E então, quando vem o romance?


Empolgado, o escritor fala sobre seu mais recente livro de contos. Comenta o perfil psicológico das personagens, a atmosfera, a coesão entre as histórias. O interlocutor presta atenção, demonstra interesse, faz um ou outro apontamento. No fim, saca a inevitável pergunta: “E quando vem o romance?”.
A cena é recorrente no cotidiano de um contista. E a curiosidade, compreensível, embora traga a sombra de uma cobrança. O conto seria o ensaio, espécie de estágio, para que o autor ganhasse o lastro necessário à narrativa de mais fôlego. Chegasse, portanto, à “maioridade” literária.
“E então, Alice, quando vem o romance?”, poderíamos indagar a Alice Munro, que há duas semanas ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Em 82 anos de vida, a escritora canadense publicou 14 elogiadas seletas de contos. Romances? Nenhum. Trata-se, claro, de exceção. É a primeira vez desde o nascimento, em 1901, que o Nobel contempla um escritor exclusivamente contista. Mesmo autores do porte de Jorge Luis Borges se viram esnobados pela Academia Sueca.
O privilégio ao formato do romance, tanto por parte de editores quanto dos concursos de literatura, repete-se como regra em quase todo o mundo. Um cenário que soa curioso se recordarmos os prognósticos do fim do século passado, profetizando que os textos curtos seriam o mood dos novos tempos, tão acelerados, compactados, fragmentários.
No Brasil, esse sistema de valores formulado a partir do gênero é particularmente rígido. Em um pódio imaginário, o conto ocuparia o degrau referente ao segundo lugar, pouco acima da crônica e da poesia, ainda mais periféricos.
“Considero um equívoco começar a carreira com livros de contos, ou poesia, ou crônica. Esses gêneros não têm público e os livreiros começam a associar o nome do autor a fracasso de vendas”, afirmou Luciana Villas-Boas há três anos, quando ainda editora da Record, em entrevista à Revista da Cultura.
A declaração apenas explicita, sem eufemismos, o juízo que parece majoritário entre os editores. A desvalorização do conto nada teria a ver qualidade, assumindo viés meramente mercadológico. “É a economia, estúpido”, diria James Carville.
E os concursos, que em tese não deveriam se nortear por critérios de mercado, acabam por refletir esse raciocínio. O Prêmio São Paulo, por exemplo, volta-se somente a romances, embora seu título fale em “literatura” de modo geral. No Jabuti, assim como no Portugal Telecom, os contos foram espremidos em categoria binária, dividindo uma quitinete com as crônicas. Mesmo a Copa de Literatura, disputa mais lúdica, está fechada a narrativas curtas.
O quadro parece simples, sem incômodo ou descompasso. Mas produz efeitos. No afã de se adequar, escritores que prefeririam se dedicar ao conto passam a aventurar-se, ainda que a contragosto, pelas vielas do romance. Em alguns casos, de forma bem sucedida. Por outras vezes, no entanto, isso significa tão-só simular uma costura qualquer entre pequenas histórias, ou inflar portentosas barrigas para alongar a trama que teria muito mais intensidade se desenvolvida em menos páginas.
“O fetiche pelo número de páginas constrange talentos e deforma narrativas”, como observou o crítico e escritor Vinicius Jatobá em artigo no jornal Rascunho. E assim vamos abrindo mão de pavimentar o futuro de uma tradição que deu ao Brasil, entre outros, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Sérgio Sant’Anna, Rubem Fonseca, Antonio Carlos Vianna e Luiz Vilela.
Desconheço a existência de estudo bem fundamentado que sustente a preferência do leitor brasileiro pelo romance. É possível quantificar, porém, o número de livros lançados no país. O total de romances publicados nos últimos anos supera, e muito, o de seletas de contos – ou de crônicas, ou poemas. O que transforma desde já a questão da vendagem, pedra de toque do discurso dominante nas editoras, num dilema de propaganda de biscoito: é fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é fresquinho?
Romancistas adoram repetir que escrever contos é a arte de mais difícil manejo dentro do ofício da literatura. Os contistas respondem que árdua mesmo é a tarefa de criar o fascinante universo de um romance. No fundo, reconhecimento mútuo. E que se estende aos outros gêneros, sem fronteiras qualitativas de antemão.
“O conto é uma síntese viva e ao mesmo tempo uma vida sintetizada, algo como um tremor de água dentro do cristal, a fugacidade numa permanência”, definiu Julio Cortazar, autor da já clássica alegoria da literatura em prosa como luta de boxe. Se o romance vence por pontos, do conto se esperaria o nocaute, ponderou Cortazar. Pois a prevalência quase absoluta do romance limita esse duelo amoroso entre texto e leitor, como se só valesse um tipo de golpe.
É cedo para cravar que a entrega do Nobel a uma contista traduz o primeiro, ainda que tímido, passo na revalorização da narrativa curta. Mas, com os holofotes sobre Alice Munro, voltamos a falar sobre contos. Quem sabe voltamos a lê-los? Não seria pouco.

 
* Artigo publicado na seção Verso, do suplemento Prosa (O Globo)


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