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Ubaldo na cabeça Escrito em 30 de abril de 2007
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O romance Viva o povo brasileiro foi eleito, em votação promovida pelo Sérgio Rodrigues no blog Todo prosa, como o grande livro da ficção brasileira dos últimos 25 anos. No pleito, foram consultados 53 escritores, críticos e editores, entre eles este que vos escreve (e que, por sinal, escolheu Quase memória, do Cony).

Não fiquei surpreso com a vitória de Ubaldo. Talvez seja mesmo o livro mais representativo dentro desse recorte, e meu voto no Cony foi absolutamente pessoal. Mas me espantei de ver, na listagem final, nomes como, por exemplo, o de Marcelo Mirisola.

E Quase memória acabou sendo vice, dividindo o segundo lugar com Dois irmãos, de Milton Hatoum. Na quarta posição, houve outro empate, só que triplo, entre Aqueles cães malditos de Arquelau, de Isaías Pessotti, A senhorita Simpson, de Sérgio Sant’Anna, e Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu. O restante da lista, que segue abaixo, comprova uma natural pulverização dos votos, mas ainda assim oferece um interessante panorama da literatura brasileira contemporânea.

“A coleira no pescoço” (Menalton Braff)
“A face horrível” (Ivan Ângelo)
“Ah, é?” e “234” (Dalton Trevisan)
“À mão esquerda” (Fausto Wolff)
“A república dos sonhos” (Nélida Piñon)
“As mulheres de Tijucopapo” (Marilene Felinto)
“Aspades, ETs etc.” (Fernando Monteiro)
“A vitória da infância” (Fernando Sabino)
“Comédias da vida privada” (Luis Fernando Verissimo)
“Curva de rio sujo” (Joca Reiners Terron)
“Dentes guardados” (Daniel Galera)
“Diana caçadora” (Marcia Denser)
“Fátima fez os pés para mostrar na choperia” e “O azul do filho morto” (Marcelo Mirisola)
“Memorial de Maria Moura” (Rachel de Queiroz)
“O alquimista” (Paulo Coelho)
“Onde andará Dulce Veiga?” (Caio Fernando Abreu)
“O nome do bispo” (Zulmira Ribeiro Tavares)
“Os dias do demônio” (Roberto Gomes)
“O vôo da madrugada” (Sérgio Sant’Anna)
“Relato de um certo Oriente” (Milton Hatoum)
“Um táxi para Viena d’Áustria” (Antonio Torres)
“Vastas emoções e pensamentos imperfeitos” (Rubem Fonseca)
“Vésperas” (Adriana Lunardi)

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Blog do Hermínio Escrito em 29 de abril de 2007
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Fiquei sabendo, através do amigo Marceu Vieira, que já está no ar o blog Acervo do Hermínio, que disponibiliza material dos riquíssimos arquivos de Hermínio Bello de Carvalho. O blog traz, por exemplo, informações e faixas do disco Marinheiro só, de Clementina de Jesus, fotos do casamento de Cartola com Dona Zica e reproduções fac-símile do programa do mítico show Rosa de Ouro. Ou seja, é um paraíso para pesquisadores ou quem simplesmente se interessa pela história da nossa música. A iniciativa, observa o Marceu, tem patrocínio da Petrobras (sempre vale ressaltar esse apoio fundamental), e representa o pontapé inicial da idéia mais ampla: armazear todo o conteúdo do baú de Hermínio num site de acesso gratuito.

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A próxima vítima Escrito em 27 de abril de 2007
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No próximo domingo, o programa Cadernos de Cinema (TVE) vai exibir A próxima vítima, interessante misto de policial, documentário e drama político dirigido por João Batista de Andrade, com roteiro de Lauro Cesar Muniz. O filme conta as desventuras do repórter Davi (Antonio Fagundes) ao investigar o caso de um maníaco de assassina prostituras no bairro paulistano do Brás e marca a estréia de Mayari Magri (que, aliás, está linda nas imagens) no cinema. Como pano de fundo, estão os incipientes movimentos da abertura política, com as eleições de 1982.

Após a exibição (que começa à meia-noite), o filme será debatido por Jorge Antonio Barros, editor adjunto de O Globo e titular do blog Repórter do Crime; Marcílio Moraes, autor da novela Vidas opostas; Daniel Schenker, crítico de cinema; e por este que vos escreve.

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39 autores com menos de 39 Escrito em 27 de abril de 2007
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A amiga Adriana Lisboa (foto) me avisou ontem que foi selecionada (com todo o merecimento, aliás) entre os 39 mais destacados jovens autores da América Latina com menos de 39 anos. A lista, que certamente vai provocar polêmica como toda seleção entre escritores, inclui ainda os brasileiros João Paulo Cuenca, Santiago Nazarian e Veronica Stigger. Esta, uma contista gaúcha praticamente desconhecida no resto do país, estará na Flip, muito graças à aposta que sua nova editora, a Cosac Naify, está fazendo no nome dela.

