
1. O que é a Marta?
2. Acabo de chegar à metade do livro e estou impressionado com a intensidade de O filho eterno, recém-lançado romance do Cristóvão Tezza (foto). Trata-se de um trabalho bem diferente de seus demais, alguns dos quais já li (e também gostei). A diferença está na forma como Tezza expõe seu narrador, um pai que não sabe como agir ao saber que seu menino nasceu com síndrome de Down. A história é forte pacas e se confunde com a vida do próprio autor, que experimentou situação semelhante. Dói de ler porque é humano, demasiadamente humano, tanto ao retratar o sofrimento, quanto ao sublinhar o egoísmo.
3. Estou curiosíssimo para ouvir o novo disco da Maria Rita, que o amigo Carlos Andreazza analisou, com sua prosa costumeiramente refinada, no site Tribuneiros. Numa virada com relação aos dois CDs anteriores, a cantora mergulhou de cabeça no samba, mais especificamente na ramificação 'fundo de quintal', não raro alvo de farpas das alas mais tradicionais. Nâo escutei, mas já gostei, dos versos proféticos (que assim seja!) de Corpitcho (Ronaldo Barcellos/Picolé ): "Fim de semana eu viro batuqueira / Pego meu pandeiro / Vou pra Madureira / Pro meu glorioso Império Serrano / Que vai ganhar e subir este ano".
4. Fiquei feliz com a indicação oficial de O ano em que meus pais saíram de férias como representante do Brasil no Oscar. Sob o aspecto cinematográfico, o filme é muito superior a Tropa de elite, embora tenha sido um pouco subvalorizado pela crítica. Para mim, o trabalho do Cao Hamburger e O céu de Sueli, foram os dois melhores filmes brasileiro do ano passado.
5. O que é o Botafogo?
Desde que me mudei do subúrbio, há longos 27 anos, o Dia de São Cosme e São Damião passou a ser só uma lembrança boa. Na casa da minha bisavó, um sobrado na Rua Carvalho de Souza (em Madureira), era costume "dar doce", e eu gostava de ajudar a montar os saquinhos - uma maria-mole, um coco de rato, um suspiro, um pé-de-moleque, doce de abóbora e de batata... Os últimos ficavam meio desfalcados, já que as caixas de doce compradas variavam quanto ao conteúdo.
Depois do trabalho pronto, eu e meu primo André saíamos pelas ruas, atrás de nossos próprios saquinhos ou de algum "Cosme e Damião de mesa". Para quem não sabe: famílias que preferiam organizar pequenas reuniões em casa para receber as crianças e colocavam os doces sobre a mesa da sala - uma espécie de self-service. Eu, sinceramente, sempre preferi a aventura de buscar os saquinhos.
A ligação dos dois santos com a infância, aliás, remonta ao Candomblé, no qual Cosme e Damião são associados à falange dos Ibejís, gêmeos amigos das crianças e que teriam a capacidade de agilizar qualquer pedido em troca de guloseimas. Essa relação com a tradição afro-brasileira e vários outros traços da festa são ressaltados num samba muito bacana dos imperianos Arlindo Cruz e Aluísio Machado (com Jorge Carioca), que posto aqui, em reverência ao dia de hoje.
"Falange do erê"
Jorge Carioca, Arlindo Cruz e Aluísio Machado
"Só quem acredita, vê
Essa vida é um doce
Mesmo se não fosse, eu seria assim
Sou menino brincalhão
encontrei a chance bem ao meu alcance
e agarrei prá mim (eu dou...)
Doum, viva Cosme e Damião (Doum)
Doum, viva Cosme e Damião
(viva Cosme e Damião)
Viva Cosme e damião, Doum
Doum, viva Cosme e Damião
O que importa é que a gente miúda
me trouxe ajuda quando precisei
O que prego nas minhas andanças
é que só as crianças me ditam a lei
Assim me sinto protegido, ungido
com a viscosidade de fé
Sua benção é presença imensa
que vença com a crença
quem tem seu axé (eu dou...)
A vida tão amargurada
essa gurizada me fez renascer
Hoje sou cobra criada, salva e beijada
Falange de Erê
Vinte e sete de setembro
Eu sempre me lembro
não esqueço de dar
cocada, passoca, suspiro, pipoca
bolo, bala, bola, cuscuz e manjar (eu dou...)"
Sobre toda essa polêmica, repleta de sofismas, em torno do filme Tropa de elite: em sua coluna de hoje, no Segundo Caderno (O Globo), o Arthur Xexéo expressa com clareza exatamente o que eu penso. Sugiro a leitura. Acesse o texto aqui.
