
O amigo Pedro Paulo Malta, o nosso Pepê, me deu nesta semana um presente precioso: o DVD Tia Eulália - O Império do Divino, cuja existência até então eu desconhecia. Assisti ao filme ontem à noite e, apesar dos graves problemas de edição, foi impossível não me emocionar.
A alma imperiana falou mais alto ao ver aquela que é a mãe da verde-e-branco de Madureira subindo o morro da Serrinha, mostrando a Rua da Balaiada (onde a agremiação foi fundada), preparando-se para o desfile de 2004 (que seria seu último) ou, já bastante doente, reencontrando-se em seu derradeiro aniversário com Sebastião Molequinho, também fundador da escola. Molequinho aparece em outra cena do filme, recordando o primeiro desfile do Império, em 1948, e confessando sua surpresa com a conquista do título logo na estréia. Quando fala isso, ele tenta disfarçar, mas a voz embarga.
O documentário mostra também imagens da procissão de São Jorge, o padroeiro da escola, da qual Tia Eulália participava todo ano. Reverente - como deve ser -, o diretor Erik Oliveira presta, ao final do filme, uma merecida homenagem a Eulália, que sempre fez questão de desfilar no chão - "lugar de imperiano não é em cima de carro" - e simboliza uma síntese do tripé que sustenta a essência do Império Serrano: tradição, contestação e democracia.
P.S. Ainda sobre o Império: o querido Zé Luís, da Velha Guarda, me ligou ontem, animado com os protótipos das fantasias para 2008, quando a escola vai homenagear Carmen Miranda. Agora, começará a fase da escolha dos sambas (27 foram inscritos). Apesar da habitual falta de dinheiro, todos estão tocando a bola para a frente. É aquilo: imperiano de fé, não cansa, não. E quem quiser fazer parte da nossa família, desfilando ano que vem na Ala dos Devotos, da qual faço parte, já pode avisar aqui nos comentários ou via e-mail.
Desde que o órgão foi criado, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso*, não havia sentido firmeza em nenhum daqueles que assumiram o Ministério da Defesa. A coisa, ao que parece, começa a mudar com Nelson Jobim. Nem tanto pelas atitudes enérgicas com relação ao caos aéreo, também elogiáveis, mas sobretudo pelo comportamento diante dos militares. A postura de Jobim, afirmando com firmeza que reações ao livro da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos "não são bem-vindas" e "terão resposta à altura" demonstram, pela primeira vez, que um ministro da Defesa pretende de fato fazer valer sua autoridade sobre a caserna. Na democracia, é assim que tem de ser.
* Sobre FHC, recomendo a leitura da matéria feita por João Moreira Salles com o ex-presidente. O texto, publicado na edição de agosto da revista Piauí, está disponível aqui.
É bem bonito o documentário Vento bravo, no qual Beatriz Thielmann e Regina Zappa, com o auxílio luxuoso do fotógrafo Walter Carvalho, contam um pouco da vida de Edu Lobo. O filme recém-lançado em DVD pela Biscoito Fino contempla as diferentes etapas da trajetória do compositor, das lembranças fellinianas da infância no Recife (que viriam a dar origem a canções como No cordão da saideira), passando pela fase dos festivais (quando Edu quase virou popstar) e pelas célebres parcerias com Chico Buarque, até chegar à maturidade.
O filme conta com depoimentos de Tárik de Souza, Ronaldo Bastos, Marília Medalha, Abel Silva, Dori Caymmi, Marcos Valle e Paulo César Pinheiro, entre outros artistas que conviveram (e convivem) com o homenageado. Entre os grandes momentos, está o registro da visita feita por Edu a Gianfrancesco Guarnieri. Já bastante debilitado e praticamente sem voz, Guarnieri acompanha, quase em sussurros, o canto de Edu numa das músicas compostas pelos dois para a peça Arena canta Zumbi.
O ponto fraco, por outro lado, fica com o show que vem como ‘extra’ no DVD. Os planos fechados do palco e o áudio captado diretamente da mesa de som prejudicam muito a reprodução do que foi o espetáculo do Mistura Fina. Estive lá em uma das apresentações daquela temporada, as primeiras de Edu após o susto do AVC, e sou testemunha de que houve plena sinergia entre o artista e o público – fato que, no registro filmado, passa ao largo. Para piorar, as canções são rigorosamente divididas em faixas, numa edição que abdica da riqueza de detalhes dos intervalos entre as músicas para apostar na frieza do rigor.
