
Uma ótima notícia: acaba de sair em DVD a obra-prima Pacto de sangue (Double indemnity, no original), de Billy Wilder. No filme, o genial diretor alinhava as premissas básicas do subgênero noir - a fotografia contrastada, as sombras, o protagonista enredado pela presença de uma mulher misteriosa e manipuladora -, utlizando como premissa o livro homônimo de James M. Cain.
Ao escrever o roteiro, Wilder recebeu a ajuda do escritor Raymond Chandler, com quem teve uma relação de trabalho turbulenta. O resultado, porém, foi o melhor possível: os diálogos são afiadíssimos e muito bem conduzidos por Barbara Stanwyck, Fred MacMurray e Edward G. Robinson. A trama básica gira em torno de um vendedor de seguros que, seduzido pela bela e sedutora Phyllis Dietrickson, é induzido a matar o marido dela, de forma que pareça acidente. O objetivo de Phyllis é receber um seguro de vida.
Billy Wilder é sinônimo de bom cinema e Pacto de sangue, um de seus melhores filmes. Fica aqui a dica.
O amigo Marceu Vieira avisa: o programa imperdível de hoje acontecerá no Bip Bip, meu boteco preferido. A partir das 20h, vai rolar o o lançamento do DVD O famoso Aluízio Machado, documentário de Snir Wein sobre o grande compositor do Império Serrano. A festa será animada por roda de samba comandada pela Velha Guarda.
Para quem não sabe, Aluízio é um dos maiores compositores de sambas-de-enredo de todos os tempos. Foi parceiro do lendário Beto Sem Braço em obras-primas como Bum bum paticumbum prugurundum e Mãe baiana mãe, assinou a maioria dos últimos hinos da escola (como o já clássico O Império do divino) e tem uma trajetória que se confunde com a história do país, tendo, por exemplo, vencido o programa A grande chance, de Flavio Cavalcanti, e cantado com Nara Leão e João do Vale no mítico Teatro Opinião. Ele hoje integra a Velha Guarda imperial, dentro da qual se destaca pelas impagáveis performances de passos do samba.
Sim, eu sei que, na rapidez das coisas de hoje, o assunto pode parecer um tanto passado. Mas resolvi ignorar o atraso e reproduzir (na íntegra) a bela e contundente carta que o amigo Luis Antonio Simas escreveu a Kevin Neuendorf, aquele imbecil do Comitê Olímpico Norte-Americano. Kevin foi afastado depois que os jornais brasileiros flagraram a frase preconceituosa e debochada que ele desenhou num quadro da sala do Comitê: "Welcome to the Congo".
A maioria de manifestações que li sobre o assunto recalcava a ofensa ao seu primeiro-mundismo e repetia, só que com sinais contrários, a discriminação de Kevin. O Simas, por sua vez, chegou ao coração da questão, como vocês vão perceber no texto abaixo. É longo, mas a leitura vale cada minuto de atenção.
"Senhor Kevin Neuendorf,
Acabo de saber que o comitê olímpico dos Estados Unidos o afastou da delegação norte-americana presente aos jogos pan-americanos do Rio , após sua brincadeira de escrever "Welcome to the Congo" ao chegar à cidade de São Sebastião. O senhor virou até manchete de primeira página de O Globo, com sua foto acima da legenda Uma chegada cheia de preconceitos. Permita-me, então, fazer algumas observações sobre o assunto, ainda que essas mal traçadas nunca sejam lidas por vossa pessoa.
Inicialmente quero dizer que concordo com sua afirmação; somos o Congo. Afinal, vieram de lá, da região do Congo-Angola, só no século XVII, cerca de 700 mil africanos para trabalhar nas lavouras e minas do Brasil Colonial. Nós, os brasileiros, somos, portanto, congos. Somos também jalofos, bamuns, mandingas, bijagós, fantes, achantis, gãs, fons, guns, baribas, gurúnsis, quetos, ondos, ijexás, ijebus, oiós, ibadãs, benins, hauçás, nupês, ibos, ijós, calabaris, teques, iacas, anzicos, andongos, songos, pendes, lenges, ovimbundos, ovambos, macuas, mangajas e cheuas. Todos estes são grupos de africanos que chegaram nessas praias com seus valores, conjuntos de crenças, costumes e línguas - culturas, enfim - para, ao lado de minhotos, beirões, alentejanos, algarvios, transmontanos, açorianos, madeirenses e milhares de comunidades ameríndias, civilizar o Brasil.
