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Texto de Lilian Hellman
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Sobre escritores e seus túmulos Escrito em 10 de março de 2010
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Retomando seu blog em altíssimo estilo, Paulo Roberto Pires publicou hoje um delicioso texto sobre os escritores e seus túmulos. O gancho é o recém-lançado Tumbas, de Cees Nooteboom, um passeio pelos túmulos de poetas, prosadores e filósofos de todo o planeta. Assim como Nooteboom, Paulo tem um confessado fascínio pelo assunto - ele diz que já chegou a desviar roteiro de férias para visitar cemitérios. Segue um trecho do texto. Leia a íntegra aqui.

"Uma mulher e dois homens, os três estrangeiros e comunicando-se mal em português, chegam à administração do São João Batista, o gigantesco cemitério incrustado no meio de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Procuram o túmulo de um certo Machado de Assis.

Só tendo o primeiro nome – informa o prestativo funcionário.

Mas o senhor não conhece o grande escritor? Não é fácil saber onde está?– arrisca o mais fluente.

Só pelo primeiro nome. Tem muita gente que se chama assim, nosso registro é baseado nos primeiros nomes – diz ele, revirando os livros de registro manuscritos

A mulher, fotógrafa, vê a possibilidade de um bom flagrante. Mas no primeiro clique, é repreendida pelo funcionário:

- Aqui não pode tirar foto não senhora. E também não pode tirar foto no cemitério.

É mais ou menos assim – dei à tradução uma “cor local” não difícil de imaginar – que começa “Tumbas”, fascinante viagem de Cees Nooteboom e sua mulher, Simone Sassen, pelos túmulos de escritores e filósofos em todo o mundo (...)"

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Dois lançamentos e uma exposição Escrito em 10 de março de 2010
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Dois lançamentos literários movimentam hoje a cidade. Na Da Conde do Leblon, a partir das 19h, o amigo Fernando Molica apresenta mais um volume da coleção Jornalismo Investigativo: o livro 11 gols de placa. A seleta, organizada por ele e editada em parceria pela Record e pela Abraji, reúne grandes reportagens sobre futebol, publicadas originalmente em veículos como O Globo, Foha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Zero Hora, O Dia, Veja e Placar. Onze bambas da escrita, entre eles João Máximo, Marceu Vieira, Juca Kfouri e Mário Magalhães, assinam os textos e comentam, em relatos feitos hoje, os bastidores da apuração. A Da Conde fica na Rua Conde de Bernadotte, 26.

Já na Travessa de Ipanema, também às 19h, Sérgio Rodrigues lançará seu Sobrescritos - 40 histórias de escritores, excretores e outros insensatos. Publicado pela Arquipélago editorial, o livro é um compêndio com os melhores contos veiculados por Sérgio em seu referencial site Todo Prosa, e que têm como tema o mundo literário. Nos textos, aparecem personagens como Lúcio Nareba, "lenda da blogosfera nacional", e Demóstenes Bastião, aquele que só escrevia em preto-e-branco. A Travessa de Ipanema fica na Rua Visconde de Pirajá, 572.

Além dos dois lançamentos, será hoje a abertura a exposição Pedras portuguesas. Subúrbio, do fotógrafo Bruno Veiga. Sem expor na cidade há cinco anos, ele apresenta 24 trabalhos. São oito fotografias em grandes formatos, nas quais explora de forma o grafismo das calçadas da orla carioca, sobretudo as concebidas por Burle Marx para a Avenida Atlântica. Completam a mostra 16 registros de detalhes de fachadas e da decoração de casas da Zona Norte do Rio, como a imagem acima, além de cenas que enfocam costumes dos bairros da região. O material foi coletado ao longo de oito anos, a partir de 2001, quando Bruno ganhou uma bolsa da Rio Arte para retratar o estilo de vida de artistas como Noca da Portela, Nei Lopes, Tia Maria do Jongo, Jair do Cavaquinho, Wilson das Neves e Tia Eulália, entre outros. A exposição fica em cartaz até o dia 23 de abril, na Galeria da Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 431, Loja A, Gávea).

