
O Portal Literal colocou no ar hoje minha resenha sobre o livro Morreu na contramão - o suicídio como notícia, de Arthur Dapieve. Publico, abaixo, o trecho inicial do texto. Confira a íntegra aqui.
No dia 5 de abril de 1994, recém-saído de uma clínica de desintoxicação, o líder do grupo Nirvana, Kurt Cobain, disparou um tiro fatal contra a própria cabeça. Em 11 de setembro de 2001, pouco mais de uma dezena de jovens sacrificaram conscientemente as próprias vidas em nome do jihad, ao executar o atentado terrorista que atingiu símbolos do poder norte-americano. Quase 300 anos antes, a 18 de abril de 1732, um pacato casal de classe média – Richard e Bridget Smith – enforcava-se em Londres, sob a pressão de um manancial de dívidas.
Os casos relatados acima – cuja disparidade só encontra interseção no aspecto voluntário das mortes – ilustram os três modelos isolados por Émile Durkhein para categorizar o suicídio conforme a relação entre aquele que se mata e a sociedade. No suicídio egoísta, os elementos motivadores seriam a falta de integração com seus pares e a inexistência aparente de razões para se tocar a vida em frente. No altruísta, por oposto, as fortíssimas conexões entre indivíduo e meio social acabariam por determinar a opção pelo fim. Já o suicida anômico agiria movido por uma desestabilização repentina, mas capaz de desequilibrar seu lugar na coletividade. A categorização proposta pelo sociólogo no século XIX é retomada por Arthur Dapieve em Morreu na contramão – O suicídio como notícia (Jorge Zahar). Baseado em sua dissertação de mestrado em Comunicação na PUC-Rio, o livro se inspira na tipologia desenhada por Durkhein para teorizar sobre a morte voluntária e, na seqüência, investigar como é tratada na imprensa brasileira. Em geral, conclui Dapieve, entre o completo silêncio e uma nuvem de eufemismos.(...)
Terão início na semana que vem, com o seminário Diálogos, as atividades comemorativas dos 20 anos do Teatro de Anônimo. O evento inaugural será composto de três painéis, que acontecerão nas primeiras terças-feiras do mês de junho, debatendo a relação do artista com a cidade e as interseções entre as artes cênicas e os conflitos sociais.
Na próxima (dia 5), serei um dos participantes da mesa As ruas do Rio de Janeiro: territórios de pertencimento, ao lado de Amir Haddad, diretor do grupo Tá na Rua, e André Bueno, professor do curso de Ciências da Literatura da UFRJ e autor do livro Formas da crise: estudos de literatura, cultura e sociedade. Nas semanas seguintes, o seminário terá como palestrantes a professora Heloísa Buarque de Hollanda e a diretora Carmem Luz, uma das fundadoras da Cia Étnica de dança e teatro, entre outros.
Todos os painéis começarão às 20h e acontecerão na Casa Mercado 45 (na Rua do Mercado, próximo ao Centro Cultural dos Correios). Mais informações podem ser obtidas aqui.
Hoje, às 18h30, acontecerá mais uma edição dos Encontros do Subsolo, promovidos pela Livraria Leonardo da Vinci com curadoria deste que vos escreve. Intitulado Ética e literatura, o debate será uma homenagem a G. K. Chesterton (foto), concentrando-se sobretudo no célebre personagem do Padre Brown.
Caberá ao jornalista Luiz Paulo Horta e ao tradutor Carlos Nougué (que transpôs para o português o recém-lançado A inocência do Padre Brown) análisar a obra do autor inglês, conhecido por suas tramas policiais. A conversa será mediada pelo amigo Sidney Silveira, da Sétimo Selo, que editou livro de Chesterton. O evento tem entrada gratuita e a Da Vinci fica na Av. Rio Branco, 185.
Foi divulgada hoje a esperada programação da Flip 2007. Basta uma rápida análise sobre os convidados para constatar a imensa discrepância entre o time nacional e o escrete gringo. Sobretudo porque, no caso dos brazucas, com raras exceções* parece ter faltado aquele que deveria ser o ingrediente principal da Festa: a literatura. Nada contra a escalação de gente de outras artes, mas faltaram escritores. Das 19 mesas previstas na lista, apenas cinco contam com ficcionistas brasileiros
O Flávio Izhaki fez uma interessante análise sobre a seleção de 2007 em seu blog, o Bohemias. Concordo com quase tudo que ele afirmou lá - embora, ao contrário do Flávio, entenda que o painel sobre autores de biografias (com Ruy Castro, Fernando Morais e Paulo César de Araújo) vá ser um dos pontos altos do evento. Confira a programação completa - feita sob a curadoria de Cassiano Ellek Machado - aqui.
* Saúdo, sobretudo, a convocação do grande Antonio Torres, que faz justiça a uma carreira admirável, em qualquer sentido. Antonio é referência para todos nós, que engatinhamos pelos bosques da ficção.
O amigo Henrique Rodrigues lança hoje, dentro do Salão do Livro para Crianças e Jovens, o seu novo livro. Versos para um Rio antigo reúne poemas criados a partir de obras de artistas que se inspiraram na paisagem carioca, como Jean Baptiste Debret, Gustavo Dall’Ara, Bernhard Wiegandt, Emil Bauch, Nicolau Antonio Facchinetti, Giovanni Battista Castagneto, Johan George Grimm e João Baptista da Costa.
Entre os locais visitados, estão Copacabana, a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Centro do Rio. Editado pela Pinakotheke (da amiga Camila Perlingeiro) com projeto gráfico da talentosa Mariana Newlands, o livro é voltado para o público infantil. O lançamento está marcado para às 14h, e o Salão acontece no Museu de Arte Moderna (MAM).
Fui, enfim, conferir o segundo e elogiado longa do Cláudio Assis e confesso que não consigo entender por que até mesmo gente boa da nossa crítica continua a subscrever com tamanho entusiasmo o trabalho deste diretor tão pôseur. Com sinceridade, essa postura de cineasta marginal, que se considera moralmente superior aos demais cineastas por hipoteticamente mostrar 'a realidade crua da escotice brasileira", eu não compro, não.
Bem inferior ao (já superdimensionado) Amarelo manga, Baixio das bestas até tenta esconder, sob a capa de uma suposta crítica ao machismo nordestino, aquilo que o configura em essência: a misoginia mais deslavada. Mas fracassa. E pior: sequer consegue disfarçar os ecos de um erotismo pedófilo. Ainda assim, o "contestador" Assis continua enganando muita gente...