Aqui no Brasil, senhor Neuendorf, está rolando uma certa moda de atribuir aos próprios africanos a responsabilidade sobre a escravidão. Todo mundo palpita sobre a história da África, mete o bedelho sem conhecimento de causa e, nesse rame-rame, tem gente dizendo que nós, brasileiros, nunca fomos racistas. Tem uns que, não duvido nada, estão prestes a descobrir que a velha Europa, com seus interesses mercantis e imperiais, nunca quis escravizar ninguém.
Houve até, veja o senhor, um respeitado intelectual brasileiro, Silvio Romero, que, no início do século passado, achou que a única salvação do Brasil era torcer para que a miscigenação se fosse processando com o aumento contínuo do sangue branco. Clarear o brasileiro, eis a solução do nobre intelectual.
Um outro intelectual, Oliveira Vianna, escreveu um livro outrora muito respeitado, que apaixonou gerações de leitores, chamado Evolução do povo brasileiro. Segundo este autor, a salvação possível do Brasil era a nação embranquecida. Para ele, a imigração européia, a fecundidade dos brancos , maior do que a das raças inferiores (negros e índios ), e a preponderância de cruzamentos felizes, nos quais os filhos de casais mistos herdariam as características superiores do pai ou da mãe branca, garantiam um futuro brilhante e branquelo ao Brasil.
Ninguém mais tem coragem de escrever uma barbaridade dessas, Mr. Kevin, mas muita gente, acredite, ainda pensa assim.
O senhor é, não leve a mal a constatação, escroto, preconceituoso, arrogante, obtuso e ignorante. Não há problemas nisso; o atual presidente do seu país também tem essas características.
Acredite numa coisa, sua atitude não me irritou minimamente e nem acho que devessem lhe mandar embora. Sabe o que me irrita, senhor Kevin? Vou lhe dizer rapidamente.
Me irrita saber que muitos brasileiros que se indignaram contra sua atitude pensam no fundo como o senhor e sentem nojo do povo brasileiro. Se irritaram, exatamente, porque nutrem verdadeiro pânico de lembrar que vivem num país mestiço, civilizado pela África, dotado da cultura popular mais rica e múltipla que o mundo conhece.
São brasileiros que marcharam com Deus pela liberdade em 1964, mandam os filhos para fazer intercâmbio nos EUA (como se o seu povo, mr. Kevin, tivesse alguma informação cultural decente para trocar com algum de nós), vivem encastelados em condomínios luxuosos, acham que as empregadas domésticas tem que vestir uniforme e subir pelo elevador de serviço, não gostam de pretos, tocam fogo em índios, não respeitam as religiosidades afro-ameríndias, dizem que samba é coisa de gentinha, frequentam compulsivamente shoppings centers, gastam num jantar o que pagam em um mês para os empregados, vibram quando a polícia executa moradores de favelas e criam filhos enfurecidos e preconceituosos que saem de noitadas em boates da moda para surrar garotas de programa nas esquinas da cidade.
Senhor Kevin, o Congo é aqui! O velho Congo, que revivemos nos maracatus, nos bailes de congo, nos moçambiques, na taieira, na folia de são Benedito, no candomblé de angola, nas cavalhadas, no terno-de-congo, no batuque do jongo e na dança do semba. Somos o Congo porque batemos tambor, batemos cabeça, dançamos e rezamos como lá. Somos o Congo e somos a África, porque somos o país de Zumbi, Licutam, Ganga- Zumba, Luiza Mahin, Bamboxe Obitiku , Felisberto Benzinho, Cipriano de Ogum, João da Baiana, Donga , Pixinguinha, Candeia, Mãe Senhora, Mãe Aninha, Tata Fomutinho, João Candido, Osvaldão, Marighela, Jorge Amado, Martiniano do Bomfim, Solano Trindade, Silas de Oliveira e de tantos outros heróis civilizadores.
Não se preocupe tanto, Mr. Neuendorf. A visão que o senhor tem do Brasil - preconceituosa, burra e mesquinha - , é a mesma visão do jornal que estampou sua foto na capa e a mesma visão da elite do bairro, a Barra da Tijuca, em que seu gesto foi feito. O Brasil oficial, que não ama o Brasil e sonha com Londres, Miami, Paris, Nova York e Madri, pensa igualzinho ao senhor.
Mas sabe o que é curioso, mister? Ao escrever, como um yankee escroto , que estava chegando ao Congo, o senhor não deixou de falar a verdade. O Congo é aqui; com a proteção de Zambiapongo, de todos os inkices de Angola e dos ancestrais do samba.