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Lapinha Escrito em 09 de março de 2010
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Ressuscitando um tipo de casa noturna que parece em extinção, os amigos Hugo Sukman e Luís Pimenta inauguram, amanhã, o piano-bar Lapinha. O nome é uma referência carinhosa ao bairro onde se localiza (esquina da Rua Mem de Sá com a Rua do Lavradio) e, principalmente, à cantora lírica e atriz Joaquina Maria da Conceição Lapa, brasileira que fez muito sucesso em Lisboa no final do século XVIII, e ficou conhecida como Lapinha. É ela quem aparece na logomarca da casa, assinada pelo artista gráfico Mello Menezes.

Rui Quaresma, também sócio da casa, explica como Mello desenhou a logomarca: “Na ausência de registros iconográficos, o artista acendeu uma vela, tomou um gole de marafu e, em profundo transe, aguardou o contato de Lapinha. Mas, segundo ele, por um problema de conexão, ‘baixou’ a Anastácia. Ele agradeceu a deferência e, trocando de frequência, conseguiu uma conexão visual, mesmo que em preto e branco, da grandiosa diva Joaquina Maria da Conceição Lapa, nossa Lapinha pioneira. E psicografando o mestre Rugendas, traçou a imagem daquela que dá nome ao nosso piano-bar, também pioneiro, na Lapa”.

O show de estreia vai promover um encontro entre a Zona Sul e a Zona Norte, personificadas nos cantores Leny Andrade e Nei Lopes. A ideia dos sócios é justamente abrir espaço para a chamada "canção". "Queremos mostrar grandes nomes da música nacional como o público nunca viu, num ambiente íntimo, despojado e aberto à criação”, resume Teresa Quaresma, a produtora do Lapinha.

A programação do piano-bar, que inclui shows solo de Leny e apresentações de Carlos Malta com o Pife Muderno, pode ser conferida aqui.

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Singing in the rain Escrito em 08 de março de 2010
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Este vídeo, que conheci por intermédio da amiga Tatiana Salem Levy, é um retrato da alegria e da graça desta cidade. Mesmo sob temporal.

Baixo Gávea Debaixo D'água from Mellin Videos on Vimeo.

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Uma lágrima por Johnny Alf Escrito em 05 de março de 2010
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Sobretudo quando se trata de música, nossas afinidades eletivas não se esgotam no senso estético, na mera avaliação crítica. A memória afetiva tem razões estranhas, desviadas, singulares (sempre). Assim, ao lamentar aqui a morte do grande Johnny Alf, não vou me deter no seu talento, na capacidade de inovar, na importância para a música brasileira – tópicos que serão, merecidamente, destacados em todos os epitáfios.

Minha homenagem se dá a partir de lembranças pessoais. Da primeira vez em que ouvi o nome de Alf: eu era bem garoto e meu pai, que sempre organizava serestas em nossa casa de Madureira, pediu que cantassem Eu e a brisa. Ele então se virou para mim e comentou: “Filho, essa música foi eliminada na primeira fase de um festival. Você acredita?”.

Foi curioso, porque isso me fez prestar uma atenção especial naquela canção. Parecia diferente das que costumavam fazer parte do repertório das festas do pai, destoava dos boleros, dos sucessos de Nelson Gonçalves e Altemar Dutra que em geral dominavam as reuniões musicais.

Já adulto, comprei o CD Cult Alf, e conheci um pouco melhor a obra do artista. Mas foi na casa de meu amigo Rodrigo Zaidan, maestro e pianista, que me aproximei definitivamente de Alf. Rodrigo era meu vizinho na Urca, e costumávamos promover pequenos saraus na casa dele, chamando músicos conhecidos nossos para beber, tocar e cantar. Ontem, ao saber da morte de Alf, deu uma baita saudade dessa época. Um tempo de risos largos, parcerias, de conversas na varanda defronte à vista-poesia dos barcos da Urca. Meu reencontro comigo mesmo, depois de uma temporada de vazios.

Às vezes, eu comprava uma caixa de cerveja, descia da Av. São Sebastião (onde morava) para a Av. João Luís Alves (onde fica a casa do Rodrigo) e passávamos horas e horas escutando discos, bebendo, papeando. Foi numa dessas ocasiões que ele me mostrou o CD Olhos negros. Era uma cópia velhinha, cujo encarte trazia marcas de liquid paper (soube, depois, que cobriam a dedicatória de uma ex-namorada do Rodrigo).

