
Na próxima quarta, o amigo Eduardo Carvalho vai lançar seu primeiro livro. Samba, boemia e vagabundos, que sai pela editora Multifoco, reúne textos que ele publicou nos últimos anos em seu blog - referência para quem gosta de samba e das coisas do Rio. Como afirma Fernando Molica na orelha, "Eduardo Carvalho nos revela detalhes desta paixão, esmiúça o tanto que existe em torno de uma roda de samba: o talento dos músicos e compositores, o respeito pelos que vieram antes, o carinho pelos amigos – eles, com quem dividimos sonhos, tristezas e esperanças. Afinal, como ele mesmo diz, o samba “conforta, ensina, marca, amolece a dureza de tudo”. Samba que nos salva “das pequenezas do nosso dia-a-dia sem arte”.
César Tartaglia acrescenta, no prefácio, que Eduardo Carvalho "é daqueles sujeitos que vivem passando o Rio a limpo". "É obsessivo – no que esta palavra encerra de positivo para descrever a atitude daquelas pessoas que vão até o fim naquilo em que acreditam – na vontade de depurar a cidade de seus males", observa Tartaglia. O lançamento acontecerá na própria sede da Multifoco (Rua Mem de Sá, 126 - Lapa) ,a partir das 19h. E, para que vocês possam sentir um gostinho do que o livro traz, publico a seguir trechos de uma das crônicas.
"Adeus, meu Samba Clube"
Eduardo Carvalho
"Voltemos rapidinho no tempo. Em maio de 1979, João Nogueira fundou, no Méier do seu coração, o Clube do Samba. Como não conseguiu outro lugar, o grande João (“Nascido no subúrbio nos melhores dias / Com votos da família de vida feliz”) instalou o clube em casa mesmo, no número 50 da Rua José Veríssimo. E começava mais um belo capítulo do samba, ligando-o a quintal, bebida, comida, reunião de gente bamba, festa.
Entre os sempre presentes, além dos muitos anônimos que batiam ponto naqueles sábados, estavam sambistas como Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Clara Nunes, Nei Lopes, Aniceto do Império e vários outros. Daí o Clube do Samba virou bloco (que existe até hoje), viu a sede mudar algumas vezes de lugar e acabou indo pra Barra da Tijuca, onde durou até 88.
Isso é pra dizer que eu, que não nasci no subúrbio (nem nos melhores dias), também tive o meu Clube do Samba. E que esta semana me despedi dele, o Renascença – ninguém sabe, mas ele é meu –, dando fim a um período bonito e importante da minha vida pessoal, no que ela tem de ligação visceral com o samba. Pela última vez, fui ao Samba do Trabalhador (...)"
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A edição de fevereiro da revista Bravo! traz artigo (em tom de crônica) que escrevi tendo como gancho o livro do Simas e do Mussa. O texto amalgama as reminiscências de minha infância em Madureira, quando travei os primeiros contatos com sambas-enredo, e as teses do estudo da dupla. Confira aqui.
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O suplemento Ideias (Jornal do Brasil) de sábado passado trouxe em sua capa minha resenha sobre Samba de enredo: história e arte, de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas. Segue a íntegra do texto:
Gênero épico e brasileiro
Livro de Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas ilumina o nascimento do samba de enredo
Marcelo Moutinho*
Durante muito tempo, carnaval no Rio foi sinônimo de samba de enredo. Os mais jovens podem estranhar, mas antes da monocórdica onda do axé music e de as marchinhas ressurgirem com força na esteira dos blocos, os hinos das escolas tocavam massivamente nas rádios, animavam foliões, serviam de trilha-sonora para paixões tão coloridas e fugazes quanto uma serpentina no ar. E batiam recordes: entre os anos 70 e 80, o disco com os sambas costumava superar de 1 milhão de cópias vendidas.
Foi nessa época que o escritor Alberto Mussa e o historiador Luiz Antonio Simas começaram a se interessar mais fortemente pelo tema. Desde então, eles acompanharam disputas nas quadras, assistiram a muitos desfiles e, sobretudo, ouviram sambas. Foram, ao todo, 1.324 hinos, que serviram de base para o recém-lançado Samba de enredo – história e arte.