No geral, a melhor cena de todo o DVD está mesmo no documentário e acontece durante o bate-papo entre Edu e Chico, promovido especialmente pelas diretoras. Em certo momento, Regina Zappa comenta que os dois são considerados a dupla ‘Pelé e Coutinho’ da música brasileira e pergunta o que eles acham disso.
Rápido no gatilho, Chico vira-se para Edu e manda de bate-pronto: “E aí, Coutinho?”
Logo após assistir a Três irmãos de sangue, comecei a correr atrás dos discos do Francisco Mário. E não foi nada fácil encontrar. Mas graças ao amigo Rodrigo Ferrari, da Livraria Folha Seca, consegui três deles: Terra, Marionetes e Dança do mar.
Os CDs confirmaram a impressão que havia tido ao ver o filme: Francisco possuía, no campo musical, o mesmo talento que os dois irmãos (Henfil e Betinho) demonstraram, respectivamente, no traço e na militância política. As evidentes características da alma mineira se somam, em seus discos, ao extremo conhecimento técnico da música, resultando numa mescla de popular e erudito cujo amálgama é o lirismo.
Fiquei especialmente comovido com Dança do mar, o último trabalho do artista, gravado já sob os efeitos da Aids. Dividido em sete movimentos – Verão, Outono, Inverno, Primavera, Calmaria, Amanhecer e Tempestade -, o disco é inteiramente instrumental e dialoga com as pinturas do artista plástico Lobianco, que ilustram o encarte.
Dança do marcentra-se de forma orgânica sobre o elemento ‘água’. Não à toa: o que Francisco tenta reproduzir musicalmente, ressaltando as calmarias, as correntezas, as temperaturas, as sazonalidades, é o próprio ciclo da existência, o fluxo cujo fim, para ele, naquele momento parecia próximo.
Não pensem, porém, que se trata de um disco triste. Mesmo nos movimentos mais dolentes, como o belíssimo Amanhecer, o que sobressai é uma imensa ternura. Talvez pela consciência de que, como dizem os versos da canção de um outro CD (“Se choro, choro mudo / Engolindo o coração / Mas a vida passageira / Leva minha aflição”), tudo, até mesmo a dor, um dia se vai.
Esta seção - que estréia hoje e se repetirá toda quarta-feira aqui no Pentimento - abrirá espaço para que gente amiga (e que está sempre ligada na produção cultural) nos dê dicas de livros, discos, peças ou filmes, dividindo conosco o seu deleite. Quem dá o pontapé inicial é o jornalista e cantor Pedro Paulo Malta, que tem feito sucesso saracoteando ao som de marchinhas no espetáculo 'Sassaricando'. Fala, Pepê:
"Cristina Buarque e Terreiro Grande ao vivo é um registro precioso. Primeiro, pelo encontro feliz entre duas partes especiais: uma grande intérprete/propagadora generosa de seu acervo e um povo de São Paulo que, além de juntar vozes e instrumentos excelentes, realiza um puta trabalho de pesquisa – mostrando que o baú é bem mais fundo do que se imagina! Segundo, pelo repertório maravilhoso: 37 sambas de terreiro agrupados em quatro faixas, apresentando de sucessos como Quantas lágrimas (Manacéa) e Esta melodia (Bubu) a sambas “desencavados” como Lenços brancos (Picolino) e Não sou do morro (Chico Santana). Ainda assim, nada neste CD – gravado ao vivo no Teatro Fecap, em São Paulo – é mais especial do que a sonoridade que se tem: roda de samba com violões, cavaquinho, cozinha e coro (senhor vozerio!!!) à moda do obrigatório Portela passado de glória, primeiro disco da Velha Guarda, de 1970. Até os andamentos – mais cadenciados que os da própria VGP hoje – são prova de que o samba bom está aí: vivinho da silva, sem a necessidade de se enquadrar em melo-pagodes ou chatices mudernas pra emocionar a gente.
PS1: Nada contra a faixa 1, mas sugiro que se comece a ouvir pela 2. É de arrepiar. Quando a turma ataca pra valer, dá pra ouvir a felicidade sobrando na voz da Cristina.
PS2: Não sei como está a distribuição, mas já está à venda no Bip-Bip (R$ 20)".