O pleito foi promovido pela Secretaria de Cultura de Bogotá, eleita a Capital Mundial do Livro de 2007, e pelo Hay Festival, que acontece em Cartagena das Indias. Participaram da votação duas mil pessoas, entre editores, agentes literários, autores e leitores, como informa o blog Prosa OnLine. Os 39 escolhidos de 17 países latino-americanos foram selecionados por um júri formado pelos escritores colombianos Óscar Collazos, Piedad Bonnet e Héctor Abad Faciolince, resposáveis pela seleção final. Leia aqui a relação completa dos laureados e, caso quisera, diga nos comentários que escritores brazucas faltaram na lista.

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No Itaú Cultural Escrito em 25 de abril de 2007
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Foram muito bacanas as discussões (e os papos pós-debate no bar) da primeira edição do Colóquio Literatura / Rumos Itaú Cultural no Rio. Calouríssimo, claro que me enrolei todo na hora de falar ao lado de dois bambas das letras, como a Beatriz Resende (que afirmou que " a crítica acadêmica não existe") e o Flavio Carneiro, professor que sempre encanta ao se expressar em público. Definitivamente, minha praia é a palavra escrita.

Sem muita sistematização, comentei sobre o duplo ofício de escritor e resenhista e sobre o trabalho dos suplementos literários, com alguns elogios e críticas sobretudo ao fato de cada vez mais se adequarem à lógica do jornalismo em geral, solapando a imaginação em nome do "gancho". Também revelei o quanto foi importante para meu trabalho literário a resenha que, logo após lançar meu livro anterior (Memória dos barcos), o Flavio Carneiro escreveu no Jornal do Brasil. Em meio a elogios, ele observara no texto que havia em meus contos uma tendência a deixar a voz do autor aflorar - o que é uma das coisas que mais me irrita como leitor. Procurei com o tempo consertar isso, lembrando que este talvez seja o papel mais relevante de uma análise crítica: servir de reflexão para quem foi responsável pela obra.

Agradeço em público à Paula Barcellos (curadora do colóquio e medidora da mesa da qual participei) pelo convite. A torcida agora é que o evento se repita aqui na cidade mais vezes, dando novas opoprtunidades de ouvir gente como Moacyr Scliar, Miguel Sanches Neto, Alberto Mussa, Humberto Werneck, Ruy Castro e acadêmicos de primeiríssimo time, como o professor Lourival Holanda, que fez uma palestra absolutamente encantadora. Quem não foi, perdeu.

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Do Castello para o Henrique Escrito em 24 de abril de 2007
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Reparando (com sobras) as injustas críticas de Renato Rezende em sua infeliz resenha para o Prosa & Verso (O Globo), José Castello cobriu de elogios o recém-lançado A musa diluída, do amigo Henrique Rodrigues, em artigo publicado no jornal Rascunho deste mês. O também poeta Rezende havia castigado o livro sobretudo pelo fato de os poemas dialogarem com a tradição "de forma diluidora". Além disso, o resenhista ponderava que Henrique manteria uma "postura distanciada" dos temas que aborda.

É evidente que discordo radicalmente da visão de Rezende. Se há diálogo com a tradição - e há - este diálogo é criativo e, de certo modo, "atualiza" questões, dando-lhes novos prismas. Parece-me que, em suas considerações, Rezende confundiu o uso da forma (muitas vezes "fixa", o que hoje bizarramente se considera demodê) com a premência do conteúdo. Acusar o livro de falta de visceralidade, sinceramente, é fazer uma má leitura.

Na Carta de um aprendiz, Castello atinge o coração do livro - e, principalmente, respeita as opções estéticas do autor, pressuposto básico a partir do qual deve partir uma boa resenha. Chega a afirmar que A musa diluída levou-o "à posição de perplexidade, dúvida e desamparo que define o leitor", que sua leitura "deixa seqüelas, abre feridas, perfura, deixa rombos".

O texto merece ser lido na íntegra. Posto, abaixo, um pequeno trecho a título de 'couvert'.

"(...) minha solidão de leitor se agrava quando leio um escritor pela primeira vez. E foi assim, na mais absoluta solidão e sentindo uma inquietação difusa, mal-estar de quem não sabe bem onde pisa, Henrique, que li seu A musa diluída. Apresso-me a defender, aqui, minha posição de aprendiz. Pensa-se, em geral, que o crítico experiente (mas eu seria mesmo tal coisa?) tem, sempre, muitas coisas a dizer, conselhos a transmitir, conclusões a reter, lições a dar. O crítico seria o mestre, que clareia e orienta; o jovem poeta, o discípulo, que sorve um pouco de sua luz, e com ela se fortalece. Esta é uma idéia descabida, que inverte por completo o que é uma leitura e, o que considero mais grave, deprecia a literatura, reduzindo-a à noção de um bom desempenho. Todo leitor é sempre um aprendiz. É o leitor quem se expõe ao abalo da escrita, é ele quem se deixa convulsionar pelas palavras, é ele quem "sofre" do que lê.