O livro supre uma lacuna da bibliografia sobre carnaval ao jogar luz na formação e nas modificações estéticas de um modelo que evolui a partir dos chamados sambas de terreiro (ou “de quadra”) e pouco a pouco define sua singularidade. “O samba de enredo é o único gênero épico genuinamente brasileiro - que nasceu e se desenvolveu espontaneamente, sem ter sofrido a mínima influência de qualquer outra modalidade épica, literária ou musical”, observam os autores.
Para definir o gênero, Mussa e Simas baseiam-se em dois critérios. O intrínseco, segundo o qual o samba de enredo é “o poema musicado que alude, discorre ou ilustra o tema alegórico eleito pela escola”. E o extrínseco, que se refere à sua estrutura métrica e melódica. É aí que se estabelece a primeira das polêmicas teses do livro.
Destoando da maioria dos pesquisadores, os autores contestam que “O mundo do samba” (Unidos da Tijuca, 1933) e “Teste ao samba” (Portela, 1939) sejam as composições inaugurais do gênero. Isso porque, embora se enquadrem no critério intrínseco – ou seja, versem sobre o enredo -, têm estrutura musical similar à dos sambas de quadra.
“Antes de o formato se consolidar, houve oscilações. O samba de enredo passou por um processo de formação, para se diferenciar dos sambas de terreiro”, afirmam Mussa e Simas, que classificam “61 anos de República” (Império Serrano, 1951), de Silas de Oliveira, como o marco de uma tipicidade formal: “A partir dele, passa a ser impossível confundir um samba de enredo com qualquer outro gênero de samba”.
“61 anos de República” é um clássico samba-lençol: a letra de Silas “cobre” toda a história a ser narrada no desfile. Esse tipo de hino, dominante durante longo período, viria a ceder espaço a composições mais curtas nos anos 70, quando se inicia o processo de aceleração. Os enredos, então, se diversificam, deixando de privilegiar temas nacionais. Aparecem com mais evidência homenagens a artistas e personagens da literatura, além de assuntos como a política.
Sim, porque a “época de ouro” do samba de enredo se deu quase toda sob o jugo da ditadura, como destacam os autores. E o livro recorda a política de boa vizinhança adotada por algumas escolas, que chegaria ao puxa-saquismo explícito com a Beija Flor e seus enredos laudatórios ao governo. Por outro lado, houve também enfrentamento. Em 1969, carnaval seguinte à decretação do AI-5, o Império desfilou com o provocativo “Heróis da Liberdade” sob vôos rasantes de um avião da Força Aérea.
Curiosamente, embora mais tarde tenham se tornado comuns, as referências à cultura afro-brasileira só figuram a partir da década de 50. Mussa e Simas revelam que o Salgueiro foi precursor ao abordar o assunto e localizam a primeira alusão explícita a um orixá: em 1966, quando Iemanjá foi mencionada no samba da São Clemente.
Um dos méritos dos autores, aliás, é não se limitar aos hinos das “grandes” agremiações. Hinos de escolas como Arrastão, Unidos de Bangu e Canários de Laranjeiras dividem as páginas com sambas de Portela, Mangueira, Império. O que reforça a relevância do estudo como documento histórico - cujo único senão é a falta de um anexo identificando os compositores dos hinos citados, ao menos quando há tal possibilidade.
Na verdade, a questão da autoria é relativizada. “No mundo do samba, o conceito de autoria nunca correspondeu precisamente ao de composição. Há casos em que os parceiros são incorporados ao samba por questões de disputa, por serem membros influentes na comunidade da escola, porque podem financiar”, salientam os autores. Essa perspectiva não impede que dediquem um dos capítulos à biografia de compositores como Mano Décio da Viola, Didi, Djalma Sabiá, Martinho da Vila, Geraldo Babão, Hélio Turco e Dona Ivone Lara.
Mussa e Simas também não se furtam a responder por que os sambas de enredo deixaram de ostentar a popularidade de outrora. Situando no fim dos anos 80 o início do que chamam de “Encruzilhada”, a dupla lista razões para a debilidade das safras recentes: a perda relativa do peso do quesito no julgamento, o tecnicismo paternalista dos jurados e, sobretudo, a rígida padronização estilística, que obedece tão-só à funcionalidade. Embora haja exceções, como os hinos da Imperatriz Leopoldinense, em 1996, ou do Império da Tijuca, em 2006, “por mais belos que sejam, esses sambas não permanecem na memória popular”, lamentam os autores, defendendo a redução do andamento em prol da melodia. “Parece já haver algum movimento neste sentido”, eles ressaltam, na esperança de que os hinos deixem de ficar a reboque do aparato visual e as agremiações possam, assim, vir novamente a justificar seu nome: escola de samba.
