar a aclamação, os gritos finos de criança a embalar aquela estranha música que se dá ao término dos shows, fazendo-o gargalhar sem censura, no soar de notas que funcionam mais ou menos como palavras de um texto já lido, som que afaga a lembrança dormida na virada rápida para o espelho.
Àquela altura um sinal distinto já estaria tocando em outro camarim e ele saiu pela mesma porta que entrara. Partiu novamente no caminho daquele corredor de linhas tortas. Um breve aperto de mãos serviu de até amanhã e senha para que seguisse até o local, em cuja entrada não havia cortina. Já no quarto, pegou um pote d’água e se sentou em frente à cômoda.
Ganhara aquela cômoda do pai, ainda menino. Na época, apenas ensaiava os truques hoje tão repetidos. O pai trabalhava numa confecção, mas nas quintas-feiras virava rei também. Rei do humilde Mazzoni Dance, onde casais bailavam e sob luzinhas lilases se apertavam tentando abreviar um gozo que só mais tarde viria. Com aquele pai nunca quisera acertar suas contas, nunca desejara senão sentar ao lado e confessar admirações contidas, já que as frustrações, bem, essas ele as tinha explicitado todas. O pai nem costumava levá-lo ao circo. Preferia o futebol.
E ele desde menino olhava com certa curiosidade para as lonas que de vez em quando chegavam ao subúrbio. Não eram os elefantes, os leões, sequer a magia das cartolas, ou o equilíbrio perfeito nos fios de arame que o fascinavam. Embora risse, ele sentia desprender dos palhaços, como se a tinta escorresse corpo abaixo, deslizando pela graça da roupa de show, uma lágrima furtiva, envergonhada, escorreita. Gostava em especial dos pierrôs. Olhava-os, durante o carnaval, tentando entender o paradoxo entre aquela alegria incomensurável e o choro simulado da tinta no rosto, que explosão era aquela de contrastes absolutos. Até um dia em que, mesmo ciente de sua inaptidão para o humor, decidiu rumar para a escola de circo da cidade.
*
A cômoda era como um prolongamento do velho, e dos anos em que viveram debaixo de brigas e chororôs. Apesar de riscada pelas pontas agudas dos dias, ofuscada sua cor nem tanto pelo sol, mais pela claridade que parecia maior naquele ambiente escuro do circo, mesmo castigada pelo peso de objetos nem sempre tão válidos dispostos por sobre si, ela permanecera. Sem enrugar-se, sem ir entortando aos poucos, curvando-se, atraída pelo chão, como aconteceu com o pai, cuja mão direita começou de uma hora para outra a tremer, colocando pra fora, de ano a ano, um nervosismo, um desatino qualquer entre ele e o mundo.
Aqueles laços, a teia que os unia, agora se desfizera, simplesmente. Sem grandes traumas, sem a noção exata do que acontecera. Nem do que ficara. Uma mansa passividade o envolvia, feito uma nuvem não muito carregada, uma esparsa cortina de fumaça, tapando o gosto esquisito de ressaca mal curada.
Fosse o amor.
Fosse a esperança.
Fosse mesmo o fim do pai ou de alguém, a morte, essa cortina súbita que fecha, levantando poeira, sem barulho ou estrondo, só espalhando uma cegueira momentânea, porém geral, um respiro consentido que abate a todos. Fosse tudo isso, ou tantos outros senões, nada o exasperaria. Nada o faria rondar por essas ruas vazias já sem as roupas coloridas e a pintura, montado em tênis meio velhos e calça jeans, na busca desesperada de sei lá o quê.
De uma fuga.
De uma festa.
De uma fresta.
Ali, em frente àquela cômoda, ele parecia se ver cercado dos fios que tecem a malha espessa da vida — e que nem por isso o cobriam, o protegiam; pelo oposto, o expunham. Expunham a sua estada naquele círculo concêntrico que o impedia de circular por fora da lona amarelo-ouro em tênis e calça jeans, aspirar algo que não a fumaça meio cinza que lhe penetra nariz adentro. Um sufoco grande. Por isso vivia a tossir, confinado num processo sem fim, num ciclo estreito, no exagero, no querer abraçar o mundo sem esticar demais as pernas, sem ter cãibras. Sua vontade era um dia sair dali, cessando o caminhar interrompido em desespero pela cidade de buracos e tiros e gritos, fincando os tênis velhos em algum lugar, sem saber se então desmontará as imagens tão velhas quanto o seu tênis. Se virarão uma sombra ou simplesmente sumirão, como somem as falsas imagens que estamos a todo o tempo a construir para nos apoiar — ou nos seguir.
Talvez sigam enquanto ele fica, talvez fiquem com ele, abrigadas numa casinha de mato, com cachorro na porta, não para bradar contra quem chegue, mas para embalar no latido o começo da noite. Talvez. De um modo ou de outro poderá novamente se sentar, sem arroubos de angústia ou felicidade, na eterna e inquietadora dúvida se era melhor ter seguido sem saber a ter descoberto as dores do mundo. Descobrira. E agora lembrava do velho.
O palhaço, o velho, a cômoda e o ocaso. Num entrelaçar de dedos, todos se deparavam nesse instante com o mesmo palco. Afinal, o ocaso é mesmo o melhor pai para a trégua; a decadência iguala a todos na rima pobre de piedade com solidariedade, torna-nos todos mais iguais, quem sabe pela clarividência, quem sabe pela noção de o quão difícil é querer a luz sobre todas as coisas.
*
As luzes do palco foram trocadas pelas lâmpadas fraquinhas do espelho. Em cima do cômoda, a bacia d’água. Aos poucos, ele foi tirando a tinta do rosto, limpando com um pedacinho de algodão cada parte da pintura. Sujava cada chumaço e o jogava no lixo. Como se o branco, o vermelho, o azul e o verde pudessem esconder o que em si já é escuro, levantassem um muro para prender o tremor que via de dentro daquele quarto, arvorando-se em sair, pois, ao contrário da cômoda, as coisas não ficam paradas, a realidade não fica acordada o tempo todo.
Cada tufo que passava na cara era como um capítulo da história daquele móvel que nesse dia de estio teimava em lhe fazer companhia. Foi antes mesmo de se livrar da roupa, a cara já bem limpa, que ele segurou o rosto sobre as mãos, apoiadas nos cotovelos. Esfregou vagamente as pontas dos dedos sobre a textura da cômoda, seguindo as saliências, desviando dos objetos, levando na epiderme a poeira e os arranhões da canela. Sem limpar os dedos, recolheu novamente as mãos, recostou um pouco o pescoço à esquerda, cotovelos no móvel, revirando os olhos para o espelho, antes de abaixá-los de vez — e chorou.
* Conto publicado originalmente na revista Cult e reproduzido no livro 'Memória dos barcos' (7Letras, 2001). O título faz alusão a um filme, uma beleza de filme, de Ingmar Bergman, e o texto tem lá suas imperfeições. Mas ainda gosto dele...
Com atraso, coloco aqui o link para a matéria central da edição de outubro do jornal da OAB/RJ (do qual sou editor). O tema - o abuso do juridiquês - pode interessar também a quem não é advogado ou não tem qualquer relação profissional com a área jurídica. Afinal, ao menos o papel de 'parte' todos assumiremos em algum processo mais cedo ou mais tarde. Segue um trecho da reportagem. Acesse a íntegra aqui.
