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Sobre dois filmes (e a facilidade do cinismo) Escrito em 14 de maio de 2007
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No fim-de-semana que se foi, conferi com atraso duas produções nacionais da recente safra: Proibido proibir, que marca a volta à direção de Jorge Duran, e Batismo de sangue, transposição para as telas do livro de Frei Betto conduzida por Helvécio Ratton. Vale dizer, antes de qualquer coisa, que Caio Blat é responsável por grande interpretações em ambos os filmes.

O filme de Ratton é apenas correto. Narra a história do envolvimento dos freis dominicanos com a resistência à ditadura militar abusando do didatismo (o que chega a incomodar) e sem grandes brilhos - exceção para a linda seqüência da missa rezada dentro do cárcere. As cenas de tortura, ressaltadas na imprensa como sendo fortes, não espantam quem, como eu, devorou praticamente toda a literatura sobre a época. As imagens não repugnam mais, por exemplo, do que os casos narrados em Brasil nunca mais. Batismo de sangue vale, contudo, para mostrar que há uma Igreja diferente dessa vendida pelo atual Papa - e também revelar aos mais novos a merda que é viver sob um governo autoritário.

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Já o trabalho de Duran me impressionou bastante. Malgrado os ‘sociologismos’, que ele tentou atenuar utilizando a voz de personagens envolvidos numa pesquisa sociológica, o filme joga luz sobre o Rio de Janeiro com insuspeita intimidade. O subúrbio, sobretudo, é filmado lindamente, em planos crus que contrastam com a fotografia emoldurada da Zona Sul. Não se trata de sublinhar uma dicotomia, mas de revelar a vida que viceja longe dos cartões-postais.

Essa vida, não obstante as dificuldades da falta de grana e perspectivas, da ameaça constante de sombras opressoras (seja do crime ou da polícia), da ausência de glamour, é mostrada com generosidade e afeto. Não há, em Proibido proibir, a inocência de um Rio Zona Norte. Mas aquela inocência – e este talvez seja o maior mérito de Durán – não foi trocada pelo cinismo. É muito fácil ser cínico hoje, fácil demais. E o diretor não cai nessa armadilha. Pelo contrário: faz a crítica que é pertinente sem se deixar corroer pelo distanciamento excessivo ou ceder ao fácil sentimento de dó. E ainda tem Nelson Cavaquinho na trilha sonora...

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