* Escritor e jornalista
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Na comovente altivez de Tia Maria do Jongo, um resumo que foi a festa de ontem no Rival. As imagens, feitas pela Flá, falam por si. Vejam aqui.
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No show que o Império Serrano realiza hoje no Teatro Rival, serão distribuídos os calendários acima, que trazem a imagem de João do Rio ao lado de uma das frases mais marcantes do livro A alma encantadora das ruas. O calendário foi idealizado pelo Departamento de Comunicação do Império e desenhado pela Tangerina Design.
Vale lembrar que o show está marcado para 19h30 e contará com as participações especialíssimas de Zé Renato, Moacyr Luz, Carlos Malta, Fabiana Cozza, Zé Luís do Império, Luiza Dionizio e Alex Ribeiro, além do Jongo da Serrinha, da Velha Guarda Show do Império Serrano, da bateria Sinfônia do Samba com sua rainha Quitéria Chegas, dos intérpretes oficiais, do casal de mestre-sala e porta-bandeira e da Ala de Passistas.
Vamos nessa?
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Amanhã é dia de samba em dose dupla. Antes do show do Império Serrano do Rival, vai rolar o lançamento do livro Samba de enredo - história e arte, dos queridos Alberto Mussa e Luiz Antonio Simas. O evento aconterecá às 18h, no Sebo/Café Al Farabi (Rua do Rosário, 30/32) - portanto, o negócio é tomar a primeira cerveja na Rua do Rosário, e depois seguir para o Rival.
Falarei mais sobre a obra da dupla Mussa e Simas - desde já referencial - na resenha que ocupará a capa do caderno Ideias (Jornal do Brasil) no próximo sábado e em artigo com tom de crônica na revista Bravo! deste mês.
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No sábado passado, o jornal O Estado de S. Paulo publicou matéria sobre o Canções do Rio. Segue a íntegra do texto:
"Um retrato cantado e fiel do Rio"
Autores escrevem sobre gêneros que entoaram a cidade em distintas épocas
Lucas Nobile
"Imagine você que um sujeito tem a ideia de contar a história de uma cidade por meio de letras de músicas e, para isso, decide convocar craques para fazê-lo. Foi o que Marcelo Moutinho fez ao convidar verdadeiros "camisas 10" a escreverem sobre o Rio de Janeiro. Para organizar Canções do Rio - A Cidade em Letra e Música (Ed. Casa da Palavra, 136 págs., R$ 37), o jornalista pediu que João Máximo, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Ruy Castro, Hugo Sukman e Silvio Essinger lhe enviassem textos inéditos sobre gêneros que cantaram a ex-capital federal.
Confiando que as músicas que há tempos falaram em seus versos sobre o Rio de Janeiro têm o poder de traçar um retrato histórico fiel da cidade, Moutinho sempre demonstrou preocupação de que seu livro transmitisse isso ao leitor de uma forma muito mais leve do que acadêmica. Objetivo integralmente alcançado. Com um time desse de escritores, a leitura flui de nem ver o tempo passar. "Essa é a diferença da ciência, que cabe ao historiador, para a arte, representada pela música. É o mesmo poder da literatura de construir e refletir a imagem de um local. Até o nome Cidade Maravilhosa surgiu de uma música. Os textos de João do Rio e Lima Barreto eram verdadeiras crônicas da cidade. Não é à toa que Noel Rosa e João do Rio serão homenageados neste ano pela Vila Isabel e pelo Império Serrano", diz Moutinho.
Ao longo do ano passado, cada autor cuidou do estilo musical com o qual tem maior envolvimento. Sendo assim, o livro tem sua abertura transformada em um verdadeiro mergulho histórico, encampado pelo conhecimento do jornalista João Máximo sobre os primórdios da música popular no País seguindo até a Era de Ouro. Assim como se faz em todo o livro, o capítulo inicial serve para apresentar verdades históricas e desbancar uma infinidade de mitos. Em seu texto, o jornalista lembra que, antes de ser cantado, o Rio de Janeiro era homenageado por músicas tocadas sem versos. "A maioria não tinha verso, como o choro Na Glória. Com a letra, o retrato da cidade acabou ficando mais objetivo", conta Marcelo Moutinho. João Máximo cita uma infinidade de canções de compositores declaratórias ao Rio, como Noel Rosa que, ao contrário do que se pensa, cantou muito mais a Penha do que a sua Vila Isabel. Também sobram exemplos saborosos de Geraldo Pereira, Moreira da Silva e Herivelto Martins, abusando do cenário da Praça Onze, e Wilson Batista e Benedito Lacerda, entoando a Lapa.