"Palavras que não comunicam"
Lingüistas, advogados e magistrados criticam o uso excessivo de jargões técnicos, que prejudica a compreensão de despachos e petições e ergue mais uma ponte entre a Justiça e a sociedade
Por Marcelo Moutinho
"O alcândor Conselho Especial de Justiça, na sua postura irrepreensível, foi correto e acendrado em seu decisório. É certo que o Ministério Público tem o seu lambel largo no exercício do poder de denunciar. Mas nenhum labéu o levaria a pouso cinéreo se houvesse acolitado o pronunciamento absolutório dos nobres alvarizes de primeira instância".
O trecho acima, retirado de um processo que realmente tramitou na Justiça, leva ao paroxismo o traço mais nefasto do chamado 'juridiquês': pôr as palavras contra sua função essencial - a comunicação. O uso exagerado de termos excessivamente técnicos e expressões pouco usuais acaba por solapar a transmissão da mensagem e impossibilita sua compreensão por parte do público não-iniciado no universo jurídico. (...)"
P.S. A charge acima foi feita pelo Aroeira para ilustrar a matéria.
A partir da próxima quinta (1º de novembro), o amigo Francisco Bosco e o ensaísta José Miguel Wisnik vão ministrar um curso interessantíssimo. Em Conceitos fundamentais da brasilidade, os dois apresentarão alguns dos textos fundamentais sobre a formação do Brasil, da carta do 'achamento' ao Diário de um detento, da literatura à antropologia, do século XVI ao XX. A idéia é investigar a singularidade da experiência brasileira, por meio de alguns de seus conceitos fundamentais, como 'cordialidade', 'raça', 'identidade' e 'canção'. As aulas acontecerão no Pop, em cujo site as inscrições podem ser feitas.
Herberto Helder
"Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.
Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.
Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo".

Durante algum tempo este blog felizmente se viu livre das malas que fazem comentários sem assinar, escondendo sua mediocridade e seu ressentimento sob a coberta ordinária do anonimato. São pequenas almas penadas, que transitam pela internet em busca de seus alimentos preferidos: a maledicência, a galhofa, a provocação mais rasteira.
Hoje, um bobalhão desses resolveu voltar a atacar. É claro que não aprovei seus comentários (só publico textos assinados). Aliás, aprovei um deles, aquele no qual o incauto pretendeu corrigir um suposto erro meu. Escreveu ele, utilizando a patética alcunha de "Dr. Pasquale":
"Ainda bem que o drible passou a ser desconcertante, eis que EU VI, pelo pay-per-view, que o drible que você viu foi desconSertante. Publique, covarde".
É evidente que um dos sinais mais flagrantes de covardia foi dado pelo próprio, ao não registrar seu nome. Mas, para que o rapaz (ou rapariga) aprenda, cito o livro ao qual recorro, com a devida humildade, sempre que tenho alguma dúvida. Com a palavra, o mestre Hoauiss:
"Desconcertante - Que desconcerta, desorienta".
"Desconcertar" - "fazer perder o concerto, a ordem, a harmonia", "transtornar, malograr, perturbar", "desnortear", "pôr em desalinho".
No referido dicionário, não há registro de "desconsertante", a sugestão do bobo. Lamento.
1. Antes de qualquer coisa, queria agradecer publicamente a todos vocês que acompanham o Pentimento. O blog registrou, nos últimos 30 dias, seu recorde da acessos, superando 7.130 pageviews;
2. Um bom programa para sábado à tarde é pintar na Casa de Rui Barbosa (Rua São Clemente, 134 - Botafogo) e prestigiar o evento Livros na mesa. Além de troca de livros (às 14h), haverá debate com os escritores Henrique Rodrigues, Paulo Henriques Britto e Salgado Maranhão (às 15h);
3. Na próxima terça, vai rolar pré-estréia de Jogo de cena, novo filme do Eduardo Coutinho, no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ (Av. Pasteur, 250 - 2º andar). A exibição será às 18h30, com posterior debate que contará com as participações do diretor, de Consuelo Lins, de Carlos Alberto Mattos e de Fernando Salis;
4. Recebi anteontem o disco Amigo de fé, novo trabalho do amigo alvinegro Cláudio Jorge. Em breve, comentarei aqui sobre o CD.
5 . Não deixem de conferir o precioso DVD que traz o programa da série Ensaio com o grande Roberto Ribeiro. Quem me deu a dica foi o imperiano de fé Carlos Andreazza e, depois de assistir ao programa gravado em janeiro de 1990, subscrevo-a com entusiasmo.
Além de conversar com o entrevistador Fernando Faro sobre a infância na cidade de Campos, o futebol (ele foi goleiro do Goytacaz e chegou a treinar no Fluminense), suas influências e a passagem pelo rádio, Roberto conta ótimas histórias sobre a relação com o Império Serrano. Na melhor delas, recorda-se de um show no qual levou uma 'chamada' de Mano Décio porque estava "falando demais". "Fica quieto, garoto, que na Serrinha a gente só começa a aprender as coisas com metade de 90", disse-lhe Mano Décio. Roberto, na época com 42 anos, não esqueceu mais da lição.
Além desses relatos', o DVD é recheado de canções, a maior parte do repertório do cantor (que, na minha opinião, forma com João Nogueira a dupla de timbres mais bonitos do samba). São pérolas como Vazio (Nelson Rufino), Acreditar (Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho), Liberdade (Dona Ivone Lara/Délcio Carvalho) e Amor aventureiro (Silas de Oliveira/Mano Décio), que estão enfileiradas ao lado de sambas-enredo que Roberto defendeu na Avenida, como o lindíssimo Nordeste, seu povo, seu canto e sua obra (para quem só conhece o recente hino da Mangueira sobre o tema, deve urgentemente ouvir este samba, cujo refrão é capaz de comover o mais frio dos homens).
No programa, ele apresenta também músicas que (salvo engano meu) nunca gravara, como os clássicos Preconceito (Wilson Batista/Marino Pinto) e Atire a primeira pedra (Ataulfo Alves/Mário Lago). É especialmente emocionante a interpretação de Canção de amor (Chocolate/Elano de Paula), cantada com uma amargura que machuca a gente - ainda mais quando lembramos que, ali pelos anos 90, ele começava a experimentar certo ostracismo. Literalmente, bonito de doer.
"Minha dica poderia ser o novo disco de Teresa Cristina, Delicada, um dos últimos que aportou no meu CD player e reluta em sair de lá. Mas todos vocês que conhecem o talento de Teresa já devem imaginar que não seria diferente. Por isso acho mais importante chamar a atenção para Samba meu, o terceiro – e melhor -disco de Maria Rita. Se nos dois discos anteriores, com um repertório híbrido demais, ela já tinha mostrado talento como intérprete, sem renegar o DNA materno, é no samba que a filha de Elis parece ter encontrado o seu rumo. Deve ser difícil para os talibãs aceitarem a invasão de uma cantora que não cresceu em Madureira e jamais pisou no Bip Bip (Moutinho, isso NÃO é uma indireta – sei que você gosta do disco!). Aqueles que vencerem o preconceito desfrutarão de um dos melhores discos do ano, cheio de composições inspiradas de partidei ros de responsa como Arlindo Cruz, Serginho Meriti e Franco, e pelo menos uma releitura antológica: O homem falou, sambão que Gonzaguinha compôs nos anos 80 e que, agora, na voz de Maria Rita, pode virar o Foi um rio que passou em minha vida do novo milênio. Acredite quem quiser."
* Jornalista e DJ especializado em música brasileira
A Ala dos Devotos, na qual desfilo religiosamente, já escolheu sua fantasia para o carnaval 2008 (foto). Estaremos na parte inicial da escola, numa ótima posição. Lembro que o Império desfila no sábado. A fantasia custa R$ 250, que podem ser pagos em três vezes. Se você quiser se juntar a nós e se tornar um devoto - adianto que o grupo é nota 10 -, basta deixar nome e email na caixa de comentários.
