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Versos para celebrar o gol

Versos para celebrar o gol

Em 1971, ainda inebriado pelo confronto entre Brasil e Itália na final da Copa do Mundo, ocorrido menos de um ano antes, o cineasta Pior Paolo Pasolini escreveu o artigo “Il calcio ‘è’ un linguaggio con i suoi poeti e prosatori”. Publicado originalmente no jornal italiano “Il Giorno”, o texto qualificava o jogo de futebol como um sistema de signos, ou seja, uma “língua”, ainda que não verbal.

Essa língua teria subcódigos, identificados a partir de uma analogia com a clássica ordenação feita pelo próprio Pasolini com relação ao cinema. De um lado, o futebol de prosa; do outro, o futebol de poesia. O primeiro se vincularia à sintaxe, manifesta no jogo coletivo então relacionado aos jogadores europeus. O futebol de poesia, por outro lado, encontraria no escrete brasileiro seu espelho — a gênese estaria na individualidade do drible, no passe inspirado e, sobretudo, na expressão máxima do gol.

“Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética”, anotou Pasolini, ressalvando que se trata de uma caracterização técnica — “Não faço distinção de valor entre a prosa e a poesia” —, que há imbricações entre as categorias, e também gradações: o “prosador poético”, o “prosador realista”, o “poeta realista”, o “poeta maldito”.

As progressivas similaridades entre o futebol latino-americano e europeu talvez tenham nublado a divisão proposta pelo cineasta, que chegou atuar nos anos 1940 como meio-campista no time de Casarsa, cidade natal de sua mãe. O gol, no entanto, continua a ser o tema preferido dos poetas quando o objeto é o futebol. Ao menos no Brasil.

“A esfera desce/ do espaço/ veloz/ ele a apara/ no peito/ e a para/ no ar”, dizem os versos iniciais do poema de Ferreira Gullar, que culminará no “chute que/ num relâmpago/ a dispara/ na direção/ do nosso/ coração”. Gullar também jogou bola quando jovem, chegando a tentar a sorte como centroavante na equipe juvenil do Sampaio Correa.

Para Armando Freitas Filho, o gol é o “sol de um segundo”, que “mata, queima e fura/ o alvo do dia inimigo/ que não consegue nascer/ sair do zero/ da sombra/ da nuvem que cobre/ o centro, o contra-ataque/ do coração contrário/ agônico e calado/ cercado de gritos”. Gritos que se expandem no “gooooooooool” de Carlos Drummond de Andrade, ecoando a onomatopeia “na minha rua nos terraços/ nos bares nas bandeiras nos morteiros”, na “chuva de papeizinhos celebrando/ por conta própria no ar: cada papel,/ riso de dança”.

No poema de Vinicius de Moraes, o gol tem nome: Garrincha. O anjo de pernas tortas se lança, “mais rápido que o próprio pensamento”, num soneto feito de passes e fintas, a ouvir o canto de esperança da multidão, e enfim atendê-lo. “É pura imagem: um G que chuta um O/ Dentro da meta, um 1. É pura dança!”. Como em Drummond, a dança.

João Cabral de Melo Neto — que se distingue na tímida produção poética brasileira sobre futebol, com seis textos a respeito do tema — curiosamente não dedicou nenhum poema ao gol. Aliás, Cabral foi outro que passou pelos gramados. Jogou de volante no América, de Recife, seu time de coração, e integrou a equipe do Santa Cruz, sagrando-se campeão estadual juvenil em 1935.

Embora não tenha evocado o gol, o poeta pernambucano iluminou muitos outros aspectos do futebol. A bola, que se deve “usar com malícia e atenção/ dando aos pés astúcias de mão”, e que o brasileiro, “com aritméticas de circo/ ele a faz ir onde é preciso”. O craque, personificado por Ademir da Guia, a impor com seu jogo “o ritmo do chumbo (e o peso),/ da lesma, da câmera lenta,/ do homem dentro do pesadelo”. E aqui vale lembrar a fama de vagaroso do ex-jogador de Bangu e Palmeiras. Onde alguns viam morosidade, Cabral enxerga um compasso que é também ardil.

Em outro Ademir, sobrenome Menezes, o poeta saúda a “marca recifense” de transitar entre o mangue e o frevo sem tropeço, a ciência de “emergir, punhal, do lento./ secar-se dele, vivo, arisco”, para de súbito arrancar em direção à área do adversário.

Os dois trabalhos menos remotos de Cabral sobre o esporte, datados de 1987, ressoam a nostalgia do futebol de poesia esquadrinhado por Pasolini. “Voltamos ao futebol de ontem?/ Voltou a ser um jogo dos onze/ Voltou a se jogar de pilão?/ Chegou até cá a subversão?”, indagam os versos de “Brasil 4 x Argentina 0”. Em “A múmia”, o poeta encena uma pelada da qual a criatura fantástica toma parte. “Também nunca acendemos vela/ para que ela, com suas trelas// driblasse a defesa contrária/ o juiz, e até as arquibancadas,// e entrasse só no gol do Esporte,/ num ‘gol de chapéu’, com a Morte”. Gol, com João Cabral, só mesmo no campo da imaginação.

Talvez porque ganhar lhe importasse menos que o jogo em si, como sugere em texto dedicado a seu clube, o América de raras conquistas. “O desábito de vencer/ não cria o calo da vitória/ Guarda-a sem mofo: coisa fresca/ pele sensível, núbil, nova/ ácida à língua qual cajá”, diz o poema. A derrota, tão constante e tão íntima, só aumentava a dimensão do assombro em vez por outra experimentar o triunfo — nas palavras de João Cabral, um “salto do sol no Cais da Aurora”.

Poemas citados: “O gol” (Ferreira Gullar); “Gol!” (Armando Freitas Filho); “Copa do Mundo de 70” (Carlos Drummond de Andrade); “O anjo de pernas tortas” (Vinicius de Moraes); “Ademir da Guia”, “A Ademir Menezes”, “Brasil 4 x Argentina 0”, “A múmia” e “O torcedor do América F.C.” (João Cabral de Melo Neto).

 
* Artigo publicado no suplemento Prosa (O Globo)

 


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