Olhos negros, uma seleta em que as canções de Alf ganharam interpretações de Gal Costa, Zizi Possi, Emilio Santiago, Leny Andrade, Caetano Veloso e muitos outros, virou imediatamente meu "disco de cabeceira". Eu e Rodrigo sempre voltávamos a ele, comentando as expressões inusuais que Alf usava nas letras ("me apraz essa ilusão à toa", "ah, o evento do amor"...), a sofisticação harmônica, a beleza noturna daquelas músicas. Como estava fora de catálogo, Rodrigo reproduziu o disco para mim, mas acabei dando essa cópia para alguém que não a merecia. Vida que segue.

No ano passado, reencontrei o CD, que voltou às lojas, e - claro - comprei-o. Ontem, retirei do armário e, desde a manhã de hoje, é Olhos negros que está tocando: em casa, no carro, no computador em que digito essas palavras, com as janelas do peito escancaradas. Um saudação àquelas noites na Urca; uma lágrima por Johnny Alf.

O depoimento de João Carlos Rodrigues

Logo que li a notícia do falecimento, enviei um email ao jornalista e escritor João Carlos Rodrigues. Fã de primeira hora, produtor de discos de Alf e agora seu biógrafo, João Carlos certamente está sentindo fundo a morte. Disse-lhe, na mensagem, que o espaço estava aberto aqui no Pentimento, caso quisesse homenagear o compositor. E ele nos deu, mais do que uma simples declaração, um lindo depoimento sobre o artista que acabamos de perder. Com a palavra, João Carlos Rodrigues:

“Ele foi grande. E um inovador, pai de uma das correntes principais da bossa nova, o samba jazz (a outra é o samba zen do João Gilberto). Cantava como ninguém e teve como influenciados gente importante como Leni Andrade, Simonal, Ellis, Emílio Santiago, quem sabe lá até Elza Soares. Pro meu gosto era melhor que todos eles. E como pessoa era uma jóia, educado, delicado, intelectualizado, nunca reclamou de nada, e olhe que não teve muita sorte na vida. Adorava o cinema de Antonioni, Tarkovsy mas também Gene Kelly e Vincente Minnelli.

Eu produzi dois discos dele ("Cult Alf" e "Eu e a bossa" e também dois vídeos) e posso falar. O primeiro eu tento relançar há dois anos e nenhuma gravadora quis, nem a Biscoito Fino, nem a Trama, sem falar nas majors. Estou também escrevendo a biografia dele para a coleção Aplauso, tarefa nada fácil, pois não guardou uma foto, um documento, nada, era inteiramente só.

A perda do amigo não vai me afastar dessa empreitada, vai ser a minha última homenagem. Se alguém puder ajudar com alguma informação ou foto ou documento do período da sua juventude (anos 50 até 70) seria de grande ajuda. Ou da misteriosa fase de Ribeirão Preto nos anos 70/80. Ele merece qualquer sacrifício. Séculos atrás eu conheci o João Gilberto em Nova York e, conversa vai, conversa vem, um dia perguntei sobre o Alf (para os íntimos era Alf, para os outros, era Johnny). O João deu aquela pausa, coçou a cabeça e depois falou: "Johnny era tudo". Não há como não concordar. Foi com ele que começou a renovação, lá em 1951, 52. Mais cedo ou mais tarde o Brasil vai ter seu reencontro com esse grande músico.

Ficou o projeto de um disco de estúdio, "Avatar", onde entre músicas inéditas, haveria gravação de "Tudo que aprendi do amor" da Fátima Guedes (nessa ele dava show) e da velha seresta "Noite cheia de estrelas", que ele cantava divinamente transformando o belcanto do Vicente Celestino numa suavidade só, e dissonante, e para terminar "Quando eu me chamar saudade" do Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, aquela que diz "sei que amanhã quando eu morrer os meus amigos vão dizer que eu tinha bom coração/ alguns até hão de chorar e querer me homenagear fazendo de ouro um violão/ mas depois que o tempo passar/ sei que ninguém, vai se lembrar que eu fui embora/ porisso é que eu canto assim/ se alguém quiser fazer por mim, que faça agora". Sic transit gloria mundi. Me desculpem que agora vou dar uma chorada. E a vida continua, um pouco mais pobre".