Cheguei em casa às 6h da madrugada e exausto, mas feliz toda vida. Por quê? Simplesmente porque o melhor samba entre os 27 concorrentes acabou sendo escolhido para levar o Império Serrano à Avenida no ano que vem. Entraremos na Sapucaí com o hino composto por Marcão, Marcelo Ramos, Vando Diniz, Chupeta, Henrique Hoffmann, William Black, Celso Ribeiro e Zé Paulo, o meu preferido desde a primeira audição - e, pelo visto, o preferido da maioria também.
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Carlos Andreazza, a rainha Quitéria Chagas e eu
Não que o samba de Arlindo Cruz e sua turma, o segundo na minha lista íntima, fosse ruim. Pelo contrário: além da alta qualidade, tinha uma estrofe final deliciosa ("Yes, nós temos o samba / Tamborim de bamba / Já é madrugada"), que fazia referência inclusive ao horário do desfile. Mas o hino vencedor, como se costuma dizer, 'pegou' - e já começo a apostar numa grande perfomance em 2008, apesar do crônico problema da falta de grana.
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Em ação, a melhor bateria do Brasil
O primeiro indício é que a emocionante disputa final encheu ontem a quadra da escola - isso numa fase difícil e em plena segunda-feira. Além disso, o casal de carnavalescos - Renato Lage e Márcia Lávia - fez questão de privilegiar a festa, outro bom augúrio. Mas o mais importante mesmo é que, além da beleza, o hino vencedor tem uma pegada que vou lhes contar, coisa fundamental quando se trata de Império Serrano. Ouçam aqui e vejam se não tenho razão. Segue a letra:
"TAÍ, EU FIZ TUDO PRA VOCÊ GOSTAR DE MIM"
Marcão, Marcelo Ramos, Vando Diniz, chupeta, Henrique Hoffmann, William Black, Celso Ribeiro e Zé Paulo
"LUZ DIVINA LUZ
EU QUERO OUVIR O SEU CANTAR
IMPÉRIO SERRANO É SAMBA
É CARMEN MIRANDA, É POPULAR
PEQUENA NOTÁVEL, DE TI EU SOU FÃ
OH! DEUSA DO BALANGANDÃ
NA IMENSIDÃO DE UM SONHO
VIAJEI NA FANTASIA
NO RÁDIO, NO CINEMA, NOS CASSINOS DEU UM SHOW
A FINA FLOR DA BOEMIA
NO TABULEIRO DA BAIANA TEM?
TEM REQUEBRADO, TEM QUITUTE, TEM AMOR
E NESTA FESTA VOU SAMBAR TAMBÉM
COM PANDEIROS TAMBORINS E AGOGÔS
SUA VOZ ECOA PELO AR
AO SOM DE LINDAS MARCHINHAS
SEU NOME ATRAVESSOU FRONTEIRAS
UM BUQUÊ DE POESIAS
SE INTERNACIONALIZOU, SAMBA IOIÔ
FEZ O TIO SAM SAMBAR SAMBA IAIÁ
ESTRELA QUE BRILHA, TU ÉS MARAVILHA
NUM LINDO CÉU AZUL ANIL
A PORTUGUESINHA QUE VIROU RAINHA
ORGULHO DESTE MEU BRASIL
MEU IMPÉRIO OUTRA VEZ
VEM NO BALANÇO DO SEU CORAÇÃO
EU SOU VERDE-E-BRANCO COM MUITO ORGULHO
SOU EMOÇÃO"
As fotos, que pesquei no blog da Ivana Arruda Leite, registram cenas do lançamento da antologia 35 segredos para chegar a lugar algum. O evento rolou na sexta passada, lotando o Barco Virgílio, e se estendeu (é claro) para a Mercearia São Pedro (que, aliás, foi abruptamente fechada à 1h. Ordens do seu Kassab). A antologia já está nas livrarias.
Legendas: 1. Beatriz Bracher e Andrea Del Fuego, 2. Bebel e eu, 3. Ivana e Michel Laub, 4. Marçal Aquino, Ivana e Maria José Silveira, 5. André Santanna, 6. Ronaldo Caggiano, Luiz Roberto Guedes e Marcelino Freire
Hoje, a partir das 19h30, será lançada a antologia 35 segredos para chegar a lugar nenhum, organizada pela Ivana Arruda Leite. Um dos textos do livro - que representa, na verdade, uma grande gozação com a auto-ajuda e conta com a participação de Marcelino Freire, Cintia Moscovich, Antonio Prata, Santiago Nazarian, André Laurentino, entre outros autores - é assinado por mim. O texto se chama As sete grande vantagens da depressão crônica (Manuel do spleen para amadores). O lançamento vai acontecer no Barco Virgílio (Rua Virgílio de Carvalho Pinto 422), em Pinheiros. Estarei lá e espero os amigos paulistanos para uma(s) cerveja(s).
Não foi o desconcertante drible com o qual Robinho sublinhou seu talento, nem a comprovação de que o mau humor do técnico (sic) Dunga resiste até mesmo a goleadas pró. Nada me impressionou mais, no jogo da Seleção Brasileira contra o Equador, do que a imagem da atriz Letícia Spiller 'vibrando' para as câmeras da TV Globo um pouco antes de a partida começar.
Ela mexia os braços, frisava a testa, dava murros no ar, esticava os lábios falando 'Brasiiiiiiiiiiiiil', tudo isso de maneira tão falsa, tão encenada, tão poseur, que sinceramente fiquei em dúvida sobre o real motivo do embrulho em meu estômago naquele momento: o patético desempenho de Ms. Spiller no papel de 'torcedora' ou a constatação de que, se havia um show programado para o Maracanã, decerto de futebol não era.
Gonçalo M. Tavares ganhou o Portugal Telecom. E ainda querem que eu leve a sério esses prêmios literários...
Alberto da Cunha Melo
"Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.
De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.
Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.
* Conheci este poema através do blog do Marcelino e fiquei muito bem impressionado. Para conhecer mais sobre a obra de Alberto que faleceu no sábado passado, basta clicar aqui. A pintura que acompanha o poema é do Iberê Camargo.
Por conta do inventário, andei esta semana remexendo nas coisas do pai. E foi (primeiro) com surpresa e (depois) com uma emoção estranha, mas cheia de barulhos de alegria por dentro, que, entre certidões, extratos, registros, documentos, encontrei esta carteira aí em cima.
"GRES Império Serrano, Francisco Moutinho Filho, sócio-proprietário nº 986" é o que registra o papel já amarelado, no qual consta ainda uma imagem rara: ele de terno. Curioso, eu nunca soube disso. Daí o susto. Daí a emoção feliz por dentro, a impressão simbólica de um bastão sendo passado, de um afeto quase genético e inexplicável que vincula um indivíduo e uma escola de samba.
Minhas lembranças da relação do pai com o Império são esparsas. Remetem, por exemplo, a um bar na Rua Carvalho de Souza, próximo da Casa Olga. Ele e Roberto Ribeiro tomando chope; eu beliscando sua calça jeans, pedindo ‘vambora’, ‘vambora’. “A saideira e nós vamos” - e, ainda sem conhecer os significados de frases como essa, eu esperava um pouco antes de insistir de novo para escutar a mesmíssima coisa. Na memória, há também flashs dos desfiles das campeãs daquela época, aos quais íamos, religiosamente, todo ano: eu, ele, minha mãe e meu irmão Flávio.
O pai nunca foi de dançar. Sempre preferiu a companhia da mesa, da cerveja, da trilha frita, dos amigos. Mas quando via, da cadeira de pista, o Império despontar na Avenida, imediatamente se levantava. O rosto ficava mais largo, ganhava um tom intenso de vermelho. Algo claramente acontecia por dentro e vazava, ainda que ele tentasse travar, de um jeito tão forte que impressionava aquele menino ainda começando no mundo. Poucas vezes eu o via daquela maneira.