Sem mais,
Luiz Antonio Simas, filho de Nkosi e Matamba"
Nas últimas noites, tenho lido e relido os poemas de Tarde, a nova seleta do Paulo Henriques Britto. A cada novo livro, volto a me impressionar com a precisão que ele tem em captar a palavra certa, com a precisão do ritmo, a relevância dos temas.
A última parte de Tarde é justamente dedicada à relação com do autor com a palavra. Coincidentemente, ao vir para o trabalho pela manhã, ouvi no rádio que hoje é o Dia do Escritor. Então resolvi saudar a data usando as aspas do Paulo Henriques, no belo poema que segue e que dedico a todos os que, em seu dia-a-dia, travam essa luta vã, mas inevitável.
“No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,
há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,
mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Estará
a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda”
Lá se vão tr ês anos que Chico Buarque anunciou, numa entrevista à Folha de S. Paulo, que "a canção brasileira, nos moldes desenhados Noel Rosa e pelos seus sucessores, talvez seja uma forma histórica acabada". Resolvi retomar essa discussão na edição de julho dos Encontros do Subsolo, que acontecerá amanhã, às 18h30.
Conversarei sobre o assunto com o jornalista e crítico de música Hugo Sukman e com o ensaísta e compositor Francisco Bosco. Vale lembrar que a entrada é gratuita e o evento vai rolar na Livraria Leonardo da Vinci (Av. Rio Branco, 185 - Subsolo).
"ignoro o dia de hoje
correria ungindo liberdade
mas não consigo me apagar de mim.
quebrassem os relógios do mundo
inexistisse tempo-espaço
inda assim haveria tiquetaquear intenso
ruflando no peito como asa de beija-flor"
O poema acima é uma das (muitas) delicadezas de 'dois que não o amor', livro da amiga Diana de Hollanda, que recomendo fortemente como um suspiro aos dias que correm.
No sábado passado, o Prosa & Verso (O Globo) publicou a resenha que escrevi sobre O sol se põe em São Paulo, mais recente romance de Bernardo Carvalho. Segue o texto:
Sob a sombra da ambigüidade
Marcelo Moutinho*
Foi Italo Calvino quem afirmou que, de uma cidade, não aproveitamos suas sete ou setecentas maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. O deslocamento pelo espaço urbano permitiria a tradução de seus códigos mais ocultos, emprestando algum sentido – seja existencial, seja estético – à busca de quem se lançou na estrada. Inscrita no seminal “As cidades invisíveis”, a crença do autor italiano parece representar também a força-motriz do trabalho de Bernardo Carvalho, que, com “O sol se põe em São Paulo”, confirma uma trajetória singular dentro da literatura brasileira.
Assim como em “Nove noites” (2002) e “Mongólia” (2003), é a partir de uma viagem – no caso, ao Japão – que as teias do novo livro ganham seus sinuosos traçados. Noutro paralelo com a produção anterior, o narrador do romance move-se pela ânsia em decifrar um enigma que, estabelecido logo nas primeiras páginas, equilibra-se na frágil fronteira entre a ficção e a realidade. O novo romance tem um único e pequeno senão: a falta de cuidado na carpintaria do texto, o que surpreende em razão da notória qualidade da prosa do autor.
O enredo se estabelece num bar localizado no bairro do Paraíso, onde o protagonista, um publicitário que nunca abandonou de totalmente o desejo de ser escritor, conhece a octogenária Setsuko. Dona do estabelecimento, ela lhe propõe que registre em papel uma história ambientada no Japão da Segunda Guerra, que envolve uma moça de família respeitada, o filho de um de industrial e um ator de kyogen, o teatro cômico local. A abrupta interrupção do relato levará o narrador ao país asiático, onde pretende desvelar a intrincada trama, que abarca ainda um soldado, o primo do imperador e um famoso escritor, todos eles imiscuídos na rígida hierarquia social japonesa.
A partida do publicitário é dolorosa, porque desde o início do livro fica clara a instabilidade de suas relações com o Oriente. Neto de japoneses imigrantes, ele critica a opção da irmã, que fez o trajeto de volta no afã de conseguir emprego e cujo retorno é encarado pelo narrador como a perpetuação “do fracasso”. “Durante muito tempo, eu tentei fugir como o diabo da cruz de tudo o que fosse japonês (...). Eu podia nunca ter pisado no Japão, mas por muito tempo tentei acreditar que era onde ficava o inferno. (...) O inferno era aqui mesmo”, assinala ele, sugerindo que a opção por São Paulo não lhe é menos sofrida.
