
Há algumas semanas, o Folhateen - suplemento da Folha de S. Paulo voltado para adolescentes - publicou matéria que mostrava jovens hostis a tudo o que é "brasileiro". Como contraponto às opiniões dos garotos entrevistados, o jornal veiculou comentários de sociólogos, de forma que parecia não haver, entre os próprios jovens, gente que pensa diferente.
Na verdade, essa postura não me supreende quando se trata do Folhateen, cujas pautas priorizam o que é ligado ao pop e ao rock, de preferência gringo, como se fossem exclusivamente esses os únicos afetos possíveis entre seus leitores. Com o Megazine, suplemento de O Globo que talvez tenha usado o Folhatten como modelo, a coisa é muito parecida. A acachapante maioria das reportagens circunda o mesmo núcleo de assuntos e artistas.
Essa tendência aliás, começa infelizmente a se repetir no âmbito de nossa literatura, pelo menos se considerarmos os holofotes do momento. É natural que haja mais Nirvana do que Nelson Cavaquinho nos textos dos novos autores, mas não é razoável que a pauta se defina só aí. Isso possivelmente se deve ao gosto médio dos jornalistas (e editores) que começam a chegar às posições de comando em redações e editoras. É preocupante, no entanto, quando esse "gosto médio" ameaça solapar todo o resto. Afinal, renovando o 'dilema de Tostines': o que define o conteúdo é o gosto do editor ou é (suposto) gosto do leitor?
Diante desse quadro, li com alegria a entrevista de Caetano Velloso na edição de ontem do Folhateen. Na conversa com a repórter Leticia de Castro, Caetano critica duramente o suplemento, sobretudo a matéria sobre a hostilidade à cultura brasileira, lembrando que "há milhões de jovens brasileiros que amam o novo choro, a Maria Rita, as casas da Lapa, o forró, o axé..." "Por que falar com professores? O jovem leitor do Folhateen vai se sentir reafirmado em seu critério pobre: jovem antenado despreza o Brasil, só velhos sociólogos é que querem me enfiar coisas brasileiras goela abaixo. Simplesmente não é equilibrado que um caderno dedicado à juventude brasileira finja que não há interesse no lançamento de Roberta Sá ou Mariana Aydar, que finja que Ivete Sangalo não é relevante, só porque esse caderno quer se parecer com um tablóide de rock inglês. Seria preciso definir então o caderno como um caderno de rock. De rock de língua inglesa", complementa ele.
Na seqüência, o cantor e compositor amplia a análise para a Folha de S. Paulo em geral, salientando que Marcos Augusto Gonçalves, o atual editor da Ilustrada, quando estava fora do jornal se penitenciara pelo "aspecto perverso que a revolução feita por Matinas Suzuki e ele nos 80 tomou nos últimos anos". E solta mais farpas: "Cabeça colonizada é coisa de bundão. E essas formas novas de submissão colonial, supostamente representantes da superioridade cosmopolita paulistana, são o que há de mais bundão. E eu não desejo que a juventude brasileira tenda para uma atitude bundona contra a qual luto com todas as minhas forças desde os meus 20 anos".
Em que pesem todas as minhas discordância com Caetano sobre tantas questões, nesta ele está certíssimo. Acho difícil, contudo, que os dois suplementos (Folhateen e Meganize) utilizem a entrevista como premissa para uma reflexão. É pena.
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