
Ao fechar o livro, ontem à noite, não pude me conter e dei um soco firme na parede. Não, não fiquei maluco. É que há muito tempo - talvez desde Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro - um romance não me tocava tanto. Refiro-me a Na praia, do Ian McEwan, que devorei em dois dias.
O curioso é que até a metade (e cheguei a comentar isso com o Flávio Izhaki ), o livro me parecia apenas correto - longe, portanto, de justificar os derramados elogios que vinha recebendo por aí, inclusive numa inspirada coluna do Dapieve. Só que, a partir mais ou menos da página 70, a história engrena de uma forma impressionante.
A trama é bem básica: um jovem casal vive sua noite de lua-de-mel num hotel litorâneo da Inglaterra no início dos anos 60 e descobre, em poucas horas, interseções e discrepâncias afetivas até então encobertas pela relação. O que McEwan erige a partir desse fiapo de enredo é absolutamente demolidor. E o escritor inglês demonstra extrema agudeza ao encerrar o romance com uma cena dolorida de tão bonita - cena que muito livremente (pois são trabalhos bem distintos) também me remeteu à precisão narrativa do Ishiguro nos parágrafos derradeiros de Não me abandonde jamais.
Em suma, o que descobri ontem à noite com meu ato espontâneo (e um tanto intempestivo) é que há mesmo livros capazes de provocar socos na parede. Na praia, certamente, é um deles.
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