E é essa a posição, de quem "sofre" de literatura, que desejo conservar. E foi a partir dela, e não por uma gentileza minha, ou qualquer outra estupidez, mas porque não poderia de fato ser de outra maneira, que li seu livro. Um livro que, atestando a potência da literatura, só agravou meu sentimento de solidão. Pior para mim, leitor - e melhor para o livro. Porque o leitor, eu penso, sempre leva a pior. Daí o fracasso dos que classificam livros, dos que lhes atribuem notas, ou submetem a julgamentos. É o contrário: é o livro que "enquadra" o leitor, é ele que o submete.

Seu livro, Henrique, me deu muitos sustos - e é isso o que importa aqui relatar. Primeiro susto: um jovem poeta, na primeira década do século 21, que escreve para falar de musas, que pratica sonetos, que se preocupa com os rigores da métrica. Um poeta, ainda, que, na contracorrente dos modismos e das imposições de grupos, e sem se intimidar pelos procedimentos de consagração, não se interessa pelas novidades rápidas, pelo prazer fugaz da ruptura, pelo escândalo intelectual. Não posso negar que, num primeiro momento, cheguei a pensar: de que exatamente esse rapaz foge? Por que se recusa a sincronizar com seu tempo, a dialogar com seus pares, por que se põe na posição de fugitivo?

Aí, antes que eu pudesse responder a essas perguntas, me veio o segundo susto: ainda que aferrado a uma estratégia do recuo, eu descobri, Henrique, você não se recusa a enfrentar o mundo e o presente. Ao contrário: você faz uma meia-volta, simula um passo atrás para, na verdade, avançar - avançar ainda mais que tantos poetas para quem basta uma linguagem de ponta para que o futuro surja, ato contínuo, logo à frente.

Dias antes de abrir A musa diluída, Henrique, eu lia uma longa entrevista, transformada em livro, do escritor António Lobo Antunes, o mais inquieto ficcionista português. Celebrado por sua linguagem radical e por sua destemperança intelectual, Lobo Antunes, nem por isso, se esquiva de dizer que o Ulisses, de Joyce, a grande obra que divide a literatura modernista ao meio, o "aborrece". Diz, com uma serenidade assustadora, que só confirma sua grandeza: "Com Joyce, estamos sempre a sentir a sua habilidade, a sua perícia como escritor é-nos imposta e estamos todo o tempo a notar que é ele, o próprio Joyce, que está por detrás de tudo". E conclui, aniquilando o mito do escritor bem equipado: "Não és tu que tens de ser inteligente, é o livro que tem de o ser".

Dias depois, lá estava eu a ler A musa diluída, Henrique, e as palavras de Lobo Antunes ecoavam atrás de cada linha. E, a cada passo, a cada página, eu me impressionava, mais e mais, com a coragem que descobria em você. Não é fácil assumir a posição que você escolheu - de independência, de liberdade para repisar caminhos antigos, ou para avançar em direções vedadas. Não é fácil, não deve ser nada confortável, mas é a única maneira de ser livre. Em outras palavras: é a única maneira que alguém tem de se tornar um escritor (...)"

P.S. Hoje, às 18h, estarei no Colóquio Literatura do Rumos Itaú Cutural, ao lado de Beatriz Resende e Flávio Carneiro. Espero vocês por lá!

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Rumos Itaú Cultural - Colóquio Literatura Escrito em 20 de abril de 2007
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Nas próximas segunda e terça, vai rolar o Colóquio de Literatura do projeto Rumos Itaú Cultural aqui no Rio de Janeiro. Com entrada gratuita, o evento acontecerá no Centro Cultural da Justiça Federal (A, Rio Branco, 241, próximo à Cinelândia) e colocará em discussão os cânones, a conteporaneidade e o papel da crítica literária. Alberto Mussa, Miguel Sanches Neto, Silviano Santiago, Beatriz Resende e Moacyr Scliar serão alguns dos expositores. Vou participar do painel Importância da crítica na ficção contemporânea, na terça, às 18h. Segue a programação completa:

Segunda

18h - A crítica literária como criação artística
Encontro que vai discutir o limite entre a reflexão literária e a produção de uma nova obra e se ao fazer a releitura de determinada obra o crítico-escritor ou escritor-crítico não acaba fazendo uma nova criação. Com Antonio Fernando Borges, Alberto Mussa e Lourival Holanda. Mediação: Renato Cordeiro Gomes

20h - Os valores da literatura e a contemporaneidade
Três importantes nomes da crítica e da literatura contemporânea discutem o papel e a relevância do universo literário na sociedade. A forte interferência da tentativa de captar uma realidade na literatura também estará em debate.. Com Miguel Sanches Neto, Silviano Santiago e Vera Lucia Follain de Figueiredo. Mediação: Maria Esther Maciel.

