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Dorezinhas Escrito em 25 de setembro de 2007
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"Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, pobrinha como buraco na sola do sapato"
Caio Fernando Abreu

Marcelo Moutinho

"Cenas de vida, cenas de morte; solidão.
Não por alguém que está no banheiro fedido, abraçado a ninar a privada, lançando em jatos o resto azedo da noite.
Não por beber, abandonado por si e pelos outros, sorrindo, gargalhando primeiro, chorando depois, na dorzinha besta que se acaba - porque a dor, assim, com artigo definido, permeia e abstrai as mesas de bar, a garrafa quente ou a puta que vira mãe com seus braços serenos da madrugada.
Solidão das imagens das vitrines na poça d' água, os letreiros, curvas turvas do que se queria e não se é. Da menina agachada na calçada, mão no rosto, pernas dobradas, como se fossem um tripé, de onde salta um meio corpo inchadinho, flor murcha, outra dorzinha de agora que cerca a paisagem - cheia de dorezinhas fúteis, de gritos inúteis; afinal, o mundo são todos os gritos em uníssono, e talvez não haja mais espaço para solos. Como não há espaços para o inconsensual, e para a margem, exceto se travestida do comum, se estiver por debaixo dos panos, sob o cobertor, pondo a cabeça pra fora de quando em quando, a título de algum oxigênio. Respiração.
Ar que se busca pelas ruas, na frouxidão da gravata, no esgarçar do terno passado de manhã, na tonteira feliz de uns copos a mais. Mertiolate para os cortes cotidianos. Bicarbonato nas aftas explodindo dia após dia, fecha uma, abre outra, e bota o remédio, e sara, e bota o remédio de novo...
Multidão que cerca. Multidão de dores, de cores, que resguardam o filme em preto e branco do fundo. E ali caminham, de lado a outro, botas imensas, cadarços escalando as pernas fortes e raspadas, vestido preto grudado no corpo talhado à mão, brilhante, pedindo emprestado as luzes da rua, as luzes da lua. Rosto manchado de tintas, cabelos descendo as costas, com cuidado, e a bolsa pequena pendurada nos ombros. Está parada (parado ?), de pé, saltos finos sobre a calçada molhada, a olhar os carros, desfilando, freando, seguindo...
Abrem-se janelas, de onde saltam coisas, saltam papos, propostas, cantadas. E segue, por vezes, levando a solidão para o motel, pela mão. E uma solidão trepa com a outra, e as duas gozam em jatos, despejando suas dorezinhas, pelo menos até amanhã. (Não, não há de se falar de carteiras, de negócios, dos cinqüenta reais). Exprimem-se, uma e outra, nessa ronda noturna, sob vestes. E retornam, quando o dia se insinua e ainda há bicarbonato nas aftas.
O braço esquerdo também dói, prevendo o coração frágil. Há o choro franco por quem foi - ou está ao lado, mas se indo; o amor largado em algum ponto, lembrança dolorida de algum rasgo dessa vida-papel.
Dor perene, pequeneza. Dor de parto, de cuspir gente. E a menina-flor, já de pé, conferindo algo na bolsa, revelando o rosto inflado e vermelho. Flor murcha que ganhou caule e surge esguia, subindo no ônibus. Dor surda, dor de corno. Dor de veado, de cotovelo, doravante uma outra dor.
Que passa, como a da menina que já deve estar perto da casa dela, ou da casa dele, ou de uma outra, tentando suprir aquela solidão moto-contínua, lustrar o corpo dorido com alguma alegria-momento, com algum soluço de felicidade. Os goles d' água estão por vir. O sorriso-remédio contra pequenas dores, feito de ases, não resiste mesmo a um sopro mais forte.
Dorezinhas, medíocres, afluxo de males maiores. As aftas permanecem, pipocando na boca, dando mau sabor à língua. Vida moderna, estresse, estômago? Angina que nasce de tudo, e o resto é apenas um rosto desfigurado pela contração de lágrimas vis.
E a menina? Onde andará a menina?"

* Este texto foi publicado originalmente na revista Zum Zum Zum, publicação independente que circulou no final dos anos 90, e desde 2001 faz parte do livro 'Memória dos barcos'

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