Sobre Baixio das bestas, alias, recomendo fortemente (ainda que com agumas ressalvas) o pequeno texto publicado na edição deste mês da revista Piauí. Aliás, foi a primeira vez, desde o lançamento, que uma edição da revista me encantou. É claro que, de suas páginas, continua a escorrer certo pedantismo intelectual e muderno, mas no número de maio há várias bolas dentro, com destaque para a matéria sobre Aracy de Almeida, assinada por Alexandre Barbosa de Souza e Leonardo Silva Prado (e ilustrada por carticatura - maginífica, como sempre - do amigo Loredano). Posto, abaixo, um trecho da reportagem, em que os jornalistas contam sobre o primeiro encontro entre a cantora e Noel Rosa. Leia a íntegra aqui.
"(...) É a própria Aracy quem conta seu primeiro encontro e sua relação com Noel: “Quando fui cantar no rádio pela primeira vez, levada por Custódio Mesquita, ao passar na varanda da Educadora, vi Noel. Estava sentado e ali continuou. Não deu bola nenhuma pra mim. Quando terminei de cantar ao microfone ele se aproximou: ‘Gostei muito, você cantou muito bem. De onde você é?’ Fizemos logo uma boa camaradagem. Esperei que ele também cantasse pra não sair da boca. Quando terminou foi logo convidando: ‘Vamos até a Taberna da Glória tomar umas cascatinhas?’ Fui. Lá encontramos com uns amigos dele, uns malandros chapados. Ficamos lá até tarde. Noel então me trouxe em casa em um ônibus da Viação Brasil. Já eram mais de 4 horas da manhã quando chegamos ao Engenho de Dentro. Viemos a pé até o Encantado. Bateu na porta de casa e, quando mamãe abriu, ele falou: ‘Vim trazer sua filha aqui’. Apresentei: ‘Este é o Noel Rosa’. Nesta noite, ele marcou um ensaio para me dar algumas músicas. No dia seguinte, fui à casa de Noel. E daí em diante passei a conhecer com ele os piores lugares do Rio de Janeiro. No rádio, havia gente que franzia o nariz diante de nós. Éramos tidos como gente que não prestava. Noel não tinha então muito cartaz. Me lembro dele, um dia, vestindo uma capa minha, botando um chapéu meu e rebolando pela rua, implicando com todo mundo. Íamos sempre comer sardinhas na Lapa ou então seguíamos para um boteco na rua Comandante Mau¬rity onde fazíamos chacrinha: eu, Noel, Baiaco, Germano Augusto, Kid Pepe, Brancura, Ismael Silva, Orestes Barbosa, Sílvio Caldas. Mas vamos botar as cartas na mesa: entre mim e Noel nunca houve coisa nenhuma. (...) "
Em primeiríssima mão, o Pentimento informa a programação da segunda edição dos Encontros de Interrogação, promovidos pelo projeto Rumos Itaú Cultural. O evento vai acontecer em São Paulo, de 6 a 9 de junho.
Quarta, dia 6
10h - Auditório - A oficina literária faz o escritor? Com João Castello e Raimundo Carrero. Mediação: Claudiney Ferreira
10h - Sala Vermelha - Quem é a personagem do romance brasileiro contemporâneo? Com Cristóvão Tezza, Maria José Silveira e Regina Dalcastagnè
17h - Sala Itaú Cultural. Qual o caminho do escritor: contar histórias ou a experimentação de linguagem? Marcelino Freire conversa com Alberto Mussa, Ana Maria Machado e Evandro Affonso Ferreira
18h - Sala Vermelha. Mas literatura infantil não é Llteratura? Fernando Paixão conversa com Índigo, João Carrascoza e Roger Melo
19h - Sala Itaú Cultural. Mais escolher do que ler? Frederico Barbosa conversa com Carlos Felipe Moisés, Heloisa Buarque de Hollanda e Manuel da Costa Pinto
21h - Casa das Rosas - Leituras poéticas. Claudio Daniel apresenta os poetas Adriana Zapparoli e Leonardo Gandolfi
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Cristóvão Tezza, Alberto Mussa e Adriana Lunardi
Quinta, dia 7
10h - Sala Vermelha - Por que escrever sobre literatura? E como? Com Flávio Carneiro
16h - Sala Vermelha - Existe crítica poética de qualidade no Brasil hoje? Leda Tenório da Mota conversa com Alcir Pécora e Floriano Martins
17h - Sala Itaú Cultural - Onde começa a prosa e termina a poesia, o ensaio ou o documentário? Maria Esther Maciel conversa com Fernando Bonassi, João Filho e Luís Alberto Brandão
19h - Sala Itaú Cultural - Cada escritor é também leitor? Cada leitura é também escritura? Marisa Lajolo conversa com Adriana Lunardi, Luiz Ruffato e Marco Lucchesi
21h - Casa das Rosas - Leituras poéticas. Frederico Barbosa apresenta os poetas Delmo Montenegro e Micheliny Verunschk
Sexta, dia 8
10h - Sala Vermelha - Cinema, literatura e mercado editorial: existe o escritor multimídia?Com Vera Lúcia Follain e Marçal Aquino. Mediação de Bruno Dorigatti
17h - Sala Itaú Cultural - Quando o autor reconhece que seu livro está pronto? Miguel Sanches Neto conversa com Alberto Martins, Cíntia Moscovich e Ronaldo Correia de Brito
18h - Sala Vermelha - Para que poetas em Ttempos de pobreza? Claudio Daniel convera com Ademir Assunção, Eduardo Jorge e Horácio Costa
19h30 - Sala Itaú Cultural - Afinal, quais os sentidos e os valores da literatura? Nelson de Oliveira conversa com Daniel Galera, Glauco Mattoso, Luiz Costa Lima e Márcio Souza
Sábado, dia 9
15h - Sala Vermelha - Como são produzidas as enciclopédias virtuais? Ana Lúcia Trevisan conversa com Ana Ligia da Silva Medeiros, Marcos Galindo e Tânia Rodrigues
17h30 - Sala Vermelha - E o cânone tem função na literatura contemporânea? Felipe Lindoso conversa com Beatriz Rezende, Jaime Ginzburg e Lourival Holanda
A revista eletrônica de cultura Aguarrás colocou no ar hoje a entrevista que sua equipe de TV há cerca de duas semanas fez comigo, e na qual falei sobre meus livros e minha visão sobre a atual literatura brasileira. O pessoal gentilmente me serviu algumas taças de vinho durante a conversa, o que fez com que soltasse um pouco a língua. A entrevista foi conduzida pela escritora Elvira Vigna e as imagens são de Eric Novello. Confira o nosso papo (com opção de legendas em inglês) aqui.
Do Weblog, espaço mantido pelo Pedro Dória no site No Mínimo, vem a boa notícia:
"Na esquerda há mais sexo"
Pedro Doria
"A Economist fala de campos políticos: Psicólogos já sabem há algum tempo que conservadores e progressistas se diferem em mais pontos do que os partidos politicos para os quais votam. De fato, as políticas públicas em oferta, que misturam conservadorismo social com liberalismo econômico e vice versa, indicam que preferências partidárias não distinguem mais de todo quem é de esquerda e quem é de direita. Mas alguns traços de personalidade dão forma às crenças de algumas pessoas. Alguns olham tradição com ceticismo, são abertos a novas experiências, rebeldes, buscam prazer, são igualitários e correm riscos. Outros valorizam tradição, dever, fortalecimento de relações familiares e segurança.