Terça

18h - Importância da crítica na ficção contemporânea
A relação entre críticos e escritores: como uma boa crítica reflete na obra do autor. Uma análise da crítica literária produzida nos jornais, na academia e pelos próprios escritores. Com Beatriz Resende, Flávio Carneiro e Marcelo Moutinho. Mediação: Paula Barcellos

20h - Cânones da Literatura Brasileira
Questão polêmica na literatura universal, os participantes desta mesa discutem até que ponto a instituição do cânone não inibe novas reflexões acadêmicas e qual o papel do cânone na produção da crítica e da literatura contemporânea? Com Alcides Cardoso dos Santos, Moacyr Scliar e Leda Tenório da Motta. Mediação: Marco Lucchesi

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Poetas portugueses Escrito em 20 de abril de 2007
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Enfim comecei a me debruçar mais detidamente sobre o livro que ganhei de meu amigo Nuno. Morador da linda cidade do Porto, ele sabe de minha paixão pelo trabalho de Eugènio de Andrade e me mandou a Antologia pessoal da poesia portuguesa. Trata-se de um volume com quase 600 páginas, no qual Eugènio faz a particularíssima lista de poemas prediletos na história da literatura lusa.

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A antologia tem me permitido fazer descobertas, sobretudo de autores modernos e contemporâneos. Um deles é Mário Cesariny (na foto, com Eugènio), que aqui apresento a vocês com o Poema podendo servir de posfácio.

"Poema podendo servir de posfácio"

Mário Cesariny

"ruas onde o perigo é evidente
braços verdes de práticas ocultas
cadáveres à tona de água
girassóis
e um corpo
um corpo para cortar as lâmpadas do dia
um corpo para descer uma paisagem de aves
para ir de manhã cedo e voltar muito tarde
rodeado de anões e de campos de lilases
um corpo para cobrir a tua ausência
como uma colcha
um talher
um perfume

isto ou o seu contrário, mas de certa maneira hiante
e com muita gente à volta a ver o que é
isto ou uma população de sessenta mil almas
devorando almofadas escalrates a caminho
do mar
e que chegam
ao crepúsculo
encostados aos submarinos
isto ou um torso desalojado de um verso
e cuja morte é o orgulho de todos
ó pálida cidade construída
como uma febre entre dois patamares!
vamos distribuir ao domicílio
terra para encher candelabros
leitos de fumo para amantes erectos
tabuinhas com palavras interditas
- uma mulher para este que está quase a perder
o gosto da vida - tome lá -
dois netos para essa velha aí no fim da fila - não
temos mais -
saquear o museu para dar um diadema ao mundo e depois
obrigar a repor no mesmo sítio
e para ti e para mim, assentes num espaço útil,
veneno para entornar nos olhos do gigante

isto ou um rosto um rosto solitário como barco em
demanda de vento calmo para a noite
se nós somos areia que se filtre
a um vento débil entre arbustos pintados
se um propósito deve atingir a sua margem como
as correntes de terra náufragos e tempestades
se o homem das pensões e das hospedarias levante
a sua fronte de cratera molhada
se na rua o sol brilha como nunca
se por um minuto
vale a pena
esperar
isto ou a alegria igual à simples forma de um pulso
aceso entre a folhagem das mais altas lâmpadas
isto ou a alegria dita o avisão das cartas
entrada pela janela saída pelo telhado

ah mas então a pirâmide existe?
ah mas e então a pirâmide diz coisas?
então a pirâmide é o segredo de cada um com
o mundo?

sim meu amor a pirâmide existe
a pirâmide diz muitíssimas coisas
a pirâmide é a arte de bailar em silêncio

e em todo o caso

há praças onde esculpir um lírio
zonas subtis de propagação ao azul
gestos sem dono barcos sob as flores
uma canção para ouvir-te chegar."

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Bandeira, 121 Escrito em 19 de abril de 2007
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Hoje, se vivo, Manuel Bandeira festejaria seus 121 anos. Bandeira é um de meus poetas preferidos, sobretudo pelo caráter despojado de sua poesia, que nunca prescindiu de grandes malabrismos formais para escavar, no cinza dos dias, cores insuspeitas. Em O último poema, ele acena para a busca que sempre norteou sua trajetória, ao desejar que seu derradeiro escrito "fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais", "ardente como um soluço sem lágrimas", e tivesse ao mesmo tempo "a beleza das flores quase sem perfume" e "a paixão dos suicidas que se matam sem explicação".

Das muitas poesias de Bandeira - que, aliás, inspiraram o ótimo Um beijo de Colombina, romance da amiga Adriana Lisboa -, Lua nova talvez seja a de que mais gosto. O verso "Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir" é de uma potência impressionante, e o poema guarda um traço emblemático da obra do autor: aquela tristeza trágica que não diz repeito a um fato determinado, mas à própria dimensão humana - a estarmos aqui, cientes da morte, e ainda assim renascendo a cada dia.