"Minha dica é a leitura de dois autores ao mesmo tempo clássicos e contemporâneos: Lygia Fagundes Telles e Antônio Torres. Os dois acabam de lançar livros que misturam memória e fantasia, conceitos que, das páginas, emergem deliciosamente meio embolados. Como Lygia ressaltou, sábado passado, em sua emocionante participação na Bienal, é impossível determinar o ponto em que termina a memória e começa a fantasia - e isso fica evidente em seu Conspiração de nuvens (Rocco). Torres lançou Sobre pessoas (Leitura), que começa com um belo tributo a Fernando Sabino, outro mestre desse jogo de contar/esconder/revelar. Os dois livros servem como ponte para obras mais densas de Lygia e Torres, que vêm sendo relançadas pela Rocco e Record, respectivamente. Da primeira, sugiro a coletânea Meus contos preferidos e o consagrado As meninas. O romance mais recente de Torres é o delicado Pelo fundo da agulha, que encerra uma saga iniciada com Essa terra. Chega a ser difícil destacar um livro de um sujeito que estreou com Um cão uivando para a lua - uma porrada de dar inveja a oficial do Bope. Dores da alma podem ser mais letais que as sofridas pelo corpo, Lygia e Torres comprovam.
* Fernando Molica é jornalista e escritor. Autor de 'Bandeira negra, amor' e 'Notícias do Mirandão'
Venho percebendo isso desde a campanha vitoriosa na Copa do Brasil: progressivamente, a torcida do Fluminense tem promovido a volta das pequenas bandeiras aos estádios. Refiro-me aos estandartes de mão, levados pelos próprios torcedores (e não pelas organizadas), que eram comuns nos anos 70 e em parte dos 80.
Trata-se de um retorno muito bem-vindo, promovido sobretudo por esse grupo digno de todos os elogios que é a Legião Tricolor - uma reunião de torcedores verdadeiramente comprometidos com o clube, que se mantém distante da violência gratuita e das jogadas políticas, limitando-se (e isso não é pouco, não é mesmo) a estimular o time o tempo todo.
É inegável que as torcidas, seja de que clube for, ficam muito mais bonitas quando as bandeiras estão espalhadas ao longo de todo o anel, tremulando em sintonia. Tomara que a onda 'retrô' se espalhe pelas demais.
"Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, pobrinha como buraco na sola do sapato"
Caio Fernando Abreu
Marcelo Moutinho
"Cenas de vida, cenas de morte; solidão.
Não por alguém que está no banheiro fedido, abraçado a ninar a privada, lançando em jatos o resto azedo da noite.
Não por beber, abandonado por si e pelos outros, sorrindo, gargalhando primeiro, chorando depois, na dorzinha besta que se acaba - porque a dor, assim, com artigo definido, permeia e abstrai as mesas de bar, a garrafa quente ou a puta que vira mãe com seus braços serenos da madrugada.
Solidão das imagens das vitrines na poça d' água, os letreiros, curvas turvas do que se queria e não se é. Da menina agachada na calçada, mão no rosto, pernas dobradas, como se fossem um tripé, de onde salta um meio corpo inchadinho, flor murcha, outra dorzinha de agora que cerca a paisagem - cheia de dorezinhas fúteis, de gritos inúteis; afinal, o mundo são todos os gritos em uníssono, e talvez não haja mais espaço para solos. Como não há espaços para o inconsensual, e para a margem, exceto se travestida do comum, se estiver por debaixo dos panos, sob o cobertor, pondo a cabeça pra fora de quando em quando, a título de algum oxigênio. Respiração.
Ar que se busca pelas ruas, na frouxidão da gravata, no esgarçar do terno passado de manhã, na tonteira feliz de uns copos a mais. Mertiolate para os cortes cotidianos. Bicarbonato nas aftas explodindo dia após dia, fecha uma, abre outra, e bota o remédio, e sara, e bota o remédio de novo...
Multidão que cerca. Multidão de dores, de cores, que resguardam o filme em preto e branco do fundo. E ali caminham, de lado a outro, botas imensas, cadarços escalando as pernas fortes e raspadas, vestido preto grudado no corpo talhado à mão, brilhante, pedindo emprestado as luzes da rua, as luzes da lua. Rosto manchado de tintas, cabelos descendo as costas, com cuidado, e a bolsa pequena pendurada nos ombros. Está parada (parado ?), de pé, saltos finos sobre a calçada molhada, a olhar os carros, desfilando, freando, seguindo...
