

Ontem comecei a ler o novo livro do José Castello. Cheguei à metade das 206 páginas, mas já posso adiantar que se trata de uma leitura fundamental a todos os que trabalham ou se interessam pelo jornalismo cultural. Na obra, Castello repisa - com muito mais clareza e conhecimento de causa - algo que venho afirmando aqui e alhures: que há uma tendência, em boa parte dos autores brasileiros, em escrever para seus pares. E mais: em descolar a literatura da vida cotidiana, fazendo com que se perca o "vínculo difícil" (palavras dele) que as une.
"Na era dos best-sellers, das listas dos mais vendidos, dos livros de auto-ajuda, dos manuais do bem-viver, dos escritores 'de cinema', dos bajuladores dos críticos, dos livos 'de escritor para escritor', nessa época insuportável, é isso que precisamos reencontrar", afirma ele, no artigo que dá nome à obra.
Em outra tese que subscrevo, Castello argumenta que muitos escritores, "sobretudo aqueles formados nos bancos das faculdades de letras", tendem a achar que a literatura é "matéria de conhecimento" - "matéria fria e impessoal, que deve ser manipulada, classificada e vigiada". "Ela se tornou, assim, um mundo fechado em que poetas dialogam com outros poetas, tradições influenciam e interferem em outras tradições, vozes especializadas se comunicam e disputam espaço de prestígio - enquanto o leitor, o leitor comum de romances e poemas (...), fica simplesmente de fora", completa.
O raciocínio se aplica, em conseqüência, também aos resenhistas. A ânsia em produzir uma análise puramente "científica", centrada nas premissas duras da teoria literária, faz com que seja perdida a dimensão de 'leitor' - que, em geral, foi o elemento originário no encaminhamento do crítico a seu ofício. "Tudo o que um crítico tem a oferecer é a sua palavra empenhada - e é nela que se inicia, se sustenta e se fecha a sua ética", pondera Castello.
São bastantes adequadas ao nosso tempo e à conjuntura as reflexões contidas em A literatura na poltrona - Jornalismo literário em tempos instáveis. Embora não tenha terminado a leitura, recomendo desde já o livro.
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