Ao fechar o livro, ontem à noite, não pude me conter e dei um soco firme na parede. Não, não fiquei maluco. É que há muito tempo - talvez desde Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro - um romance não me tocava tanto. Refiro-me a Na praia, do Ian McEwan, que devorei em dois dias.
O curioso é que até a metade (e cheguei a comentar isso com o Flávio Izhaki ), o livro me parecia apenas correto - longe, portanto, de justificar os derramados elogios que vinha recebendo por aí, inclusive numa inspirada coluna do Dapieve. Só que, a partir mais ou menos da página 70, a história engrena de uma forma impressionante.
A trama é bem básica: um jovem casal vive sua noite de lua-de-mel num hotel litorâneo da Inglaterra no início dos anos 60 e descobre, em poucas horas, interseções e discrepâncias afetivas até então encobertas pela relação. O que McEwan erige a partir desse fiapo de enredo é absolutamente demolidor. E o escritor inglês demonstra extrema agudeza ao encerrar o romance com uma cena dolorida de tão bonita - cena que muito livremente (pois são trabalhos bem distintos) também me remeteu à precisão narrativa do Ishiguro nos parágrafos derradeiros de Não me abandonde jamais.
Em suma, o que descobri ontem à noite com meu ato espontâneo (e um tanto intempestivo) é que há mesmo livros capazes de provocar socos na parede. Na praia, certamente, é um deles.
Há algumas semanas, fui conferir o show O violão e o samba, que marcou o lançamento do disco homônimo, de Dorina, Cláudio Jorge e Carlinhos 7 Cordas. A impressão foi tão boa (não obstante a experiência desagradável de assistir a um espetáculo no Cinematheke Jam Club) que comprei o CD naquela mesma noite.
Centrado em composições que jogam luz sobre a relação do samba (ou dos sambistas) com o violão, o disco do trio dá nova roupagem a clássicos como Cordas de aço (Cartola) e Tudo se transformou (Paulinho da Viola), além de registrar, com arranjos inspiradíssimos dos dois violonistas, pérolas recentes, como Zuela de Oxum, de Moacyr Luz e Martinho da Vila, e belezas menos conhecidas, como Meu violão, de Sidney Miller.
Confesso que havia ficado meio receoso quanto ao resultado do trabalho, sobretudo em razão da característica vocal de Dorina. Apesar de boa cantora, ela costuma (ou costumava) exagerar no volume, o que seria trágico em um disco cujo acompanhamento se limita a dois violões. Dorina, no entanto, está perfeita: vale-se do que tem de melhor - a capacidade de cantar com emoção, traço raro nos dias que correm - mantendo a voz serena, em consonância com as cordas, funcionando quase como um terceiro instrumento.
Entre os tantos pontos altos do CD, destaco a gravação do Samba do Irajá, que ganhou um andamento dolente, capaz de sublinhar ainda mais intensamente a beleza de sua melodia. É quando Dorina brilha com maior intensidade, um daqueles momentos capazes de diferenciar os cantores dos meros crooners. Em outro acerto dos produtores, é justamente o samba de Nei que abre o disco, como se anunciasse, já na primeira faixa, a extrema qualidade do que virá.
O sol delicioso que ilumina o Rio de Janeiro no dia de hoje promete ficar até amanhã e tornar ainda mais bonita a festa que vai acontecer na bela e histórica Rua do Ouvidor. O brinde será em dose dupla. Em primeiro lugar, pelos 40 anos do amigo Rodrigo Ferrari, da Livraria Folha Seca. Em segundo, pelo relançamento do disco Peso na balança, do mestre Wilson Moreira (foto). Grande tricolor e portelense, seu Wilson estará no local, participando da roda-de-samba que contará com a presença de outras feras - Moacyr Luz, por exemplo, confirmou hoje pela manhã que vai.
O Rodrigo marcou para às 13h o início dos trabalhos e confirmou que os restaurantes e bares da região vão abrir suas portas especialmente. Estarei lá.
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João Moreira Salles: autocrítica
Se o cinema brasileiro destaca-se mundialmente em algum gênero hoje, certamente é o documentário. O altíssimo nível a que se chegou por aqui deve-se sobretudo à sofisticação narrativa, que foge dos costumeiros padrões burocráticos (narração em off sobre imagens ilustrativas etc.) e também da farofada panfletária de Michael Moore e de seus seguidores. Nos últimos dias, conferi dois documentários da nova safra. Muito diferentes entre si, ambos se iguala, porém, pela marca da qualidade.