Abrem-se janelas, de onde saltam coisas, saltam papos, propostas, cantadas. E segue, por vezes, levando a solidão para o motel, pela mão. E uma solidão trepa com a outra, e as duas gozam em jatos, despejando suas dorezinhas, pelo menos até amanhã. (Não, não há de se falar de carteiras, de negócios, dos cinqüenta reais). Exprimem-se, uma e outra, nessa ronda noturna, sob vestes. E retornam, quando o dia se insinua e ainda há bicarbonato nas aftas.
O braço esquerdo também dói, prevendo o coração frágil. Há o choro franco por quem foi - ou está ao lado, mas se indo; o amor largado em algum ponto, lembrança dolorida de algum rasgo dessa vida-papel.
Dor perene, pequeneza. Dor de parto, de cuspir gente. E a menina-flor, já de pé, conferindo algo na bolsa, revelando o rosto inflado e vermelho. Flor murcha que ganhou caule e surge esguia, subindo no ônibus. Dor surda, dor de corno. Dor de veado, de cotovelo, doravante uma outra dor.
Que passa, como a da menina que já deve estar perto da casa dela, ou da casa dele, ou de uma outra, tentando suprir aquela solidão moto-contínua, lustrar o corpo dorido com alguma alegria-momento, com algum soluço de felicidade. Os goles d' água estão por vir. O sorriso-remédio contra pequenas dores, feito de ases, não resiste mesmo a um sopro mais forte.
Dorezinhas, medíocres, afluxo de males maiores. As aftas permanecem, pipocando na boca, dando mau sabor à língua. Vida moderna, estresse, estômago? Angina que nasce de tudo, e o resto é apenas um rosto desfigurado pela contração de lágrimas vis.
E a menina? Onde andará a menina?"
* Este texto foi publicado originalmente na revista Zum Zum Zum, publicação independente que circulou no final dos anos 90, e desde 2001 faz parte do livro 'Memória dos barcos'
Quando estou perto de me convencer de que, em 2008, as coisas serão (ainda) mais difíceis, pela falta de grana, pelos costumeiros problemas de organização e outros tantos etc., eu assisto a uma cena como a reproduzida abaixo e volto a acreditar na capacidade de essa escola - que nasceu em 1947 para mudar de vez o carnaval - vencer todas as dificuldades e voltar ao Grupo Especial, seu lugar de direito e de fato.
As imagens, postadas originalmente no blog Tribuneiros, retratam parte da comemoração da feijoada na qual se comemorou o aniversário do Arlindo Cruz. São os minutos finais da festa. No palco, Arlindo canta o hino de 2006, que se tornou um clássico contemporâneo. Na seqüência, emenda com o samba-enredo do último carnaval: Ser diferente é normal.
Recapitulemos: neste ano - e com esse samba a que me refiro - o glorioso Império Serrano foi rebaixado ao Grupo de Acesso. Mas vejam, observem, atentem: toda a quadra canta a música a plenos pulmões. Onde, nesses tempos em que só a vitória ou o dinheiro parecem capazes de delegar mérito, pode-se ver uma coisa assim? A força dessa agremiação me emociona a cada dia. É, de fato, comovente - e impressionante. Além de ser também uma lição, sobretudo para aqueles que, em nome de uma "mudernidade" blasê e poseur, acham que o Rio de Janeiro é uma merda, e que a vida só acontece mesmo é nos limites do circuito Elizabeth Arden.

Ontem ouvi a gravação, ainda sem mixagem final, da música que compus em parceria com Arthur Maia (eu: letra; ele, com Thaís e Marvio Ciribelli: melodia) e que fará parte do disco de estréia da cantora Thaís Motta. Embora tenha composto outras canções cinco com meu amigo Rodrigo Zaidan e uma com a Carol Saboya), O som do samba será meu primeiro trabalho registrado em CD. E, mui sinceramente, achei que a gravação ficou boa pacas.
O disco da Thaís, que chegará às lojas em novembro, tem produção e arranjos do Marvio. No repertório, estão canções de Fred Martins, Marcelo Diniz, Francisco Bosco, Geraldinho Carneiro, Mário Sève e Altay Veloso, além da própria cantora. Músicos como Marcio Montarroyos, Chico Chagas, Marcel Powell, Ronaldo do Bandolim, Daniela Spielmann e Jakaré acompanham Thaís nas faixas do CD.
Disponibilizei, logo aqui embaixo, a gravação em MP3. A letra está em seguida.