O mal-estar em “viver no presente e ser o que é” escorre por suas frases e pelas ruas paulistanas, “que tentam convencer a quem passa por elas que se está em outro lugar, num esforço inútil de aliviar a tensão”. E a viagem do narrador rumo ao Japão, à caça das peças que faltam e aos poucos irão se encaixar na história, será permeada por referências à literatura nipônica, sobretudo à obra de Junichiro Tanizaki. À medida que a trama avança, o diálogo estabelecido com o autor japonês também se acentua, passando do sutil ao flagrante. “O sol se põe em São Paulo” redesenha, por exemplo, o triângulo amoroso com acento homossexual que é traço recorrente nos livros de Tanizaki. As alusões chegam a transcender o campo ficcional: num dos capítulos, há referência direta a fato vivido pelo próprio Carvalho quando esteve em Tóquio três anos atrás. O episódio fora registrado em sua coluna na Folha de S. Paulo e republicado na seleta de resenhas e crônicas “O mundo fora dos eixos”, antes de saltar para as folhas do novo livro.
No entanto, o elo mais forte entre os dois autores – e que talvez explique o interesse do brasileiro por Tanizaki – é a sombra de ambigüidade que ambos lançam sobre suas histórias. De certa forma, o desalento do narrador de “O sol se põe em São Paulo” com as imposturas que emergem de sua pesquisa reencena a desorientação do militar que perde a identidade e passa a não diferenciar o real do falso em “Os bêbados e os sonâmbulos” (1996). Ou a angústia do personagem que, em “Nove noites”, é avisado de que entrará “numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos” de antes.
Em dado momento, Setsuko fala ao publicitário que “a literatura é (ou foi) uma forma dissimulada de profetizar no mundo da razão, um mundo esvaziado de mitos, (...) é um substituto moderno das profecias”. Em síntese, um modo de ler a vida sem a rigidez da ‘verdade’, embora com verossimilhança; sem literalidade, mas em seu “supra-senso”, como sublinhou Guimarães Rosa. Esse universo próprio, que repele e fascina, que é dor e remédio, assemelha-se àquele apresentado ao viajante, que durante seu curso passa “a ver coisas que os outros não vêem”. “Vê mais – ou menos – mas nunca o mesmo que os outros”, como anota o narrador, numa indicação talvez contingente de que, tanto para quem escreve, quanto para quem lê, aventurar-se pelas páginas de um livro também é uma espécie de viagem.
* Escritor e jornalista
Também no sábado, o Idéias (Jornal do Brasil) publicou outra resenha minha, esta sobre Toda terça, ótimo romance de estréia da Carola Saavedra (da autora, aliás, recomendo também o livro de contos lançado pela 7Letras). Segue a íntegra do texto:
Integração entre conteúdo e forma
Marcelo Moutinho*
A precisa construção da trama – traço raro entre os autores da chamada novíssima geração – é apenas a qualidade mais evidente em Toda terça, obra com a qual Carola Saavedra estréia nas searas do romance. Chega a surpreender que uma escritora debutante no gênero demonstre tamanho domínio sobre o eixo da história que conta. Em verdade, duas histórias, que correm paralelas e harmônicas ao longo das mais de 100 páginas da primeira parte e se interligam na etapa final, revelando paradoxalmente que, mesmo ao se fechar num encadeamento lógico, toda narrativa mantém certas zonas de sombra.
Um dos vértices do enredo é Javier, migrante latino-americano que vive em Frankfurt, mora de favor na casa da namorada Ulrike e faz bicos como passeador de cachorros. Ele parece perdido na Europa, onde se encontra preso a um círculo de dias que simplesmente se somam uns aos outros, sem maior significado. Carola sinaliza, já a partir de Javier, que a questão do exílio aparecerá com um dos elementos fundadores do livro, mas, ao desenhar o personagem, não recai na figura-clichê do estrangeiro. Mais do que o olhar de estranhamento, o foco se coloca sobre a incomunicabilidade – seja de Javier com Ulrike, seja de Javier com seu tempo.
Laura, uma estudante cheia de dúvidas que se submete à terapia bancada pelo amante casado, é outra ponta da história, transcorrida no Rio de Janeiro. A relação com o analista Octavio, coalhada de joguinhos, mentiras e jocosidade, reflete sua postura diante da própria existência: imaturidade e resignação. Laura nos é apresentada a partir dos diálogos travados durante as sessões no divã de Octavio, que iluminam, mas apenas parcialmente, a apatia que a domina. À medida que o enredo avança, sinais sutis indicam que os fios alongados de parte a parte nas trajetórias da jovem estudante e de Javier, apesar da aparente discrepância, em algum instante vão se deparar.
