
Desde que me mudei do subúrbio, há longos 27 anos, o Dia de São Cosme e São Damião passou a ser só uma lembrança boa. Na casa da minha bisavó, um sobrado na Rua Carvalho de Souza (em Madureira), era costume "dar doce", e eu gostava de ajudar a montar os saquinhos - uma maria-mole, um coco de rato, um suspiro, um pé-de-moleque, doce de abóbora e de batata... Os últimos ficavam meio desfalcados, já que as caixas de doce compradas variavam quanto ao conteúdo.
Depois do trabalho pronto, eu e meu primo André saíamos pelas ruas, atrás de nossos próprios saquinhos ou de algum "Cosme e Damião de mesa". Para quem não sabe: famílias que preferiam organizar pequenas reuniões em casa para receber as crianças e colocavam os doces sobre a mesa da sala - uma espécie de self-service. Eu, sinceramente, sempre preferi a aventura de buscar os saquinhos.
A ligação dos dois santos com a infância, aliás, remonta ao Candomblé, no qual Cosme e Damião são associados à falange dos Ibejís, gêmeos amigos das crianças e que teriam a capacidade de agilizar qualquer pedido em troca de guloseimas. Essa relação com a tradição afro-brasileira e vários outros traços da festa são ressaltados num samba muito bacana dos imperianos Arlindo Cruz e Aluísio Machado (com Jorge Carioca), que posto aqui, em reverência ao dia de hoje.
"Falange do erê"
Jorge Carioca, Arlindo Cruz e Aluísio Machado
"Só quem acredita, vê
Essa vida é um doce
Mesmo se não fosse, eu seria assim
Sou menino brincalhão
encontrei a chance bem ao meu alcance
e agarrei prá mim (eu dou...)
Doum, viva Cosme e Damião (Doum)
Doum, viva Cosme e Damião
(viva Cosme e Damião)
Viva Cosme e damião, Doum
Doum, viva Cosme e Damião
O que importa é que a gente miúda
me trouxe ajuda quando precisei
O que prego nas minhas andanças
é que só as crianças me ditam a lei
Assim me sinto protegido, ungido
com a viscosidade de fé
Sua benção é presença imensa
que vença com a crença
quem tem seu axé (eu dou...)
A vida tão amargurada
essa gurizada me fez renascer
Hoje sou cobra criada, salva e beijada
Falange de Erê
Vinte e sete de setembro
Eu sempre me lembro
não esqueço de dar
cocada, passoca, suspiro, pipoca
bolo, bala, bola, cuscuz e manjar (eu dou...)"
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