"O som do samba"
Arthur Maia / Marcelo Moutinho
"Quando a gente anda
Meio assim de banda
Teima em apagar o sol
Diz que nada importa,
Diz que vida é morta,
Sem rumo, sem farol
Deve reparar
E ver que há flor, porém,
No terreno mais baldio
Que o calor também
Insiste em arder no frio
Rompe o inverno, abre um clarão
Ferve a tristeza em brasa e carvão
Queima na pele tal ferrão
De abelha, veneno bom
Derrama nesta canção
Lança quebranto no coração
Chama pra dança, tal o som
Do samba, se o samba é bom
E no som do samba
Vem o sol, comanda
Vem a nota, esconde,
Engana, ilude a dor
E faz rima torta
Dessa vida curta
O seu compositor"

"Minha dica é entrar no Youtube e pesquisar por videos do pensador esloveno Slavoj Zizek. Eu já havia lido um ou dois livros dele, excelentes, mas vê-lo falar ganha uma dimensão especial: a inquietude dos seus gestos, a urgência de sua fala, o modo como coça o nariz, enxuga o suor, embola as mãos no rosto, tudo isso reforça e revela os traços do seu pensamento: a agilidade, o brilho, as proposições desconcertantes, o espanto com o mundo. Seu inglês um tanto descuidado da pronúncia, meio joão gilbertiano, não apenas torna mais fácil a compreensão, como também reitera a urgência de seu pensamento, seu desdém por tudo que não seja o centro da coisa a se pensar. Num desses vídeos, falando sobre o cinema de David Lynch, Zizek diz uma das frases mais impressionantes que já ouvi em toda a minha vida: 'Quem vive no mundo dos sonhos não é forte o suficiente para o mundo real. Mas quem vive no mundo real não é forte o suficiente para o mundo dos sonhos'. Pura adrenalina, o cara é foda mesmo".
* Francisco Bosco é compositor e escritor. Autor de 'Da amizade', coletânea de poemas, e 'Banalogias', seleta de ensaios

Seria necessário que eu me desdobrasse em três para prestigiar os eventos bacanas marcados para a noite de hoje. Às 19h, a preciosa Velha Guarda do Império Serrano fará show na Modern Sound, com entrada gratuita. Sob o comando do amigo Zé Luiz, o grupo cantará sambas-enredo clássicos da história da escola, além de composições como Menino de 47 (Nilton Campolino/Molequinho), Serra dos sonhos dourados (Carlinhos Bem-Te-Vi) e Amor aventureiro (Silas de Oliveira/Mano Décio).

Às 19h30, na Letras & Expressões do Leblon, querido Antonio Torres lançará Sobre pessoas, coletânea de crônicas, perfis e memórias. Pelas páginas do livro, passeiam figuras célebres das letras, da música, do cinema e do esporte, como Glauber Rocha, Garrincha, Monteiro Lobato, Jorge Amado, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Tônia Carrero, Rubem Braga, Miles Davis, Juan Rulfo, Murilo Rubião, Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que ganham novos ângulos sob a pena precisa do Torres.
![]()
Um pouco mais tarde - às 20h -, no Clube dos Democráticos, vai rolar novo show de lançamento do CD da Orquestra Flor do Sereno. O espetáculo contará com participação especial de Elton Medeiros, Amélia Rabello, Bia Paes Leme, Anna Paes e Mariana Bernardes, além dos amigos Pedro Paulo Malta e Alfredo Del-Penho.
Foi muito bacana participar, no sábado, do painel Banquete de gêneros, que integrou a programação oficial da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. A composição da mesa era esquisita - eu, o espanhol Ildefonso Falcones, autor de um best-seller cuja história transcorre na Idade Média, e Orlando Paes Filho, que escreveu Diário de um cavaleiro templário -, mas a mediação precisa do Fernando Molica fez com que a conversa surpreendentemente rendesse.
Calouríssimo em eventos desse porte e tentando vencer o nervosismo inicial, procurei falar um pouco de minhas impressões sobre a literatura brasileira de hoje - repisando a perda do vínculo entre a narrativa e a vida cotidiana e o confinamento quase sempre estéril dos autores nas experimentações em torno do 'literário' - e também sobre meu livro mais recente. A insistência em colocar meu trabalho no debate foi deliberada, até porque, nas outras mesas a que assisti, senti falta de os escritores tratarem mais de seus livros, e menos dos temas subjetivos que servem de pretexto para juntá-los.
O balanço foi realmente positivo e, apesar de nenhum jornal ter informado sobre o painel (nem antes, nem depois de sua realização), o Café ficou bem cheio. Fiquei feliz, sobretudo, ao ver na platéia tantas pessoas queridas, entre elas dois amigos que são meus irmãos de caminhada na literatura: Flávio Izhaki e Henrique Rodrigues. Só quem nunca teve nada de mão beijada, não pegou atalhos e constrói suas coisas tijolo a tijolo sabe o quanto certos momentos são importantes.