O mesmo voo panorâmico sobre canções que falaram do Rio se dá com outros gêneros e seus respectivos especialistas. Contando com belíssimo trabalho de produção, com fotos históricas e montagens de capas de discos ilustradas com os nomes dos autores como se eles fossem os artistas, Sérgio Cabral analisa as marchinhas cariocas desde os tempos de Chiquinha Gonzaga com sua Ó Abre Alas, do cordão Rosas de Ouro.
Da mesma maneira, o samba é destrinchado pelo compositor e pesquisador Nei Lopes. A bossa nova é interpretada por Ruy Castro, desvendando pela enésima vez mitos acerca do gênero, como a tremenda balela de que ela teria sido criada por jovens no apartamento de Nara Leão. Um texto com tom de ironia, com trechos como: "Talvez por isso as pessoas vivam querendo saber: "Mas afinal, quando começou a bossa nova?" Ninguém pergunta isso sobre o maxixe, o xaxado ou o chachachá. Da bossa nova, no entanto, exige-se o dia e a hora exatos do seu nascimento, com certidão passada em cartório." A canção moderna é estudada por Hugo Sukman, com direito a uma ponte entre os sentidos da palavra "arrastão": da composição antológica de Vinicius de Moraes e Edu Lobo aos saques nas praias. E, por fim, rock, rap e funk ganham texto de Silvio Essinger, com letras de Fausto Fawcett, Marcelo D2 e MV Bill.
"Não há dúvidas de que o Rio foi a cidade mais cantada do País. Fazer um livro deste sobre São Paulo seria tão rico quanto, mas seria diferente", diz Moutinho."
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Sempre ouço meus amigos da Zona Sul lamentando a nossa cidade partida. Mas são poucos os que saem do "Rio", atravessam o túnel e vão ao "de Janeiro" sorver sua cultura, respirar ares sem maresia. Pois hoje há uma ótima oportunidade. Vai acontecer em Madureira, mais especificamente na quadra do Império Serrano, a Festa do Imperiano de Fé. O evento contará com as participações da bateria de mestre Gilmar e de sua rainha Quitéria Chagas (ambos na foto), das Meninas da Serrinha e de três convidados especiais: Gabriel Cavalcante, Dorina e Alex Ribeiro, que homenageará o pai, Roberto Ribeiro.
Durante a festa, a porta-bandeira Daniele Nascimento, filha da lendária Vilma, receberá o estandarte oficial de 2010, já devidamente benzido na Igreja de São Jorge. E serão tocados hinos de antigos carnavais, como Alô, Taí Carmem Miranda, Bumbum Paticumbum Prugurundum, Heróis da Liberdade e Aquarela Brasileira, além, é claro, do samba de 2010: João das ruas do Rio. Vamos nessa?
P.S. A separação entre os termos "Rio" e "de Janeiro" foi feito pela primeira vez pelo jornalista e editor Paulo Roberto Pires em artigo publicado no jornal O Globo.
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O Segundo Caderno (O Globo) publicou hoje matéria sobre o livro Canções do Rio. O texto, que se segue na íntegra, é assinado pelo jornalista Leonardo Lichote.
"Uma cidade em tensão entre o sonho e o real"
‘Canções do Rio’ reúne ensaios sobre como a música popular retratou a metrópole, suas ruas e personagens
Leonardo Lichote
"Do subúrbio de Noel Rosa (“Não há quem tenha/ Mais saudades lá da Penha/ Do que eu, juro que não”) ao de Marcelo D2 (“Nascido em São Cristóvão, morador de Madureira/ Desde pequeno acostumado a subir ladeira”), da beira-mar de Tom Jobim (“Eu, você, nós dois/ Sozinhos neste bar à meia luz/ E uma grande lua sai do mar/ Parece que esse bar já vai fechar”) à do Paralamas do Sucesso (“As meninas do Leblon não olham mais para mim”), do paraíso de Paulo da Portela (“Como é linda a nossa Guanabara/ Joia rara”) ao purgatório de Fernanda Abreu (“Capital do sangue quente do Brasil/ Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil”). É essa a cartografia traçada em “Canções do Rio — A cidade em letra e música” (Casa da Palavra), que reúne ensaios sobre os olhares que a música popular lançou sobre a cidade ao longo do último século. Retratos de uma musa “bonitinha e má”, como definiram Guinga e Nei Lopes em “No fundo do Rio”.
