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Dois documentários brasileiros Escrito em 22 de agosto de 2007
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João Moreira Salles: autocrítica

Se o cinema brasileiro destaca-se mundialmente em algum gênero hoje, certamente é o documentário. O altíssimo nível a que se chegou por aqui deve-se sobretudo à sofisticação narrativa, que foge dos costumeiros padrões burocráticos (narração em off sobre imagens ilustrativas etc.) e também da farofada panfletária de Michael Moore e de seus seguidores. Nos últimos dias, conferi dois documentários da nova safra. Muito diferentes entre si, ambos se iguala, porém, pela marca da qualidade.

Santiago, de João Moreira Salles, confirmou todas as minhas melhores expectativas. Trata-se de um verdadeiro ensaio sobre a arte de documentar, baseado em filmagens que o cineasta captou de seu mordomo em 1992 (leia mais sobre a história aqui), revistas hoje. O contraste entre o filme que seria feito e a autocrítica do diretor, contruído com o rigoroso minimalismo que passou a ser característica de seu cinema, explicita duas etapas-chave do processo maturação de um documentarista. Como se não bastasse, o personagem-título é uma figuraça e conta ótimas histórias, que rendem risadas capazes de quebrar um pouco o clima melancólico do documentário.

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Se não tem a excelência narrativa de Santiago, Três irmãos de sangue pega o expectador pela emoção. As trajetórias irremediavelmente amalgamadas de Betinho, Henfil e Chico Mário são relatadas com correção pela diretora Ângela Patrícia Reiniger, que utiliza muito bem cenas históricas - como a da volta dos exilados -, entremeando-as com depoimentos.

O viés trágico da vida dos protagonistas já torna, por si, o documentário comovente, e a música de Chico Mário (belíssima, à qual eu, em minha ignorância, desconhecia) funciona como o fio que costura a condução do filme. O senão fica por conta das 'gorduras'. A seqüência em que a câmera se fixa sobre o rosto de Ivan Lins, como se esperasse o momento do choro, me parece excessiva. Do mesmo modo, nem sempre é necessário ilustrar o que o entrevistado fala, como ocorre no momento em que Fernando Brant faz alusão a um ciclo moto-contínuo e em seguida vemos a imagem de um moinho d'água. Isso me remete às legendas da Folha de S. Paulo, que costumam apenas repetir o que vemos na foto, como se o leitor fosse idiota.

Esses, contudo, são pequenos reparos num documentário que merece a visita e mexe, de verdade, com quem assiste - seja pela relevância dos protagonistas, seja por lembrar que este país já foi diferente. Três irmãos de sangue já está em cartaz. Santiago entra no circuito na próxima sexta.

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