O nojento episódio que se deu ontem no Senado - e no qual, como bem lembrou o amigo Edu Goldenberg, os senadores eleitos pelo Rio nos envergonharam, votando a favor de Renan Calheiros - recebeu uma cobertura quase protocolar por parte da imprensa. A contudência só se fez acompanhar da criatividade no caso do jornal Extra, que, surpreendentemente, foi a exceção à regra.
A capa da edição de hoje, reproduzida acima, é primorosa: contrapõe de forma irônica as baixarias a que todos assistimos (infelizmente já nem tão perplexos) à imagem nua de Mônica Veloso, ex-amante de Renan, traduzindo a opção pela publicação da foto num pequeno e esclarecedor texto. Em suma, um retrato perfeito de toda a situação.
Ontem à noite estava voltando para casa, depois de sair do trabalho, e resolvi trocar a intragável Hora do Brasil por um velho CD do Taiguara. É impressionante como ficou esquecido esse artista tão talentoso, autor de melodias líricas, letras intensas e de um registro daqueles que era costume se chamar de "voz de veludo".
Cada vez que ouço uma canção do Taiguara descubro um verso 'novo'. Ontem, achei mais um - "Quem não soube a sombra / não sabe a luz", de Teu sonho não acabou - e, não sei exatamente por que, lembrei desse texto do Caio F., de que sempre gostei e ao qual recentemente reencontrei, feliz à beça, ao folhear a antologia As cem melhores crônicas brasileiras, organizada pelo Joaquim Ferreira dos Santos. Com a palavra, o Caio:
"Zero grau de Libra"
Caio Fernando Abreu
"O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda distraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não é só bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.
Neste zero grau de Libra, queria pedir isso a que chamamos Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre o mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima.Eu queria hoje o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaranás pelos restaurantes, e mal se olham quando dizem coisas como "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete?" - e o outro grunhe em resposta.
Deus, põe teu olho amoroso sobre todos os que já tiveram um amor sem nojo nem medo, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como os funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem - nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, de noite, liga para o CVV. Olha bem pelo rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel dão duro como garçonete pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto - olha por todos aqueles que queriam ser outra coisa qualquer que não a são, e viver outra vida que não a que vivem.
Não esquece do rapaz viajando de ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu´perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações de vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis na República do Líbano, sobre os porteiros dos prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar-certo), sobre todos os que continuam tentando por razão nenhuma _ sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.
Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio - não. Derrama sobre elas o seu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas, para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo o dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso, esse do zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada".
Como vocês todos já devem ter visto nos jornais e revistas, está bastante interessante e variada a programação da XIII Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Se o evento não representa exatamente uma oportunidade de se comprar livros mais baratos, por outro lado serve como elemento aglutinador entre leitores, autores e editores, além de possibilitar conversas descontraídas com gente que sempre tem algo a dizer (o programa inclui também muitos que valem mais calados, mas isso é outra história).
A pauta completa da Bienal, cheia de medalhões do cânone, pode ser conferida no site próprio. Mas queria destacar aqui a participação de alguns amigos queridos - alguns deles, como eu, convidados pela primeira vez para um encontro desse porte -, que estarão no Riocentro no próximo final de semana.
Por exemplo: na sexta, às 17h, no Café Literário, mestre Antônio Torres e Ana Paula Maia debaterão o 'realismo'. No mesmo dia, Augusto Massi, Beatriz Resende, Fábio Lucas e Flávio Carneiro vão analisar, também no Café, o atual panorama de nossa literatura, em papo que começa às 19h.
No sábado, será a vez de Henrique Rodrigues, André de Leones, Lucia Bettencourt e Adriana Lisboa falarem sobre os prêmios literários, no estande O Globo/Sesc, às 17h. Logo depois, às 19h, Adriana conversará com Luís Fernando Veríssimo a respeito das relação entre o autor e o protagonista da história, também no Café. Alberto Mussa, ao lado de Georges Bourdoukan, Marco Lucchesi, Paulo Farah e Zé Rodrix, fará parte da mesa sobre A literatura das arábias, no domingo, às 14h.
Vale lembrar que eu também estarei no Café Literário, no sábado (dia 15), às 16h, ao lado de José Mindlin, Nelson Motta e do espanhol Ildefonso Falcones. Espero vocês!