Esquerda e direita, pois. O assunto é tema de estudos vários, um deles do biólogo evolucionista Randy Thornhill, da Universidade do Novo México. Por que optamos por um lado ou por outro?
Thornhill têm dois trabalhos importantes no currículo. O primeiro é a confirmação de que o macho da espécie humana tem, sim, uma predisposição à violência sexual. Como outros primatas, diga-se – e, em nosso caso, a cultura é antídoto. É a confirmação científica do que muitas feministas sempre disseram. Outra de suas observações é que, também como muitos mamíferos, é uma certa simetria corporal que define beleza e atrai humanos uns aos outros.
Thornhill fez circular um extenso questionário para ver se havia indício no histórico pessoal que indicasse para que lado do flanco ideológico alguém cairia. Descobriu que sim: quem vem de famílias amorosas e estáveis, tenderá a ser conservador e tradicionalista; quem encontrou instabilidade na infância estará mais aberto a mudanças. A explicação poderia estar em algum gene de defesa que todos possuímos e que, perante uma infância conturbada, poderia ser ativado.
Talvez – é, decididamente, um estudo controverso. Outro, publicado no ano passado, decidiu que é exatamente o contrário.
Mas nada disso importa. À esquerda, aceita-se mais as diferenças. Portanto: a mais relevante de suas conclusões é que homens de esquerda têm mais parceiras sexuais. (O inverso também vale para as mulheres.)"
De hoje a sábado, vai rolar no Centro Cultural dos Correios um evento interessantíssimo, chamado Correio literário - Arte, vida e literatura através de cartas. No decorrer desses cinco dias, sempre às 18h30, serão lidas e comentadas correspondências de Franz Kafka, Clarice Lispector, Rainer Maria Rilke, Mário Quintana e Mário de Andrade. O Centro Cultural dos Correios fica na Rua Visconde de Itaboraí, 20, próximo ao CCBB, e o encontro terá entrada gratuita, com distribuição de senhas meia hora antes do início das apresentações. A programação é a seguinte:
Dia 22 - Franz Kafka - Leitura de Rogério Fróes e comentários de José Castello
Dia 23 - Clarice Lispector - Leitura de Odete Lara e comentários de Cláudia Nina
Dia 24 - Rainer Maria Rilke - Leitura de Pedro Bial e comentários de Leonardo Fróes
Dia 25 - Mário Quintana - Leitura de Paulo José e comentários de Antonio Carlos Secchin
Dia 26 - Mário de Andrade - Leitura de Stênio Garcia e comentários de Silviano Santiago
A amiga Rosana Caiado resolveu deixar seu talento escorrer para além do blog Pseudônimos e iniciou ontem uma coluna no site Bolsa de mulher. No primeiro, despretensioso, divertido e delicioso texto, ela se apresenta aos leitores e comenta sobre as sucessivas estréias que fazemos ao longo da vida. Posto abaixo um trecho do artigo. Leia a íntegra aqui.
"(...) Sou tímida nos três primeiros minutos de conversa. Fico sem-vergonha depois de três copos. Conto segredos depois de três parágrafos. Abaixo a guarda no terceiro beijo – caso o primeiro me faça contrair o abdome. O primeiro sutiã, a primeira transa, a primeira vez em que te disse “eu te amo” são estréias inesquecíveis. Continuo virgem de ir ao cinema sozinha, virgem de Europa (exceto Paris) e era virgem de escrever coluna, até começar o primeiro parágrafo. Ainda bem que ainda nos restam muitas virgindades, ou a vida poderia ser mais curta.(...)"
A cantora Thaís Motta convida para o show em que apresentará em primeira mão o repertório de seu disco de estréia, a ser lançado em julho. O espetáculo contará com músicas de Tom Jobim, Baden Powell, Paulo Cesar Pinheiro, Lamartine Babo, Vinícius de Moares, Altay Veloso, Fred Martins, Chico Bosco e Mário Sève, entre outros, e incluirá uma parceria minha com Arthur Maia, intitulada Se o samba é bom. Marvio Ciribelli (piano) - autor dos arranjos -, Rogério Fernandes (baixo) e Flavinho Santos (bateria) acompanharão a cantora.
O show vai rolar na próxima quinta-feira, às 18h30, no Centro Cultural Ibeu (Av. N. Sra. de Copacabana, 690 - 9º andar) e terá entrada gratuita. As senhas devem ser retiradas no dia do espetáculo, a partir das 17h30, na portaria do Ibeu.
Já foi praticamente fechada a relação de convidados da edição 2007 dos Encontros de Interrogação, promovidos pelo projeto Rumos Itaú Cultural, e cujos debates acontecerão entre 5 e 8 de junho, em São Paulo. Alguns nomes: Adriana Lunardi, Alberto Martins, Alberto Mussa, Ana Maria Machado, Andréa del Fuego, Beatriz Resende, Cíntia Moscovisch, Cristóvão Tezza, Daniel Galera, Evandro Affonso Ferreira, Fernando Bonassi, Glauco Mattoso, Heloísa Buarque de Holanda, Índigo, Ivana Arruda Leite, João Carrascoza, João Filho, José Castello, Luiz Costa Lima, Luiz Ruffato, Manuel da Costa Pinto, Marçal Aquino, Miguel Sanches Neto, Nelson de Olivera e Raimundo Carrero.
Amanhã, dia 22, haverá leitura na livraria Dantes (que fica dentro no Cine Odeon). A noite será dedicada às escritoras 'desconhecidas', da belga Amélie Nothomb à japonesa Banana Yoshimoto, passando pelas americanas Laurie Anderson e Carson McCullers, pela austríaca Veza Canetti e pelas brasileiras Valeska de Aguirre, Marília Garcia e Fernanda Branco. Roberta de Freitas, organizadora da edição deste mês, explica: "Escritores têm que ser bons, não importa o gênero. Juntá-las por serem mulheres é só um artifício, tão válido quanto juntar um grupo por sua nacionalidade ou por uma língua. No nosse caso, acrescentamos um segundo artifício: aquelas escritoras que você carrega contigo, compra livros, procura saber novidades, sobre quem você consegue dividir impressões com muito poucas pessoas. E se pergunta: por que diabos ninguém mais as conhece?". As leituras serão conduzidas por Ana Carolina Cunha Lima, Diana Coll, Akemi Ono, Elisa Sesana, Anna Paula Martins, Roberta de Freitas e pela própria Valeska de Aguirre.
