
A pedido da Rocco, escrevi um 'release assinado' sobre o romance Rádio Cidade Perdida. O autor do livro, o peruano Daniel Alarcón, estará no Rio para a Bienal, que começa no próximo dia 13. Segue o texto que fiz sobre o trabalho dele, que é muito interessante:
Mais do que simplesmente lançar um olhar realista sobre o terrorismo, Rádio Cidade Perdida examina as fraturas – físicas e emocionais – deixadas em seu rastro. O livro de Daniel Alarcón lambe as feridas de uma guerra civil travada numa nação indefinida, onde o governo e um grupo revolucionário se enfrentaram, com graves conseqüências para a população. Trata-se do romance de estréia de Alarcón, jovem peruano radicado nos Estados Unidos, que foi apontado pela respeitada revista Granta como um dos 20 autores mais promissores do país.
Norma, a protagonista do livro, é apresentadora de um popularíssimo programa radiofônico, dedicado à busca de pessoas desaparecidas durante o conflito. Certo dia, ela é procurada por Victor, um garoto vindo das províncias, que lhe entrega uma carta e uma lista de nomes para ser lida durante a transmissão.
O encontro entre os dois personagens possibilitará a interseção dos diversos fios de enredo que o autor estica no decorrer da narrativa e provocará uma verdadeira transformação na vida de Norma. Através de Victor, a radialista poderá reconstruir a história de uma ausência - a do marido, Rey, de quem não tem notícias desde o fim da guerra, há dez anos e, desconfia ela, foi morto pelas forças governamentais.
O narrador onisciente concebido por Alarcón conduz a trama com base em intencionais lapsos de tempo, de modo a fazer com que o leitor só conheça os fatos à medida que as trajetórias dos personagens se interligam. Também é nesse ritmo que, paulatinamente, a esfinge de Rey se revela.
Embora fictícios, o país imaginado pelo autor e a própria condição reencenam a situação enfrentada pelos peruanos na década de 1990. “É um país baseado no Peru, uma cidade baseada em Lima, que não é Lima, nem o Peru. Queria criar um país, uma cidade, que um peruano poderia reconhecer, mas alterados, distintos”, afirma Alarcón, que escreveu o livro originalmente em inglês.
Sem tomar partido de nenhuma das partes, o romance esquadrinha as conseqüências do enfrentamento. Como antecipa a epígrafe de Carlos Monsiváis, Alarcón joga luz sobre aquele que “é executado”, mas também sobre os que formam o pelotão de fuzilamento”. “O que um carro bomba diz sobre pobreza, ou o que a execução de um prefeito rural explica sobre privação de direitos? A guerra tinha se tornado, se não o fora desde o início, um texto indecifrável”, comenta o narrador.
Para os personagens de Rádio Cidade Perdida, a guerra foi, por muitos anos “uma entidade única, implacável”. O exército e os revolucionários incendiaram bairros, explodiram prédios, transformaram o país em ruínas. “Aquilo não parecia ser uma cidade e sim um museu de cidade (...). Havia soldados em cada esquina, eles já faziam tanto parte do cenário que tinham se tornado quase invisíveis”, observa ele.
Norma, Rey, Victor e os demais se lembram desse passado remoto, enquanto enfrentam os entraves da reconciliação, cujos efeitos, assim como o conflito, tocam particularmente em suas vidas. O objetivo maior é o esquecimento – estimulado inclusive pelo governo, que determina a troca dos antigos nomes das cidades por impessoais números -, mas os personagens não conseguem soterrar suas dores. Um dos méritos de Alarcón é relatar esse sofrimento sem afetação. Mesmo nos momentos de maior tensão dramática, a narração é substantiva, como se quisesse salientar que, em tempos de guerra ou quando ainda se vive sob a sua égide, até as coisas mais terríveis ganham uma estranha aura de naturalidade.
Ao final, talvez fique a impressão de que nem o próprio autor pôde encontrar uma resposta para a questão que paira ao longo de todo o romance: “Quem tem razão em tudo isso?”
Com a palavra, portanto, o leitor.
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