Quando estive na capital paulistana em julho passado, fiquei muito impressionado como a cidade tornou-se visualmente mais agradável após a proibição de outdoors e a regulação de letreiros, painéis, galhardetes e banners no espaço urbano (fiz até fotos, como esta acima). Chega a ser um choque para quem está acostumado com a verdadeira poluição imagética do Rio de Janeiro encontrar ruas tão limpas visualmente.
A boa notícia é que, inspirado no modelo paulista, o vereador carioca Paulo Cerri decidiu propor um projeto de lei ajeitando as coisas também por aqui. A imensa beleza natural do Rio certamente ficará mais flagrante com a retirada dessas tralhas - em geral, objetos que primam pela feiúra e pela agressividade. Fica, daqui, o apoio e a torcida para que o projeto seja aprovado e sancionado.
"Indico The bubble. É um filme forte, interessante, com toques cômicos até, mas muito impactante. Trata da rotina de um grupo de amigos descolados de classe média, alguns deles gays, que dividem um apartamento em Tel Aviv (Israel) e tentam viver sua vida alheia à rivalidade política louca que há entre judeus e palestinos. Acontece que vira e mexe essas questões interferem em seu dia-a-dia, das maneiras mais sutis às mais violentas. O filme mexe conosco porque, de uma outra maneira, também vivemos numa bolha, em meio a outro tipo de terrorismo no Rio de Janeiro. Tentamos seguir nossas vidas alheios às barbáries que nos circudam, mas comumente um desastre social nos joga de volta ao mundo real. E quem é gay também vai se agradar do filme, pois, além de algumas piadas internas, ele mostra que num mundo globalizado, os ícones desta cultura são os mesmos em qualquer cidade do planeta e que apesar das nossas mazelas, ainda é mais fácil se assumir e levar uma vida normal em capitais como Rio e São Paulo do que num mundo regido por Alá".
* Rodrigo Faour é jornalista e escritor. Autor de 'A história sexual da MPB' e 'Bastidores - Cauby Peixoto 50 Anos'
"Breve consideração à margem do ano assassino de 1973"
Vinícius de Moraes
"Que ano mais sem critério
esse de 73
Levou para o cemitério
três Pablos de uma só vez
Três Pablões, não três pablinhos
No tempo como no espaço
Pablos de muitos caminhos:
Neruda, Casals, Picasso.
Três Pablos que se empenharam
contra o fascismo espanhol
Três Pablos que muito amaram
Três Pablos cheios de Sol.
Um trio de imensos Pablos
em gênio e demonstração
Feita de engenho, trabalho
Pincel, arco e escrita à mão.
Três publicíssimos Pablos: Picasso, Casals, Neruda
Três Pablos de muita agenda
Três Pablos de muita ajuda.
Três líderes cuja morte
o mundo inteiro sentiu
Oh, ano triste e sem sorte
Vá pra puta que o pariu!"

Começa hoje à noite - com quatro exposições fotográficas e a exibição de curtas e cinejornais, além do média-metragem Pasolini nosso próximo, documentário inédito de Giuseppe Bertolucci - o Recine (Festival Nacional de Cinema de Arquivo) 2007. A face competitiva conta, entre outros, com filmes como Hércules 56, Sambando nas brasas, morô?, Três irmãos de sangue e Soldado de Deus.
A mostra informativa, por sua vez, terá como tema central A imprensa no cinema. Serão exibidos produções recentes, como O Sol – Caminhando contra o vento, de Tetê Moraes, pequenas delícias como A era do rádio, de Woddy Allen, e clássicos do naipe de Cidadão Kane, de mestre Orson Welles. Minha dica é A montanha dos sete abutres, filmaço de Billy Wilder que esquadrinha, com forte viés crítico, certos procedimentos da mídia.
O Recine, cujas sessões são gratuitas e acontecerão no auditório do Arquivo Nacional, inclui ainda uma palestra de Ruy Castro sobre as críticas de Moniz Vianna no Correio da Manhã. A programação completa do evento pode ser conferida aqui.
Será lançada hoje, no Cinematheke Jam Club, o segundo número da revista Zé Pereira. Entre os destaques da nova edição, estão as matérias de Patrícia Rocha sobre o comércio de cabelo humano na Praça Tiradentes e de Eduardo Souza Lima sobre o Bonequinho Vil, hit das lonas culturais da Zona Oeste, um conto inédito de João Ximenes Braga e o capitulo 2 do folhetim As aventuras de um Zé Pereira, que eu estou coordenando. Quem assina o novo trecho da história é o amigo Henrique Rodrigues, que prepara a bola a ser conduzida por Flávio Izhaki no capítulo3.
A festa no Cinematheke vai começar às 20h.