Ele comentara, certa vez, que Mestre Fuleiro era seu amigo. E é bem provável que ajudasse a escola com alguma grana, já que, na época, as vacas ainda tinham gordura a queimar. No entanto, nunca o ouvi falar nada sobre a participação em algum desfile. Nem dessa carteira, ou de alguma presença mais efetiva na escola. Quase-segredos que agora, inesperadamente, vêm à luz.
Na próxima segunda, acontecerá a finalíssima na disputa dos sambas para 2008. E será lá, na quadra do Império, que, diante da imagem de São Jorge e com a carteira dele nas mãos, vou tomar uma cerveja em homenagem a tudo isso. Não sei, sinceramente não sei, mas talvez então me ponha a pensar se algum dia, num lugar qualquer, alguém sentirá ter herdado, das minhas paixões mais íntimas, algo bom assim.
Vencedora do Prêmio Josué Guimarães, a Lúcia Bettencourt esteve recentemente na Espanha, mais especificamente em Santiago de Compostela, onde proferiu palestra sobre a literatura brasileira contemporânea. Mui gentilmente, ela me citou no texto que leu na universidade local, fazendo correlações bastante pertinentes. O texto pode ser conferido, na íntegra, no blog Nadanonada. Posto, abaixo, um pequeno trecho da palestra:
"(…) Isso me leva a dizer que a produção literária contemporânea no Brasil é também diversificada. Talvez mais tarde os estudiosos encontrem um fio condutor dessa geração que abriga nomes como Marcelo Moutinho, Adriana Lisboa, Daniel Galera, Luís Ruffato, Verônica Stigger, João Paulo Cuenca ou poetas como Mariana Ianelli e Henrique Rodrigues. Suas produções se embrenham por estradas diferentes, “senderos que se bifurcan”, como diria Borges, mas todos são caminhos literários, de busca por uma expressão.
Há tantos caminhos quantas pessoas, talvez se pudesse dizer, mas, cada um de nós não hesita em reconhecer dívidas com relação a escritores que nos antecederam. Mia Couto, autor moçambicano de minha predileção, reconhece abertamente suas dívidas com relação a Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Raros são os autores que não se deixaram “emprenhar” por suas leituras. Alguns, como Verônica Stigger, seguramente revelam sua inspiração pela arte visual e pelas convenções dos vídeo-clipes e das revistas em quadrinhos. Com uma obra muito diferente, até repulsiva, em alguns casos, mas cheia de humor, ela procura um caminho novo ainda por explorar.
Mariana Ianelli (Almádena) e Henrique Rodrigues (A musa diluída), para citar dois excelentes poetas, buscam nos textos clássicos sua inspiração, não apenas formal, mas até temática. Enquanto uma cria uma poesia vigorosa e dialoga com os clássicos num discurso elevado e denso, o outro, como o título indica, dilui a inspiração clássica para mostrar que a opção pela cotidianeidade não impede o olhar poético.
Marcelo Moutinho, contista, possui um texto fortemente comprometido com um universo popular, onde não existem heróis, ou melhor, onde o maior heroísmo é a sobrevivência. Seu universo de pequenos funcionários e travestis lembram o mundo de Lima Barreto, mas seu lirismo o afasta dessa fonte e o aproxima de autores mais modernos, como Oswald e Clarice. Seu livro, publicado pela Rocco, chama-se Somos todos iguais nesta noite, título retirado de uma canção popular, o que demonstra como as fontes em que todos nos abeberamos são variadas – Estamos abertos ao mundo – artes visuais, música, internet, tudo o que nos rodeia vem a ser apropriado por nossos apetites literários. (…)"
"Minha dica é o romance Casa entre vértebras, do goiano Wesley Peres (Record, 2007). Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006, dentre cerca de outras 300 obras inéditas, essa explosão de palavras é da mesma família de Água viva e Lavoura arcaica, outros dos meus livros preferidos. Trata-se de tentativas de cartas escritas por um narrador que é ao mesmo tempo eu-lírico, buscando se comunicar com uma mulher chamada Ana, inacessível e diluída. O livro é escrito numa prosa poética densa e ao mesmo tempo fluida, numa das melhores realizações de textos fragmentados que tenho visto. (Mesmo porque muito livro por aí se pretende fragmentado mas só consegue ser espatifado...) Casa entre vértebras é um romance que costura os vazios com fios de água".
* Escritor. Autor de 'A musa diluída' (Record) e de Versos para um rio antigo (Pinakotheke)
Minhas reverências a Carlos Heitor Cony, autor referencial que é o convidado de hoje no Laboratório do Escritor. A conversa com Cony, em mais uma edição do programa coordenado pela Valéria Lamego e pela Cristiane Costa, acontecerá às 18h30, no CCBB.
O escritor responderá a 40 perguntas sobre sua extensa e rica obra, que inclui preciosidades como A casa do poeta trágico, O ventre e Antes, o verão. Um dos assuntos do bate-papo certamente será o romance Quase memória - talvez o melhor livro escrito no Brasil nas últimas duas décadas -, com o qual Cony rompeu um silêncio literário de 21 anos. Mila, essa cachorrinha de expressão triste que aparece ao fundo da foto, teve muito a ver com isso.
No último sábado, o Prosa & Verso (O Globo) publicou resenha minha sobre a novela A fera da selva, de Henry James. Por conta da diagramação, o texto acabou sendo um pouco cortado. Posto, então, a versão integral, que se segue:

Trágica epifania numa ponte sobre vazio
Marcelo Moutinho
O crítico Peter Brooks compara a estrutura de “A fera na selva” a uma ponte sobre o vazio. De fato, o abismo aparece como elemento central da lapidar novela escrita em 1903 por Henry James, que acaba de ganhar uma edição caprichada da Cosac Naify. A história do livro desenrola-se em torno de um casal numa situação aparentemente pueril: o reencontro entre John Marter e May Bartram, a mulher a quem dez anos antes fizera uma grande confidência.
May recorda ao esquecido Marter a oportunidade em que ele lhe disse ter, desde sempre, “o sentimento de estar reservado a algo raro e estranho, possivelmente prodigioso e terrível, que mais cedo ou mais tarde aconteceria”. Uma espécie de desígnio, que se manteria à espreita, “por trás de uma curva no desenrolar dos meses e dos anos, como uma fera na selva”, e ao qual Marter deveria aguardar até que enfim se desse, “destruindo a consciência de qualquer outra coisa”, alterando tudo, ou terminando mesmo por aniquilá-lo.
Reacesa a lembrança e restabelecido o mistério, May e Marter se aproximarão, estabelecendo um vínculo cujo amálgama será justamente o segredo compartilhado. De forma quase passiva, ela se compromete a lhe fazer companhia até que a fera dê seu inevitável bote, matando-o ou sendo morta por ele.
A espera pelo cumprimento do destino tão marcadamente assinalado é relatada por um narrador onisciente, muito próximo do ponto-de-vista de Marter, o que leva o leitor a experimentar tanto a gigantesca expectativa do protagonista quanto sua trágica epifania. A tradução de José Geraldo Couto preserva as feições intrincadas da prosa de James, diferenciando-se de versão anterior da novela, publicada pela Rocco, na qual Fernando Sabino procurou deliberadamente atenuar a complexidade natural do texto do escritor norte-americano ao vertê-lo para o português.