Santiago, de João Moreira Salles, confirmou todas as minhas melhores expectativas. Trata-se de um verdadeiro ensaio sobre a arte de documentar, baseado em filmagens que o cineasta captou de seu mordomo em 1992 (leia mais sobre a história aqui), revistas hoje. O contraste entre o filme que seria feito e a autocrítica do diretor, contruído com o rigoroso minimalismo que passou a ser característica de seu cinema, explicita duas etapas-chave do processo maturação de um documentarista. Como se não bastasse, o personagem-título é uma figuraça e conta ótimas histórias, que rendem risadas capazes de quebrar um pouco o clima melancólico do documentário.
Se não tem a excelência narrativa de Santiago, Três irmãos de sangue pega o expectador pela emoção. As trajetórias irremediavelmente amalgamadas de Betinho, Henfil e Chico Mário são relatadas com correção pela diretora Ângela Patrícia Reiniger, que utiliza muito bem cenas históricas - como a da volta dos exilados -, entremeando-as com depoimentos.
O viés trágico da vida dos protagonistas já torna, por si, o documentário comovente, e a música de Chico Mário (belíssima, à qual eu, em minha ignorância, desconhecia) funciona como o fio que costura a condução do filme. O senão fica por conta das 'gorduras'. A seqüência em que a câmera se fixa sobre o rosto de Ivan Lins, como se esperasse o momento do choro, me parece excessiva. Do mesmo modo, nem sempre é necessário ilustrar o que o entrevistado fala, como ocorre no momento em que Fernando Brant faz alusão a um ciclo moto-contínuo e em seguida vemos a imagem de um moinho d'água. Isso me remete às legendas da Folha de S. Paulo, que costumam apenas repetir o que vemos na foto, como se o leitor fosse idiota.
Esses, contudo, são pequenos reparos num documentário que merece a visita e mexe, de verdade, com quem assiste - seja pela relevância dos protagonistas, seja por lembrar que este país já foi diferente. Três irmãos de sangue já está em cartaz. Santiago entra no circuito na próxima sexta.
A frase que melhor sintetiza esse tal do Cansei foi dita pelo aposentado José Carlos Caldeira Braga, de 70 anos. Ele passava pela Praça da Sé no momento em que os líderes e participantes do movimento (intelectuais como Ivete Sangalo, Agnaldo Rayol e Wanderlea) bradavam seus gritos de indignação. Ao ver Hebe Camargo subir ao palanque, José Carlos mandou, na lata: "Ô Hebe "Maluf" Camargo! Fez campanha pra ladrão a vida toda e agora está cansada!".
Muito bem, seu José Carlos, muito bem.
Estive atolado de trabalho na semana passada e, por isso, o blog não foi atualizado. Mas prometo que, nos próximos dias, os posts voltarão. Quero comentar aqui sobre o documentário Santiago, belíssimo trabalho do João Moreira Salles, e os discos Estação Melodia(do Luiz Melodia) e O violão e o samba(do trio Dorina, Cláudio Jorge e Carlinhos Sete Cordas).
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Mindlin, Nelson e Ildefonso: meus colegas de debate
Acabo de receber a confirmação de que vou participar de uma das sessões do Café Literário, na próxima Bienal do Livro. Será no dia 15 de setembro, sábado, às 16h, com o tema Banquete de leitura. Diversidade de temas e gêneros literários. Desafios e sucessos. Ao meu lado, estarão José Mindlin, Nelson Motta e o espanhol Ildefonso Falcones. Ecletismo é isso aí!

Ontem comecei a ler o novo livro do José Castello. Cheguei à metade das 206 páginas, mas já posso adiantar que se trata de uma leitura fundamental a todos os que trabalham ou se interessam pelo jornalismo cultural. Na obra, Castello repisa - com muito mais clareza e conhecimento de causa - algo que venho afirmando aqui e alhures: que há uma tendência, em boa parte dos autores brasileiros, em escrever para seus pares. E mais: em descolar a literatura da vida cotidiana, fazendo com que se perca o "vínculo difícil" (palavras dele) que as une.
"Na era dos best-sellers, das listas dos mais vendidos, dos livros de auto-ajuda, dos manuais do bem-viver, dos escritores 'de cinema', dos bajuladores dos críticos, dos livos 'de escritor para escritor', nessa época insuportável, é isso que precisamos reencontrar", afirma ele, no artigo que dá nome à obra.