O amigo Gustavo de Almeida, repórter especial do Jornal do Brasil, deixou um longo comentário sobre o texto abaixo, que, pela relevância, resolvi transformar em novo post. Com a palavra, o Gustavo:
"Com todo o respeito, acho incrível como as pessoas costumam associar errosdo JB à decadência ou à falta de profissionalismo. No site Comunique-se, por exemplo, parece haver uma festa a cada vez que acontece algo do gênero. Mas se recusaram a publicar uma linha sequer sobre o prêmio internacional que ganhamos em 2005, do Unicef seguido pelo prêmio nacional pela mesma matéria em 2006.
Alguém atacou ou xingou os profissionais do Globo quando publicaram a foto do Brizola ao lado de um líder comunitário dizendo que o cara era traficante? Não. Na época, só se atacou o Roberto Marinho, etc. E os profissionais de O Dia? São canalhas? Todos? Por causa daquela foto da família cheirando pó em cima da Bíblia?
O deslize não foi por falta de ética, e sim porque a foto - que não é de divulgação ou de alguém do filme - estava de fato, numa comunidade que exaltava o Comando Vermelho. Sim, o cara pode ter pego em qualquer lugar a foto, mas será que a produção não saberia informar quando foi feita e por quem? Não souberam informar. Do mesmo jeito que pediram permissão ao Mineiro da Cidade Alta para filmar lá o Cidade de Deus, pode ter sido feita por um criminoso, sim, ora. E colocada na comunidade.
Foi um erro checar, mas acho incrível que os profissionais de lá sejam atacados da forma que são por colegas de profissão. Não sabem o esforço que a gente faz, as condições em que a gente trabalha. Muitos dos que aproveitam o momento ruim para nos atacar volta e meia nos ligam cavando notas, pautas, matérias, muito bem instalados em suas assessorias.
Jornais erram, acertam, mas às vezes parece que o erro do JB agrada mais, as pessoas de fora torcem contra a gente, é impressionante. Querem fazer deste caso uma nova Escola Base, e não se compara. Até porque, se pegarmos o arquivo do noticiário, vamos encontrar alguns atores de Cidade de Deus em situação de crime ou de consumo de drogas - e nem por isso fizemos estardalhaço nas ocasiões, o que prova que nunca tivemos a intenção de atacar esse trabalho do Nós do Morro.
Eu trabalho no JB e continuo tendo orgulho disso. Dou meu sangue, trabalho mais de 10 horas por dia, para fazer um jornal melhor. Se erramos, vamos seguir em frente. Não faço parte de turminhas que oferecem emprego uns para os outros, dependo do meu próprio esforço. Não vou arrumar emprego no Comunique-se depois."
A capa do Jornal do Brasil estampa hoje, sob o título Tráfico exibe poder de fogo pelo orkut, uma foto que retrataria, segundo a legenda, "doze traficantes com armas e coletes à prova de balas". Acontece que a imagem, na verdade, é de atores do filme Cidade dos homens, ainda inédito.
Como informa a versão on line do Extra, "a foto caiu como uma bomba, na manhã de hoje, na favela do Vidigal, mais precisamente no grupo teatral Nós do Morro, que existe há 21 anos". "Luciano Vidigal, de 27 anos, há 17 como ator, e que aparece no centro da foto publicada, levou um susto ao passar por uma banca de jornais. "Parei para ver a notícia do Zeca Pagodinho, quando olhei para o jornal ao lado e me assustei. Era eu, identificado como um traficante. É impressionante como as pessoas não se preocupam com o ser humano. Estou indignado e com medo do que por acontecer", disse ele ao jornal.
Como perguntou certa vez o Lobão: quem é que vai pagar por isso?
Está marcado para o dia 2 de julho o lançamento da revista Zé Pereira - que, pelas conversas que tive com o editor Eduardo Souza Lima, o Zé José, será uma espécie de anti-Piauí. "A Zé Pereira vai tratar do mundo real também - matérias investigativas, de denúncia e de utilidade pública -, não vai ficar só no blablablá da boa leitura. Não queremos ser a New Yorker tupiniquim", esclarece ele. Aqui do meu canto, espero e torço para esse anti traduza-se também na distância da postura pretensiosa da outra publicação. De qualquer modo, já é um ótimo sinal constatar que a Zé Pereira investirá em pautas "cariocas", coisa definitivamente proibida nas incensadas páginas "piauienses".
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No cartum de Allan Sieber, uma síntese da linha editorial: "abaixo o jornalismo de pantufas!"
A edição de estréia da revista trará, entre outras coisas bacanas, um perfil de Tia Doca da Portela (por Anna Azevedo), contos de Sidney Garambone e Cristiane Dantas, um dossiê sobre o malfadado processo de despoluição da Baía de Guanabara (por André Vieira), histórias em quadrinhos de Allan Alex e Patati e cartuns de Allan Sieber. De minha parte, farei a coordenação de um folhetim, protagonizado por um personagem chamado justamente de Zé Pereira. Cada capítulo será escrito por um autor diferente, numa experiência inspirada na revista O cruzeiro e que acabou gerando, nos anos 60, o livro O mistério dos MMM.
Mais informações em breve.
Apesar do crescente número de visitantes, hoje na casa de 120 diários (com média de 340 pageviews), a quantidade de comentários aqui no blog diminuiu muito depois que ele veio morar no site. Por favor, não fiquem tímidos. É bom ouvir a opinião de vocês...
No fim-de-semana que se foi, conferi com atraso duas produções nacionais da recente safra: Proibido proibir, que marca a volta à direção de Jorge Duran, e Batismo de sangue, transposição para as telas do livro de Frei Betto conduzida por Helvécio Ratton. Vale dizer, antes de qualquer coisa, que Caio Blat é responsável por grande interpretações em ambos os filmes.
O filme de Ratton é apenas correto. Narra a história do envolvimento dos freis dominicanos com a resistência à ditadura militar abusando do didatismo (o que chega a incomodar) e sem grandes brilhos - exceção para a linda seqüência da missa rezada dentro do cárcere. As cenas de tortura, ressaltadas na imprensa como sendo fortes, não espantam quem, como eu, devorou praticamente toda a literatura sobre a época. As imagens não repugnam mais, por exemplo, do que os casos narrados em Brasil nunca mais. Batismo de sangue vale, contudo, para mostrar que há uma Igreja diferente dessa vendida pelo atual Papa - e também revelar aos mais novos a merda que é viver sob um governo autoritário.
Já o trabalho de Duran me impressionou bastante. Malgrado os ‘sociologismos’, que ele tentou atenuar utilizando a voz de personagens envolvidos numa pesquisa sociológica, o filme joga luz sobre o Rio de Janeiro com insuspeita intimidade. O subúrbio, sobretudo, é filmado lindamente, em planos crus que contrastam com a fotografia emoldurada da Zona Sul. Não se trata de sublinhar uma dicotomia, mas de revelar a vida que viceja longe dos cartões-postais.