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Brasil, futebol, livros e risos Escrito em 04 de março de 2010
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Flávio Carneiro, eu e Roberto Porto, na divertida mesa de abertura do ciclo Brasil, futebol e livros, no CCBB. No dia 16, tem mais: Mário Magalhães, autor de Viagem ao país do futebol, e Ivan Soter, de Quando a bola era redonda, serão os convidados.

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Tejo Escrito em 03 de março de 2010
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Ao visitar o blog do Almir de Freitas, deparei-me com essa beleza de vídeo, feito pelo Abilio Vieira. As imagens são da ciclovia à beira do rio Tejo, que ganhou em seu piso os célebres versos de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa). E diante delas, ainda que na tela, já começo a sentir os ares de Portugal.

O Tejo from Abilio Vieira on Vimeo.

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Brasil, futebol e livros Escrito em 02 de março de 2010
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Hoje, às 18h30, será dado o pontapé inicial (com trocadilho) da série Brasil, futebol e livros, que será promovida pelo CCBB até o dia 8 de junho. Como explica o curador do evento, Edison Vianna, o objetivo é, através de debates quinzenais, "conhecer, redescobrir e celebrar grandes escritores brasileiros que informam, documentam, fantasiam, divertem e emocionam mostrando como as palavras da bola podem nos proporcionar prazer similar ao do espetáculo em campo".

A mesa de estreia reunirá o escritor Flávio Carneiro, autor de Passe de letra, e o jornalista Roberto Porto, que tem vasta bibliografia sobre o velho ludopédio, mais especificamente sobre o Botafogo, time de seu coração. Nesse primeiro encontro, que terei a honra de mediar, Flávio contará ao público como a beleza do futebol pôde ser associada aos acontecimentos cotidianos, inspirando uma série de crônicas em que o jogo se mistura à vida. Porto, por sua vez, falará sobre o alvinegro, clube que simbolizou a arte de uma época de ouro do futebol brasileiro.

Nas próximas semanas, o ciclo contará com as participações de Ivan Soter, Mario Magalhães, Teixeira Heizer, Cláudio Nogueira, Marcos Eduardo Neves, Ruy Castro, Roberto Assaf, Clóvis Martins, Roberto Sander, Antonio Carlos Napoleão, Ronaldo Helal, Rubim Aquino, Paulo Guilherme e André Iki Siqueira. Vale lembrar que a entrada é franca, com senhas distribuídas uma hora antes dos debates.

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Literatura e estereótipos Escrito em 01 de março de 2010
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A querida Adriana Lisboa me enviou ontem o link para um vídeo no qual a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (foto) dá um magnífico depoimento. A fala Chimamanda é um verdadeiro tratado sobre literatura e estereótipos, e sobre como é perigoso repetir sempre uma mesma história, a ponto de acabar acreditando nela. Vale muito a pena assistir. Aqui.

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Elizeth na tarde chuvosa Escrito em 01 de março de 2010
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'Canções' na Carta Capital Escrito em 01 de março de 2010
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A coluna Cariocas (quase sempre), que Carlos Leonam e Ana Maria Badaró mantêm na revista Carta Capital, publicou na edição desta semana um texto bacana sobre o livro Canções do Rio. Segue a íntegra.

"A bela cantada"

Carlos Leonam e Ana Maria Badaró

"O Rio é uma das cidades mais cantadas do planeta. Talvez, perca somente para Paris. O misticismo da capital francesa também fez sucumbir compositores brasileiros, mas não sem clara ironia: – "Paris, Paris je t’aime/, mas eu gosto mais do Leme". A rima impagável é do carioca Alberto Ribeiro e do mineiro Alcir Pires Vermelho.

Essa é uma das curiosidades de Canções do Rio (Casa da Palavra, 134 págs., R$ 37), livro coordenado pelo jornalista e escritor Marcelo Moutinho. A obra oferece cinco verdadeiras aulas de geo-política musical carioca. A leitura é tão prazerosa como ligar uma vitrola e, com um vinil caindo sobre o outro, deixar tocar o que há de melhor. Em hi-fi.

A história da moderna música brasileira começa no início do século XX. Até então, fazia-se música no Rio, mas não sobre o Rio, seus bairros, morros, favelas, praias e sua gente. Como inspiradora, a cidade encontra registros nos primórdios dos anos 1900, seguida da chamada "era de ouro", das marchinhas, samba, bossa nova, pop, funk e rap.