— O que se percebe pelo livro, acompanhando as canções que tratam do Rio, é a permanente tensão entre a cidade idílica e a real — aponta Marcelo Moutinho, organizador de “Canções do Rio”. — É claro que os problemas, a violência, começam a aparecer com mais força nas últimas décadas. Mas desde o início, várias marchinhas e sambas faziam referências, por exemplo, à falta de luz ou às condições miseráveis das favelas.
Moutinho conta que, mais que falar das canções que comentam o Rio como um todo, interessava a ele as que tinham locais da cidade como cenário:
— Marques Rebelo tem uma frase que diz que “O Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”. Cada pedaço seu retrata um pequeno detalhe de sua vida, um personagem. Essa visão colabora muito para o livro.
“Canções do Rio” apresenta seis ensaios, com recortes diferentes sobre esse cancioneiro. “Dos primórdios à Era do Ouro — A cabocla de Caxangá sob o luar de Paquetá”, de João Máximo, dá conta das primeiras aparições do Rio nos versos da música popular. Sérgio Cabral, em “As marchinhas — Elas contam tudo”, avalia a produção desse gênero carioquíssimo, nascido, explica ele, no Andaraí. Compositor que tira do Rio muito de sua inspiração, Nei Lopes assina o ensaio “O samba — Cidade, quem te fala é um sambista”, no qual usa Freud para falar da relação do samba com a cidade. Em “A bossa nova — Brigas, nunca mais”, Ruy Castro se detém no gênero cujo habitat natural foi o sal, o sol, o sul do Rio. Hugo Sukman, em “A canção moderna — Uma cidade bonitinha e má ou os dois sentidos da palavra arrastão”, analisa os caminhos e descaminhos da cidade cantada desde “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes até o arrastão — assalto coletivo, símbolo da violência carioca hoje. Por fim, “Rock, rap, funk — E o gringo, quem diria, foi parar em Jacarepaguá”, Silvio Essinger fala do Rio retratado nos últimos anos, por vozes da Zona Sul e das periferias.
— É interessante acompanhar essa trajetória da cidade — nota Moutinho. — No texto de João Máximo, sobre os primeiros anos, aparece muito o caráter idílico. Ele ressalta, por exemplo, que muitas das músicas feitas sobre os morros, louvando-os, eram compostas por artistas do asfalto. E é a visão ensolarada que prevalece na bossa nova, apesar de artistas como Carlos Lyra, que já tinham um olhar voltado para a igualdade social, mais crítico. Mesmo assim, são olhares quase inocentes, cheio de dicotomias. O ensaio de Hugo Sukman faz essa ponte do idílio para a cidade violenta. O rock da década de 1980 também faz essa mudança da cidade leve, praieira, hedonista, para a da desigualdade social, de “Alagados”, por exemplo. Já o samba, tratado por Nei Lopes, sempre teve essa dualidade, até por ter nascido perseguido. Como o funk, aliás, que retrata uma cidade que não está contemplada nem pelo samba.
Algumas canções aparecem em mais de um ensaio, recorrentes na reflexão que se faz sobre o Rio cantado — e as mudanças pelas quais ele passou ao longo das décadas. Talvez as duas mais citadas sejam “Saudades da Guanabara” (Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro) e “Rio 40 graus” (Fernanda Abreu, Fausto Fawcett e Laufer).
— “Saudades da Guanabara” é saudosa, mas sem deixar de ser esperançosa. E “Rio 40 graus” é a síntese dessas duas faces da cidade, “purgatório da beleza e do caos”. Está aí a força de ambas — acredita Moutinho. — Fausto Fawcett e Aldir Blanc, em suas obras, falam com frequência dessa cidade que vive em permanente tensão."
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O carnaval se aproxima e o Império Serrano já tocou reunir. Na próxima sexta (dia 29), a partir das 22h, acontecerá na quadra da escola a III Festa do Imperiano de Fé. O evento contará com as participações especiais de Dorina, Gabriel Cavalcante, Alex Ribeiro (filho do saudoso Roberto Ribeiro) e Meninas da Serrinha, além dos intérpretes oficiais do Império, da bateria Estandarte de Ouro e do casal de mestre-sala e porta-bandeira. O ingresso para a festa é a camisa acima, que custa R$ 15.