Em seus longos e densos períodos, James sugere mais do que afirma. Para citar uma das felizes metáforas do livro, sua escritura opera como a “tocha de um acendedor, que transforma em chamas, um por um, uma longa fileira de bicos de gás”. A incursão pelo universo interior dos dois personagens, como num movimento em espiral, revela o egoísmo de Marter, o cansaço e o desgaste progressivos da relação, mas nunca, nem quando o assombro de May sugere que ela já descortinou a esfinge, aproxima-se demasiadamente da ameaçadora “fera”. Com engenho, o plano narrativo espelha a condição do protagonista.
A recém-lançada edição da Cosac propõe uma camada interpretativa complementar, modelando o projeto gráfico ao conteúdo do texto. As folhas ganham gramatura à medida que a trama avança, tornando-se mais grossas, e a cor branca paulatinamente dá lugar ao cinza e ao prata, o que redunda numa diminuição do contraste entre as letras e o fundo da página. É uma pena que, ao contrário do que ocorreu com outros títulos nos quais a editora enveredou por experiência semelhante - “Bartebly, o escrivão”, de Herman Melville, e “O primeiro amor”, de Samuel Beckett -, em “A fera na selva” o recurso acabe prejudicando um pouco a legibilidade.
Por outro lado, a edição é valorizada pelo esclarecedor posfácio de Modesto Carone, que apresenta algumas chaves de leitura bastante originais. É precisa, sobretudo, a analogia entre os nomes dos protagonistas – Marcher e May – e os meses de março e maio. Trata-se exatamente do período em que, na Europa, desdobra-se a primavera – simbolicamente, uma época de promessas. Durante toda a novela, porém, paira uma luz outonal, que sutilmente desvela o contraste entre expectativas e malogro. No embate entre as estações, a tardia consciência de Marcher é devastadora: ele enxerga que as folhas foram ao chão antes mesmo de nascer.
* Escritor e jornalista
Este foi o grito ouvido em uníssono desde a metade do segundo tempo da partida de ontem, entre Fluminense e São Paulo, no Maracanã. É claro que nenhum jornal ou TV registrou o fato - possivelmente o que de mais importante aconteceu durante o jogo, muito mais do que resultados, contusões ou equívocos. Mas alguns, como a Folha de S. Paulo, fizeram ainda pior (como demonstra o texto abaixo): mentiram - e não de forma lírica, como fazia Nelson Rodrigues; mentiram, com o perdão da palavra, escrotamente.
Peço escusas, desde já, pela inevitável profusão de “sic”s nas linhas que se seguem - são dúvidas, perplexidades, diante do exposto - e deixo o pequeno vídeo acima, baseado nos escritos do Nelson, como contraponto, uma espécie de desafogo, à lamentável matéria do repórter Márvio dos Anjos, a tal publicada na edição de hoje da Folha. A reportagem (sic?) é emblemática do atual panorama da imprensa esportiva brasileira. O jornalista, que aparentemente não foi ao Maracanã (ao lado de sua assinatura, consta: “Da reportagem local”), arrola em seu texto uma série de barbaridades sobre o jogo em questão.
Estive no estádio. Vi que inexistiu o pênalti cavado pelo lateral Gabriel e que o juiz, equivocadamente, marcou (em tempo: o tiro não foi convertido em gol). A questão é: o repórter da Folha viu as outras coisas que aconteceram durante o jogo? Por exemplo: o domínio quase absoluto do Flu sobre a retrancada equipe do São Paulo, que ele tenta disfarçar apelando ao expediente, tão caro ao jornal para o qual trabalha, das ‘estatísticas’. A estatística, nos tempos em que vivemos, virou justificativa científica para qualquer estupidez. Marvio observa: “O jogo no Maracanã terminou com 10 finalizações são-paulinas, contra 14 do Fluminense, que jogou durante 15 minutos com um homem a mais”. Conclusão cristalina, não? Denifitivamente, o rapaz nunca leu Nelson Rodrigues.
O repórter da Folha lamenta, ainda, a expulsão do são-paulino Aloísio, argumentando que o atacante sofreu um penâlti que, na avaliação do árbitro, foi simulado. Como em geral é impossível se confirmar, categoricamente, a existência ou não de uma penalidade apenas com a visão da arquibancada, esperei a chegada em casa e vi o replay (este imbecil, segundo Nelson) para constatar: foi, sim, simulação. Aliás, tal confirmação não foi só minha: os três comentaristas da Sportv, nenhum deles torcedor do Flu, a atestaram, e por unanimidade. Se o jogador simula pênalti - e isto não quer dizer que concordo com a norma -, a regra diz que deve tomar cartão amarelo. Foi o que fez o juiz.
Esse cartão amarelo acabou provocando a expulsão de Aloísio, que mais tarde daria um pancada por trás em Arouca. Mas o repórter da Folha não faz referência a outro ato condenável do atacante são-paulino. Porque possivelmente não o viu. Mas eu conto: em certo momento do jogo, que a TV não mostrou, havia um atleta do São Paulo fora de campo, sendo atendido por contusão (sic?). Pois bem: o Flu atacava quando esse mesmo jogador entrou no gramado abruptamente, sem autorização do árbitro e tomou a bola do lateral tricolor, pelas costas.
Ao invés de parar, o juiz deu seguimento ao jogo, o que acabou gerando um contra-ataque do São Paulo. No contra-ataque, outro jogador são-paulino se machucou (sic?). Ainda assim, Leandro, atacante do mesmo time, tentou arrematar a gol, ignorando o colega caído. A bola, então, terminou nas mãos de Fernando Henrique, que, irritado com o fato de o soprador de apito ter deixado a partida seguir mesmo com o jogador tendo entrado de forma irregular em campo e com a seqüencial atitude anti-desportiva de Leandro, recolocou a bola em campo, abdicou do fairplay e não colocou a bola para fora, partindo para tentar o gol que faria justiça ao que se deu no estádio.
E o que o árbitro fez? Parou o jogo e autorizou o atendimento ao atleta contundido (sic?). Em seguida, pediu que os são-paulinos devolvessem a bola. Foi então que Aloísio deu um bico para a frente, tentando claramente acertar um dos atletas do Flu, que estava à sua frente. Seria o segundo amarelo, da série de três merecidos (dois efetivamente recebidos). Mas o juiz não o repreendeu, nem o repórter Marvio dos Anjos notou isso. Assim como não notou a violência da falta - por trás, repito - feita por Aloísio em Arouca.
O repórter da Folha não registrou, também, que o São Paulo talvez tenha sido o time mais beneficiado pelas arbitragens no atual Campeonato Brasileiro. Para clarear a lembrança, basta citarmos o jogo contra o Paraná, com certeza o maior e mais límpido roubo acontecido em todo o torneio, e que legou à equipe paulista três pontos de modo absolutamente ilegal.
Finalmente, Marvio dos Anjos não enxergou que o Flu encurralou o covarde time são-paulino em sua defesa durante 90% do tempo de jogo (por um simples motivo: só uma das equipes entrou em campo para ganhar). Ou que o covarde time são-paulino, antes mesmo de Aloísio ter sido expulso, começou a cair em campo, a demorar na reposição das bolas, em suma, a fazer cera, tentando ganhar tempo para garantir o empate contra um adversário que se mostrava claramente superior. São recursos compreensíveis no caso de equipes retranqueiras, e que - por isso mesmo - justificam o canto dos mais de 40 mil tricolores presentes do Maracanã: “Timinho, timinho”. Não justificam, porém, o adjetivo utilizado na matéria para classificar o jogo: "equilibrado" (sic, sic, sic).
