
Acaba de entrar no ar o site da revista Zé Pereira. A página traz algumas das matérias publicadas na versão impressa - cujo número de estréia tem vendido muito bem, segundo me informa o Zé José -, crônicas e poemas, além de um blog e do folhetim que estou coordenando.
O folhetim da Zé Pereira inspira-se numa experiência iniciada em 1870, quando os amigos Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão produziram a quatro mãos o texto O mistério da Estrada de Cintra, publicado no jornal português Diário de Notícias. Em 1920, a brincadeira chegou por aqui: Viriato Corrêa, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Coelho Neto dividiram a criação de O mistério.
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Publicado originalmente em O cruzeiro, 'O mistério do MMM' virou livro
No entanto, talvez o mais célebre dos folhetins com vários autores seja O mistério do MMM, escrito por Viriato Corrêa, Dinah Silveira de Queiroz, Herberto Sales, Lucio Cardoso, Jorge Amado, José Conde, Guimarães Rosa, Antônio Callado, Orígenes Lessa e Rachel de Queiroz (com coordenação de João Condé). O texto foi veiculado pela revista O Cruzeiro e posteriormente virou livro, lançado pela Ediouro.
Com As aventuras de um Zé Pereira, retomamos essa tradição. Criei o capítulo 1, e a idéia é abrir espaço para que os bons escritores da nova geração dêem continuidade à história. Na segunda edição da revista, o bola estará com Henrique Rodrigues.
Segue um pequeno trecho do capítulo inicial. Para acessar o site da Zé Pereira (onde há a relação dos pontos de venda e mais informações sobre a revista, que custa apenas R$ 2), basta clicar aqui
As aventuras de um Zé Pereira - Capítulo 1
Marcelo Moutinho
Zé Pereira se diz sujeito-homem. Desde que entreouviu a expressão durante uma briga num boteco lá da rua São José, é assim que apresenta suas credenciais. “Muito prazer, Zé Pereira, sujeito-homem”, e abraça o interlocutor de forma abrupta, colando a orelha no peito do sujeito, num movimento peculiaríssimo que acabou por lhe conferir o apelido de ‘Cardiologista’.
Não que o tal Zé Pereira seja um desses tresloucados machistas que ameaça de pancada os gays bombados da Farme. Ele se define como sujeito-homem do mesmo modo que chama alguém de ‘malandro-berimbau’, ou cola na testa de um terceiro a temida alcunha de ‘Zé Ruela’. Pois como indivíduo típico do Rio de Janeiro – aquele que nasceu no subúrbio e se submeteu à transculturação na Zona Sul -, Antônio José Pereira da Silva é sobretudo um observador, que cata as sobras da estranha língua falada pelos cariocas para temperar o próprio vocabulário.
De Cascadura, o bairro-natal, guarda a moral rígida, a paixão pela Portela e o gosto por beber em pé na calçada até que o dono do bar lhe jogue água nos pés. Em Copacabana, onde já mora há quase dez anos, aprendeu entre outras coisas a pegar jacaré – e que não fica bem ir à praia com o short do Botafogo. (...)
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