
Banho
Marcelo Moutinho
Com as costas envergadas
de vergonha
Tu entraste no banheiro.
O silêncio constrangido
a toalha nos ombros
cobriam um leão morto.
No box apertado
Girei os registros
Molhei a toalha
Pedi que te virasses
Plantaste as mãos
– imóveis –
sobre os azulejos.
E a cortina tocou meu rosto
Guiada por mim, a toalha passeou:
teu tronco
tuas pernas
braços
pescoço.
A toalha úmida,
e a cortina
que se fechava.
No breu dos teus olhos cerrados
E no tremelique das mãos
(que não podias deter)
Lembravas:
Um dia
Também me deste banho.
Girei os registros
Troquei de toalha
Pedi que te virasses
Enquanto te secava
E ouvia um obrigado
Soube que não há como se sair limpo
De um banho desses.
P.S. Não escrevia poesia há mais de 20 anos. Anteontem me deu vontade de rabiscar esses versos aí em cima. Como coloquei no título do post, é apenas um poema, despretensioso, de alguém acostumado a só escrever em prosa. Infelizmente, o programa do site não me permite reproduzir os espaçamentos originais do texto. Ah sim: a imagem que acompanha o poema é da artista plástica Mariana Leal.
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