Todos esses fatos dizem muito sobre o virtual campeão brasileiro – o tal “timinho” -, mais ainda sobre parte de nossa imprensa esportiva, subserviente a interesses outros que não o de reportar a verdade, ainda que sob o natural filtro subjetivo. Num plano mais profundo, a matéria de Marvio dos Anjos é a certeza de que Platão foi derrotado pelos sofistas – e faz a gente compreender por que enfim os jornais do estado vizinho, ao contrário dos nossos, trazem “São Paulo” no nome.
Hoje, a partir das 19h, vai rolar na Travessa de Ipanema o lançamento de O dia Mastroianni, novo romance do João Paulo Cuenca. O livro, que traz mais uma capa inspiradíssima do Christiano Menezes, narra a história de dois amigos que decidem repetir, como farsa, o ritual dândi vivido pelo grande ator italiano no célebre La dolce vita, de Fellini. Depois do evento mais formal na livraria, haverá festa no Cinematheke Jam Club.

Estive ontem na coletiva de lançamento do disco de estréia do Moyseis Marques. O evento levou muita gente bacana ao Carioca da Gema, numa demonstração de o quanto o cantor é querido nas rodas cariocas. Após a entrevista, rolou um show baseado no repertório do CD.
Foi muito bom ver o Moyseis apresentar-se sem as amarras das canções obrigatórias da noite. E o repertório do disco, que leva seu nome, é irrepreensível. No trabalho, ele faz um passeio pela própria trajetória, com sambas clássicos, ritmos nordestinos e composições inéditas.
As criações do Moyseis, aliás, são uma ótima surpresa. Seja nos vôos-solo, como Receita de Maria (“Prato, faca e pandeiro / E palma de macumba / Cura qualquer quizumba”), seja nas parcerias, caso de Prece à inspiração, dele e de Daniel Scisínio, as letras e melodias têm alta qualidade.
O disco inclui ainda a crítica O vendedor de caranguejo (Gordurinha), as divertidas Baile na Piedade (Jorge Veiga/Raul Marques) e Falsa patroa (Geraldo Jacques/Isaias de Freitas), além de mais uma bola dentríssimo do Luiz Carlos da Vila Profissão (com André Renato e Sereno) e de uma preciosidade da dupla imperiana Done Ivone Lara e Délcio Carvalho: Minha verdade.
É uma pena, porém, que o Moyseis não tenha gravado também o samba Imperial, que ele costuma cantar. Confesso que este coração verde-e-branco bateu descompassado ontem, quando a música de Aldir Blanc e Wilson das Neves – uma das mais belas homenagens já feitas ao Império - foi lindamente interpretada no palco do Carioca.
Por outro lado, Nomes de favela está no disco. O Paulo César Pinheiro já havia registrado sua canção – uma maravilha contemporânea - no CD Lamento do samba. Mas creio que a gravação por um rapaz de 28 anos torna ainda mais emblemáticas a urgência e a atualidade da letra (que posto abaixo, para quem não conhece), cuja força poética é inegável.
Assim como emblemáticas foram algumas das cenas do show. O uísque duplo nas mãos do Moyseis, para dopar o natural nervosismo de uma estréia como aquelas. A frase gaiata, fingindo o susto de constatar que “até seu psicanalista estava ali”. O olhar para o mezanino do Carioca, onde se localizava sua família, enquanto cantava Quatorze anos, de Paulinho da Viola.
O CD do Moyseis vem se somar aos de Cristina Buarque e de Maria Rita (do qual tratarei em breve) neste ano que se revela excepcional para a música brasileira. Cada um com seu estilo, sua marca, suas escolhas, são discos que comprovam a vitalidade e a relevância do que se anda fazendo por aqui.
"Nomes de favela"
Paulo Cesar Pinheiro
"O galo já não canta mais no Cantagalo
A água não corre mais na Cachoeirinha
Menino não pega mais manga na Mangueira
E agora que cidade grande é a Rocinha?
Ninguém faz mais jura de amor no Juramento
Ninguem vai-se embora do Morro do Adeus
Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres
E a vida é um inferno na Cidade de Deus.
Não sou do tempo das armas
Por isso ainda prefiro
Ouvir um verso de samba
Do que escutar som de tiro.
Pela poesia dos nomes de favela
A vida por lá já foi mais bela
Já foi bem melhor de se morar,
Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda
Ou lá favela a vida muda
Ou todos os nomes vão mudar"
"Lendo a alvinegra coluna do Dapieve, encontrei um grande elogio ao escritor Ian McEwan, inglês. E o livro em questão, Na praia. São 128 páginas de se ler numa sentada só, como diria João Ubaldo Ribeiro. Substantivos necessários para se sugerir um filme. Adorei. Ainda na literatura, a Desiderata acaba de relançar a Antologia da Lapa, com delicosos textos de Lima Barreto, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, entre outros. 'Modestíssimamente', tem dois prefácios: Millôr Fernandes e Moacyr Luz. Pra virar música, o lançamento será em 17 de outubro no Carioca da Gema, dia da minha apresentação. Posso fechar? Ouçam o novo disco da Juliana Amaral: Juliana samba".
* Cantor e compositor. Autor do 'Manual de sobrevivência nos butiquins mais vagabundos'
Aquilo que comentei diante de dois amigos, durante a Feijoada da Portela, repito hoje aqui: o disco Cristina Buarque e Terreiro Grande é uma obra-prima. Bem inteirados no samba, esses dois amigos costumam implicar um pouco com a voz meio esgarniçada da cantora (cujo timbre, pelo contrário, agrada-me particularmente) e mostraram-se desconfiados diante da firmeza da minha assertiva. Sem enveredar pelo terreno pantanoso do gosto pessoal, avisei logo que o CD é muito mais do que uma obra de Cristina – o que já seria bastante, diga-se.
Trata-se, para além disso, da reprodução fiel de uma roda-de-samba, com a mistura tão característica de músicas conhecidas e composições raras, o encadeamento de várias canções numa mesma faixa (são, ao todo, 35 em quatro grandes blocos) e, sobretudo, o canto em coro que, de muitas gargantas, se torna uníssono.
Além de tudo, como bem já ressaltou aqui no blog o querido Pedro Paulo Malta, o trabalho de pesquisa feito pela Cristina é mais uma vez primoroso. Gravado ao vivo, o disco traz pérolas que eu desconhecia, como Confraternização (Walter Rosa), bela homenagem aos velhos sambistas e às escolas-de-samba, perfeitamente integradas a clássicos do naipe de Vida de fidalga (Alvaiade), Sentimento (Mijinha), Esta melodia (Bubu da Portela) e Você me abandonou (Alberto Lonato).
A cada audição, o CD me deixa mais tocado. A melodia da primeira parte de Desengano (Aniceto da Portela), que sobe no terceiro verso, justo onde se fala em “dor pungente”, a letra existencialista a toda prova de Alvaiade em O mundo é assim, lembrando que “o dia se renova todo dia / eu envelheço cada dia e cada mês / O mundo passa por mim todos os dias / Enquanto eu passo pelo mundo uma vez”, tudo isso é muito comovente, muito rico, muito revelador da singularidade de uma cultura - a nossa - à qual devemos reconhecimento e reverência.
O grande mérito do grupo Terreiro Grande, a quem fui apresentado nesse disco, foi preservar o andamento original dos sambas, mantendo a cadência pedida. Ao mesmo em que acende velas à memória, o grupo repisa a extraordinária atualidade do que é cantado: os problemas e prazeres dos homens, as dores e delícias que se foram e sempre hão de vir. Preciso, competente e bonito pacas. Obra-prima, sim senhores.