Essa vida, não obstante as dificuldades da falta de grana e perspectivas, da ameaça constante de sombras opressoras (seja do crime ou da polícia), da ausência de glamour, é mostrada com generosidade e afeto. Não há, em Proibido proibir, a inocência de um Rio Zona Norte. Mas aquela inocência – e este talvez seja o maior mérito de Durán – não foi trocada pelo cinismo. É muito fácil ser cínico hoje, fácil demais. E o diretor não cai nessa armadilha. Pelo contrário: faz a crítica que é pertinente sem se deixar corroer pelo distanciamento excessivo ou ceder ao fácil sentimento de dó. E ainda tem Nelson Cavaquinho na trilha sonora...
Essa posição limítrofe alcançada pelo filme de Duran (ler post acima) é justamente o que venho buscando na literatura. Por isso saí tão feliz do cinema na sexta-feira. Foi uma identificação imediata. Que se intensificou ainda mais, por contraste, no sábado pela manhã, quando li a matéria de capa da Ilustrada (Folha de S. Paulo). A reportagem, assinada por Marcos Strecker, tinha como objeto “a nova geração de autores brasileiros”.
Não vou entrar no mérito da qualidade dos escritores entrevistados (Santiago Nazarian, Ana Paula Maia, Carola Saavedra e Veronica Stigger). A questão é que o texto, assim como o artigo assinado por Manuel da Costa Pinto, repisa uma marca imaginária e arbitrária que a imprensa especializada resolveu soldar: que a “nova geração” é fortemente influenciada pelo universo pop. No artigo de Manuel da Costa Pinto, sobretudo, essa chancela é insistente.
No entanto, nem Strecker, nem o crítico procuraram observar que há, sim, autores caminhando em outras veredas. Ou seja, que essa mesma "nova geração" tem muitas vias. É o caso, por exemplo, da Adriana Lisboa. Poderia, sem muita pesquisa, citar outros nomes, como João Anzanello Carrascoza ou o nosso Henrique Rodrigues. A insistência em iluminar apenas uma vertente da atual produção – e a Folha de S. Paulo é pródiga nesse tipo de pauta – me parece absurda e intencional.
O Prosa & Verso (O Globo) do mesmo sábado veio com ótima matéria de capa de Guilherme Freitas sobre o chileno Roberto Bolaño, o queridinho do momento. A primeira vez em que ouvi falar de Bolaño foi numa conversa com o Marechal (Álvaro Costa e Silva), lá na Livraria Folha Seca. Referindo-se ao romance Os detetives selvagens, ele me disse então que o livro era sensacional.
F. me deu o romance, que ainda não li. Mas a reportagem do Prosa, em que a faceta cosmopolita de Bolaño é destacada, me trouxe algumas questões. Assim como Alberto Fuguet, outro autor chileno, Bolaño bateu-se durante quase toda a carreira contra a sombra opressiva do realismo fantástico. Fico a pensar se o repúdio ao que possa ser considerado ‘cor local’ - ressaltado tanto na matéria quanto na entrevista do crítico Ignacio Echevaría - não passa por aí, pela reação necessária e compreensivalmente extremada ao peso de ter de se adequar ao molde que se esperava de uma 'literatura latino-americana'. E mais: se nós, brasileiros, que nunca tivemos uma forte tradição de narrativa fantástica, não estamos comprando uma reação que não nos cabe. São dúvidas, apenas dúvidas...
A amiga Fabiana Cozza, cantora de primeiríssima e plena de alma que não se filia à tendência críticada aqui, estará no Rio no próximo domingo. Ela vai se apresentar no Trapiche Gamboa, a partir das 18h, acompanhada de Humberto Araújo (sax e flauta), Alessandro Cardoso (cavaquinho), Zero (percussão), Marcinho (percussão) e Alessandro Penezzi (violão). Para quem nunca assistiu à Fabiana, aviso de pronto: é show altamente recomendável!
O amigo Henrique Rodrigues parte esta semana para breves dias em terras européias. Na volta (dia 29), estará no Salão do Livro para Crianças e Jovens do MAM, onde vai lançar Versos para um Rio Antigo. Seu novo trabalho é uma seleta de poemas voltados para o público infantil e criados por ele a partir de pinturas e gravuras que retraram paisagem carioca do séc. XIX. Registro aqui o desejo de boa estadia por lá com uma recente poesia de sua lavra, que - por acaso ou não - também fala de viagens.
"O trem"
Henrique Rodrigues
"Na linha que seguia até sumir
Depois da curva ao longo desses trilhos
Eu esperava um trem que não passava
(Ou que passasse e, por alumbramento,
Sequer tenha notado, ou mesmo ouvido).
Restou, silente, a espera pelo próximo.
E tendo me escondido na estação
Com a distração dos outros passageiros
(Acompanhando as suas despedidas...),
Nas noites me encolhi de resignado.
Até quem em certo estio dessa angústia
Na curva um som de trem se aproximava.
Parado, tinha as portas semi-abertas
(Não sei se por algumas incertezas
De receber um novo passageiro;
Mas refletia a minha hesitação
Em ter de abandonar local seguro
E me lançar além do que enxergava.)
Já longe, à profusão dessa paisagem
- Paisagem que até hoje me acompanha -
Mesclou-se algo que, então, reconhecia.
Seguro e vulnerável no vagão,
Estranhamente eu me identificava:
(Achando-me-perdi, mineiramente.)
Tão nova e vaga e longa essa viagem...
Nem mar nem rio ou céu longínquo e claro
Ou qualquer ânsia onírica que fosse
Se equiparava àquela transcendência,
Que mesmo construindo uma distância
Modificou a vida que eu levava.
Parti sem ter ciência do destino,
Ao qual me lancei cego e voluntário,
Sem pressa para qualquer desembarque.
Até que eu mesmo me tornei o trem,
Que vem se aproximando pelos trilhos,
Enquanto, na estação, você me espera".
Paulo Lins, autor do romance Cidade de Deus (que deu origem ao filme homônimo) é o convidado de hoje no Laboratório do Escritor, que acontece mensalmente no CCBB. Lins conversará com as jornalistas Cristiane Costa e Valéria Lamego sobre seu processo criativo. O público poderá fazer perguntas após o bate-papo, que está marcado para às 18h30, com entrada franca. As senhas começarão a ser distribuídas meia hora antes.
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Cidade do samba: exclusividade para o Grupo Especial
O amigo Carlos Andreazza alerta para uma grave situação: com o rebaixamento, o Império Serrano ficou sem ter para onde levar seu barracão. Como explica o repórter Leonardo Bruno, do Extra, "os barracões antigos da Zona Portuária já foram retomados pela Docas, que só aceita duas formas de cedê-los para as escolas de samba: por licitação (o que demoraria um tempo enorme) ou por aluguel (inviável para as agremiações do Acesso, que já têm um orçamento reduzidíssimo)".