Já no dia 3 de fevereiro, às 19h30, o Teatro Rival vai sediar o show Vem que o Império te leva.... Zé Renato, Moacyr Luz, Carlos Malta, Fabiana Cozza, Zé Luís do Império, Luiza Dionizio e Alex Ribeiro se apresentarão ao lado do Jongo da Serrinha e da Velha Guarda Show do Império Serrano. A noite que se anuncia memorável contará ainda com ao mestre de cerimônias Jorginho do Império, a bateria Sinfônia do Samba, os intérpretes oficiais, o casal de mestre-sala e porta-bandeira e a Ala de Passistas. Os ingressos já estão à venda.
Vale lembrar que os dois eventos são beneficentes e têm como objetivo ajudar a sustentar, com dinheiro limpo, o carnaval da escola.
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Estou para falar disso há algum tempo: há cerca de dois meses, a querida Monica Ramalho colocou no ar o site Caixinha de Música. No espaço, ela e os demais integrantes da equipe - Lia Baron, Marcelo Pacheco e Val Becker - escrevem sobre as novidades na área musical. "O Caixinha de Música vai muito além da cena musical independente, que aponta, de cara, para o território das novidades. O nosso conceito de 'novo' inclui trabalhos ainda em gestação e álbuns que acabaram de chegar nas prateleiras. Inclui a atitude de renovar o que é visto como antigo, mas ainda nos surpreende, e também uma prosa descompromissada com aquele artista que não está preparando nenhum trabalho pontual, mas que tanto já fez ou faz cotidianamente pela música. Há uma safra novinha em folha de jovens compositores que redesenham a roda e fazem ela girar num ritmo contemporâneo", explica Monica.
Atualmente, a capa do site traz matérias sobre as cantoras Maria Gadu, Ana Cañas, Alessandra Leão e Norah Jones, os cantores Ney Matogrosso e Jessy Harris, a banda Sobrado 112, o disco do Duofel tocando The Beatles, a série do CCBB em tributo aos arranjadores. Com design limpo e elegante, o que facilita a leitura, e ótimos textos, o Caixinha de Música veio para ficar.
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A edição de janeiro da Tribuna do Advogado, jornal que edito para a OAB/RJ, traz uma entrevista que fiz com o jornalista Marcos Rolim, integrante da equipe que redigiu o Programa Nacional de Direitos Humanos. O tema de nossa conversa foi a criação da polêmica Comissão Nacional da Verdade. Como se trata de assunto que transcende o interesse jurídico, reproduzo na íntegra a entrevista, que saiu no jornal em versão reduzida:
'Comissão da Verdade não quer punir, mas recuperar a História'
Marcelo Moutinho
Especialista no tema e integrante da equipe que redigiu o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH) do governo federal, o jornalista Marcos Rolim é incisivo ao defender o documento, lembrando que as propostas são resultado de um processo iniciado ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso e fruto de ampla discussão. Ele se vale da mesma contundência para justificar a criação da controversa Comissão Nacional da Verdade. "O papel da Comissão é recuperar a história a respeito das violações, trabalhar para a abertura completa dos registros oficiais do período e colaborar na busca pelos restos mortais dos desaparecidos. Entendemos que o essencial era o acesso à verdade e que o comprometimento com a ideia da punição não agregava consenso e poderia ser contraproducente", afirma Rolim, que concedeu à TRIBUNA a seguinte entrevista.
Como se deu o trabalho de elaboração do PNDH?
Rolim - O Programa Nacional de Direitos Humanos foi proposto e aprovado durante o primeiro governo Fernando Henrique Cardoso, em 1996. O Brasil foi o segundo país do mundo a ter um programa do tipo (o primeiro foi a Austrália). Seis anos depois, em 2002, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, surgiu o PNDH-II, que procurou agregar novas metas, especialmente na área dos direitos econômicos e sociais, não abordada na primeira versão do texto. O PNDH-III procura atualizar aquelas metas e torná-las mais concretas a partir da definição de responsabilidades. Como as versões anteriores, ele foi precedido de um amplo processo de discussões com a sociedade civil que culminou na 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos, que reuniu mais de 2 mil pessoas, entre delegados e observadores de todo o país. A Conferência aprovou uma resolução com milhares de propostas, processo que, na prática, funcionaram como uma pauta para o governo. De posse deste resultado, era preciso que o governo decidisse quais as propostas que seriam incorporadas ao programa e quais não seriam. Havia também a necessidade de elaborar alternativas para temas sobre os quais não havia um acúmulo significativo. Para isso, a Secretaria Especial de Direitos Humanos contou com a colaboração de três especialistas - Paulo Sérgio Pinheiro, Luiz Alberto Gomes de Souza e eu - para auxiliar no processo de redação do documento.
