
Hoje, se vivo, Manuel Bandeira festejaria seus 121 anos. Bandeira é um de meus poetas preferidos, sobretudo pelo caráter despojado de sua poesia, que nunca prescindiu de grandes malabrismos formais para escavar, no cinza dos dias, cores insuspeitas. Em O último poema, ele acena para a busca que sempre norteou sua trajetória, ao desejar que seu derradeiro escrito "fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais", "ardente como um soluço sem lágrimas", e tivesse ao mesmo tempo "a beleza das flores quase sem perfume" e "a paixão dos suicidas que se matam sem explicação".
Das muitas poesias de Bandeira - que, aliás, inspiraram o ótimo Um beijo de Colombina, romance da amiga Adriana Lisboa -, Lua nova talvez seja a de que mais gosto. O verso "Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir" é de uma potência impressionante, e o poema guarda um traço emblemático da obra do autor: aquela tristeza trágica que não diz repeito a um fato determinado, mas à própria dimensão humana - a estarmos aqui, cientes da morte, e ainda assim renascendo a cada dia.
"Lua Nova"
Manuel Bandeira
"Meu novo quarto
Virado para o nascente:
Meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.
Depois de dez anos de pátio
Volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mônstruo incruento das madrugadas.
Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
- Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.
Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova."
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