O alerta vale para as demais escolas, pois consta que a Docas teria ordem de despejo para todas as que ocupam seus galpões. A pergunta que Leonardo faz e eu aqui repito é: o que o poder público está fazendo para resolver esse problema? Se a tão elogiada e 'primeiromundista' (sic) Cidade do Samba é exclusiva para o Grupo Especial, como ficam as agremiações que estão no Acesso e nos demais grupos?
O governador e o prefeito - este que adora desfilar abraçado a bicheiros e contraventores durante o carnaval - precisam tomar alguma providência urgentemente.
Há algumas semanas, o Folhateen - suplemento da Folha de S. Paulo voltado para adolescentes - publicou matéria que mostrava jovens hostis a tudo o que é "brasileiro". Como contraponto às opiniões dos garotos entrevistados, o jornal veiculou comentários de sociólogos, de forma que parecia não haver, entre os próprios jovens, gente que pensa diferente.
Na verdade, essa postura não me supreende quando se trata do Folhateen, cujas pautas priorizam o que é ligado ao pop e ao rock, de preferência gringo, como se fossem exclusivamente esses os únicos afetos possíveis entre seus leitores. Com o Megazine, suplemento de O Globo que talvez tenha usado o Folhatten como modelo, a coisa é muito parecida. A acachapante maioria das reportagens circunda o mesmo núcleo de assuntos e artistas.
Essa tendência aliás, começa infelizmente a se repetir no âmbito de nossa literatura, pelo menos se considerarmos os holofotes do momento. É natural que haja mais Nirvana do que Nelson Cavaquinho nos textos dos novos autores, mas não é razoável que a pauta se defina só aí. Isso possivelmente se deve ao gosto médio dos jornalistas (e editores) que começam a chegar às posições de comando em redações e editoras. É preocupante, no entanto, quando esse "gosto médio" ameaça solapar todo o resto. Afinal, renovando o 'dilema de Tostines': o que define o conteúdo é o gosto do editor ou é (suposto) gosto do leitor?
Diante desse quadro, li com alegria a entrevista de Caetano Velloso na edição de ontem do Folhateen. Na conversa com a repórter Leticia de Castro, Caetano critica duramente o suplemento, sobretudo a matéria sobre a hostilidade à cultura brasileira, lembrando que "há milhões de jovens brasileiros que amam o novo choro, a Maria Rita, as casas da Lapa, o forró, o axé..." "Por que falar com professores? O jovem leitor do Folhateen vai se sentir reafirmado em seu critério pobre: jovem antenado despreza o Brasil, só velhos sociólogos é que querem me enfiar coisas brasileiras goela abaixo. Simplesmente não é equilibrado que um caderno dedicado à juventude brasileira finja que não há interesse no lançamento de Roberta Sá ou Mariana Aydar, que finja que Ivete Sangalo não é relevante, só porque esse caderno quer se parecer com um tablóide de rock inglês. Seria preciso definir então o caderno como um caderno de rock. De rock de língua inglesa", complementa ele.
Na seqüência, o cantor e compositor amplia a análise para a Folha de S. Paulo em geral, salientando que Marcos Augusto Gonçalves, o atual editor da Ilustrada, quando estava fora do jornal se penitenciara pelo "aspecto perverso que a revolução feita por Matinas Suzuki e ele nos 80 tomou nos últimos anos". E solta mais farpas: "Cabeça colonizada é coisa de bundão. E essas formas novas de submissão colonial, supostamente representantes da superioridade cosmopolita paulistana, são o que há de mais bundão. E eu não desejo que a juventude brasileira tenda para uma atitude bundona contra a qual luto com todas as minhas forças desde os meus 20 anos".
Em que pesem todas as minhas discordância com Caetano sobre tantas questões, nesta ele está certíssimo. Acho difícil, contudo, que os dois suplementos (Folhateen e Meganize) utilizem a entrevista como premissa para uma reflexão. É pena.
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Carmen Costa e Maysa: cantoras viscerais
Bola dentríssimo a coluna do Joaquim Ferreira dos Santos no Segundo Caderno (O Globo) de hoje. Reforçando o coro deste que vos escreve e por diversas vezes comentou isso aqui no blog, o cronista reclama da falta de 'alma' das nossas jovens cantoras, em geral afinadíssimas na voz e gélidas na interpretação. "Elas só querem saber de afinação, das oitavas, de dós e mis", salienta ele no texto, que serve também como homenagem a duas artistas que caminharam no sentido contrário: Carmen Costa e Maysa. Posto, abaixo, o início do artigo, que vale a leitura. Confira a íntegra aqui.
"Sofram , queridas"
Joaquim Ferreira dos Santos
"Há boas cantoras demais, mas sofrimentos de menos. Ninguém corta mais os pulsos na frente do distinto público, ninguém dilacera o coração ao vivo na TV, ninguém limpa as mãos sujas de sangue nos panos de prato das canções. Tudo em temperatura média. Elegante. Cool. Deve ser por isso, todas modernas o suficiente para não se importarem com as pernadas da paixão, que a cada semana sai o mesmo disco de MPB. Tem sempre o lançamento de alguma cantora muito correta, de voz ao estilo João Gilberto, enfileirando um punhado de músicas já cantadas antes, melodias até bonitas da história do cancioneiro brasileiro, mas todas significando zero em drama pessoal. Nenhuma ateando fogo às vestes pela vergonha de ser mãe solteira. Por isso, aqui fica derramada a minha lágrima por Carmen Costa, a empregada doméstica que partiu semana passada depois de ter escancarado ao microfone a infelicidade de ser a outra que o mundo difama. Apanhou dos homens na vida real, contou isso nas canções. Sofrimento não é um item fundamental para qualquer arte, mas de vez em quando faz bem levar uns petelecos do destino e cair de quatro no toca-disco. Abrir o dicionário de rimas, desprezar todas e ficar só com as essenciais. Amor e dor. Coração e solidão. Ele foi embora. Ele não presta. Ele me comeu e depois jogou fora. Ninguém grita o formidável desespero do pé na bunda, de ser passada para trás com a melhor amiga, essas coisas que acontecem com todo mundo – mas sumiram da MPB das novas cantoras. Por isso, aqui fica registrada a minha saudade de Maysa, sobre quem foram publicadas duas biografias na semana passada, narrando como os canalhas iam, um atrás do outro, deixando que ela ficasse para trás, sozinha, com o microfone na mão e uma canção dizendo meu mundo caiu. (...)"
Se tu quereres ver a imensidão do céu e do mar
refletindo a prismaização da luz solar
rasga o coração, vem te debruçar
sobre a vastidão do meu penar
Catullo da Paixão Cearense e Anacleto Medeiros
Há uma grande peça em cartaz no Rio de Janeiro. Mas é preciso correr ao Teatro Glória porque a montagem de Rasga coração, com base nos escritos originais do grande Oduvaldo Vianna Filho, sai de cena no próximo domingo. Fui conferir o espetáculo no sábado passado, com a ansiedade de quem nunca havia assistido a um legítimo Vianninha no palco. E a impressão, depois de dois atos e quase três horas, foi a melhor possível - opinião sublinhada pelo público, a se tirar pelos quase cinco minutos de aplausos que se seguiram ao fim da apresentação.
