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Muita afinação e pouca alma Escrito em 07 de maio de 2007
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Carmen Costa e Maysa: cantoras viscerais

Bola dentríssimo a coluna do Joaquim Ferreira dos Santos no Segundo Caderno (O Globo) de hoje. Reforçando o coro deste que vos escreve e por diversas vezes comentou isso aqui no blog, o cronista reclama da falta de 'alma' das nossas jovens cantoras, em geral afinadíssimas na voz e gélidas na interpretação. "Elas só querem saber de afinação, das oitavas, de dós e mis", salienta ele no texto, que serve também como homenagem a duas artistas que caminharam no sentido contrário: Carmen Costa e Maysa. Posto, abaixo, o início do artigo, que vale a leitura. Confira a íntegra aqui.

"Sofram , queridas"

Joaquim Ferreira dos Santos

"Há boas cantoras demais, mas sofrimentos de menos. Ninguém corta mais os pulsos na frente do distinto público, ninguém dilacera o coração ao vivo na TV, ninguém limpa as mãos sujas de sangue nos panos de prato das canções. Tudo em temperatura média. Elegante. Cool. Deve ser por isso, todas modernas o suficiente para não se importarem com as pernadas da paixão, que a cada semana sai o mesmo disco de MPB. Tem sempre o lançamento de alguma cantora muito correta, de voz ao estilo João Gilberto, enfileirando um punhado de músicas já cantadas antes, melodias até bonitas da história do cancioneiro brasileiro, mas todas significando zero em drama pessoal. Nenhuma ateando fogo às vestes pela vergonha de ser mãe solteira. Por isso, aqui fica derramada a minha lágrima por Carmen Costa, a empregada doméstica que partiu semana passada depois de ter escancarado ao microfone a infelicidade de ser a outra que o mundo difama. Apanhou dos homens na vida real, contou isso nas canções. Sofrimento não é um item fundamental para qualquer arte, mas de vez em quando faz bem levar uns petelecos do destino e cair de quatro no toca-disco. Abrir o dicionário de rimas, desprezar todas e ficar só com as essenciais. Amor e dor. Coração e solidão. Ele foi embora. Ele não presta. Ele me comeu e depois jogou fora. Ninguém grita o formidável desespero do pé na bunda, de ser passada para trás com a melhor amiga, essas coisas que acontecem com todo mundo – mas sumiram da MPB das novas cantoras. Por isso, aqui fica registrada a minha saudade de Maysa, sobre quem foram publicadas duas biografias na semana passada, narrando como os canalhas iam, um atrás do outro, deixando que ela ficasse para trás, sozinha, com o microfone na mão e uma canção dizendo meu mundo caiu. (...)"

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