"Lua Nova"

Manuel Bandeira

"Meu novo quarto
Virado para o nascente:
Meu quarto, de novo a cavaleiro da entrada da barra.

Depois de dez anos de pátio
Volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mônstruo incruento das madrugadas.

Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir:
Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
- Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula.
O que eu mais quero,
O de que preciso
É de lua nova."

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Carta ao Zézim Escrito em 18 de abril de 2007
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(...) Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas. (...)

O trecho foi retirado de uma correspondência enviada por Caio Fernando Abreu ao amigo que chamava carinhosamente de Zézim e publicada no volume 'Cartas' (organizado por Iatlo Moriconi). Caio, um autor que continua a me emocionar, refere-se evidentemente à escritura do conto que daria título ao clássico 'Morangos mofados', um de seus melhores livros. O texto da carta é uma verdadeira oficina de literatura para quem pretende escrever ficção. Você pode conferir na íntegra aqui.

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Relações perigosas Escrito em 17 de abril de 2007
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Novamente, o amigo Carlos Andreazza acerta a mão em seu artigo no site Tribuneiros. Desta vez, suas corretíssimas críticas voltam-se para as relações perigosas entre a Prefeitura e a Liesa, sempre denunciadas aqui no Pentimento. O impecável texto do Andreazza é duro como o assunto pede. Posto, abaixo, dois pequenos trechos, mas recomendo a leitura na íntegra, que pode ser feita aqui.

"(...) A prefeitura do Rio de Janeiro entregou a organização do carnaval para uma entidade comandada por tipos fora-da-lei, sem meias-palavras, uma quadrilha, estão sob risco e de credibilidade já enlameada, muito além da validade pontual do desfile de 2007, os carnavais que passaram, bem como, nesta toada, os que virão – e lesados deverão se sentir todos: escolas que não vivem de recursos abandidados, empresas patrocinadoras, emissoras de rádio e tevê, a imprensa de modo geral, e cidadãos que compraram ingressos para uma disputa que, meses depois, aventa-se ficcional. (E bastava um pouco de responsabilidade pública)...

(...) Tempos antes do carnaval já pululavam boatos d´alcova segundo os quais, estava decidido, rebaixado seria o Império Serrano. Sem entrar na questão estritamente carnavalesca, esta de que o Império de fato não desfilou bem, quando o que quer que seja é organizado por mafiosos cujos tentáculos abarcam até desembargadores federais, fica fácil imaginar um encontro esfumaçado em que chefes contraventores, numa mesa de mogno imensa, sob meia-luz, decidem o que se vai dar meses e meses adiante.(...)"

"(...) A imprensa carnavalesca e os sambistas de modo geral também têm responsabilidade na legitimação dos bicheiros. É raro – raríssimo – encontrar jornalistas que critiquem, mesmo que apenas no plano da administração, o trabalho da Liesa, transparente como a parede maciça diante da qual escrevo.

Dependentes de pautas, de informações em primeira-mão, de credenciais e de convites para eventos, condescendentes e não menos preguiçosos, tratam esses bandidos como parceiros e, é incrível, até como benfeitores do carnaval, do qual na verdade se valem tão-só por lavanderia de dinheiro sujo. (...)"

"(...) Passa ano, vem ano, e eu experimento no carnaval aquele tipo de constrangimento tomado do outro, cuja cara-de-pau o impermeabiliza de qualquer bom-senso: Zeca Pagodinho, o grande sambista!, Boni, a velha cara da velha Globo, Julio Lopes, secretário estadual de Transportes, Rodrigo Maia, deputado federal e presidente do DEM, amigos e parentes do prefeito-virtual etc., tipos recorrentes do oba-oba momesco, todos a circular livremente pela avenida, abraçados a bandidos, felizes da vida ganha, sempre sob a lógica de privatizar os espaços públicos... (...)"

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Mais de mil livros Escrito em 17 de abril de 2007
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O amigo Raphael Vidal avisa que a Livraria Imperial, que fica dentro do Paço, acaba de comprar um lote com mais de mil livros de ficção brasileira e portuguesa, crítica literária, cultura popular e samba. Os volumes pertenciam a um professor de literatura e estão sendo cadastrados aos poucos no site Livreiros. Para visualizar os títulos, basta digitar "lote do professor Guaraná" no botão de busca.

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Werneck e o caso Boimate Escrito em 17 de abril de 2007
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Foi muito bacana a mesa de abertura do Colóquio Jornalismo Cultural, que aconteceu ontem, dentro do programa Rumos Itaú Cultural. A pauta proposta para Ruy Castro e Humberto Werneck era falar sobre suas experiências com o jornalismo literário, mas o papo - felizmente - foi muito além do protocolo. Com bom humor, os dois criticaram o atual panorama do jornalismo brasileiro, sobretudo o feito pelas revistas semanais.