Isso se deve, em primeiro lugar, à altíssima qualidade do texto produzido em 1972, que, embora soe datado aqui ou ali, tem a maior parte de sua força preservada. A peça acompanha a trajetória de uma família brasileira da década de 30 aos anos 70, expondo a repetição dos conflitos geracionais, das idiossincrasias e questões existenciais. Com habilidade, Vianninha caracteriza engenhosamente o eterno retorno da crise, valendo-se de uma história que corre em duas dimensões no tempo. Assim, as brigas entre o protagonista Manguary e seu pai tardiamente convertido ao integralismo são reencenadas mais tarde no embate entre o próprio Manguary - homem de esquerda que viveu para o socialismo - e Luca, o filho hippie, que tem outras prioridades e questões.
A montagem dirigida por Dudu Sandroni prescinde de experimentalismos bobos, preferindo servir (adequadamente) ao texto, e conta com inspiradas interpretações, com destaque para as atuações cheia de nuances de Zé Carlos Machado como Manguary e de Kelzy Ecard como Nena.
Há muito tempo não assistia a uma peça tão emocionante, tão humana, tão redentora. Uma peça que saúda o homem comum e suas pequenas coisas, que procura grandeza nos pequenos gestos. Impossível não ficar tocado quando o filho diz a Manguary que sua 'revolução' se limitou a discursos, greves, protestos e a viagem diária de ônibus para a repartição pública com o dinheiro da passagem trocado no bolso. Ou, posteriomente, quando o rapaz militante que será responsável pela melhor frase da noite - "Talvez erro da sua geração tenha sido abdicar da 'dúvida' - de certo modo responde a Luca, ao afirmar que, em cada conquista de um fraco diante de um forte, o pai dele está presente.
Como Vianninha já declarou, Rasga coração é de fato uma "homenagem ao lutador anônimo político". O dramaturgo acreditava que "revolucionária" é a luta do cotidiano, "feita de cotidiano", "a descoberta do mecanismo mais secreto do cotidiano, que só sua vivência pode revelar". Ele acreditava e eu acredito.
Aviso aos amigos botafoguenses que, não obstante ter o mesmo sobrenome, o bandeirinha que ajudou a levar a decisão para os pênaltis não é meu parente.
Como a pauta do jornal voltou a ser mais global, não privilegiando apenas as questões afeitas ao meio jurídico, vou avisar aqui sempre que a Tribuna do Advogado tiver nova edição, para eventuais interessados. Pois o número do mês de maio já está disponível na página da OAB/RJ na internet, trazendo matéria de capa sobre a crise enfrentada pelo Judiciário e deflagrada pela Operação Furacão, que revelou indícios de ligação entre o crime organizado e a Justiça. Na seção Pontocontraponto, o governador Sérgio Cabral e o secretário de Valorização da Vida e Prevenção da Violência de Nova Iguaçu, Luiz Eduardo Soares, opinam sobre a proposta de convocação das Forças Armadas para combater a violência no Rio. Leia aqui.
Outro destaque é a entrevista coletiva que eu, Cid Benjamin e a repórter Renata Albinante fizemos com o cientista político Paulo Jorge Ribeiro e o advogado Cláudio Pereira. A dupla integrou a comitiva do governo estadual que visitou a Colômbia para conhecer o elogiado projeto de combate à criminalidade implementado no país. A seção Entrevista reproduz a conversa que tive com a promotora Fabiana Barreto Costa, pesquisadora que realizou estudo sobre o excesso de prisões provisórias no Brasil.
Digna e corajosa a atitude do costumeiramente execrado Paulo Coelho ao criticar, em artigo publicado na Folha de. S. Paulo, a atitude mesquinha de Roberto Carlos com relação à biografia escrita por Paulo César de Araújo. No texto, Coelho confessa a admiração pela destronado "Rei", mas não hesita em qualificar sua atitude de "infantil". A postura do escritor é ainda mais admirável porque, embora seja ele próprio alvo preferencial de muitos ataques, ainda assim não forma fileira ao lado de Roberto em nome de uma "invesão de privacidade" que é altamente questionável. Segue, na íntegra, o artigo:
"O que é "contexto desfavorável"?"
Paulo Coelho
"Tenho uma grande admiração por Roberto Carlos -recentemente, um dos mais importantes programas da BBC Radio me perguntou a lista de cinco discos que eu levaria para uma ilha deserta, e incluí um dos seus. E, apesar dos problemas normais decorrentes de uma relação profissional, tenho um grande respeito pela editora Planeta, que publica minhas obras no Brasil e em vários países de língua espanhola.
Dito isso, é com grande tristeza que leio nos jornais que, na 20ª Vara Criminal da Barra Funda, em São Paulo, os advogados do cantor Roberto Carlos e da editora Planeta fizeram um acordo que prevê a interrupção definitiva da produção e comercialização da biografia não-autorizada "Roberto Carlos em Detalhes", do jornalista e historiador Paulo Cesar Araújo. O editor diz um disparate para salvar a honra, o cantor não diz nada e o autor fica proibido de dar declarações a respeito. E estamos conversados.
Estamos conversados? Não, não estamos, e tenho autoridade para dizer isso. Tenho autoridade porque, desde que publiquei meu primeiro livro, tenho sido sistematicamente atacado. Creio que qualquer pessoa em seu juízo normal sabe que, a partir do momento em que sua carreira se torna pública, está exposta a ter sua vida esquadrinhada, suas fotos publicadas, seu trabalho louvado ou enxovalhado pelos críticos. Isso faz parte do jogo e vale para escritores, políticos, músicos, esportistas. Nem sempre essas críticas são justas e, muitas vezes, descambam para ataques pessoais.
Recentemente, um jornalista da mais importante revista brasileira disse que "Paulo Coelho não é apenas mais um mau escritor: seu obscurantismo é nocivo. Não se deve perdoá-lo pelo sucesso". Não sei o que estava propondo com essa frase, e não me interessa. Poderia alegar que minha honra está sendo atacada, que me acusa de ser um perigo para meu país, que deseja que eu seja preso. Mas vejo essas diatribes com outra ótica: elas fazem parte do jogo. A única coisa que não faz parte do jogo é a calúnia, e, pelo que me consta, isso não foi tema da ação judicial que levou à proibição de "Roberto Carlos em Detalhes".