Isso acontece no epílogo, quando a esses dois protagonistas, ambos com vozes narrativas próprias, se somará um terceiro, cujo ponto de vista até então permanecera oculto. As peças então se encaixam, e ainda assim algo não se fecha. Parece que todos os movimentos por intermédio dos quais a autora conduziu o leitor desembocaram num vão onde os sentidos são rarefeitos – e no qual, sobretudo, rareiam os afetos.
O cinismo de Javier e a indiferença de Laura bóiam nesse vácuo tão peculiar de nossa época, fincando de modo incisivo o romance de Carola na contemporaneidade. Durante uma de suas caminhadas solitárias ao amanhecer, Javier observa que “os remanescentes da noite e os precursores do dia” são, ao mesmo tempo, “tão diferentes e tão parecidos em sua irrealidade, em seu torpor”. Pois a impressão é que tanto ele, quanto Laura, e talvez muitos de nós, estamos também mergulhados nessa madrugada que não termina. Entre os tempos, entre as coisas, entre os lugares.
Em dado momento do livro, o próprio Javier verbaliza essa condição, ao confessar seu fascínio pelo “quase, por tudo o que fica faltando um espaço”. Um dos grandes méritos da autora, aliás, é conseguir uma perfeita integração entre conteúdo e forma. A estrutura, fragmentada em três vozes, impede desde o princípio qualquer visão totalizante. Assim como os personagens, o texto de Carola é tecido pelas brechas, como se a autora tivesse a consciência de que nunca será possível apreender de vez o elemento intangível que tantos escritores procuraram com sua literatura: um sentido.
Contudo, se digno de aplauso, o pleno apuro técnico na condução da história parece em alguns momentos impedir que a autora rompa seu estrito compromisso com a narrativa. A exemplo dos grandes intérpretes da canção, os escritores às vezes precisam assumir o risco de desafinar para voar alto, tocando mais próximo da vida e menos da escritura. Trata-se, porém, de um pequenino reparo, ainda menor se lembramos novamente que Toda terça é o romance inaugural de Carola.
Até porque, quando liberta da urdidura literária, a autora consegue atravessar essas margens, aproximando-se daquilo que Javier apenas tateou quando, numa noite qualquer, se viu a sós com Camilla no apartamento de Ulrich. A presença de Camilla, que também morava lá, costumava lhe ser incômoda. Naquela ocasião, no entanto, ganhou ares de “um segredo esquecido, de uma visita inesperada”. Os dois jantaram juntos, e lentamente o olhar dele foi se modificando. Num longo e belíssimo parágrafo, Carola registra em imagens sucessivas as minúcias da repentina afeição de Javier: a pizza, os cílios de Camilla, a taça de vinho, o sorriso de Camilla, o silêncio, o rosto de Camilla... Na descrição daquele instante, naquele ínfimo pedaço de tempo quase estacionado, a gente pode até reconhecer que, como insinua o livro, algo se perdeu – mas é também capaz de acreditar que não foi para sempre.
* Escritor e jornalista
Na terça passada, encontrei com a Adriana Lunardi no lançamento do romance novo de outra Adriana querida, a Lisboa. Ao me ver conversar com tanta gente que estava na Livraria da Travessa, a Lunardi meio disse meio perguntou:
- Você é sociável à beça, né?.
- Pois é. Estou procurando ser menos - respondi. Talvez isso explique porque o blog esteja nessa fase tão pouco movimentada.
Peço desculpas, mas vou ficar devendo o relato do último dia da viagem a Sampa. De qualquer forma, queria postar um poema (ando lendo muita poesia) que a revista Piauí publicou há algum tempo. Foi escrito pelo escritor polonês Wislawa Szymborska, ainda sob a comoção do 11 de setembro. Acho que a estupidez da morte se acentua ainda mais em episódios como aquele, ou como esse, do acidente com o avião da TAM, para o qual, de algum modo, o poema de Szymborska também fala.
"Fotografia do 11 de setembro"
Wislawa Szymborska
"Pularam dos andares em chamas—
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles—
descrever este vôo
e não acrescentar o último verso".
Esses dias em São Paulo têm sido marcados por muitas caminhadas pela cidade e uma verdadeira maratona cultural. Na segunda, ao chegar de uma viagem extenuante de seis hora e meia desde Paraty, fizemos o check in e em seguida fomos conferir o filme Cão sem dono, de Beto Brant. Não gostei. Aliás, acho que, depois de um excelente início (com Matadores e Ação entre amigos), o diretor vem rolando ladeira abaixo.