Em outra tese que subscrevo, Castello argumenta que muitos escritores, "sobretudo aqueles formados nos bancos das faculdades de letras", tendem a achar que a literatura é "matéria de conhecimento" - "matéria fria e impessoal, que deve ser manipulada, classificada e vigiada". "Ela se tornou, assim, um mundo fechado em que poetas dialogam com outros poetas, tradições influenciam e interferem em outras tradições, vozes especializadas se comunicam e disputam espaço de prestígio - enquanto o leitor, o leitor comum de romances e poemas (...), fica simplesmente de fora", completa.
O raciocínio se aplica, em conseqüência, também aos resenhistas. A ânsia em produzir uma análise puramente "científica", centrada nas premissas duras da teoria literária, faz com que seja perdida a dimensão de 'leitor' - que, em geral, foi o elemento originário no encaminhamento do crítico a seu ofício. "Tudo o que um crítico tem a oferecer é a sua palavra empenhada - e é nela que se inicia, se sustenta e se fecha a sua ética", pondera Castello.
São bastantes adequadas ao nosso tempo e à conjuntura as reflexões contidas em A literatura na poltrona - Jornalismo literário em tempos instáveis. Embora não tenha terminado a leitura, recomendo desde já o livro.
"Os limões"
Eugenio Montale
"Escuta-me, os poetas laureados
circulam apenas entre plantas
de nomes pouco usados: buxeiros alfenas ou acantos.
Eu, por mim, prefiro os caminhos que levam às valas
cheias de mato onde em lamaçais
já meio secos meninos apanham
alguma esquálida enguia:
as trilhas que bordejam os taludes
descem por entre os tufos de caniços
e se metem nas hortas, entre os pés de limão.
Tanto melhor se a algazarra dos pássaros
se dissipa engolida pelo azul:
mais claro se escuta o sussurro
dos galhos amigos no ar que mal se move,
e as sensações deste cheiro
que não se larga da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui se cala por milagre
a guerra das desencontradas paixões,
aqui até a nós, os pobres, toca uma parcela de riqueza
e é o cheiro dos limões.
Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos descobrir um defeito na Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
ao centro de uma verdade.
O olhar perscruta em volta,
a mente indaga concerta desune
em meio ao perfume que se espalha
enquanto o dia enlanguece.
São os silêncios em que se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma Divindade surpreendida.
Mas a ilusão se desfaz e o tempo nos devolve
à cidade ruidosa onde o azul mostra-se
apenas por retalhos, no alto, entre as cimalhas.
Castiga a chuva a terra, então; se espessa
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara - a alma, amarga.
Quando um dia de um portão malfechado
entre as árvores de um pátio
nos surge o amarelo dos limões;
e no coração o gelo se dissolve,
e no peito estalam
suas canções
as trombetas de ouro da solaridade"
P.S. Valeu, André, por me apresentar esta beleza...

O suplemento Prosa & Verso (O Globo) de sábado passado trouxe, em sua capa, uma matéria espertíssima. O repórter Miguel Conde levantou, junto a 17 jovens autores brasileiros*, as listas que compõem o cânone particular de cada um. Apurado o resultado, para surpresa de muita gente ficaram de fora nomes como Rubem Fonseca - volta-e-meia citado como referência para a "nova geração" - e os beatniks. Machado de Assis (7 votos), Manuel Bandeira (5) e Graciliano Ramos (5) ficaram com os três primeiros lugares no time brazuca, deixando Guimarães Rosa (4), João Cabral de Mello Neto (4) e Raduan Nassar (4) em quarto.
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Machado de Assis e Fernando Pessoa: os mais votados
Entre os gringos, deu Fernando Pessoa (7 votos) na cabeça. Ao poeta português, seguiram-se Julio Cortazar (6), Franz Kafka (6), Rimbaud (5), Alberto Camus (4) e Dostoievski (4). Além de escritores, também foram citados compositores, como Caetano Veloso e Chico Buarque, cineastas (Federico Fellini, Wim Wenders, Charles Chaplin), artistas plásticos (Hopper, Picasso) e personagens de HQs (Asterix).