Será amanhã, em frente ao Bip Bip, o lançamento do primeiro disco do Rancho Flor do Sereno. A festa está marcada para 19h e contará com a apresentação da sempre animada orquestra formada por Jayme Vignoli, Pedro e Paulo Aragão, Pedro Paulo Malta, Pedro Amorim, Samuel Araújo, Oscar Bolão, Rui Alvim, Antônio Guerreiro e Alfredo Del-Penho, entre outros.
O CD do Rancho, dirigido por Rui Alvim e Pedro Aragão, é dedicado ao compositor Elton Medeiros e ao querido Alfredinho do Bip. No disco, músicas de Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Maurício Tapajós, Maurício Carrilho e Lamartine Babo ganharam registros de Amélia Rabello, Mariana Bernardes, Bia Paes Leme e Anna Paes, além dos já citados Elton e Pedro Paulo. O Bip fica na Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana.
“Minha dica é a série de graphic novels Persépolis, da Marjane Satrapi (no Brasil, saiu pela Compania das Letras). Trata-se da autobiografia em quadrinhos monocromáticos dessa autora iraniana radicada em Paris, e tem sido muito comparada à antológica Maus, de Art Spigelman. A narrativa de uma história dramática, na qual não se excluem prisões, tortura e mortes, é entrecortada pelo humor e pelo lirismo. No início, lemos sobre a infância de Marjane à sombra da Revolução Islâmica, acompanhamos em seguida sua juventude na Áustria e, por fim, seu regresso ao Irã. A própria Marjane levou os quadrinhos às telas de cinema recentemente, em produção francesa, junto com Vincent Paronnaud, e com as vozes de Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve e Danielle Darrieux. No recente festival de Cannes, o filme, ainda inédito no Brasil, recebeu o Prêmio do Júri”.
Hoje, às 21h, no Centro Cultural Carioca, algumas das canções feitas em dupla pelos amigos Tuninho Galante e Marceu Vieira serão apresentadas ao público por um timaço de cantoras: Nilze Carvalho, Ana Costa, Mariana Baltar, Maria Bernardes e Luciane Menezes. Parceiros há sete anos, Tuninho e Marceu já tem mais de 100 músicas compostas. Os ingressos custam R$ 18, e eu, é claro, estarei lá.
No dia de ontem, este blog teve 294 pageviews. Foi o recorde desde que o Pentimento mudou-se para dentro de meu domínio próprio. A média mensal tem sido de 5 mil. Gente à beça, a quem agradeço pela presença constante (ou eventual) e pela leitura, lembrando que o espaço dos comentários está à disposição.
Além do tráfego direto e do acesso através do Google e do Pentimento antigo (extensão zip.net), os blogs que mais mandam leitores para cá são, pela ordem: Pseudônimos, Tribuneiros, Última leitura, Neguinha suburbana, Outra Babel e Todo prosa.
Banho
Marcelo Moutinho
Com as costas envergadas
de vergonha
Tu entraste no banheiro.
O silêncio constrangido
a toalha nos ombros
cobriam um leão morto.
No box apertado
Girei os registros
Molhei a toalha
Pedi que te virasses
Plantaste as mãos
– imóveis –
sobre os azulejos.
E a cortina tocou meu rosto
Guiada por mim, a toalha passeou:
teu tronco
tuas pernas
braços
pescoço.
A toalha úmida,
e a cortina
que se fechava.
No breu dos teus olhos cerrados
E no tremelique das mãos
(que não podias deter)
Lembravas:
Um dia
Também me deste banho.
Girei os registros
Troquei de toalha
Pedi que te virasses
Enquanto te secava
E ouvia um obrigado
Soube que não há como se sair limpo
De um banho desses.
P.S. Não escrevia poesia há mais de 20 anos. Anteontem me deu vontade de rabiscar esses versos aí em cima. Como coloquei no título do post, é apenas um poema, despretensioso, de alguém acostumado a só escrever em prosa. Infelizmente, o programa do site não me permite reproduzir os espaçamentos originais do texto. Ah sim: a imagem que acompanha o poema é da artista plástica Mariana Leal.
A pedido da Rocco, escrevi um 'release assinado' sobre o romance Rádio Cidade Perdida. O autor do livro, o peruano Daniel Alarcón, estará no Rio para a Bienal, que começa no próximo dia 13. Segue o texto que fiz sobre o trabalho dele, que é muito interessante:
Mais do que simplesmente lançar um olhar realista sobre o terrorismo, Rádio Cidade Perdida examina as fraturas – físicas e emocionais – deixadas em seu rastro. O livro de Daniel Alarcón lambe as feridas de uma guerra civil travada numa nação indefinida, onde o governo e um grupo revolucionário se enfrentaram, com graves conseqüências para a população. Trata-se do romance de estréia de Alarcón, jovem peruano radicado nos Estados Unidos, que foi apontado pela respeitada revista Granta como um dos 20 autores mais promissores do país.