Ruy disse ainda que, apesar ter escrito a biografia de Nelson Rodrigues, o homenageado na edição deste ano, não foi convidado para a Flip. "A parte da família dele que domina hoje a obra não deve ter deixado", especulou. Mas as tiradas mais hilárias da noite foram mesmo de Werneck - que, aliás, é autor de um livro interesantíssimo, O desatino da rapaziada, no qual analisa toda uma geração de escritores/jornalistas nascidos em Minas Gerais.

Werneck criticou a preguiça da maioria dos que fazem parte hoje das redações. "O Google devia ganhar o Prêmio Esso", comentou ele, pegando ainda mais pesado com a Veja. Parafraseando com mordacidade a célebre frase de Pirandello, Werneck afirmou que os repórteres da revista já saem para suas entrevistas "com aspas à procura de um autor". Ou seja, que não há, na verdade, apuração jornalística, e sim uma busca por decalarações que se encaixem na pauta em direção pré-estabelecida. Concordo com ele.

boimate.gif

O escritor lembrou ainda a hilária história do Boimate. Não sei se vocês conhecem, por isso vou repetir aqui. Em 1983, um repórter da Veja leu na revista New Cientist que pesquisadores da Universidade de Hamburgo haviam conseguido compatibilizar células do boi e do tomate. O incauto só não sabia que a New Science costumava, na passagem do 1º de abril, publicar uma matéria falsa em meio ao demais textos.

Curiosamente, para dar pistas da brincadeira, a New Science nomeara os cientistas que teriam feito a descoberta de Mr. Barry Mc Donald e Mr. William Wimpey, aludindo às duas redes americanas de fast-food (McDonald´s e Wimpy´s). Além disso, havia a referência à Universidade de Hamburgo (hamburguer?).

Mas o repórter não se tocou. E faz mais: inventou o termo "Boimate" para batizar o resultado do trabalho dos cientistas, providenciou um gráfico para ilustrar o feito e entrevistou um biólogo da USP, que, desconhecendo o assunto, fez comentários genéricos e condicionais. Na hora da edição, esses comentários viraram firmes assertivas. Afinal, era preciso dar uma matéria ainda melhor do que a da revista inglesa. A história foi denunciada pelo Estado de S. Paulo dias depois. Mas a errata da Veja só chegou a público dois meses mais tarde.

P.S. Hoje, o Colóquio terá dois painéis: 'O jornalismo cultural no ciberespaço', às 18h, com Beatriz Ribas, Juremir Machado da Silva e Mario Lima Cavalcanti, e 'A cultura na imprensa', às 20h, com Mário Marques, Mauro Ventura e Gustavo de Castro. Vale lembrar que o evento acontece no Centro Cultural da Justiça Federal e tem entrada gratuita.

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Cartola, o filme Escrito em 16 de abril de 2007
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Gosto quando um cineasta se arrisca ao fazer seu filme. Contando com ótimas imagens documentais (pesquisa da Beth Formagini) e com um espetacular protagonista, seria muito simples para Lírio Ferreira e Hilton Lacerda optar por um formato tradicional para narrar a vida de Cartola. Mas eles preferiram outros caminhos. Sem abrir mão de utilizar o rico material reunido, os dois decidiram pontuar o filme com rimas visuais entre as imagens do artista e as imagens da história - o que vem gerando elogios e críticas na mesma proporção.

O resultado dessa tentativa realmente é desigual. Se em alguns momentos o equilíbrio entre as seqüências é perfeito, em outros soa gratuito. No primeiro caso, está a utilização de cenas clássicas da filmografia nacional para localizar o período histórico do que se passa na vida de Cartola.

Referências à chanchada, a São Paulo S.A e a Terra em transe, além de marcos históricos como a eleição de Jânio, a construção de Brasília e a morte de Edson Luís, situam de forma criativa, pelo menos para o espectador mais experimentado, o contexto macro em que se dão os fatos narrados na tela. O problema é que as referências em determinadas passagens se disseminam de modo exagerado, quase que solapando o que deveria ser principal no filme: o protagonista.

No entanto, para além dessa questão, o documentário de Lírio e Lacerda traz imagens de emocionar: Cartola simplesmente caminhando pelo Centro da cidade, cantando ao lado de Elizete Cardoso, Nelson Cavaquinho no Zicartola, Donga e Pixinguinha no programa da Hebe - além, é claro, de excelentes depoimentos e das singularíssimas canção do poeta da Mangueira.

Chamo atenção para a deliciosa entrevista do produtor Pelão, responsável pelo primeiro disco lançados em vida por Cartola. Pelão lembra de que passou uma madrugada fazendo o circuito dos bares paulistanos até que encontrou Aluísio Falcão no Jogral. “Eu já estava como o diabo gosta”, diz Pelão, que se ajoelhou aos pés de Falcão, suplicando para produzir o LP de Cartola.