A minha lista ficou assim: Caio Fernando Abreu, Carlos Heitor Cony, Kafka, Albert Camus, Dostoievski, Fernando Pessoa, Paulo Mendes Campos, Clarice Lispector, Raduan Nassar, Chico Buarque, Clube da Esquina, Paulinho da Viola, Sueli Costa, João Nogueira, Wim Wenders, Louis Malle, François Truffaut, Woddy Allen, Federico Fellini, Nino Rota, Iberê Camargo, Edward Hopper e Munch.
Leia a íntegra da reportagem, com todos as listas, aqui.
* Além de mim, votaram Adriana Lisboa, André de Leones, André Laurentino, Andréa del Fuego, Angélica Freitas, Antonio Prata, Bruna Beber, Daniel Galera, Daniel Pellizzari, Fabrício Corsaletti, Francisco Bosco, Henrique Rodrigues, João Paulo Cuenca, Joca Terron, Paulo Scott e Santiago Nazarian.

Sérgio Sant'Anna e Geraldo Carneiro: palestrantes
Amanhã e domingo vai acontecer, na PUC (Auditório do RDC), mais uma edição do Flap (Festival Literário Aberto ao Público). Privilegiando a poesia (a prosa me pareceu pouco representada), o evento contará com a participação dos amigos Henrique Rodrigues, Cecilia Giannetti, Alberto Pucheu e Ana Paula Maia, além do querido Sergio Sant'Anna. Segue a programação completa (mais informações aqui):
Sábado, dia 4 de agosto
. 14h30 – Leitura do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, pelo poeta Eduardo Tornaghi + Leitura InVERsa
. 15h às 16H30 - Contaminações. Mediação: Thiago Ponce (poeta). Com Bruno Cattoni (poeta e jornalista), Márcio-André (poeta e músico), Paulo Ferraz (poeta e editor), Sylvio Back (poeta e cineasta) e Toni Barreto (poeta, restaurador e encadernador)
. 16h30 às 18h - A Literatura na sala de aula. Mediação: Vinicius Baião (poeta). Com Alberto Pucheu (poeta e professor de Teoria Literária na UFRJ), Érico Braga (poeta e professor), Flávio Corrêa de Melo (escritor) e Marcus Alexandre Motta (professor de Literatura Portuguesa na Uerj)
. 18h30 às 20h - E quem vive disso? Mediação: Raphael Vidal (editor e escritor). Com Cairo Trindade (poeta), Marcelo Lachter (livreiro), Pedro Tostes (poeta e editor) e Thereza Cristina Motta (editora e poeta)
Domingo , dia 5 de agosto
. 14h30 – Apresentação de texturas poéticas e realidades experimentais com arranjos para assobio
. 15h às 16h30 - O além livro. Mediação: Leandro Jardim (poeta). Com Ana Paula Maia (escritora), Andréa Paola (poeta), Cecília Giannetti (escritora e editora) e Sérgio Sant'Anna (escritor)
. 17h às 18h30 - Literatura falada e literatura escrita. Mediação: Priscila Andrade (poeta). Com Alexei Bueno (poeta), Geraldo Carneiro (poeta e letrista), Henrique Rodrigues (poeta e coordenador de projetos literários), Mano Melo (poeta) e Salgado Maranhão (poeta
Quem costuma acompanhar o Pentimento, sabe o quanto sou fã de documentários. E todos os fãs de documentário estão ansiosos pela chegada ao circuito do filme Santiago, de João Moreira Salles. No trabalho, o diretor retoma imagens registradas em 1992, retratando o mordomo que serviu à família Moreira Salles por 30 anos.
Já aposentado, Santiago na época das filmagens morava em um pequeno apartamento do Leblon, onde levava uma vida solitária ao lado das 30 mil páginas que escreveu e nas quais conta histórias sobre mais de 500 anos de nobrezas e dinastias de todo o mundo. A singularidade do personagem levou João Moreira Salles a perceber que ele rendia um filme. Só que o tal filme acabou não saindo. Ou melhor, saiu agora, mas com um caráter novo e instigante: o diretor utiliza as imagens captadas há 15 anos para fazer uma rigorosa autocrítica de seu trabalho como documentarista.
Entre outros aspectos, João admite ter reencenado, no set, a relação de poder que existira entre ele e seu personagem. Mais do que isso, reprime o próprio "autoritarismo" na condução do filme, sublinhando, por exemplo, o excesso de zelo estético - que, diga-se, é coisa capaz de assassinar qualquer documentário.
