
Logo após assistir a Três irmãos de sangue, comecei a correr atrás dos discos do Francisco Mário. E não foi nada fácil encontrar. Mas graças ao amigo Rodrigo Ferrari, da Livraria Folha Seca, consegui três deles: Terra, Marionetes e Dança do mar.
Os CDs confirmaram a impressão que havia tido ao ver o filme: Francisco possuía, no campo musical, o mesmo talento que os dois irmãos (Henfil e Betinho) demonstraram, respectivamente, no traço e na militância política. As evidentes características da alma mineira se somam, em seus discos, ao extremo conhecimento técnico da música, resultando numa mescla de popular e erudito cujo amálgama é o lirismo.
Fiquei especialmente comovido com Dança do mar, o último trabalho do artista, gravado já sob os efeitos da Aids. Dividido em sete movimentos – Verão, Outono, Inverno, Primavera, Calmaria, Amanhecer e Tempestade -, o disco é inteiramente instrumental e dialoga com as pinturas do artista plástico Lobianco, que ilustram o encarte.
Dança do marcentra-se de forma orgânica sobre o elemento ‘água’. Não à toa: o que Francisco tenta reproduzir musicalmente, ressaltando as calmarias, as correntezas, as temperaturas, as sazonalidades, é o próprio ciclo da existência, o fluxo cujo fim, para ele, naquele momento parecia próximo.
Não pensem, porém, que se trata de um disco triste. Mesmo nos movimentos mais dolentes, como o belíssimo Amanhecer, o que sobressai é uma imensa ternura. Talvez pela consciência de que, como dizem os versos da canção de um outro CD (“Se choro, choro mudo / Engolindo o coração / Mas a vida passageira / Leva minha aflição”), tudo, até mesmo a dor, um dia se vai.
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