A criação da Comissão da Verdade tem provocado polêmica. Seus críticos acusam o governo de querer revogar a Lei da Anistia...
Rolim - A acusação é completamente infundada e assinala uma das manifestações mais graves de antijornalismo que já presenciei. A 11ª Conferência de Direitos Humanos havia sugerido a criação de uma "Comissão de Verdade e Justiça". O nome reflete, exatamente, a pretensão dos delegados de investigar e punir os responsáveis pelas violações na época da ditadura. Debatemos o tema e entendemos que o essencial era o acesso à verdade e que o comprometimento com a ideia da punição não agregava consenso e poderia ser contraproducente. Por isso, mudamos a sugestão, propondo a criação de uma "Comissão de Verdade" cujo papel seria o de recuperar a história a respeito das violações, trabalhar para a abertura completa dos registros oficiais do período e colaborar na busca pelos restos mortais dos desaparecidos. Isto significa, em bom jornalismo, que a notícia era exatamente a oposta àquela que foi produzida: com o programa, o governo se afastava da proposta de punir os responsáveis pelas violações da época da ditadura. Não porque se tenha entendido que isto esteja vedado pela Lei da Anistia (que, na verdade, nunca mencionou o crime de tortura), mas por se entender que a proposta não era conveniente. Minha posição neste tema foi muito clara: não vejo sentido na punição dos responsáveis por crimes cometidos há mais de 30 anos, mas considero fundamental que toda a verdade sobre a tortura seja conhecida, inclusive o nome dos torturadores. A cobertura oferecida por grande parte da mídia ao programa é escandalosamente preconceituosa e tendenciosa. Em alguns casos, chegou-se ao ridículo de acusar o governo de tentar implantar no Brasil uma "ditadura comunista". Esta foi a posição, aqui no Rio Grande do Sul, do jornalista Políbio Braga que - ao que consta - não foi internado em um Hospital Psiquiátrico por conta disto; de onde se deduz que não se trata de jornalismo, mas de militância política mesmo e de uma irresponsabilidade a toda prova. O mais interessante, entretanto, é que quase todas as propostas polêmicas do PNDH-III já estavam incluídas, de uma ou outra maneira, nos dois programas anteriores. Mas, então, era o governo FHC e, é claro, não estávamos às portas da "ditadura do proletariado".
Os críticos cusam o governo de querer punir só os que participavam do aparato estatal e lembram que muitos dos que lutaram contra a ditadura também cometeram crimes...
Rolim - Não há como se equiparar as condutas por duas razões: primeiro, a resistência armada às ditaduras é um princípio do direito internacional consagrado há mais de um século; pelo liberalismo, assinale-se, não pelo marxismo. Segundo a doutrina liberal, além de um direito, a resistência às autocracias é um dever do particular já que os atos do poder público não possuem a presunção da legalidade. Na tradição jurídica brasileira não
há dissenso quanto a isto desde, pelo menos, Nelson Hungria (ver a respeito os Comentários ao Código Penal). Em segundo lugar,os militantes que pegaram em armas no Brasil foram, em sua maioria, mortos pela repressão. Entre os sobreviventes, quase todos foram processados e presos, e muitos destes enfrentaram ainda a tortura e/ou o exílio. Os militantes da esquerda armada possuem nome, rosto e endereço conhecidos. Já os torturadores vivem nas sombras e boa parte deles sequer foi identificada até hoje. Muitos foram promovidos em suas carreiras nas polícias e nas FFAA e alguns, como Brilhante Ustra, escrevem livros negando o ocorrido, o que é nova agressão e desrespeito às vítimas e a seus familiares. O conflito que tivemos durante a ditadura não envolveu "partes" com os mesmos direitos e obrigações. De um lado estava o Estado, que optou pela repressão ilegal e que montou aparatos especiais de tortura e execução extrajudicial. De outro, estava uma dúzia de pequenos grupos de esquerda - alguns com algumas dezenas de militantes, quase todos muito jovens - que imaginaram sem possível desencadear uma guerra revolucionária a partir de "focos" nas cidades ou na zona rural. Nem a esquerda, nem os militantes dos direitos humanos reclamam a morte dos que caíram em combate. A reivindicação histórica é saber os responsáveis pela tortura e pelos assassinatos daqueles que foram presos (e que, portanto, como prisioneiros, estavam sob a tutela do Estado). Isto não significa que uma Comissão de Verdade não possa examinar reclamos sobre eventuais violações praticadas por grupos de esquerda. Há, certamente, casos que mereceriam, a meu juízo, uma discussão específica; o que faria bem a todos, especialmente à esquerda.