Herivelto Martins, Benedito Lacerda, João de Barro, Paulo da Portela, Tom Jobim, Moacyr Luz, Paulo Cesar Pinheiro, Chico Buarque, Tim Maia, Claudinho e Buchecha e Marcelo D2 são, em diferentes tempos e gêneros, alguns dos trovadores das belezas e mazelas da cidade. Ordenados cronologicamente, os ensaios são de João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Suckman e Silvio Essinger.

Ao fim da leitura de cada módulo é difícil desligar a vitrola na nossa cabeça. E passamos o dia, senão vários dias, sob o domínio de canções que viraram instituições nacionais e internacionais. E descobre-se que André Filho tomou emprestado do poeta maranhense Coelho Neto a expressão "cidade maravilhosa" para compor aquela que de tanto ser a cara do Rio foi eleita seu hino oficial.

Mas, dentre tantas, que música tem a cara do Rio? Por mais referências à cidade nas obras que entraram para a história da MPB cada um pode fazer a sua listinha interminável. Como os perfumes e os sabores, a música reconstrói lugares, devolve momentos e ressuscita pessoas, principalmente se morreram – de uma forma ou de outra. Tem gente que adora dizer "fulano morreu para mim." Pois sim. Está vivinho só que não dá a menor bola para quem anuncia o defunto.

Esses solavancos n’alma causados pela música ocorrem quase sempre à revelia. A pessoa não tem querer. Já entrou num táxi e escutou no rádio uma música que deposita o passado no presente, ali na sua frente? E sobre o asfalto quente da cidade em pleno meio-dia de um verão à 2010 começa uma dança perturbadora. Putz! Desliga isso, motorista. Ou aumenta isso, meu caro, e silêncio, por favor.

Um beijo bom de sol
O tema é a música e a cidade. Pois nenhum grupo cantou tanto o Rio como Os Cariocas chamando pelo nome a musa ou lhe rendendo honras com notas de sol e de mar. Criado em 1946, o grupo, sempre aberto às tendências musicais, foi um dos principais intérpretes da bossa nova e nos anos 60 era certeza de sucesso, gravando Tom, Baden, Carlos Lyra, Menescal e os irmãos Valle, entre outros tops da MPB.

Os Cariocas, liderados pelo talento de Severino Filho, remanescente da formação original, voltam com um novo álbum neste fevereiro mais que solar. Nossa Alma Canta, clara alusão a Samba do Avião, de Tom Jobim, traz 15 faixas clássicas, jamais gravadas pelo hoje quarteto completado por Hernane Castro, Neil Teixeira e Elói Vicente. Destaque para E nada Mais, do saudoso Durval Ferreira e Lula Freire, e Estrada do Sol, de Tom e Dolores Duran. Neste CD, Os Cariocas ainda sacramentaram as visitas de João Donato, Milton Nascimento, Eumir Deodato e Roberto Menescal. "

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Mafalda imperiana Escrito em 26 de fevereiro de 2010
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# Pinceladas Escrito em 25 de fevereiro de 2010
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Renato Russo: homenageado em coletânea de contos

. Está confirmado: será no dia 27 de março - data em que Renato Russo completaria 50 anos de idade -, no Cinematheke, o lançamento de Como se não houvesse amanhã. Organizado pelo amigo Henrique Rodrigues e publicado pela Editora Record, o livro reúne 20 contos inspirados nas canções da Legião Urbana. Sou um dos autores. Escrevi sobre Vento no litoral;

. Na próxima terça-feira, terá início no CCBB o ciclo Brasil, futebol e livros. A série, produzida pelo radialista Edison Vianna, acontecerá quinzenalmente, sempre às terças-feiras, no horário de 18h30, e irá até o mês de junho. Vou mediar algumas das mesas, inclusive a da estreia, que reunirá o escritor Flávio Carneiro, autor de Passe de letra, e o jornalista Roberto Porto (de Botafogo: 101 anos de histórias, mitos e superstições e Botafogo: o Glorioso), num painel de tom alvinegro;

. Entre as leituras recentes, uma decepção e bela surpresa. Até mais, vejo você amanhã, do ex-editor da New Yorker William Maxwell, parecia promissor, mas é arrastado toda vida. Já Um homem chamado Maria, perfil de Antonio Maria escrito pelo Joaquim Ferreira dos Santos, me encantou. Grande personagem, delícia de livro;

. Por falar em literatura, em abril vou para Lisboa me isolar um pouco e tentar terminar meu novo livro. Que, apesar das saudades da Flá e da Mafalda, os ares da Terrinha sejam inspiradores...