É o mesmo Pelão quem revela a decepção de Marcus Pereira ao ouvir, em primeira mão, o disco. “Ele reclamou de uns latidos de cachorro na gravação”, conta o produtor. Os latidos eram, na verdade, do som da cuíca de Marçal.

* Uma interessante discussão sobre o filme, que passa inclusive pela questão do jogo de imagens proposto pelos diretores, foi travada entre os amigos Carlos Alberto Mattos e Marcelo Janot no site Críticos.com. Vale conferir.

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Fiama Hasse Pais Brandão Escrito em 15 de abril de 2007
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"Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz".

* Achei esta poesia, como em geral acho boa poesia portuguesa, lá no blog Absorto, do Eduardo Graça...

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Resultado do carnaval Escrito em 15 de abril de 2007
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Então houve manipulação? E a Beija-Flor foi beneficiada? Não me digam...

E lembrar que muitos me ridicularizaram quando, em entrevista à coluna Gente Boa (O Globo), fiz referência ao poder absurdo e aos "critérios" da Liesa, que estão matando o carnaval.

E agora? O resultado final vale ou não vale?

Onde os dirigentes da Liesa vão se reunir para deliberar? Na cadeia?

Queira Deus (e a Justiça).

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Lô & Márcio Borges Escrito em 15 de abril de 2007
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"Trem de doido"

"Noite azul, pedra e chão
Amigos num hotel
Muito além do céu
Nada a temer, nada a conquistar
Depois que esse trem começa a andar, andar
Deixando pelo chão
Os ratos mortos na praça
Do mercado

Quero estar onde estão
Os sonhos desse hotel
Muito além do céu
Nada a temer, nada a combinar
Na hora de achar meu lugar no trem
E não sentir pavor
Dos ratos soltos na casa
Minha casa

Não precisa ir muito além dessa estrada
Os ratos não sabem morrer na calçada
É hora de você achar o trem
E não sentir pavor
Dos ratos soltos na casa
Sua casa"

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Torres no Leblon Escrito em 14 de abril de 2007
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O escritor Antonio Torres fala sobre seu mais recente romance, Pelo fundo da agulha, e a sua obra em geral em bate-papo marcado para a tarde de hoje, na Livraria Siciliano do Leblon. Quem já conferiu o desempenho do autor em debates e/ou palestras sabe bem que sua prosa é inteligente e divertida. A conversa começa às 17h, e a Siciliano fica na Av. Ataulfo d Paiva, 1.603 (próximo ao Baixo Leblon).

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Sejam bem-vindos Escrito em 11 de abril de 2007
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Antes de qualquer coisa, seja bem-vindos à nova casa do Pentimento. O blog - que morou em www.pentimentos.blogger.com.br até o Globo On grosseiramente nos despejar e que por mais de dois anos ficou muitíssimo bem hospedado na extensão zip.net - agora passa a integrar este site. Muda o cenário, mas o conteúdo continua o mesmo: comentários sem maiores pretensões sobre literatura, cinema, música, teatro, bares, boêmia, Rio de Janeiro e outros assuntos (des)necessários no dia após dia de todos nós.

Além do blog, porém, o site traz informações sobre os livros que escrevi e/ou organizei, resenhas literárias, críticas de cinema, contos, artigos, crônicas e uma sala de imprensa, que vai facilitar o trabalho dos coleguinhas. O conteúdo do antigo Pentimento continua no ar, em link logo aqui embaixo. Conto com vocês para fazermos deste espaço um canto tão bacana e agradável como foram os outros dois endereços do Pentimento.

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Murilo Rubião Escrito em 11 de abril de 2007
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Estou realmente impressionado com a literatura de Murilo Rubião. Já havia lido dois ou três textos da lavra do escritor mineiro, mas nesta semana devorei (em dois dias) O pirotécnico Zacarias, lançado pela Companhia das Letras. O volume traz dois breves estudos sobre a obra de Rubião, além de uma cronologia, mas a riqueza maior está mesmo nos contos, marcadamente fantásticos - o que evidencia que, em pleno florescer desse tipo de literatura na América Latina, os anos 40, tínhamos um digníssimo representante.

O conto que dá título ao livro é uma pequena obra-prima. Zacarias é um narrador-defunto, assim como o Brás Cubas de Machado de Assis, que simplesmente insiste em transitar entre os vivos, certo de que "sua capacidade de amar, de discernir as coisas", é bem superior à dos seres que por ele passam, "assustados". O ex-mágico da Tabera Minhota é outra pérola. O protagonista de uma hora para a outra se vê investido de poderes mágicos, acionados sem que ele mesmo possa controlar. A situação se agrava quando os efeitos desse inexplicado fenômeno começam a prejudicá-lo perante as autoridades. Desesperado, tenta o suicídio reiteradamente, mas as mágicas sempre o salvam. Ele então ouve na rua um infeliz homem dizer que "ser funcionário público era suicidar-se aos poucos". A frase que lhe dá "nova esperança de romper em definitivo com a vida" e ele se emprega nuam Secretaria de Estado.

