
O amigo imperiano Carlos Andreazza acaba de marcar mais um gol lá no site Tribuneiros, onde escreve regularmente. Em seu artigo de hoje, ele relata, com adjetivos sempre muito bem colocados (e saber colocá-los é, em si, uma arte), a visita de Leci Brandão à quadra imperial, durante a feijoada do sábado passado. O texto é uma ode à artista mangueirense, mas é (também) muito mais. É, sobretudo, uma ode a um modo de se fazer samba (e de se fazer arte) que começa a desaparecer. Publico, abaixo, o trecho inicial. Confira a íntegra aqui.
Leci Brandão
Carlos Andreazza
(...) A quadra do Império está cheia. É sábado, dia de feijoada. O locutor da escola anuncia a convidada e, cruzando a coroa ao fundo, aparece Leci Brandão, mangueirense histórica, toda de verde e branco porém, e embora o cavaquinho já se tenha apresentado com ganas de partido, ela pede um minuto de pegada mais leve, baixa, e então, reverenciando São Jorge lá no alto, ela, filha de Ossanhe com Ogum, emocionada, séria, honesta, de voz pré-embargada, ainda atrás dos músicos, pede licença aos bambas da Serrinha, aos fundadores que foram Oló, aos baluartes de hoje, às baianas da cidade-alta, aos cabelos-brancos, à ala de compositores, à bateria, só após o quê, sem mínima demagogia, eu sinto, franca e coerente como de seu feitio, começa a cantar “Não me pergunte/Pra que samba eu vou/Porque eu direi/Eu vou pro Império sim, senhor/Sou imperiano/Na alegria e na dor”...
Inútil escrever que terá sido um grande momento. Leci Brandão, para o bem e para o mal d´ela própria, sempre sabe onde pisa. Leci Brandão, a cantora que pede licença, é raríssima.
Outro dia, revirando arquivos de vídeo, dei-me com o desfile de 1987, aquele em que o Império se valeu do Chacrinha para, com esquecida irreverência, falar da comunicação, “Quem não se comunica/Se trumbica/E como fica?/Fica na saudade, fica”...
Ladeando um atônito Fernando Vannucci, os dois comentaristas da Globo, sem mostrar surpresa alguma, lamentavam, repudiavam mesmo, com todas as letras e por longos e ininterruptos minutos, o evidente descasamento entre escola de samba, qualquer uma, e público – e isto, diziam, não porque fizesse o Império um mau desfile, ao contrário, fazia-o belíssimo, emocionante, assim como informavam os setores populares, os das pontas, o 1 e o 13, aos gritos de “campeão”, mas porque os espectadores das arquibancadas centrais, as mais caras e numerosas, simplesmente não entendiam, não davam valor, não se interessavam por aquilo, ou se interessavam de passagem, brevemente, coisa pitoresca, curiosa, e ali estavam como se caídos de pára-quedas, apenas qual parte dum pacote turístico qualquer, do tipo "ir ao Porcão", porque alguém lhes terá dito que seria impossível vir ao Rio e não ver as escolas de samba na avenida.
Os dois comentaristas eram, acredite, Paulinho da Viola – sim, Paulinho da Viola! – e Leci Brandão, e aquele terá sido, é provável, o último instante de liberdade plena numa transmissão de carnaval da Globo. Paulinho nunca mais comentou. Leci, ainda incômoda, foi confinada aos desfiles de São Paulo, lá também onde hoje mora, exilada.
Leci Brandão sempre pagou – e paga – por ter opinião e expressá-la. Tem consciência disso. Há anos, por exemplo, não cantava no Rio. Opinião é hoje, e já era há vinte anos, extremamente anti-comercial. (Isto, claro, fora a do Arnaldo Jabor).
E alguém dirá que não pioramos? (...)
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