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A adaptação do romance do Daniel Galera para a tela até preserva a ambiência melancólica e algo sufocante do livro. Mas as nuances que pontuam suas páginas ganham, no filme, tintas demasiadamente fortes, o que acaba redundando num rastaqüera moralismo burguês. Algo na linha “a felicidade só é possível no seio da família”. Outro problema do longa é que a figura do cachorro fica esmaecida, praticamente sem função ou significado.
Depois da sessão, jantamos no ótimo (e nada socialista) Fidel. O restaurante fica na Alameda Itu, no caminho para os Jardins, e, apesar do ambiente brega-com-pretensão-de-chique, oferece comida de primeiríssima.
Na terça, fomos ao Masp conferir a exposição sobre Charles Darwin. Bastante interessante e didática, embora tenha a impressão que a F. ficou mais animada do que eu. Gostei mesmo foi de conhecer o Joe.
À tardinha, rimos bastante com o divertidíssimo Ratatouille, que só reitera a qualidade das animações da Pixar. Mais à noite, fomos à Mercearia dar um abraço no Marquinho e tomar umas garrafas de Serra Malte com o Marcelino e o Paulinho, um amigo das antigas. Gosto cada vez mais da Mercearia: boa música, comida honesta, preços em conta, gente bacana e cerveja sempre geladíssima. O que se pode querer mais?
A quarta foi dedicada a conhecer o Museu da Língua Portuguesa. Apesar de menos imponente do que pode parecer de se ouvir falar, o espaço é bem bonito e funcional. A visita já vale pela Estação da Luz, que eu não conhecia e cuja arquitetura me impressionou.
No Museu, vimos (e eu me emocionei muito, mas muito mesmo) com a mostra sobre Clarice Lispector. Daniela Thomas e Felipe Tassara (além do curador, Ferreira Gullar) de fato realizaram um grande trabalho. A exposição estrutura-se num imenso móvel, cujas gavetas, abertas pelos visitantes, trazem informações sobre a escritora.
Essas “informações” incluem edições raras, correspondências, fotografias e documentos que contam, de forma cronológica, a trajetória de Clarice. Algumas coisas me tocaram particularmente, como a carta reverente enviada à autora por Caio Fernando Abreu, pedindo que ela lesse o ensaio que ele publicou num jornal.
Adorei saber também que o conto Felicidade clandestina (um dos meus preferidos) fora originalmente veiculado como crônica no Jornal do Brasil, sob o título Tortura e glória. E mais: notar que o igualmente genial A imitação da rosa surgiu da crônica Mero triste, na qual Clarice relembra um carnaval que passou em Recife, com uma fantasia de flor feita de crepom. Flagrantemente autobiográfico.
Outras coisas vistas na mostra serviram de lição. Foi o caso, por exemplo, de um bilhete aonde a autora listou tarefas a cumprir sobre o texto que escrevia naquele momento. Entre elas, “tirar os ‘como’ das analogias. “Não bonita como um lírio, mas ela era um lírio”, anotou Clarice. Não hesitem: exposição é roteiro obrigatório para quem gosta da escritora.
Faz um frio imenso aqui (ontem à noite pegamos 9 graus, quase neve para cariocas) e sinto que estou começando a "entender" melhor São Paulo. Mais tarde tem samba no Ó do Borogodó. Amanhã conto.
Tenho registrado aqui a progressiva melhora da revista Piauí, cujas edições iniciais tanto critiquei. É alvissareiro notar, por exemplo, que a publicação perdeu o medo de pautar matérias sobre assuntos ‘cariocas’, como comprova a ótima reportagem sobre o camarada que divide seus dias entre a mecânica que administra e as apresentações, ao violino, na Orquestra Sinfônica Brasileira.
Mas a pérola mais reluzente da edição de julho é a (sobre qualquer ponto-de-vista) sensacional matéria assinada por Gene Weingarten e reproduzida da revista do Washington Post. O jornal colocou o violinista Joshua Bell, um dos mais respeitados do mundo, para tocar no metrô de Nova York e observou a reação de quem passava. Uma acachapante maioria simplesmente ignorou o músico. O texto especula as razões disso a partir de entrevistas com alguns dos passantes, além de professores, músicos e críticos e investiga as relações entre a fruição da arte e seus suportes. Recomendo com entusiasmo a leitura, mas não dá para ler no site. Portanto, corram às bancas!
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P.S. Estou em São Paulo, revendo a beleza concreta de suas esquinas. Amanhã começo a contar as coisas que andam rolando por aqui...