O senhor diz haver um "pacto de mediocridade" entre políticos e comandantes militares para manter o silêncio oficial. O que é preciso para que os arquivos sejam abertos?
Rolim - É preciso ter coragem, o que, infelizmente, não é uma característica muito comum entre nossos políticos. Observe-se que mesmo o governo Lula tem se caracterizado por tratar a chamada "questão militar" com luvas de pelica. Em sete anos, pouco se avançou neste tema e o governo chegou a recorrer de decisões judiciais que o obrigavam a revelar os registros oficiais sobre o Araguaia. Neste aspecto, Argentina, Uruguai e mesmo o Chile e o Paraguai estão muito à frente do Brasil.
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Estou feliz à beça pela grande festa de ontem, na Rua do Ouvidor. Que contou com canjas especialíssimas de Moacyr Luz, Zé Renato, Áurea Martins, Zé Luis do Império e Moyseis Marques - ao lado de Makley Mattos, Gabriel da Muda e Tiago Prata, eles garantiram uma roda de samba de alta voltagem. Que teve a presença não menos especial de autores do livro, como Sergio Cabral, Ruy Castro, João Máximo, Hugo Sukman e Silvio Essinger. De jornalistas de mão cheia como Álvaro Costa e Silva, Zé Sérgio Rocha, Chico Paula Freitas, Pedro Paulo Malta, Claudia Lamego e Cid Benjamin. Que reuniu escritores como Alberto Mussa, Heloísa Seixas, André Luís Mansur, Henrique Rodrigues, Ramon Mello, Lucia Bettencourt, Francisco Bosco, Celina Portocarrero, Luiz Eduardo Matta, Tatiana Salem Levy, Rosana Caiado, Arnaldo Bloch e Zeh Gustavo. Que levou à aniversariante Livraria Folha Seca, do grande Rodrigo Ferrari, os secretários de Cultura do Rio e de Nova Iguaçu, Jandira Feghalli e Marcus Vinícius Faustini, o pessoal do Império Serrano, o grande Hermínio Bello de Carvalho, minha família e tantos amigos queridos (Edu Goldenberg, Dudu Sarmento, Luiz Antonio Simas, Cássio Loredano, Rô Lobo, Rodrigo Zaidan, Ize Sanz, Eduardo Carvalho, Eugênia Rodrigues, Juli Mariano, Felipe Quintans, Carlinhos Laguna, Leo Boechat, Carlos Alves, Candinha, Luiz Carlos Fraga, Bá, Mariana Pamplona, Dani Name, Mariana Blanc, Edison Vianna, Thaís Salema - represento, nesses nomes, todos os que lá estiveram). E que reuniu também muita gente desconhecida. Gente que ajudou a construir uma tarde singular, como há muito não vivia. É em dias assim que o Rio tira as flechas do peito do seu padroeiro e nos dá a certeza de que pode, sim, se salvar.
Abaixo, a primeira fornada de fotos:
Sukman, Essinger, eu, Sérgio Cabral, Ruy Castro e João Máximo
Alfredinho do Bip Bip e Zé Luis do Império: grandes presenças
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A canja da grande Áurea Martins, em foto de Felipe Quintans
Em outra canja, o dueto de bambas: Moacyr Luz e Zé Renato
Henrique Hoffman, Paulinho Valença e Popeye, os autores do samba
do Império para 2010, estiveram lá. Do Império Serrano, pintaram
ainda Rachel Valença, Carlos Alberto Machado, Paulo Elias e Moisés
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Eu e Essinger, com os MCs Júnior e Leonardo, citados no livro
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A secretária Jandira Feghalli e o tamborim de Zé Sérgio Rocha
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Plano geral da festa na Ouvidor, em foto de Felipe Quintans
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