Já estava curioso para conferir Santiago, mas fiquei ainda mais depois de ler a ótima entrevista que o diretor concedeu à Bravo! de agosto (as edições da revista, aliás, melhoraram bastante nos últimos meses), na qual comenta todos esses assuntos.
Com serenidade, João lembra que, quando o filmou, ficou se perguntando a motivação de o mordomo guardar todos aqueles papéis. E salienta que agora, ao montar o filme , percebeu um aspecto na figura de Santiago que o comoveu e que, ao menos em parte, ajuda a tatear esse motivo aparentemente sem sentido. Talvez trate-se de razão semelhante àquela pela qual ele, João, faz cinema, ou mesmo àquelas pelas quais nós nos dedicamos aos nosso ofícios mais caros. Diz o cineasta:
"As listas que ele transcreveu durante décadas nao têm função prática nenhuma. Revelam-se inúteis, se levarmos em conta a noção de utilidade que costumamos atribuir às coisas. Entretanto, Santiago agarrou-se àquela inutilidade na esperança de engrandecer a própria vida. Deu sentido à sua existência dedicando-se a algo que não é nada. Agiu como cada um de nos deveria agir. Até porque, no limite, tudo o que produzimos acaba se mostrando tão inútil quanto as listas de Santiago".
E vamos ao filme.
Acaba de entrar no ar o site da revista Zé Pereira. A página traz algumas das matérias publicadas na versão impressa - cujo número de estréia tem vendido muito bem, segundo me informa o Zé José -, crônicas e poemas, além de um blog e do folhetim que estou coordenando.
O folhetim da Zé Pereira inspira-se numa experiência iniciada em 1870, quando os amigos Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão produziram a quatro mãos o texto O mistério da Estrada de Cintra, publicado no jornal português Diário de Notícias. Em 1920, a brincadeira chegou por aqui: Viriato Corrêa, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Coelho Neto dividiram a criação de O mistério.
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Publicado originalmente em O cruzeiro, 'O mistério do MMM' virou livro
No entanto, talvez o mais célebre dos folhetins com vários autores seja O mistério do MMM, escrito por Viriato Corrêa, Dinah Silveira de Queiroz, Herberto Sales, Lucio Cardoso, Jorge Amado, José Conde, Guimarães Rosa, Antônio Callado, Orígenes Lessa e Rachel de Queiroz (com coordenação de João Condé). O texto foi veiculado pela revista O Cruzeiro e posteriormente virou livro, lançado pela Ediouro.
Com As aventuras de um Zé Pereira, retomamos essa tradição. Criei o capítulo 1, e a idéia é abrir espaço para que os bons escritores da nova geração dêem continuidade à história. Na segunda edição da revista, o bola estará com Henrique Rodrigues.
Segue um pequeno trecho do capítulo inicial. Para acessar o site da Zé Pereira (onde há a relação dos pontos de venda e mais informações sobre a revista, que custa apenas R$ 2), basta clicar aqui
As aventuras de um Zé Pereira - Capítulo 1
Marcelo Moutinho
Zé Pereira se diz sujeito-homem. Desde que entreouviu a expressão durante uma briga num boteco lá da rua São José, é assim que apresenta suas credenciais. “Muito prazer, Zé Pereira, sujeito-homem”, e abraça o interlocutor de forma abrupta, colando a orelha no peito do sujeito, num movimento peculiaríssimo que acabou por lhe conferir o apelido de ‘Cardiologista’.
Não que o tal Zé Pereira seja um desses tresloucados machistas que ameaça de pancada os gays bombados da Farme. Ele se define como sujeito-homem do mesmo modo que chama alguém de ‘malandro-berimbau’, ou cola na testa de um terceiro a temida alcunha de ‘Zé Ruela’. Pois como indivíduo típico do Rio de Janeiro – aquele que nasceu no subúrbio e se submeteu à transculturação na Zona Sul -, Antônio José Pereira da Silva é sobretudo um observador, que cata as sobras da estranha língua falada pelos cariocas para temperar o próprio vocabulário.
De Cascadura, o bairro-natal, guarda a moral rígida, a paixão pela Portela e o gosto por beber em pé na calçada até que o dono do bar lhe jogue água nos pés. Em Copacabana, onde já mora há quase dez anos, aprendeu entre outras coisas a pegar jacaré – e que não fica bem ir à praia com o short do Botafogo. (...)