Estive em todas as cinco edições da Flip e o que tenho (atrasadamente) a dizer sobre o evento deste ano é que foi mediano. Destaco, abaixo, os pontos altos e baixos entre as mesas a que assisti (registro, desde já, que pontos altíssimos foram também a festa da Casa da Palavra e, como de hábito, as conversas com os amigos, regadas a cerveja e cachaça, além da presença sempre luminosa da F.).
Pontos altos
. Foi sensível a melhora nas mediações. O Arthur Dapieve, por exemplo, segurou bem as pontas na mesa que reuniu Jim Dodge e Will Self, driblando com habilidade as ‘pegadinhas’ de Self. Cassiano Elek Machado foi outro que se colaborou bastante para que o painel sobre biografias (com Ruy Castro, Fernando Moraes e Paulo César de Araújo) acabasse confirmando minhas expectativas e se transformando num dos melhores da Flip;
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Ruy Castro, Paulo César de Araújo e Fernando Moraes: ótimo debate
. Aliás, a mesa com Ruy, Fernando e Paulo César mexeu com o público, sobretudo por conta da participação do biógrafo de Roberto Carlos, que se emocionou (e emocionou a todos) quando Cassiano lhe perguntou se ainda ouvia as canções do rei destronado e ele, contando uma história sobre a filha (a quem seu livro é dedicado), sinalizou que sim;
. Ótimo bate-papo rolou também na Off-Flip. O painel com José Eduardo Agualusa e Mia Couto foi divertidíssimo, muito em virtude da mediação precisa e bem-humorada do moçambicano Nélson Saute (uma figuraça!). Mia Couto estava bem mais solto do que na outra mesa da qual tomou parte (no programa da festa oficial) e contou histórias hilárias. Na melhor elas, lembrou o dia em que foi uma multidão de moçambicanos o confundiu com o ator Chuck Norris.
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O gente boa Fernando Molica (mediador), Ishmael Beah e Paulo Lins
. Outro que me surpreendeu foi o serra-leonense Ishmael Beah. Apesar da idade tenra, seu pronunciamento relevou uma impressionante maturidade. E o melhor: ele demonstrou plena consciência de que, se a literatura permitiu que chegasse aonde chegou, não apagou seu passado.
Pontos baixos
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Coetzee: frieza em leitura que poderia ser transmitida por vídeo
. A ‘conferência’ de J.M. Coetzee. O sul-africano, autor de ótimos livros, limitou-se a ler um trecho de seu futuro romance, negando-se a responder perguntas ou a tecer comentários sobre a própria obra. Sei que ele havia avisado que essas eram suas condições para participar (e por isso mesmo nem quis comprar ingresso para seu painel), mas não entendo então por que foi a Paraty. Bastava uma videoconferência;
. A mesa com Lobão e Chacal foi demasiadamente bem-comportada, para decepção do público;
. Mais uma vez alguns painéis que apareciam com lotação esgotada antes do início da Flip contavam com muitas cadeiras vazias. Na mesa com Lobão e Chacal, isso foi gritante: havia pelo menos 100 lugares vagos.
"Pan do Brasil é o escambau!" *
Tutty Vasques
"Se há uma coisa além de paz que o carioca não tem é o instinto bairrista de se ofender com suas mazelas expostas em roda de forasteiros. O Rio é do jeito que a gente sabe. Por mais que exagerem aqui e ali, nenhum absurdo que se invente sobre a desordem urbana e humana vigente na Cidade Maravilhosa soa muito distante da realidade que nos surpreende a cada instante. O pânico alheio não nos insulta ou hostiliza. O que o resto do Brasil assiste com narração indignada de William Bonner e Fátima Bernardes acontece de vez em quando bem debaixo do nosso nariz. É isso mesmo, fazer o quê?
O carioca, aliás, é o primeiro a esculachar o Rio quando ele merece. Um diz que São Paulo até que não é tão feia assim, alguém ameaça se mudar para Caxambu, muitos anunciam que vão finalmente correr atrás do passaporte português do bisavô... Ciente da fama a que anda fazendo jus por aí, o Rio de Janeiro não se considera vítima de nenhuma campanha insidiosa contra sua imagem imbatível por natureza. Entendemos perfeitamente o pavor de quem nos observa a distância. Explicar que medo é esse ao carioca é o mesmo que ensinar padre a rezar missa.
