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Werneck e o caso Boimate Escrito em 17 de abril de 2007
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Foi muito bacana a mesa de abertura do Colóquio Jornalismo Cultural, que aconteceu ontem, dentro do programa Rumos Itaú Cultural. A pauta proposta para Ruy Castro e Humberto Werneck era falar sobre suas experiências com o jornalismo literário, mas o papo - felizmente - foi muito além do protocolo. Com bom humor, os dois criticaram o atual panorama do jornalismo brasileiro, sobretudo o feito pelas revistas semanais.

Ruy disse ainda que, apesar ter escrito a biografia de Nelson Rodrigues, o homenageado na edição deste ano, não foi convidado para a Flip. "A parte da família dele que domina hoje a obra não deve ter deixado", especulou. Mas as tiradas mais hilárias da noite foram mesmo de Werneck - que, aliás, é autor de um livro interesantíssimo, O desatino da rapaziada, no qual analisa toda uma geração de escritores/jornalistas nascidos em Minas Gerais.

Werneck criticou a preguiça da maioria dos que fazem parte hoje das redações. "O Google devia ganhar o Prêmio Esso", comentou ele, pegando ainda mais pesado com a Veja. Parafraseando com mordacidade a célebre frase de Pirandello, Werneck afirmou que os repórteres da revista já saem para suas entrevistas "com aspas à procura de um autor". Ou seja, que não há, na verdade, apuração jornalística, e sim uma busca por decalarações que se encaixem na pauta em direção pré-estabelecida. Concordo com ele.

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O escritor lembrou ainda a hilária história do Boimate. Não sei se vocês conhecem, por isso vou repetir aqui. Em 1983, um repórter da Veja leu na revista New Cientist que pesquisadores da Universidade de Hamburgo haviam conseguido compatibilizar células do boi e do tomate. O incauto só não sabia que a New Science costumava, na passagem do 1º de abril, publicar uma matéria falsa em meio ao demais textos.

Curiosamente, para dar pistas da brincadeira, a New Science nomeara os cientistas que teriam feito a descoberta de Mr. Barry Mc Donald e Mr. William Wimpey, aludindo às duas redes americanas de fast-food (McDonald´s e Wimpy´s). Além disso, havia a referência à Universidade de Hamburgo (hamburguer?).

Mas o repórter não se tocou. E faz mais: inventou o termo "Boimate" para batizar o resultado do trabalho dos cientistas, providenciou um gráfico para ilustrar o feito e entrevistou um biólogo da USP, que, desconhecendo o assunto, fez comentários genéricos e condicionais. Na hora da edição, esses comentários viraram firmes assertivas. Afinal, era preciso dar uma matéria ainda melhor do que a da revista inglesa. A história foi denunciada pelo Estado de S. Paulo dias depois. Mas a errata da Veja só chegou a público dois meses mais tarde.

P.S. Hoje, o Colóquio terá dois painéis: 'O jornalismo cultural no ciberespaço', às 18h, com Beatriz Ribas, Juremir Machado da Silva e Mario Lima Cavalcanti, e 'A cultura na imprensa', às 20h, com Mário Marques, Mauro Ventura e Gustavo de Castro. Vale lembrar que o evento acontece no Centro Cultural da Justiça Federal e tem entrada gratuita.

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