
Nas últimas noites, tenho lido e relido os poemas de Tarde, a nova seleta do Paulo Henriques Britto. A cada novo livro, volto a me impressionar com a precisão que ele tem em captar a palavra certa, com a precisão do ritmo, a relevância dos temas.
A última parte de Tarde é justamente dedicada à relação com do autor com a palavra. Coincidentemente, ao vir para o trabalho pela manhã, ouvi no rádio que hoje é o Dia do Escritor. Então resolvi saudar a data usando as aspas do Paulo Henriques, no belo poema que segue e que dedico a todos os que, em seu dia-a-dia, travam essa luta vã, mas inevitável.
“No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,
há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,
mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Estará
a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda”
{3}