No último sábado, eu, F. e mais uma plêiade de amigos estivemos na já tradicional feijoada da Portela. Ótimo, como de costume, o evento teve nesse fim-de-semana momentos especialíssimos. O primeiro deles foi o lançamento do livro Clara Nunes - Guerreira da utopia (foto), de Vagner Fernandes - publicação que, aliás, conta com um lindo projeto gráfico do Christiano Menezes. Em tributo à Clara, boa parte dos convidados cantou sambas marcantes de seu repertório. Um dos destaques - ao lado da sempre comovente presença da Velha Guarda - foi a surpreendente participação de Leny Andrade, que, como costuma falar o pessoal da música, 'quebrou tudo'.
O segundo grande momento deu-se quando uma sonora vaia foi ouvida em toda a quadra logo que anunciada a presença do senador Marcelo Crivella. Nem mesmo os apelos da diretoria portelense se mostraram capazes de calar as mais de mil pessoas presentes. Pelo contrário: a cada pedido de compreensão, o som da multidão aumentava. Ao fim, conseguimos impedir que Crivella estragasse, com seu discurso, um sábado tão especial. Fazia tempo que eu não presenciava um espetáculo de expurgação política como esse.
1. A revista Bravo! deste mês publica matéria, assinada por André Nigri, na qual especula sobre "quem seria o Marcelo Rubens Paiva" da novissima geração. A reportagem trata dos chamados 'romances geracionais', citando O encontro marcado, de Fernando Sabino, e Feliz ano velho, de Paiva, e menciona, como possíveis representantes do modelo na atualidade, os livros de João Paulo Cuenca e Daniel Galera.
Sem entrar no mérito da qualidade dos dois - ambos são bons escritores -, achei curiosa a analogia. Isto porque, mui diferentemente do que ocorre agora, tanto o livro de Sabino, quanto o de Paiva tiveram em suas épocas vendas bastante expressivas. A verdade é que naquele tempo - pasmem! - realmente havia leitores interessados nos autores brazucas, cujos trabalhos não raro entravam nas listas de mais vendidos. Quem dera - para o Cuenca, para o Galera e para todos nós - que o panorama ainda fosse esse. A literatura brasileira, meus caros, perdeu a relevância.
Como subretranca, a Bravo! traz um artigo em que o editor da revista, João Gabriel de Lima, faz uma análise de conjuntura ainda mais interessante do que a matéria principal. Afirma ele, no texto, que os escritores de sua geração - aquela que hoje tem em torno de 40 anos - dedicaram-se a outros ofícios, como o jornalismo e a publicidade, em paralelo à literatura. João Gabriel cita alguns desses nomes - Arthur Dapieve, Paulo Roberto Pires, Fernanda Young... - e se inclui na lista.
Em contraponto, ele salienta que boa parte dos novíssimos - situados, no artigo, como aqueles que estão à beira dos 30 - vêm conseguindo efetivamente viver apenas de literatura (incluídos aí não apenas a produção de livros, mas o trabalho em traduções, a participação em seminários, projetos, etc.) e saúda este fato com entusiasmo. Não há dúvida quanto a isso, e certamente há outras distinções entre os dois grupos, inclusive estéticas. Mas achei peculiar que, mais uma vez, o cotejo tenha se dado entre essas duas pontas. Talvez por isso aqueles que, como eu, regulam sua idade justamente no meio delas acabem em certos momentos sentindo-se numa espécie de limbo.
2. Aliás: o Marcelo Rubens Paivc não teve fôlego para outro trabalho tão bom quanto o livro de estréia.
3. "Simula que é um personagem trágico que não pode deixar de fazer o que faz porque o destino é inexorável, o que é uma fantasia absurda: o grau zero da crença, o vazio da cosmogonia (...) Só a frieza do olhar de fora pode dar essa dimensão á vida - aqui, agora, ele está no olho do furacão de si mesmo, e a vida jamais pode ser estetizada, ela não é, não pode ser um quadro na parede". No trecho de O filho eterno, Cristóvão Tezza explicita, muito melhor do que eu, algo que precisa ser lido, sobretudo por aqueles que escrevem.
4. Às vezes, dá uma violenta sensação de inutilidade.
5. Mas como bem disse o Caio F., "existe sempre alguma coisa ausente".
6. Last but not least: o amigo Mariel Reis é mais um a entrar para o mundo blogueiro. Seu Cativeiro amoroso e doméstico entra hoje para a relação de links indicados do Pentimento.
Amanhã, a mui querida amiga Ieda Magri vai estrear no mercado editorial (esse monstro devorador de criancinhas) com Tinha uma coisa aqui. O lançamento acontecerá no Restaurante Nanquim (Rua Jardim Botânico, 644), a partir das 21h. Na orelha, Heloísa Buarque de Hollanda derrama elogios ao livro da moça, que reúne três pequenas narrativas cuja interseção, adianta a professora, é a dor da perda. Estarei lá!
O site Críticos.com colocou no ar hoje minha resenha sobre Pintora aos 4 anos, de Amir Bar-Lev. Entre os poucos filmes que vi no Festival do Rio, esse foi um dos mais interessantes. Publico, abaixo, um trecho da resenha. Leia a íntegra do texto aqui.
"(...) Quando Amir Bar-Lev decidiu filmar a história de Marla Olmstead, uma menina norte-americana de classe média cujas pinturas começaram a chamar atenção no mercado de arte, seu interesse possivelmente não ia além do registro de um episódio curioso. Ou, ainda, da tentativa de compreender o caso. Para isso, ele conversa com os pais da garota e entrevista jornalistas, críticos e curadores, que tentam esquadrinhar o ‘talento’ de Marla e os critérios qualitativos da avaliação artística. Estabelece, também, analogias com artistas como Jackson Pollock, procurando situar os quadros da jovem prodígio no âmbito da arte abstrata contemporânea. Tudo isso é feito com muita competência, atraindo o interesse do espectador para questões prementes da nossa cultura (e da indústria cultural) (...)"
"Vou indicar Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, um romance incrivelmente pretensioso lançado pela Record há pouco tempo. Ah, sim, eu acho que pretensão muitas vezes pode ser uma qualidade, e o livro de Ana Maria certamente tem pretensão de sobra no melhor dos sentidos: um épico de 950 páginas que conta a história de uma menina africana capturada como escrava e trazida para o Brasil, seguindo a personagem até sua morte e fazendo assim um retrato denso do Brasil da escravatura, do ponto-de-vista do escravo. Embora a paixão da autora pelo detalhe torne algumas passagens um tanto enfadonhas, Um defeito de correaliza sua pretensão épica com uma prosa simples, despretensiosa, recorrendo ao melodrama sem pudor e com emoção, e
criando uma protagonista apaixonante e arrebatadora".
* Jornalista, roteirista e escritor. Autor dos livros 'Juízo' e 'Porra', além de colunista de O Globo
O amigo Claudio Jorge manda avisar que hoje tem festa no Rival (clique em cima do convite para melhor leitura):
Marcelo Moutinho
A abelha zoava em seu vôo ziguezagueante sem aparentemente demonstrar nervosismo. Estava eu sentado na cadeira de balanço, lendo o jornal acumulado do fim de semana, enquanto a televisão atirava imagens banais e pronunciava sons não identificáveis para uma platéia que não havia.
De resto, era um domingo comum. O sono bem fornido de uma manhã esticada na cama, o café exagerado nos biscoitos casadinhos de goiabada, o jornal grosso e desafiador a lembrar a leitura atrasada desde a semana passada. Havia algo daquele clima de início de noite dos domingos, aquela parcela de desilusão que a perspectiva da segunda-feira traz, a perda do ar inebriante que costuma brindar os feriados.