Vivemos, como se sabe, na cidade das balas perdidas, do caveirão, do Comando Vermelho, dos bairros sitiados, do Complexo do Alemão, colisão, arrastão, granada, corrupção, brigas de rua, tiro de fuzil, violência no trânsito, UTIs lotadas, guerra. Digam o que disserem sobre o inferno nosso de cada dia, está limpo e liberado, notícia ruim é com a gente mesmo, ainda que de vez em quando neguinho exagere na redação das manchetes. Faz parte!
Esse papo mole todo para dizer o seguinte: o carioca já está tão acostumado ao papel de bandido a que sua cidade se presta na crônica policial que nem se deu conta de que estão tentando surrupiar o que há de bom para acontecer no balneário agora em julho. E, já que o povo não saiu às ruas para reclamar, abro eu aqui minha faixa de protesto contra a TV Globo: "Pan do Brasil é o escambau!". A emissora, na contramão até da grande imprensa paulista, decidiu nacionalizar um gênero de evento esportivo que, historicamente, tem a chancela da cidade que o sedia. O maior feito do basquete brasileiro – tirar o ouro dos americanos na casa deles – aconteceu no Pan de Indianápolis, em 1987. O Setembro Negro e o terror fizeram história nas Olimpíadas de Munique (1972). Já começaram os preparativos para as Olimpíadas de Pequim, em 2008.
Copa do Mundo é diferente. O futebol, até pela logística dos estádios, tem sua festa maior realizada simultaneamente em várias cidades de um determinado país escolhido para sede da competição. Por isso chamamos a última de Copa da Alemanha e a próxima de Copa da África do Sul. Trata-se de uma convenção internacional do mundo dos esportes: o que determina o batismo nacional ou local dos grandes certames planetários é a geografia da disputa em questão. Quando todas as provas ocorrem em uma mesma cidade, o evento leva o nome do município-sede. Simples assim!
Então, por que diabos todo programa esportivo e telejornal da TV Globo chama os Jogos Pan-Americanos de 2007 de "Pan do Brasil"? Alguém do marketing da emissora pode ter consultado um numerólogo ou um pai-de-santo, sei lá, não consigo pensar em um bom motivo para não chamar a coisa de Pan do Rio, como foi o Pan de Santo Domingo (2003) e será o Pan de Guadalajara (2011). Será que a Globo achou melhor não associar os Jogos ao Rio de Janeiro para não assustar os telespectadores? Se quisesse dar maior amplitude ao evento, então por que não chamá-lo logo de Pan das Américas?
"Pan do Brasil", francamente, era só o que faltava para banir de vez o Rio da editoria de boas notícias. Pode ser a gota d'água na crise de auto-estima que anestesia o carioca desgostoso de sua cidade. Ei, você aí, acorda: a Globo está roubando o Pan do Rio de Janeiro. Vamos lá, proteste, mande cartas, e-mails, telefone para o Departamento de Esportes da emissora, procure o Sidney Garambone em meu nome. Troque de estação ou desligue a televisão toda vez que, no intervalo entre uma notícia e outra sobre balas perdidas no Rio, anunciarem o "Pan do Brasil"!
Repitam comigo: "Pan do Brasil é o escambau!". É Pan do Rio, tanto quanto o boi-bumbá é de Parintins e o Círio de Nazaré é de Belém. Paixão de Cristo é a de Pernambuco, farra do boi é lá de Santa Catarina, parada gay só a de São Paulo, tem o Leblon do Manoel Carlos, o rodeio de Barretos, Martinho da Vila, tutu à mineira e Ronaldinho Gaúcho. Brasil não é denominação de origem genérica de tudo o que acontece por aqui como quer a TV Globo na cobertura dos Jogos Pan-Americanos 2007. Se tudo der errado, capaz de no fim chamarem a bagunça de "Pan do Rio"."
* Texto publicado na Veja Rio desta semana.
O Sesc promove, hoje e amanhã, um seminário para discutir a produção literária contemporânea. O evento vai acontecer no Arte Sesc (Rua Marquês de Abrantes, 99 - Flamengo), com entrada gratuita. Logo mais, às 14h, Alberto Mussa, Antonio Torres e André de Leones falarão sobre a categoria Romance, com mediação de Henrique Rodrigues. Em seguida, o grupo Poesia simplesmente fará a leitura de poemas de Manuel Bandeira.
Os trabalhos continuarão amanhã, também às 14h, quando eu, Suzana Vargas e Lúcia Bettencourt conversaremos sobre o gênero Contos, em debate conduzido por Maria José Gomes Duarte. A idéia geral do seminário é refletir sobre a atual produção a partir da experiência do Prêmio Sesc de Literatura, que no ano passado foi conquistado pelo André e pela Lúcia.