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Samba-jazz Escrito em 23 de fevereiro de 2010
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João Donato: atração do primeiro show do ciclo no CCBB

Começa hoje, no CCBB, o ciclo Almanaque do Samba-Jazz. Produzida pelo amigo Edison Vianna, a série será composta de seis shows que promoverão encontros entre os protagonistas desse subgênero do samba e artistas que o renovam nos anos 2000. Os espetáculos acontecerão sempre dois horários - às 12h30 e às 19h - com ingressos a preços populares (R$ 6).

Edison afirma que, com a série, "espera tenta compensar - ao menos em parte - o esquecimento do samba-jazz na memória da música brasileira e a atual indisponibilidade dos fonogramas gravados por estes músicos na década de 1960, a maioria fora de catálogo, o que torna difícil o acesso e acaba dando a falsa impressão que este som é elitista”. Ele acrescenta que o ciclo se chama "Almanaque" porque observa o passado mas, diferentemente de uma peça de museu ou uma página de enciclopédia, "apresenta a arte de um modo informal, leve e tão divertido como é ouvir esta música"."Quero mostrar que o som do samba-jazz é vivo e atual, e que seu lugar é o presente”, resume.


Raul de Souza se apresentará na segunda semana da série

O convidado da estreia, hoje, é João Donato, que será recebido pelos Copa 5 – conjunto que acompanhava o saxofonista J. T. Meirelles, um dos pioneiros do gênero, falecido em 2008 e homenageado neste primeiro encontro. Na segunda semana, o quinteto de Hamleto Stamato receberá o trombonista Raul de Souza. Henrique Band apresentará o terceiro show com seu hepteto e a participação especial de Antonio Adolfo. Na quarta semana, Paulo Moura subirá ao palco acompanhado do trio liderado pelo jovem pianista David Feldman.

O penúltimo encontro reunirá o gaitista Mauricio Einhorn e o Sambajazz Trio, formado por Kiko Continentino ao piano, Luiz Alves ao contrabaixo e Clauton “Neguinho” Sales em combinação de trompete e bateria. E o espetáculo de encerramento será conduzido pela Almanaque Samba-Jazz Band, criada especialmente para o projeto, tendo o saxofonista argentino Hector Costita como convidado especial do quarteto formado pelo pianista Rafael Vernet, o contrabaixista Guto Wirtti, o baterista Rafael Barata e Eduardo Neves nos sopros.

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Na seção Logo Escrito em 22 de fevereiro de 2010
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A seção Logo, do jornal O Globo, publicou ontem artigo meu sobre o elogiado "modelo Paulo Barros" (na mesma página, o amigo João Pimentel discordava de alguns pontos) Segue a íntegra do meu texto:

Carnaval from Broadway, bicho!

Marcelo Moutinho*

Peço licença para devagar, devagarinho, destoar do coro dos contentes. Não vou entrar em matéria de mérito – até porque faz muito tempo não existe relação direta entre merecimento e resultado quando se trata de julgamento de carnaval. Quero apenas levantar a questão: o que havia, no desfile vitorioso em 2010, da tradicional escola de samba surgida em 1931 no Morro do Borel? Pouco, quase nada. Havia, sim, teatro. Pirotecnia. Efeitos especiais. Sub-Broadway.

Nada contra a Unidos da Tijuca, digna de todo o respeito, pela trajetória e pela representatividade no carnaval do Rio de Janeiro. Mas quando cada componente - de carro e de chão - passa a ter uma "função" rigorosa dentro do desfile, deixa de ser folião. E então nos distanciamos do conceito de escola de samba historicamente construído, que dá lugar a um “espetáculo" no qual, assim como numa ópera, ou numa peça, os atores desempenham papel rígido. Pode ser genial, mas está longe de caracterizar a essência da festa de Momo.

