
Quem costuma acompanhar o Pentimento, sabe o quanto sou fã de documentários. E todos os fãs de documentário estão ansiosos pela chegada ao circuito do filme Santiago, de João Moreira Salles. No trabalho, o diretor retoma imagens registradas em 1992, retratando o mordomo que serviu à família Moreira Salles por 30 anos.
Já aposentado, Santiago na época das filmagens morava em um pequeno apartamento do Leblon, onde levava uma vida solitária ao lado das 30 mil páginas que escreveu e nas quais conta histórias sobre mais de 500 anos de nobrezas e dinastias de todo o mundo. A singularidade do personagem levou João Moreira Salles a perceber que ele rendia um filme. Só que o tal filme acabou não saindo. Ou melhor, saiu agora, mas com um caráter novo e instigante: o diretor utiliza as imagens captadas há 15 anos para fazer uma rigorosa autocrítica de seu trabalho como documentarista.
Entre outros aspectos, João admite ter reencenado, no set, a relação de poder que existira entre ele e seu personagem. Mais do que isso, reprime o próprio "autoritarismo" na condução do filme, sublinhando, por exemplo, o excesso de zelo estético - que, diga-se, é coisa capaz de assassinar qualquer documentário.
Já estava curioso para conferir Santiago, mas fiquei ainda mais depois de ler a ótima entrevista que o diretor concedeu à Bravo! de agosto (as edições da revista, aliás, melhoraram bastante nos últimos meses), na qual comenta todos esses assuntos.
Com serenidade, João lembra que, quando o filmou, ficou se perguntando a motivação de o mordomo guardar todos aqueles papéis. E salienta que agora, ao montar o filme , percebeu um aspecto na figura de Santiago que o comoveu e que, ao menos em parte, ajuda a tatear esse motivo aparentemente sem sentido. Talvez trate-se de razão semelhante àquela pela qual ele, João, faz cinema, ou mesmo àquelas pelas quais nós nos dedicamos aos nosso ofícios mais caros. Diz o cineasta:
"As listas que ele transcreveu durante décadas nao têm função prática nenhuma. Revelam-se inúteis, se levarmos em conta a noção de utilidade que costumamos atribuir às coisas. Entretanto, Santiago agarrou-se àquela inutilidade na esperança de engrandecer a própria vida. Deu sentido à sua existência dedicando-se a algo que não é nada. Agiu como cada um de nos deveria agir. Até porque, no limite, tudo o que produzimos acaba se mostrando tão inútil quanto as listas de Santiago".
E vamos ao filme.
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