Mas se nem a TV era capaz de perturbar minha concentração, o que dizer daquela abelha, voando longe, provocando apenas um restio de barulho, zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz, e competindo desigualmente com as falas do apresentador do Fantástico. O show da vida mostrava a morte num morro carioca. Era um tal de autoridades a desfilar, depoimentos burocráticos e imagens especialmente selecionadas para causar uma emoção qualquer de fim de domingo. Eu movia lentamente a cadeira de balanço de modo a embalar o meu descanso, dar ritmo à minha rara tranqüilidade, sentindo por vezes na face um bafo leve que vinha da janela da sala, escancarada a fim de permitir que me sentisse dentro da primavera; um misto de calor e frescor.
O locutor falava, a abelha ziguezagueava. E foi aumentando progressivamente a velocidade de seu vôo. Parecia pressentir que o tempo mudava, seguindo um desses instintos que os animais em geral têm mais aguçados do que os homens que passam o domingo em frente à TV.
Já quase adormecera, e o jornal começava a cair levemente sobre meu rosto, quando uma repentina explosão me despertou. Um barulho ensurdecedor tomou conta do ambiente e estilhaços de vidro espalharam-se pela sala, fazendo com que corresse para trás da poltrona e me protegesse. Trêmulo, absorto no susto de trafegar num salto da sonolência para a excitação, revezei os olhares entre a janela arrebentada pela força do que entrara na sala e a bola de fogo que ardia ao lado da TV, depois de destruí-la.
O vento havia mudado. Um violento sudoeste, daqueles que prevêem chuva e tempo ruim, tomara conta de tudo lá fora. O barulho não cessara. Fagulhas em cinza movimentavam o monitor e um som estridente soava do alto-falante, porém as chamas daquele objeto eram agora o principal ponto de atenção de quem entrasse na sala.
Relutara inicialmente em me aproximar, meio por medo de me queimar com alguma fagulha do pequeno incêndio, meio por outro temor: aquele que permeia as coisas que desconhecemos, que nos afasta do que a nós é impossível definir.
Contudo, à medida que as chamas se acalmavam, podia ver com mais nitidez o culpado pelo fim da minha TV e da interrupção da cotidiana e banal noite de domingo. Amarela, puxando para o dourado, em torno de meio metro de uma ponta à outra: era uma estrela. Caiu uma estrela na minha sala. Não sabia de que maneira ela precipitara céu abaixo, na força da gravidade, e penetrara janela adentro em direção à TV.
Os espasmos iniciais de espanto e excitação impediram que pudesse raciocinar direito e concluir a impossibilidade da situação. Há muito sabia que as estrelas têm tamanhos imensos, e a colisão de uma delas com a Terra resultaria desde logo no fim dos tempos — pelo menos para nós, homens. Aquele objeto amarelo-ouro, com seus presumíveis 40 centímetros, deveria integrar outra ordem de coisas, ser apenas uma cópia ordinária.
Após construir matematicamente hipóteses possíveis sobre de onde enfim viera aquilo, remeti ao luminoso que enfeitava a antiga chapelaria vizinha ao sobrado. Aproximei-me da estrela, já resfriada pelo tempo decorrido e pelo vento que insistiu sala adentro, e a observei mais de perto. Não parecia uma indumentária de letreiro. Era-me difícil intuir — ou concluir — de que tipo de classificação poderia me servir para rotulá-la. Nomear, nomear, nomear o inteligível e o ininteligível, eis o nosso incessante desejo.
Pensava nisso quando notei novamente a presença da abelha insistente. O barulho voltava a brigar com as fagulhas de som da TV quebrada e ela sobrevoava a estrela como se rodeasse as mesmas dúvidas que me assombravam.
Então, seguindo os passos daquela iluminação fortuita, decidi descer as escadas do sobrado e conferir o letreiro da chapelaria. Vesti uma camisa flanelada para enfrentar a rua, corri pelos degraus atrás de uma resposta, abri as duas fechaduras que insinuavam segurança e enfim deparei-me com a loja. Lá estava, imponente, a estrela a incrementar o luminoso.
Fiquei cabisbaixo, admito. A ausência de sentido, a impossibilidade de ver despencar uma estrela em direção à minha sala dominou minhas atenções enquanto escalei novamente os degraus do sobrado, voltando à sala. Lá estava ela, a estrela, solitário ornamento brilhante da minha casa. De posse de uma velha blusa transformada em pano, esfreguei cada uma das cinco pontas da estrela até deixá-la bem limpa. Como se umedecesse a paleta de cores de onde nasce toda ilusão, deixasse escapar o poeta que pode haver nos poros do corpo, acarinhei cada centímetro, de um lado a outro, perguntando-me por que logo na minha sala, antes de levá-la ao quarto e guardá-la na gaveta de meias.
* Este conto, inspirado num trabalho em cerâmica do Nadam Guerra, foi publicado no meu 'Memória dos barcos' (7Letras) e a partir de hoje faz parte do acervo aqui do site. É estranho o exercício de rever esses textos antigos - e grande a tentação em mexer neles...
Acabo de saber, através do site do jornal O Dia, que morreu hoje cedo o Tuninho Fuleiro, membro da Velha Guarda do Império. Filho de Mestre Fuleiro, fundador e lendário diretor de harmonia da escola, Tuninho veio ao mundo quase juntinho com a agremiação (ele nasceu em 1949), cuja bateria comandou por 18 anos. O sambista estava internado há três semanas e infelizmente acabou não resistindo ao câncer. É mais um que merece o tributo do Império na volta por cima do ano que vem, quando "os fãs vão chorar saudades / Em não (nos) ver no (nosso) grupo desfilar".
Há pouco mais de um ano, a Ivana Arruda Leite me convidou para participar de uma antologia que ela estava organizando. A idéia era fazer uma brincadeira com a onda da auto-ajuda, 'gênero' que costuma render muito dinheiro, a partir da prosa de autores da novíssima geração (nós, que não vendemos nada). Um belíssimo contraponto, pois.
Então, cada um dos 35 convocados - entre nós, Marcelino Freire, André Laurentino, Antonio Prata, Cintia Moscovich, Nelson de Olvieira, Fernando Bonassi e Xico Sá, além da própria Ivana - escreveu um texto meio sacana no 'espírito' da auto-ajuda. O resultado dessa divertida brincadeira é o livro 35 segredos para não se chegar a lugar nenhum - Literatura de baixo-ajuda (Bertrand Brasil), que será lançado no dia 19 de outubro, no Barco Virgílio, em Sampa.
Tentarei ir à festa de lançamento - e convoco desde já os amigos paulistanos a estarem lá.
O site Críticos.Com vem fazendo uma ampla cobertura do Festival do Rio desde o início do evento. Apesar de integrar a equipe do site - formada também por Marcelo Janot, Carlos Alberto Mattos, Maria Silvia Camargo, Nelson Hoineff, Daniel Shenker, Jaime Baggio, Luiz Fernando Gallego e João Marcelo F. de Mattos -, só pude começar a conferir os filmes do Festival no final da semana passada.
De lá para cá, assisti a Juízo, documentário da Maria Augusta Ramos, Fados, do Carlos Saura, e O assaltante (foto), longa de estréia do argentino Pablo Fendrik. A resenha do filme de Fendrik, centrado em uma manhã no cotidiano de um homem com vida dupla, já está no ar. Publico, abaixo, um pequeno trecho do texto. Confira a íntegra e as mais de 50 análises já feitas pela equipe do site aqui.
"(...) Em seu curto filme, Fendriz não tenta esquadrinhar as razões pelas quais o homem realiza os crimes. Limita-se a inventariá-los, através de uma câmera nervosa que literalmente ‘cola’ no protagonista e reproduz, nos movimentos, sua forte tensão interna, num contraste flagrante com o semblante calmo que mantém durante os assaltos.(...)"