O sarcasmo machadiano de Rubião volta-se também contra a burocracia, como desmonstram os contos O edifício (que conta a história da construção de um prédio que já não tem razão de ser e ainda assim nunca se acaba) e A fila (sobre as desventuras de Pererico, que passa longuíssimo tempo numa cidade estranha, aguardando numa fila na vã esperança de falar com o gerente da Companhia).

Essas narrativas são curtas e precisas, fruto de muito trabalho do autor, conhecido pelo perfeccionismo como que reescrevia cada texto. Em pocuo mais de 70 anos de vida, Rubião publicou apenas sete livros. A boa notícia é que, com O pirotécnico Zacarias, A casa do girassol vermelho e O homem do boné cinzento (as outras duas seletas editadas pela Companhia das Letras) - toda a produção do autor está agora disponível no mercado.

P.S. Sobre Rubião, aliás, o amigo Miguel Conde escreveu bela resenha/matéria em edição do Prosa & Verso no ano passado...

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itauCultural.jpgAnotem em suas agendas: nos próximos dias 16, 17, 23 e 24, o projeto Itaú Cultural realizará pela primeira vez eventos no Rio de Janeiro. Os colóquios Rumos Jornalismo Cultural e Rumos Literatura acontecerão no Centro Cultural da Justiça Federal, com palestras sempre das 18h às 21h45 e entrada gratuita, e reunirão escritores, jornalistas e professores de literatura de todo o país. Peter Burke, Humberto Werneck, João Cezar de Castro Rocha, Ruy Castro, Alberto Mussa, Lourival Hollanda e Silviano Santiago são alguns dos nomes confirmados. Participarei do painel A importância da crítica na ficção contemporânea, ao lado da querida Beatriz Resende e de Flávio Carneiro, no último dia do colóquio. Confira, abaixo, a programação completa:

Rumos Jornalismo Cultural

Dia 16
18h: Jornalismo Literário: Como os artifícios da literatura podem ser empregados no jornalismo? Ainda há espaço na mídia para as grandes reportagens? Uma discussão sobre os limites entre literatura e jornalismo. Com Humberto Werneck e Ruy Castro. Mediação de Felipe Pena

20h: Os conceitos e os valores da cultura contemporânea: O que caracteriza uma mudança de Era? Quais parâmetros foram utilizados para determinar a Era Moderna e, posteriormente, a Contemporânea? Com Peter Burke e João Cezar de Castro Rocha. Mediação Felipe Lindoso

Dia 17
18h: Cibercultura e jornalismo cultural: As novas possibilidades de expansão da informação pela web. A credibilidade dos textos publicados online também estará em debate. Além do acesso restrito (ou não) ao universo virtual. Com Juremir Machado da Silva, Mario Lima Cavalcanti e Beatriz Ribas. Mediação de Guilherme Kujawski

20h: A cultura na imprensa:Como conciliar o espaço para a crítica de arte nos meios de comunicação à intensa produção artística contemporânea? Qual são os critérios utilizados pelos editores e repórteres de cultura ao optar pela publicação de determinada matéria? Como a academia analisa a cobertura cultural? Com Mário Marques, Mauro Ventura e Gustavo de Castro. Mediação: Claudiney Ferreira

Rumos Literatura

Dia 23
18h: A crítica literária como criação artística. O limite entre a reflexão literária e a produção de uma nova obra. Ao fazer a releitura de determinada obra o crítico-escritor ou escritor-crítico não acaba fazendo uma nova criação. Como um obra aparentemente ficcional pode se revelar em ensaio literário. Com Antonio Fernando Borges, Alberto Mussa e Lourival Holanda. Mediação de Renato Cordeiro Gomes

20h: Os valores da literatura e a contemporaniedade: Três importantes nomes da crítica e da literatura contemporânea discutem o papel e a relevância do universo literário na sociedade. A forte interferência da tentativa de captar uma realidade na literatura também estará em debate. Com Silviano Santiago, Vera Lucia Follain de Figueiredo, Miguel Sanches Neto. Mediação de Maria Esther Maciel.

Dia 24
18h: Importância da crítica na ficção contemporânea: A relação entre críticos e escritores: como uma boa crítica reflete na obra do autor. Uma análise da crítica literária produzida nos jornais, na academia e pelos próprios escritores. Com Beatriz Resende, Flávio Carneiro e Marcelo Moutinho. Mediação de Paula Barcellos

20h: Cânones da Literatura Brasileira: Até que ponto a instituição do cânone não inibe novas reflexões acadêmicas? Qual a importância do cânone na produção da crítica e da literatura contemporânea? Com Alcides Cardoso dos Santos, Moacyr Scliar e Leda Tenório da Motta. Mediação de Marco Lucchesi

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