Até hoje, desde que publiquei "O Diário de um Mago", há 20 anos, vi milhares de críticas negativas, mas apenas duas ou três calúnias a meu respeito, graças a Deus. Não me dei ao trabalho de contra-atacar porque não achei que valia a pena, embora me reserve esse direito se algo muito sério acontecer. Recentemente, em um jornal espanhol de primeiríssima linha, simplesmente inventaram uma resposta a uma pergunta a que havia me recusado responder. Claro, enviei uma carta ao diretor, e o jornalista teve que arcar com as conseqüências.
Estou pronto para defender minha honra, mas não vou perder um minuto do meu dia telefonando para um advogado e procurando saber o que faço para defender minha vida privada, já que ela não mais me pertence.
Diz o velho ditado: "Quem está no fogo é para se queimar". Eu acrescento: Quem está no fogo é para ajudar a fogueira a brilhar mais ainda. Não adianta o meu editor declarar que fez o acordo "porque o contexto era desfavorável". Ele precisa vir a público explicar qual é esse contexto -ou seja, se estamos falando de calúnia. Neste caso, tem meu apoio integral, pois calúnia é sinônimo de infâmia. Mas, caso contrário, está colaborando para que comece a se criar um sério precedente - a volta da censura.
Roberto Carlos tem muito mais anos na mídia do que eu; já devia ter se acostumado. Continuarei comprando seus discos, mas estou extremamente chocado com sua atitude infantil, como se grande parte das coisas que li na imprensa justificando a razão da "invasão de privacidade" já não fosse mais do que conhecida por todos os seus fãs.
Também continuarei sendo editado pela Planeta, pois temos contratos assinados. Mas insisto: gostaria que minha editora, dinâmica, corajosa, se instalando agora no Brasil, explicasse a todos nós, brasileiros, o que significa esse tal de "contexto desfavorável".
Desfavorável é fazer acordo a portas fechadas, colocando em risco uma liberdade reconquistada com muito sacrifício depois de ter sido seqüestrada por anos a fio pela ditadura militar.
E não entendo por que você, Paulo Cesar Araújo, "se comprometeu a não fazer, em entrevistas, comentários sobre o conteúdo do livro no que diz respeito à vida pessoal do cantor" (Ilustrada, 28/4). Não é apenas o seu livro, cujo destino foi negociado entre quatro paredes, que está em jogo. É o destino de todos os escritores brasileiros neste momento.
Não sei se vou ter as explicações que pedi. Mas não podia ficar calado, porque isso que aconteceu na 20ª Vara Criminal da Barra Funda me diz respeito, já que desrespeita minha profissão de escritor."
"Sobre o lado esquerdo"
Carlos de Oliveira
"De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: 'o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração'".
P.S. Este poema é mais uma pérolas entre as tantas escondidas na Antologia da poesia portuguesa, organizada por Eugénio de Andrade.

Reestréia hoje no Rio uma dos mais divertidos espetáculos da temporada: Sassaricando - E o Rio inventou a marchinha.... Quem me conhece, sabe que não sou exatamente um grande fã de marchinhas (exceto aquelas mais dolentes, em geral com andamento de marcha-rancho), mas é impossível não sair radiante do teatro após as duas horas de prazer e história que a peça idealizada e dirigida por Sérgio Cabral e Rosa Maria Araújo. A dupla fez uma verdadeira arqueologia do gênero, compondo um repertório que mistura temas clássicos e composições praticamente desconhecidas.
No elenco, brilham os amigos Pedro Paulo Malta (que faz uma hilária e jocosa imitação de Hitler) e Alfredo Del Penho, além de Eduardo Dussek, Sabrina Kogut, Juliana Diniz e a talentosíssima Soraya Ravenle. Pepê, aliás, é destaque: para quem, como eu, acompanha suas perfomances no palco já há algum tempo, é impressionante a evolução. Aquele que era inicialmente um bom cantor está se transformando num artista completo. E tem arregimentado fãs até mesmo em áreas aonde talvez nunca imaginasse chegar: ao recomendar Sassaricando, a revista G Magazine o elegeu como um dos "cinco motivos" para se conferir a peça.
Outra ótima pedida é o show em homenagem a Noel Rosa, para o qual a amiga Nilze Carvalho convida. Será amanhã, às 20h, de graça, na Rua 28 de setembro (próximo ao Petisco), em Vila Isabel. Nilze se apresentará ao lado de Cristina Buarque, Roberto Silva e Marcos Sacramento.
O filme é bom, bem interessante mesmo, e me despertou a vontade de ler o livro que o originou. Há ótimas tiradas, o roteiro é enxuto na medida certa e a direção de arte, um primor. Além disso, as interpretações de Selton Mello, como o protagonista escroto e amoral, e de Lorenço Mutarelli (autor do romance), como seu segurança, são realmente de impressionar. Mas algo me perturbou em O cheiro do ralo.
Talvez tenha sido o fato de o filme repetir o cacoete que é uma tendência entre nossos diretores mais jovens, muitos deles altamente qualificados: mimetizar o clima "descolado" do cinema independente norte-americano. Repete-se, aqui, algo que começou a acontecer lá nos EUA já há alguns anos: a necessidade de dar um verniz "muderno" às imagens acaba diluindo histórias a princípio engenhosas.
Em O cheiro do ralo, felizmente isso não chega a acontecer. Mas realmente me incomodaram certas firulas que tentam chancelá-lo com um jeitão 'indie', como se a esquisitice do personagem principal - e daqueles que o cercam - não bastassem por si só. Essa hiper-estilização, em geral, costuma esconder falta de substância. Não é o caso, repito. No entanto, ao se valer dela, o diretor Heitor Dhalia parece querer sugerir uma profundidade que o filme não tem - e da qual pode prescindir para ser bacana.
Lamentável, sob qualquer aspecto, a postura de Roberto Carlos no embróglio em torno da publicação de sua biografia, escrita por Paulo César Araújo - que, a tirarmos pelo estudo anterior, o ótimo Eu não sou cachorro não, é pesquisador sério. Após ajuizar contra a editora Planeta e o autor do livro, solicitando o imediato recolhimento de toda a tiragem. Como informa matéria recentemente publicada na Folha de S. Paulo e em outros jornais, o que prometia ser uma longa pendenga judicial foi interrompido porque houve acordo entre as partes.
Mas a foto de Paulo César, tirada logo após a audiência, demonstra seu desapontamento com o resultado desse "acordo": nos olhos vermelhos de choro, ficava patente a profunda decepção de ver uma pesquisa de 15 anos simplesmente se esfarelar.
Pelo que conta a reportagem, o autor chegou a propor que fosem suprimidos os trechos com os quais Roberto Carlos particularmente implicou (e, vale dizer, em nenhum momento, os argumentos do "Rei" basearam-se na suposta falsidade das informações). Nem assim o cantor assentiu. Parece ter esquecido de que é figura pública, com ônus e bônus. Pelo menos neste espisódio, Roberto deixou claro que (com trocadliho) faz na vida pública o mesmo que faz na privada.