Norma, a protagonista do livro, é apresentadora de um popularíssimo programa radiofônico, dedicado à busca de pessoas desaparecidas durante o conflito. Certo dia, ela é procurada por Victor, um garoto vindo das províncias, que lhe entrega uma carta e uma lista de nomes para ser lida durante a transmissão.
O encontro entre os dois personagens possibilitará a interseção dos diversos fios de enredo que o autor estica no decorrer da narrativa e provocará uma verdadeira transformação na vida de Norma. Através de Victor, a radialista poderá reconstruir a história de uma ausência - a do marido, Rey, de quem não tem notícias desde o fim da guerra, há dez anos e, desconfia ela, foi morto pelas forças governamentais.
O narrador onisciente concebido por Alarcón conduz a trama com base em intencionais lapsos de tempo, de modo a fazer com que o leitor só conheça os fatos à medida que as trajetórias dos personagens se interligam. Também é nesse ritmo que, paulatinamente, a esfinge de Rey se revela.
Embora fictícios, o país imaginado pelo autor e a própria condição reencenam a situação enfrentada pelos peruanos na década de 1990. “É um país baseado no Peru, uma cidade baseada em Lima, que não é Lima, nem o Peru. Queria criar um país, uma cidade, que um peruano poderia reconhecer, mas alterados, distintos”, afirma Alarcón, que escreveu o livro originalmente em inglês.
Sem tomar partido de nenhuma das partes, o romance esquadrinha as conseqüências do enfrentamento. Como antecipa a epígrafe de Carlos Monsiváis, Alarcón joga luz sobre aquele que “é executado”, mas também sobre os que formam o pelotão de fuzilamento”. “O que um carro bomba diz sobre pobreza, ou o que a execução de um prefeito rural explica sobre privação de direitos? A guerra tinha se tornado, se não o fora desde o início, um texto indecifrável”, comenta o narrador.
Para os personagens de Rádio Cidade Perdida, a guerra foi, por muitos anos “uma entidade única, implacável”. O exército e os revolucionários incendiaram bairros, explodiram prédios, transformaram o país em ruínas. “Aquilo não parecia ser uma cidade e sim um museu de cidade (...). Havia soldados em cada esquina, eles já faziam tanto parte do cenário que tinham se tornado quase invisíveis”, observa ele.
Norma, Rey, Victor e os demais se lembram desse passado remoto, enquanto enfrentam os entraves da reconciliação, cujos efeitos, assim como o conflito, tocam particularmente em suas vidas. O objetivo maior é o esquecimento – estimulado inclusive pelo governo, que determina a troca dos antigos nomes das cidades por impessoais números -, mas os personagens não conseguem soterrar suas dores. Um dos méritos de Alarcón é relatar esse sofrimento sem afetação. Mesmo nos momentos de maior tensão dramática, a narração é substantiva, como se quisesse salientar que, em tempos de guerra ou quando ainda se vive sob a sua égide, até as coisas mais terríveis ganham uma estranha aura de naturalidade.
Ao final, talvez fique a impressão de que nem o próprio autor pôde encontrar uma resposta para a questão que paira ao longo de todo o romance: “Quem tem razão em tudo isso?”
Com a palavra, portanto, o leitor.
Já estão disponíveis para acesso, no site do Império Serrano, os 27 sambas que concorrem à honra de embalar a escola em 2008, na homenagem a Carmen Miranda. Escutei todos e, com alegria, pude constatar que a safra está bem superior à do ano passado. Dois sambas se destacam: o de Arlindo Cruz, Maurição, Carlos Senna, Aloísio Machado e João Bosco (mesmos autores do hino de 2007) e o do pessoal da Serrinha: Marcão, Marcelo Ramos, Vando Diniz, Chupeta, Henrique Hoffmann, William Black, Celso Ribeiro e Zé Paulo. Sobretudo em virtude da letra e do forte (e marcado) refrão do meio ("No tabuleiro da baiana tem? / Tem requebrado, tem quitute, tem amor / E nesta festa eu vou sambar também / Com pandeiros, tamborins e agogôs"), minha preferência recai sobre o segundo, do qual, a partir de agora, serei torcedor de arquibancada. Os sambas podem ser ouvidos aqui.