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Do Castello para o Henrique Escrito em 24 de abril de 2007
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Reparando (com sobras) as injustas críticas de Renato Rezende em sua infeliz resenha para o Prosa & Verso (O Globo), José Castello cobriu de elogios o recém-lançado A musa diluída, do amigo Henrique Rodrigues, em artigo publicado no jornal Rascunho deste mês. O também poeta Rezende havia castigado o livro sobretudo pelo fato de os poemas dialogarem com a tradição "de forma diluidora". Além disso, o resenhista ponderava que Henrique manteria uma "postura distanciada" dos temas que aborda.

É evidente que discordo radicalmente da visão de Rezende. Se há diálogo com a tradição - e há - este diálogo é criativo e, de certo modo, "atualiza" questões, dando-lhes novos prismas. Parece-me que, em suas considerações, Rezende confundiu o uso da forma (muitas vezes "fixa", o que hoje bizarramente se considera demodê) com a premência do conteúdo. Acusar o livro de falta de visceralidade, sinceramente, é fazer uma má leitura.

Na Carta de um aprendiz, Castello atinge o coração do livro - e, principalmente, respeita as opções estéticas do autor, pressuposto básico a partir do qual deve partir uma boa resenha. Chega a afirmar que A musa diluída levou-o "à posição de perplexidade, dúvida e desamparo que define o leitor", que sua leitura "deixa seqüelas, abre feridas, perfura, deixa rombos".

O texto merece ser lido na íntegra. Posto, abaixo, um pequeno trecho a título de 'couvert'.

"(...) minha solidão de leitor se agrava quando leio um escritor pela primeira vez. E foi assim, na mais absoluta solidão e sentindo uma inquietação difusa, mal-estar de quem não sabe bem onde pisa, Henrique, que li seu A musa diluída. Apresso-me a defender, aqui, minha posição de aprendiz. Pensa-se, em geral, que o crítico experiente (mas eu seria mesmo tal coisa?) tem, sempre, muitas coisas a dizer, conselhos a transmitir, conclusões a reter, lições a dar. O crítico seria o mestre, que clareia e orienta; o jovem poeta, o discípulo, que sorve um pouco de sua luz, e com ela se fortalece. Esta é uma idéia descabida, que inverte por completo o que é uma leitura e, o que considero mais grave, deprecia a literatura, reduzindo-a à noção de um bom desempenho. Todo leitor é sempre um aprendiz. É o leitor quem se expõe ao abalo da escrita, é ele quem se deixa convulsionar pelas palavras, é ele quem "sofre" do que lê.

E é essa a posição, de quem "sofre" de literatura, que desejo conservar. E foi a partir dela, e não por uma gentileza minha, ou qualquer outra estupidez, mas porque não poderia de fato ser de outra maneira, que li seu livro. Um livro que, atestando a potência da literatura, só agravou meu sentimento de solidão. Pior para mim, leitor - e melhor para o livro. Porque o leitor, eu penso, sempre leva a pior. Daí o fracasso dos que classificam livros, dos que lhes atribuem notas, ou submetem a julgamentos. É o contrário: é o livro que "enquadra" o leitor, é ele que o submete.

Seu livro, Henrique, me deu muitos sustos - e é isso o que importa aqui relatar. Primeiro susto: um jovem poeta, na primeira década do século 21, que escreve para falar de musas, que pratica sonetos, que se preocupa com os rigores da métrica. Um poeta, ainda, que, na contracorrente dos modismos e das imposições de grupos, e sem se intimidar pelos procedimentos de consagração, não se interessa pelas novidades rápidas, pelo prazer fugaz da ruptura, pelo escândalo intelectual. Não posso negar que, num primeiro momento, cheguei a pensar: de que exatamente esse rapaz foge? Por que se recusa a sincronizar com seu tempo, a dialogar com seus pares, por que se põe na posição de fugitivo?

Aí, antes que eu pudesse responder a essas perguntas, me veio o segundo susto: ainda que aferrado a uma estratégia do recuo, eu descobri, Henrique, você não se recusa a enfrentar o mundo e o presente. Ao contrário: você faz uma meia-volta, simula um passo atrás para, na verdade, avançar - avançar ainda mais que tantos poetas para quem basta uma linguagem de ponta para que o futuro surja, ato contínuo, logo à frente.

Dias antes de abrir A musa diluída, Henrique, eu lia uma longa entrevista, transformada em livro, do escritor António Lobo Antunes, o mais inquieto ficcionista português. Celebrado por sua linguagem radical e por sua destemperança intelectual, Lobo Antunes, nem por isso, se esquiva de dizer que o Ulisses, de Joyce, a grande obra que divide a literatura modernista ao meio, o "aborrece". Diz, com uma serenidade assustadora, que só confirma sua grandeza: "Com Joyce, estamos sempre a sentir a sua habilidade, a sua perícia como escritor é-nos imposta e estamos todo o tempo a notar que é ele, o próprio Joyce, que está por detrás de tudo". E conclui, aniquilando o mito do escritor bem equipado: "Não és tu que tens de ser inteligente, é o livro que tem de o ser".

Dias depois, lá estava eu a ler A musa diluída, Henrique, e as palavras de Lobo Antunes ecoavam atrás de cada linha. E, a cada passo, a cada página, eu me impressionava, mais e mais, com a coragem que descobria em você. Não é fácil assumir a posição que você escolheu - de independência, de liberdade para repisar caminhos antigos, ou para avançar em direções vedadas. Não é fácil, não deve ser nada confortável, mas é a única maneira de ser livre. Em outras palavras: é a única maneira que alguém tem de se tornar um escritor (...)"

P.S. Hoje, às 18h, estarei no Colóquio Literatura do Rumos Itaú Cutural, ao lado de Beatriz Resende e Flávio Carneiro. Espero vocês por lá!

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