
Se tu quereres ver a imensidão do céu e do mar
refletindo a prismaização da luz solar
rasga o coração, vem te debruçar
sobre a vastidão do meu penar
Catullo da Paixão Cearense e Anacleto Medeiros
Há uma grande peça em cartaz no Rio de Janeiro. Mas é preciso correr ao Teatro Glória porque a montagem de Rasga coração, com base nos escritos originais do grande Oduvaldo Vianna Filho, sai de cena no próximo domingo. Fui conferir o espetáculo no sábado passado, com a ansiedade de quem nunca havia assistido a um legítimo Vianninha no palco. E a impressão, depois de dois atos e quase três horas, foi a melhor possível - opinião sublinhada pelo público, a se tirar pelos quase cinco minutos de aplausos que se seguiram ao fim da apresentação.
Isso se deve, em primeiro lugar, à altíssima qualidade do texto produzido em 1972, que, embora soe datado aqui ou ali, tem a maior parte de sua força preservada. A peça acompanha a trajetória de uma família brasileira da década de 30 aos anos 70, expondo a repetição dos conflitos geracionais, das idiossincrasias e questões existenciais. Com habilidade, Vianninha caracteriza engenhosamente o eterno retorno da crise, valendo-se de uma história que corre em duas dimensões no tempo. Assim, as brigas entre o protagonista Manguary e seu pai tardiamente convertido ao integralismo são reencenadas mais tarde no embate entre o próprio Manguary - homem de esquerda que viveu para o socialismo - e Luca, o filho hippie, que tem outras prioridades e questões.
A montagem dirigida por Dudu Sandroni prescinde de experimentalismos bobos, preferindo servir (adequadamente) ao texto, e conta com inspiradas interpretações, com destaque para as atuações cheia de nuances de Zé Carlos Machado como Manguary e de Kelzy Ecard como Nena.
Há muito tempo não assistia a uma peça tão emocionante, tão humana, tão redentora. Uma peça que saúda o homem comum e suas pequenas coisas, que procura grandeza nos pequenos gestos. Impossível não ficar tocado quando o filho diz a Manguary que sua 'revolução' se limitou a discursos, greves, protestos e a viagem diária de ônibus para a repartição pública com o dinheiro da passagem trocado no bolso. Ou, posteriomente, quando o rapaz militante que será responsável pela melhor frase da noite - "Talvez erro da sua geração tenha sido abdicar da 'dúvida' - de certo modo responde a Luca, ao afirmar que, em cada conquista de um fraco diante de um forte, o pai dele está presente.
Como Vianninha já declarou, Rasga coração é de fato uma "homenagem ao lutador anônimo político". O dramaturgo acreditava que "revolucionária" é a luta do cotidiano, "feita de cotidiano", "a descoberta do mecanismo mais secreto do cotidiano, que só sua vivência pode revelar". Ele acreditava e eu acredito.
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