O uso de teatralização no desfile, que não repudio em si, é expediente utilizado pelas escolas há muitas décadas. Mas os excessos trazidos pelo modelo Paulo Barros transformam em central o que era - e deveria continuar sendo - periférico. E levam ao paroxismo um caminho que infelizmente parece inevitável: a mudança no eixo medular dos grêmios recreativos.

Sim, porque, na concepção consagrada pela História, as escolas de samba trabalhavam durante todo o ano para mostrar, na Avenida, um pouco do saber nascido e cultivado entre os seus. Para reafirmar, no desfile, as suas singularidades - ainda que se apropriando de influências externas, e sintetizando-as. Esse diálogo entre os núcleos das agremiações e a cultura “de fora” se revelou extremamente rico até que as escolas começassem progressivamente a cair de joelhos diante do poder do carnavalesco. A se tornar reféns de um olhar de fora, em geral acadêmico, sempre dominante. Em resumo, o vínculo se desequilibrou.

Como a Unidos da Tijuca deixou patente, uma escola comandada por Paulo Barros mostra a arte de Paulo Barros. Hoje a Tijuca, amanhã uma outra, sempre a arte de Paulo Barros. Os gritos da torcida durante a apuração foram emblemáticos: aludiam ao carnavalesco, não à escola campeã. Não lhe nego talento, a imensa criatividade. Mas seu modelo simboliza com limpidez a perigosa prevalência do teatral sobre o momesco, do visual sobre os demais quesitos. Não à-toa, os últimos sambas-enredo que efetivamente colaram na memória popular datam do início dos anos 1990.

Na verdade, a desproporcionalidade de critérios entre as notas dos itens, digamos, “sambísticos” (bateria, samba-enredo, harmonia, evolução) e as dos quesitos plásticos, como fantasia e alegorias, vem suscitando uma mudança na forma de se olhar o desfile. Como observou o jornalista Sidney Rezende, “o carnaval virou uma pasta geral e não uma festa de detalhes. Quem está na arquibancada valoriza o carro alegórico, as musas e o casal de mestre-sala e porta-bandeira, pois são as poucas possibilidades para o olhar mais distante. Fisicamente dizendo. O resto é plano geral”.

Esse processo se agrava com a débil transmissão pela TV, que repisa o favorecimento ao visual, privilegia as celebridades em detrimento das personagens das próprias escolas e é incapaz de contextualizar o desfile na perspectiva da ‘biografia’ de cada agremiação. Grandes referências, como Vilma, da Portela, ou Seu Molequinho, do Império Serrano, e mesmo talentos mais recentes, como Mestre Marcone, da Imperatriz Leopoldinense, se vêem diluídos num mar de gente, do qual as câmeras pescam apenas as modelos que vestem a camisa da escola uma vez ao ano e falam de sua "emoção", as rainhas de bateria que compram seus postos, ou os carros alegóricos, cada vez maiores.

Um dos motes dos defensores do novo modelo é a crítica a uma suposta repetição. Talvez por isso o aparecimento de personagens como Batman, Homem-Aranha, Michael Jackson - embora a rigor às vezes nem aludam ao enredo - tenha tanto apelo. Aliás, a roupagem pop de Paulo Barros é puro bálsamo para os pós-modernos sempre ávidos pelo novo, e o novo, e o novo.

Essa ânsia reiterada exulta o descompasso no "mais do mesmo" que os desfiles teriam se tornado, como se fosse necessário apagar todas as marcas de origem que as diferentes escolas consolidaram. No entanto, ao negar a ponte com a tradição, rompe com o que há de mais belo e genuíno no carnaval. A emoção de ouvir o surdo sem resposta da Mangueira ou a cadência da bateria da Beija-Flor, de ver a coroa do Império, a águia da Portela, o vermelho e branco do Salgueiro, de reencontrar o colorido da União da Ilha.

Na década de 70, Candeia já alertava para o fenômeno da descaracterização das escolas de samba. Quando li pela primeira vez suas teses, julguei-as demasiadamente radicais, apocalípticas até. Hoje, percebo que o baluarte portelense foi profético. Ao abrir mão da personalidade que as distingue em prol da onda do momento, ao transformar o componente em mero repetidor de passos ensaiados, ao ceder à ditadura estética, as escolas perigam virar entidades ocas, exuberância sem conteúdo. E a natureza ensina: árvore que não rega as raízes acaba morrendo.

* Escritor e jornalista

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