
Esses dias em São Paulo têm sido marcados por muitas caminhadas pela cidade e uma verdadeira maratona cultural. Na segunda, ao chegar de uma viagem extenuante de seis hora e meia desde Paraty, fizemos o check in e em seguida fomos conferir o filme Cão sem dono, de Beto Brant. Não gostei. Aliás, acho que, depois de um excelente início (com Matadores e Ação entre amigos), o diretor vem rolando ladeira abaixo.
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A adaptação do romance do Daniel Galera para a tela até preserva a ambiência melancólica e algo sufocante do livro. Mas as nuances que pontuam suas páginas ganham, no filme, tintas demasiadamente fortes, o que acaba redundando num rastaqüera moralismo burguês. Algo na linha “a felicidade só é possível no seio da família”. Outro problema do longa é que a figura do cachorro fica esmaecida, praticamente sem função ou significado.
Depois da sessão, jantamos no ótimo (e nada socialista) Fidel. O restaurante fica na Alameda Itu, no caminho para os Jardins, e, apesar do ambiente brega-com-pretensão-de-chique, oferece comida de primeiríssima.
Na terça, fomos ao Masp conferir a exposição sobre Charles Darwin. Bastante interessante e didática, embora tenha a impressão que a F. ficou mais animada do que eu. Gostei mesmo foi de conhecer o Joe.
À tardinha, rimos bastante com o divertidíssimo Ratatouille, que só reitera a qualidade das animações da Pixar. Mais à noite, fomos à Mercearia dar um abraço no Marquinho e tomar umas garrafas de Serra Malte com o Marcelino e o Paulinho, um amigo das antigas. Gosto cada vez mais da Mercearia: boa música, comida honesta, preços em conta, gente bacana e cerveja sempre geladíssima. O que se pode querer mais?
A quarta foi dedicada a conhecer o Museu da Língua Portuguesa. Apesar de menos imponente do que pode parecer de se ouvir falar, o espaço é bem bonito e funcional. A visita já vale pela Estação da Luz, que eu não conhecia e cuja arquitetura me impressionou.
No Museu, vimos (e eu me emocionei muito, mas muito mesmo) com a mostra sobre Clarice Lispector. Daniela Thomas e Felipe Tassara (além do curador, Ferreira Gullar) de fato realizaram um grande trabalho. A exposição estrutura-se num imenso móvel, cujas gavetas, abertas pelos visitantes, trazem informações sobre a escritora.
Essas “informações” incluem edições raras, correspondências, fotografias e documentos que contam, de forma cronológica, a trajetória de Clarice. Algumas coisas me tocaram particularmente, como a carta reverente enviada à autora por Caio Fernando Abreu, pedindo que ela lesse o ensaio que ele publicou num jornal.
Adorei saber também que o conto Felicidade clandestina (um dos meus preferidos) fora originalmente veiculado como crônica no Jornal do Brasil, sob o título Tortura e glória. E mais: notar que o igualmente genial A imitação da rosa surgiu da crônica Mero triste, na qual Clarice relembra um carnaval que passou em Recife, com uma fantasia de flor feita de crepom. Flagrantemente autobiográfico.
Outras coisas vistas na mostra serviram de lição. Foi o caso, por exemplo, de um bilhete aonde a autora listou tarefas a cumprir sobre o texto que escrevia naquele momento. Entre elas, “tirar os ‘como’ das analogias. “Não bonita como um lírio, mas ela era um lírio”, anotou Clarice. Não hesitem: exposição é roteiro obrigatório para quem gosta da escritora.
Faz um frio imenso aqui (ontem à noite pegamos 9 graus, quase neve para cariocas) e sinto que estou começando a "entender" melhor São Paulo. Mais tarde tem samba no Ó do Borogodó. Amanhã conto.
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